18 agosto 2018

Moçâmedes e as campanhas do sul de Angola, em 1914: Norton de Matos e do Tenente Coronel José Augusto Alves Roçadas


 A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé, céu e ar livre



Foto: chegada à ponte de desembarque de Moçâmedes (Ilustração Portuguesa) do governador Norton de Matos e do Tenente Coronel José Augusto Alves Roçadas no no quadro do destacamento expedicionário português às terras africanas.


Trata-se do primeiro corpo expedicionário português dirigido à fronteira sul do território angolano, que chegou a Moçâmedes a 27 de Setembro de 1914, com uma força militar de cerca de 1600 homens para proteção desses mesmos espaços que durante 16 dias temeram os ataques da marinha alemã em alto mar. 




Em 1911 é reestruturado o corpo militar português a fim de defender os territórios coloniais de Angola e Moçambique cuja preocupação era ainda visível neste inicio de 1914, ainda que Portugal mantivesse uma posição neutral face aos conflitos armados decorrentes na Europa. Na Damaralândia as colónias germânicas eram uma ameaça constante ao espaço colonial português, como comprova a existência de operações ofensivas levadas a cabo pelas tropas coloniais alemãs, aos postos de Naulila, Cuangar, Cuamato, Cuanhama, Humbe e Cafu, nas quais cada frente tentou atacar e tomar de surpresa os postos inimigos adoptando as características da chamada guerra de atrito.e exigiam uma atenção redobrada da parte de Portugal no que toca ao espaço fronteiriço entre Angola e a Namíbia.



Esta foi, pois, a primeira campanha militar portuguesa de presença acentuada em Naulila e Cuangar, planeada a partir de Agosto de 1914.


Referências Bibliográficas:
- Ilustração Portuguesa, nº 469, 1915
- Portugal na Grande Guerra. Lisboa: Empresa Editorial Ática, 1934
- A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa, Angola e Moçambique (1914-1918). Lisboa: Edições Cosmos, 2004
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A fundação de Moçâmedes e a revolução praieira


                                                                                             
            

                                                                               
(excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colónia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »

Origem: http://bvjagm.fgf.org.br/obra/Imprensa/030404-00008.pdf.

            
                                                                                                        


 

17 agosto 2018

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

                                               
                                
 


«Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser esta
belecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.


O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levandoem sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.

PERNAMBUCO E ANGOLA




"Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".


 BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello
 http://www.fgf.org.br/bvjagm



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...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.

A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849.

Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização.
 

Fonte: MELLO, José Antonio Gonçalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956

FONTE






OUTROS TEXTOS  CORRELACIONADOS

Sobre a revolução praieira:


Segundo Joaquim Nabuco em «Um estadista do Império»: 


"O povo pernambucano acreditava que possuia dois inimigos que o impediam de ganhar a vida e desfrutar algum bem estar . Eles eram os portugueses que monopolizavam o comércio das cidades e os senhores de engenho que monopolizam a terra no interior. A guerra dos praieiros era feita contra estes dois elementos, daí o seu carácter social mais do que político."

Sobre a «rebelião praieira» sabe-se que
em 1848 os discursos radicais dos jornais agitaram de tal modo a população contra os portugueses que ali trabalhavam e a violência tomou proporções tais que levou a que pela primeira vez na história de Pernambuco, um grupo de 177 imigrantes tivesse pedido a ajuda da Corôa portuguesa para abandonar o Brasil e fundar uma nova colónia em Moçâmedes, Angola, onde tentaram uma nova vida com suas alfaias agrícolas e os seus engenhos de aguardente de cana. Um ano depois, nova leva de 125 colonos acompanhados das famílias, chegaram a Moçâmedes. 

Ainda sobre Bernardino: Na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. 


A memória destes pioneiros encontra-se ainda hoje representada nas lápides mais antigas do Cemitério de Moçâmedes.

Mais inf. em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/263/26304509.pd
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/paginas/historia/124revolucao_praieira_1848.htm

http://www.pernambuco.com/diario/2004/01/27/opiniao.html
http://www.culturabrasil.pro.br/praieira.htm
Revista Lisbonense (troca de corresponência entre colonos de Mossãmedes e familiares em Portugal

ver tb annais Cons Ultramarino 1879
(para abrir com Adobe Acrobat)

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro



 POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE

 

".....Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada verdadeiramente a justiça que lhe é devida.

Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma pneumonia dupla.

Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros. Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.

Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.

Sabe-se que Bernardino distribuia generosamente os seus bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuia-os com a mão esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.

A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto ou mais do que quando possuia o Brasil, se soubesse aproveitar-se da utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."

Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em 1891, exactamente a 2 de  Junho de 1891, era concedida à cidade de Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açucar, postos em aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;  sobre o escudo a corôa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.

O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açucar e no arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.

Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sétimo aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl, três; no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três;  no Carunjamba, uma; no Curoca, três; na Huila, sete; e ainda a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Molondo, percorrendo o Sul de Angola em todas as direcções com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além Cunene, aonde iam buscar o marfim.

Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte  e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."

E termina o articulista:

"Que queriam que fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus." 

Obra sem par, a obra de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola -- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o único triunfo sério e respeitável em tal matéria". 

Com razão nos orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos os tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a morte".

 

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In: Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 = Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné

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                                                      «REVISTA UNIVERSAL LISBONENSE. 29»


Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraú (perto das borlas) se arranjaram umas salinas, e os autores foram muito felizes, pois tem tirado sal, igual ao de Setúbal, e com muita abundancia.

Mossamedes, a primeira vista, atterra os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos, já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem ; fique certo que o não estar mais prospera esta Colonia deve-se ao Bernardino. Ha dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos 8 navio «General Etegowde» lá cora mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, i-eremos: assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 o 1850 em cera, marfim, urzella e peixe secco, foi de 120:000 000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi saiu , o qual sendo governado pela mulher , aqui não quiz ficar , apezar de ganhar por dia 2/300 réis ; veja se elle ahi ganhava similhante jorna. O Manjericão parece que se quer retirar, o que também não admira , visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas dellas estavam falladas para cazarem , como aqui alguém me diz. Fique certo , caro estima , que Mossamedes é uma terra muito boa, e ha-de ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha, esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está succedendo em essa província , na Bahia , Rio de Janeiro , Pará e outras. Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Billancourt. — Saúde e felicidade, e sou de v. attento venerador e criado.— José Antonio Pinto Guimarães.

P. S. O Rangel e o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.

                                                             
                                                                   
                                                                         CURIOSIDADES

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«Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.

Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta: «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»
É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.
(...)Cumprimentos,
José Caldeira »
in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e
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Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348

Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes





«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:


«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.