16 fevereiro 2018

O fugitivo do Iona




Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região
Dixon Ferreira junto de um rino que tinha acabado de abater


"O fugitivo do Iona"


No primeiro quartel do século XX,  as terras do Iona, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram pouco conhecidas dos portugueses , e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso se fazia através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros, que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as famílias, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrar em terras do Iona, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e possibilidades financeiras para tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.



Alfredo Bobela da Mota, jornalista e poeta
 1905 (f. 1978)

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.
 
A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa na década de 1960  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. Mas para além destes fenómenos Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpôr.  Era difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído na época pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2) 

Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, também chamados de Mu-tuas,  era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

Sobre este povo, Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que nos penhascos de Tchamalinde  vivia clandestinamente um branco estrangeiro, conhecido  pelo " homem branco da casa de barro", que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, e  cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  sendo levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento daquilo que efectivamente a passava.

Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera, preferindo afastar-se da civilização e ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo, tornara-se admirado e querido.

Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando o tipo de vida  da selva, no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira.

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais,  tornou-se amigo de Dixon,  desde que o fugitivo fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  Acredira-se que sim!

Cecílio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali,  palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? O súbdito britânico (?) Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estavam? Quem era? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Cecílio Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro", das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.

Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali.  Estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo, talvez porque eles também não o instaram para isso, mas enquanto no mato, sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia, punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Contactou a tribo dos Mu-tuas que o aceitou, e mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se ele mesmo não tivesse descido,  naquele dia,  do cimo das cerranias, para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento, sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua família e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto pela autoridade, em Moçâmedes, e à concessão da nacionalidade portuguesa. Teodósio Cabral e Vasco Ferreira, dois moçamedenses muito estimados, deviam ter intercedido por ele.  Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul! Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, aos portugueses e a Moçâmedes, por várias vezes Dixon manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

3 caçadores muito conhecidos na Angola daquele tempo

Muíla Sá da Bandeira


 Rapariga Cuisse



Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a  mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, onde ficou também a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas parece que não conseguiu porque os Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la.  Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, teria sido vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.  Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários. Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito do qual  Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe como criador de gado, vários anos após ter deixado a montanha. Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

Quanto à região do IONA esta estende-se desde a margem direita do rio Cunene para norte, formando a transição das grandes dunas do Namibe, até  à encosta sul das regiões planálticas, e que se convencionou chamar de IONA que se compõe de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  E que à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante.

Nesta região encontram-se três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra. O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras. 

Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente



Os Cuíssi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, que povo é este?


Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis  Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ovambundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos. 

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã). 

O Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", refere que eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

 Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação relacionada com Mucuissos:

Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis.

Conclusão. Perseguidos e discriminados como diferentes, os Cuissi-Tua, povo pré-banto e considerado não banto, viviam na montanha. onde se refugiaram.  Os Chimbas, ou Himbas, co grupo herero banto, viviam mais na anhara e na encosta da serrania. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha, amedrontado, vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. O nome dos Cuíssis deste surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado, também conhecido por "Morro Sagrado dos Mucuísses", um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.


             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Caçador e Pigmeus


Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT



Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Dimbas e aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Tal como os Chimbas ou Himbas, os Mucubais (Ova-kuvale), pertencem também do grupo etnolinguistico banto Herero, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola.

Existem escritos que integram nos subgrupos Herero, os Curocas que desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastoril que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, mas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. 

O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.

Alguma bibliografia:

-Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,






Pesquisa e texto de MariaNJardim



26 dezembro 2017

A FOCA

A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador


MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade. Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

24 julho 2017

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18 julho 2017

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio

João Thomás da Fonseca

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, D. Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste (Celeste Fonseca Robalo), por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mocuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com sua posição de industrial de pesca  bem sucedido.  Na foto, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mocuio, com Mocuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mocuio.  E foi ali, naquela praia deserta pequena e inacessível, situada a sul de Benguela, no distrito de Moçâmedes,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, onde vales secos foram no rodar dos tempos substituindo  rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que necessitavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mocuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas  para o nordeste americano, em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos. A pescaria dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mocuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mocuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mocuio, devido à tubagem de cobre das canalizações.

A pescaria do Mocuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres, uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975.



 
Foto: Estas são duas das mais recentes fotos do Mocuio, através da qual podemos ainda ver, 35 anos depois, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante chalet, sua imagem de marca. Na continuidade do Mocuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mocuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres.


Foto: A pescaria do Mocuio nos  tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.



Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mocuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a ter em conta a indumentária das senhoras. Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  por destacamentos alemães, bem como a submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...

Em África, naquele tempo era assim!  Ver em  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas? 
Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.

Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Algumas destas fotos foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o primo João por as ter tirado para o nosso blog! Não resisti!


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Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio? 

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de, no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”. É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida na loquela local e, por definição e determinação filológica, não desfrui de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano. Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.
Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio)
a quem muito agradecemos.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver  gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

Fotos cedidas por um familiar.


VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html

19 março 2017

Moçâmedes e a sua juventude nos anos 60. Os conjuntos Musicais





Por esta altura, finais dos anos 1940, início dos anos 1950, o Rádio Clube de Moçâmedes, era, graças ao seu elevado número de sócios, e ao dinamismo da sua direcção, o clube organizador dos mais diversos eventos musicais na cidade, reunindo à sua volta toda uma juventude, feminina e masculina empenhada em colaborar. Foto Salvador


  


 Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes. De de cima para baixo e da esq. para a dt : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador.


Na velha gare do "campo de aviação", despedindo-se do Presidente do RCM, Augusto Cantos de Araújo.1947. Fotos Salvador


A orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes. Foto Salvador


Moçâmedes, a cidade do deserto, em matéria de divertimento das populações, desde os tempos mais recuados não deixava nada por mãos alheias. Este conjunto musical participava na altura no programa «Variedades» do Rádio Clube da cidade. Corria o ano de 1950, dessa famosa década que mobilizou toda uma população desde os mais jovens até aos de meia idade, em que foi lançada a ideia da organização de uma orquestra para o Rádio Clube de Moçâmedes".  O fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador era o saxofonista e chefe da orquestra. Raúl Gomes (pai) era o guitarrista,  Lito Baía, o seu filho que também tocava guitarra e viola, era acordeonista. Os bateristas eram o Firmo Bonvalot (mais tarde, o Albertino Gomes). Anselmo de Sousa era o trompetista. Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola) eram os violinistas. Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e Martins da Alfândega, eram os pianistas.
Conforme podemos ler num dos livros de Paulo Salvador:
 "...as músicas em pauta, eram conseguidas junto das orquestras de bordo dos paquetes que 2 vezes por mês aportavam à baia de Moçâmedes. O pai fazia amizades com os músicos de bordo e estes cediam, por gentileza, as músicas e canções em voga na Metrópole, que seriam cantadas aos microfones do Rádio Clube, depois de orquestradas pelo mestre Salvador. Os jovens e moças do Namibe, respondendo ao apelo, apresentavam-se para ver se tinham jeito, ( os castings de hoje...) . Recordando algumas das vozes que davam brilho aos programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe".. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".

Recordando a figura de Antunes Salvador, numa revista teatral que foi levada à cena em Moçâmedes, brincando com os seus dotes musicais, cantavam :

Tocam hinos, tocam óperas
tocam marchinhas e valsas
e o Salvador tanto assopra
         que arrebenta o cós das calças ...

Nos aos 1950 surgiu o conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", o grande animador das festas de Moçâmedes. Eram eles que animavam os  bailes que aos sábados se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e  as matinées dançantes que acabavam impreterivelmente às 20 horas.

Os "Diabos do Ritmo" com Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão).
Foto cedida por um conterrâneo

Da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Albertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão). 

Falar dos  "Diabos do Ritmo" é lembrar os  animados  Reveillons e as Martinées dançantes  que na década de 1950 decorriam nos salões do Atlético e  do Clube Nautico. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga,  a pasodobles, rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, música oriunda do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as  deslizantes valsas, e os suaves slows, géneros musicais daquele tempo como a  La Cumparcita

Como tocavam bem os "Diabos"! Quem poderá esquecer essas figuras inesquecíveis às quais a geração de 50 ficou a dever os mais belos e animados momentos das suas vidas.
Falar dos  "Diabos do Ritmo" é ainda reviver as serenatas pela noite fora realizadas à porta das casas das raparigas, em que músicos, cantores, instrumentos, incluindo o piano, corriam de porta em porta, fazendo-se transportar  em  camionetas de caixa aberta. É lembrar uma época em que bailes e matinées dançantes eram frequentadas por gente de todas as idades,  filhos, pais, mães, avós, que conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.
Com o avançar da década de 1950 já os "Diabos" passaram a incluir no seu repertório o Twist e o  Rock n' roll, novos géneros musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e que conviviam com o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões. Mas a música latino-americana era aquela que canalizava para a pista de dança o maior número de dançarinos.

MÚSICA LATINO-AMERICANA

Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,

nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…

Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…

Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,
Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…

Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.

Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…

Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidade,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?

NECO MANGERICÃO.




Mas o tempo não pára, e no mundo Ocidental, os anos 60 do século XX constituiram aquilo que se poderia considerar um século dentro do século. A intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais foi tal, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes, continuaram em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi a década dos Beatles, dos Rollings Stones, do Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc. Uma década marcada pela revolução sexual, pelo movimento hippye, pelo culto às drogas e do psicodélico, pela utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietnam, a revolta estudantil em Paris, e no mundo do cinema os filmes de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes!   Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também sentiram os efeitos dessas transformações que, soprando  dos EUA, alastraram pela Europa e acompanharam o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes vindas da Metrópole,  com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.

Será preciso, porém, lembrar que vivíamos num quadro político de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo, sempre atento à penetração e disseminação das ideias vindas de fora, através de livros, revistas, etc, que eram censurados, essencialmente as ideias marxistas, consideradas altamente subversivas.  Essa era grande preocupação nessa área do saber, enquanto a penetração dos novos gostos musicais se fazia naturalmente,  através das bandas musicais e da moda, os aspectos ligados ao lazer da vida que não sofriam quaisquer impedimentos.   Já foi atrás referido  que os primeiros passos surgiram na segunda metade da década de 1950, com twist e o rock-n-roll, géneros  musicais que abriram as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock.

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo. Foto cedida por um conterrâneo


Na década de 60 já os jovens adolescentes em toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª  Discoteca,  que entretanto inaugurou.
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964.
Foto cedida por um conterrâneo
 Elementos e acompanhantes de um dos Conjuntos Musicais de Moçâmedes, o  «Conjunto Ferrovia», no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964.Foto cedida por um conterrâneo

 

Ratolas(?), Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964



Laurentino Jardim e Reinaldo Bento.

Foto cedida por um conterrâneo



Os Goldfinger.Foto cedida por um conterrâneo


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu

Banda feminina em 1971 , quando Riquita foi Miss Portugal. Foto cedida por um conterrâneo.



A verdade é que nada nem ninguém podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos,  as valsas, os pasodobles, etc,  que foram substituídos pelo  rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso, e arrebatavam a juventude. A guitarra eléctrica foi o principal instrumento da música popular mundial, tornando-se praticamente indispensável em toda banda que era formada. foi o ponto de partida para elevar o Rock a patamares de música popular mundial. A guitarra transformou-se em uma arma a favor da liberdade nos conturbados anos 60 e 70, em meio a guerra do Vietnam, movimento Hippie, popularização dos direitos de várias minorias, etc. Passou a ser algo muito além de um instrumento musical, um simbolo que representou diversos movimentos ao longo do último século.
Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento.    Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma daquelas belas mulheres da tribo  himba, do sul de Angola, Deserto do Namibe.  Foi assim que tive acesso a este livro, muito bem estruturado e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda, o qual recomendo.
  
Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse também sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, pois delas pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar, excepto as colocadas no início desta postagem.   Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70,  nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava também, embora ela à sua maneira, a velha ordem, quanto mais não fosse usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... E elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés,  olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...

Os anos 60 foram pois aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora trazendo uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.

Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, quando vigoravam os "salões românticos" onde se dançavam tangos, valsas, slows , etc. Entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc,  ganhava um outro dinamismo.  

O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreiras. O avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos,  deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.

No nosso pequeno mundo em transformação  se é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraiu uma imensidão de  jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Não tivemos  movimentos de contestação estudantil  contra as injustiças sociais: a pobreza, o racismo, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc, que noutras latitudes levaram a manifestações e à confrontação com a polícia.  Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podia estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança  não tiveram uma expressão radical.  Foram acontecendo, impulsionados pelo ritmo e pelas letras da música, pela moda, e através de  alguma  literatura clandestina de difícil acesso, bem como por determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor. Tudo isso, muito paulatinamente ia  contribuindo para as mudanças que iam acontecendo. 


Foto cedida por um conterrâneo

Em Moçâmedes, as festas e os bailes, desde meados da década de 1960 começaram a  acontecer também no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. Os jovens queriam divertir-se entre eles, já não indo aos mesmos bailes que os pais, ou fazendo-se acompanhar por pessoas mais velhas (as raparigas), dizia-se então,  percebendo-se a crítica e o receio ao que é novo...


Cedida por Manuel Faustino
Cedida por Manuel Faustino

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos e valores da juventude. Aqui há algo que  nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual,  na postura.  Considero que estas fotos tem valor histórico.  Elas marcam uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam.
 
Foto cedida por um conterrâneo

    Baile na Paróquia. Cedida por um conterrâneo. Foto Salvador

Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc). 
  
Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  procurar e a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.

Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este  foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Outro exemplo foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude

 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 

Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo  Concilio Vaticano II que se estendeu e  chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África.  A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.

A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime. (1)
                                                                                                        



 MariaNJardim





ATENÇÃO:
Estas fotos são pertença dos nossos amigos e conterrâneos moçamedenses, pelo que ninguém, excepto aqueles a quem as mesmas dizem respeito, poderá daqui retirar algo sem a devida autorização, incorrendo em falta quem o fizer. Também o texto tem direitos de autor que devem ser respeitados.

MariaNJardim