19 março 2017

Conjuntos Musicais na Moçâmedes de outros tempos





O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964
 Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964
 

?, Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964

Laurentino Jardim e Reinaldo Bento

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo




 

 Discoteca




Os anos 60 do século XX constituem aquilo que se poderia considerar um século dentro do século, devido à intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais a tal ponto operadas, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes e continuam em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi um uma década em que, entre outros, surgiram os Beatles, os Rollings Stones, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc.  Foi  o  tempo da revolução sexual, do movimento hippye, do culto às drogas e ao psicodélico, da utopia marxista, da Guerra Fria, do assassinato de Kennedy, da Guerra do Vietnam, da revolta estudantil em Paris, do cinema cult/experimental de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes.   Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também, de algum modo, sentiram os efeitos dessas transformações que sopravam  dos EUA, onde surgiram nos anos 1950.

Vivíamos num quadro politico de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo sempre atento à penetração e disseminação das ideias marxistas, consideradas altamente subversivas, contudo ao nível  das bandas musicais, não se verificou impedimento à penetração de alguma  influência desse movimento de CONTRA CULTURA, que embora tardio, veio para ficar.  A década de 60 foi sem dúvida aquela em que se deu o despertar do Rock'n Roll,  estilo musical que abriu as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock. Jovens adolescentes por toda a Angola formavam bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que os nossos jovens escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na Discoteca, que entretanto inaugurou.

Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve.   Tive o grato prazer de receber em minha casa , pelo correio, um exemplar do mesmo livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci e recomendo. O livro inclui na pg 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma bela mulher da tribo  himba do sul de Angola, Deserto do Namibe, as chamadas "mulheres de vermelho".  Foi assim que tive acesso a este belo  livro, muito bem escrito e ilustrado, testemunho de uma época, no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda.  Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, mas das quais pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70. Ou seja nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" usava, eles cabelo comprido à beatle, calças boca de sino, andava despreocupado mascando swinga, quando não calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto. Elas,   mini-saia, pernas ao léu, saias floridas até aos pés como as hippyes,  tira amarrada na cabeça, cigarro na boca.

Este também foi o tempo da introdução do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Aquilo que posso aqui descrever não irá  além daquela que foi a época que antecedeu a do movimento hippye e a todas estas mudanças. Portanto a metade da década de 1950 e o início da década de 1960, altura em que o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões começaram a conviver com twist e o rock-n-roll, géneros  musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e cabia aos conjuntos musicais existentes, como "Os Diabos do Ritmo",  abrilhantar as festas da chamada cidade branca, em clubes de bairro e outras colectividades, em Moçâmedes, no Atlético, no Casino, no Ferrovia, etc, em que filhos, pais, mães, avós, conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.

O desenrolar da década de 1960 foi um tempo de passagem de uma sociedade separada, estratificada para uma sociedade mais integrada que favoreceu a adesão  das populações autóctones assimiladas. Digamos, uma mudança de paradigma que à época   foi impulsionada por factores vários, entre os quais o descontentamento da população negra, o surgimento dos movimentos de libertação, o início da guerra colonial, as pressões da ONU, as posições de  grandes potências que se disputavam na cena mundial, EUA/URSS, e que levaram a profundas alterações nos sistemas social e económico. Foi quando surgiu em Angola, ao nível das cidades, um sistema de vida mais cosmopolita, que ficou a dever-se, sobretudo ao novo ciclo de expansão económica, e à grande movimentação de gentes vindas da Metrópole e ali fixada desde 1961, e que se reflecte sobremaneira ao nível da capital. Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime...






15 março 2017

Finalistas da EICIDH e do Liceu de Moçâmedes

Finalistas do Liceu de Moçâmedes em 1973. Cedida por J Faustino

Finalistas da EICIDH de Moçâmedes
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 
  Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes. Judith Freitas com Governadot
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes.



10 março 2017

Avenida de Moçâmedes



 Gravura antiga da vila de Mossâmedes e rua da Praia, em primeiro plano.






O capitão Fernando da Costa Leal, quinto governador de Moçâmedes (então Mossâmedes) (1854-1959).
 



Ainda Moçâmedes se escrevia com "ss", não existia a longa e atractiva Avenida que no meu tempo conheci como "Avenida da República", porém já nesta altura, último quartel do século XIX, estava reservado o espaço para ela, graças à primitiva planta da povoação, delineada pelo talentoso e jovem Governador, Fernando da Costa Leal, homem de grande iniciativa, valor, e  rara tenacidade, que a concebeu com ruas largas, traçadas em rectas à boa maneira pombalina, ao mesmo tempo animando os colonos a construírem prédios de agradável aspecto. Moçâmedes era então para o forasteiro vista como um exemplo de cidade moderna jardim, cidade modelo que nada tinha a ver com as caóticas Luanda e Benguela de povoamento caótico. No livro «Quarenta e cinco dias em Angola», de 1861, o autor refere a necessidade de "primeiro plantar ao longo da praia cinco fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defesa, para ao abrigo dela ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira, essa mesma serve de resguardo às que depois quiserem fazer." Há também referencias de que o Governador Leal tentara edificar a vila "no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a comodidade dos desembarques, e sobretudo o receio que muitos tinham que ali se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa.Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado. A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquele governador a encontrou a pequena profundidade.
 
 
Segundo "Archivo Picttoresco", volume X, de 1867, portanto apenas 18 anos após a chegada dos colonos fundadores vindos de Pernambuco (Brasil) em 1849,  as principais ruas de Moçâmedes ( ascendeu a vila em 1855),  paralelas ao mar eram assim designadas: a da Praia do Bonfim (onde fica a Alfândega e os Correios), a rua dos Pescadores, a rua do Alferes, a rua do Calheiros e a da Boa Vista. As transversais eram a dos Prazeres e de S. João, que cortam a da Praia do Bonfim; a da Alegria e do Bom Jardim, que cortam a do Calheiros; e a Formosa que corta a da Boa Vista. As ruas transversais eram: a dos Prazeres, a do Calheiros. Vem referida a existência das travessas de Santo António, da Cancella, da Alfândega, e das Flores, que partem da Rua da Praia do Bonfim e terminam na do Calheiros. O quadrado formado pelas ruas da Boa Vista, da Alegria, do Calheiros e do Bom Jardim, onde não havia então ainda as respectivas edificações, era destinada a uma bela praça, a qual se iria denominar Praça D Luiz. Com frente para esta praça, em um dos ângulos da Rua Formosa devia erigir-se o edifício para os Paços do Concelho, e no outro ângulo, a casa para o teatro, a pensar nas necessidades dos munícipes, na distracção dos habitantes, no alivio das canseiras trabalho, e como distracção de aborrecimentos e perigos do ócio. Assim testemunhavam autarcas não indiferentes ao conforto população . Conforme o projecto inicial conservou-se sempre a regularidade no alinhamento das mesmas e na construção dos edifícios. O edifício da Alfândega, a porta de entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia, onde foi na década de 1940 erguido o Cine Teatro Moçâmedes. Por esta altura e como se pode ver pelas fotos , em frente ao edifício da Alfândega, e paralelamente a ele, levantou-se um telheiro de madeira com cerca de 9 metros de altura e 23 metros de fundo, apoiado em 12 pilares de madeira que assentam em socos de cantaria. Serve de abrigo a escaleres da alfândega e às mercadorias que tinham que desembarcar a horas em que a repartição esteja fechada.




Esta foto, de finais do último quartel do século XIX mostra-nos a Avenida a desenhar-se em paralelo com a Rua da Praia do Bonfim, então mais conhecida simplesmente por "Rua da Praia", mantendo ainda alguns dos primitivos barracões, porém já preenchida com algumas árvores (coqueiros?)...
 
Foto de um trecho da Avenida em dia de festa. Pressupõe-se tenha sido tirada por ocasião da visita do Principe Real D. Luiz Filipe, filho do Rei D. Carlos, em 1907, quando a Vila subiu a real cidade.



Avenida D. Luiz


A Avenida foi denominada "Avenida D. Luiz", em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II, e passou a denominar-se "Avenida da Republica" após a queda da Monarquia Constitucional, em 1910. Um espaço que desde logo transformou num vasto espaço de confraternização e lazer, como se pode ver.

Não admira, naquele tempo estava em voga o "Passeio Público" uma moda vinda de Paris à qual os portugueses aderiram, e que  perdurou por algum tempo após a reconstrução da cidade de Lisboa por Marquês de Pombal, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade.

Para dar um aspecto agradável às cidades, os urbanistas da época preocupavam-se com a abertura de espaço verdes de lazer e manifestações públicas e escolhiam para tal locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros. E foi assim que, ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, de início denominada "rua da Praia" nasceu essa bela, vasta e longitudinal Avenid de acordo com o projecto de  Fernando da Costa Leal, ao adoptar a metodologia pombalina que abraça todo o "centro histórico", toda ela coberta de jardins, que se estendem por dez quarteirões de casas, a perder de vista, tendo a ladeá-la as Ruas da Praia do Bonfim, e Rua Bastos, rua já aberta no século XX, que nasce junto da Estação do Caminho de Ferro, prossegue junto à Fortaleza de S. Fernando, até ao início da Avenida Felner que liga a zona central (vila) à Torre do Tombo. Uma Avenida preenchida com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc..

 Em 1949, por ocasião do 1º Centenário


Foi pois a partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam pequenos quintais que representavam os espaços verdes da baixa, para além, é claro, dos Jardins da Avenida da República ou da Praia do Bonfim.

Também não foi por acaso que foi escolhida a Avenida Felner, ali bem perto da Avenida da Praia do Bonfim, porém suficientemente afastada do centro, e um dos pontos privilegiados da cidade, sobranceiro ao mar, para serem erigidos os mais importantes edifícios públicos, ou seja, numa 1ª fase, o Palácio/Residência do Governador, a Igreja Paroquial, o primitivo Hospital do Estado, (mais tarde demolido), e numa 2º fase, os edifícios das Finanças, o Palácio do Governo do Distrito e a Associação Comercial. Foi também explorando o efeito de perspectiva que vimos surgir já no início da década de 1950, no topo dos jardins da Avenida da República, o edifício do Palácio da Justiça (Tribunal), um edifício singular, de grande porte, tendo como enquadramento a fonte luminosa com elevados repuxos de água, ladeada por duas elegantes gazelas, um dos mais belos ex-libris da cidade. Como cidade litorânea fundada no período colonial português ( 4 de Agosto de 1849), Moçâmedes não poderia deixar de ter a sua Fortaleza, a Fortaleza de S. Fernando, para cuja construção foi naturalmente aproveitada a elevação de terreno sobranceira ao mar mais tarde envolvida por uma muralha perfeitamente adaptada à morfologia do terreno, por se tratar de um local facilmente defensável onde tem inicio à falésia, que separa a parte baixa da parte alta.

A moda do "Passeio Público", verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer, enraizou-se desde então nas gentes de Moçâmedes, e a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950. A Avenida da Republica era então o local preferido da juventude para passear aos finais de semanas. depois da sessão do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida "para ver e para ser visto".

Até finais da década, os jovens da Moçâmedes de então tomavam conta da Avenida, era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas, estas com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, davam voltas e mais voltas, andando para frente e para trás, em doce confraternização, e aproveitando o encontro para flirtar.

No coreto o Rádio Clube sob a direcção de Carlos Moutinho, levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes, programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes ali pendurados e nas árvores que transmitiam músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos argentinos e modinhas brasileiras: "Alguém oferece para alguém como provade muito amor", e Tony de Matos cantando "Cartas de Amor" ecoa por toda a Avenida.E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações.

Mas o tempo não pára, novos gostos, outros costumes vão tomando o lugar dos anteriores e eis que a bela e vasta Avenida de Moçâmedes rodeada de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver, com tanques onde nadavam vermelhos peixinhos, e bancos de jardim que surgiram em maior número, com os melhoramentos introduzidos no início da década de 1950, transformou-se de novo. O velho e tradicional Coreto deu lugar a um grande tanque de água onde chegou a habitar uma foca que fazia o encanto da garotada. E no topo sul da Avenida, a caminhar para o Palácio da Justiça (Tribunal) surge um espelho de água ladeado por 2 elegantes gazelas, que desde logo se tornou num ex-libris da cidade.

Aos poucos a moda do passeio público também foi regredindo, e com as Festas do Mar que tiveram início em 1961 o polo aglutinador dos momentos de lazer das gentes do pequeno burgo no Verão, desloca-se para a Praia das Miragens, junto do Casino e das Arcadas .
Belos tempos!



03 março 2017

Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia




 
Brazão de Armas
Dado foi a este Povo enobrecido
Pelo seu valor nunca desmentido
Brazão d’Armas respresentado:
Escudo bem lançado, esquartelado,
No primeiro quartel. As sem rival
Armas do nosso q´rido Portugal!
Assenta em campo d’oiro verdadeiro
No segundo, um ramo de algodoeiro
Com cana d’ áçucar em aspas posto
Com inimitada arte e fino gosto,
Simbolizando então a Agricultura,
Que aos Povos traz riquezas e ventura
No terceiro, em campo de prata está,
A mostrar a riqueza que o Mar dá,
Barco de pesca verde sobre o Mar.
Assim podemos nós asseverar
- E a Verdade conhece-a bem o Mundo –
Que não há nenhum outro tão fecundo
E o verde do barco diz  -Esp`rança –
Pelo que – quem porfia sempre alcança!
E, mo campo vermelho, d’oiro o arado.
No quarto bem está simbolizado.
- Em gloriosa Data, a vez primeira.
Debaixo dessa lídima  Bandeira.
Lusas gentes e sem igual no Mundo –
Audazes, arrostanto o Mar profundo,
Vieram estar terras desbravar
E no solo sementes espalhar!
Num listão azul, posto em contrabanda
Fica a sobressair, numa cor branda,
Por lindas mãos de Fada bem bordada,
Legenda altiva e letra prateada:
O “Labor omnia vincit”, seu teor,
É lema deste Povo vencedor!
Repousa sobre o escudo c`roa mural,
Que é dum aspecto belo, senhorial!
Por timbre a Cruz vermelha e bem florida,
A Cruz cercada d’oiro e no Céu erguida –
Símbolo de Jesus: o Redentor,
Que aos homens trouxe Luz, Paz e Amor!
Moçâmedes, 04 de Agosto de 1935
António Menandro Guerra



Edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes (ex-Mossâmedes), ou Casa da Câmara, como era conhecida nos primórdios da sua fundação.

Edifício da Câmara Municipal, onde funcionou em tempos idos uma Escola. Postal de colecção particular

 
 O lado oposto do pateo.

 
Perpsectiva do interior do edificio





 


No livro «O Distrito de Moçâmedes», da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, encontrei este texto, que passo a transcrever:

«Moçâmedes, a gentil cidadezinha do Sul de Angola, possui , desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia.


A Câmara Municipal tendo
deliberado em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, aprovar o Brasão de Armas representado no desenho , que à mesma sessão fora presente , requerera ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.

Em Novembro do ano anterior havia passado por Moçâmedes o doutor Manuel Moreira Feio, na qualidade de secretário particular do eminente estadista
Mariano de Carvalho, que então empreendia uma viagem de estudo às nossas possessões africanas. A especial situação e o fino trato do doutor Moreira Feio, levaram a Câmara a solicitar-lhe a incumbência de obter dos Ministérios da Marinha e do Reino favorável e pronto despacho ao seu requerimento de 4 de Janeiro : de alcançar o respectivo diploma; de o fazer registar na repartição competente; de conseguir uma cópia do desenho do Brasão executada por artista da sua escolha; e de o mandar abrir em pedra para ser colocado num edifício destinado a Paços do Concelho, cuja construção a Câmara estava construindo. A esta solicitação, resolvida em sessão de 14 de Janeiro, anuiu prontamente o doutor Moreira Feio , que, em carta de 22 de Abril, comunicou à Câmara ter vencido as dificuldades inerentes ao processo de concessão, já desembaraçado àquela data dos Ministérios da Marinha e do Reino, e ainda da Procuradoria Geral da Coroa, estações oficiais por onde tivera de transitar. Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, referendado pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino Lopo Vaz de Sampaio e Melo. o decreto de 29 de Maio do mesmo ano, que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Municipio, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».

O Brasão de Armas do Município é composto, segundo o Decreto de 29 de Maio de 1891, do seguinte modo:- um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açuçar postos em aspas; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho,um arado de oiro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

A cultura da preciosa malvácea, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da Província, aquele por onde se fazia mais larga exportação de algodão. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no Distrito, merecera, de igual modo, por suas vantagens económicas, vigilantes cuidados aos antigos colonos, que viriam medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, a conhecida gramínea.

No terceiro quartel, avulta a mancha graciosa de um barco de pesca. É a animada representação da indústria piscatória so Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do Sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.

Nota-se no último quartel, o singelo recorte dum arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no Distrito, remontava, assim como a indústria piscatória , aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeavam-se então, luxuriantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

O simbolismo contido no Brasão de Armas do Municipio de Moçâmedes, perfeito na sua evocadora dignificação, exalta, num hino brilhante de colorido e opulento de harmonia, a firmeza do sentimento patriótico e a vida árdua de trabalho dos beneméritos fundadores do Distrito, realçando, para exemplo e incentivo das gerações vindouras, o êxito sem igual da sua obra magnifica de colonização.

O escudo das quinas, a insígnia heráldica da Nação, ocupa o primeiro quartel. Orgulhosos da sua Pátria, os antigos colonos adoptaram no Brasão de Armas do Município essa elegante e gloriosa divisa, que, na era dos Descobrimentos e Conquistas, pompeara por toda a Orbe, e ainda hoje se ostenta, ufanosamente, no Pendão Nacional. Anelando, com o melhoramento da própria condição, o prestígio e o engrandecimento de Portugal, os antigos colonos conseguiram, à custa de uma luta pertinaz, acerba por vrzes, erguer, no areal adusto da baía de Moçâmedes, a donairosa cidade de igual nome, e difundir por todo o Sul da Província, norteados pelo mesmo alto desígnio e fortalecidos pela mesma indómita vontade, o consolador benefício da civilização da Mãe-Pátria.

Figuram, no segundo quartel, doid emblemas expressivos: um ramo de algodoeiro e uma cana de açúcar. Indicam as espécies arbustivas mais cultivadas então no Distrito. A cultura da preciosa malvácea. iniciada, e da cana, as das plantas hortenses, e as das árvores frutíferas.

O conjunto, imponente pela eloquência dos símbolos e aprazível pelo encanto da policromia, é cortada em diagonal por uma faixa de côr azul, onde se lê o conhecido fragmento Labor Omnia Vincit dum verso das Geórgicas, o célebre poema didascálico de Virgilio. A máxima virgiliana «o trabalho tudo vence», sobreposta ao Brasão, traduz com nobresa, a epopeia de esforços e o assinalado triunfo dos antigos colonos, enaltecendo-lhes e glorificando-lhes a honrosa memória.

A corôa mural e a cruz florida, motivos ornamentais da arte heráldica, rematam superiormente o todo, dando-lhe graça, distinção e beleza.

O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal.

Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam.

Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá-lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as hontras e privilégios de que gozam as demais Câmaras que têm obtido igual mercê.

No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.

Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos.

A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. »

Curiosidades encontradas na Net:

Sobre as dificuldades orçamentais que desde sempre as Câmaras Minicipais se confrontavam, um mal antigo em relação ao qual, já em 1908 o Presidente em exercício da Câmara Municipal de Mossâmedes se manifestara atraves de oficio de congratulações dirigido a Braamcamp Freire, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pelas listas do Partido Republicano, cujo mandato lhe merecera inequívocos elogios:

"Congratula-se pois em ter ocasião de prestar homenagem à corporação a que V. Exª dignamente preside e que com raro valor tão sabiamente tem administrado, já zelando os interesses dos seus munícipes, já pugnando por que não sejam cerceadas as poucas regalias municipais e relegando a política para um plano tão inferior que ninguém a descortina nas vossas acertadas deliberações.
5(5) Anselmo Braancamp Freire (1849-1921) / Sua actividade política, José Miranda do Vale, Lisboa, Ed, Seara Nova, 1950, p, 66.
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Tambem na Net, encontrei esta Constituição da Câmara Municipal de Moçâmedes
para o biénio 1856-1857, eleita por sufrágio directo realizado a 16 de Dezembro de 1855:

Presidente: José Joaquim da Costa
Vice-Presidente: José António Lopes da Silva
Vereadores:
António Romano Franco
João Dolbeth e Costa
Joaquim da Silva Costa Fradellos

in “Programa das X Festas do Mar” – 1971
pesquisa de José Frade
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O primeiro Código Administrativo, promulgado para vigorar na Metrópole, em 16 de Março de 1842 (Costa Cabral), era, na época de que nos estamos ocupando, o principal diploma que também regulava nas províncias ultramarinas a acção administrativa nos Municípios. Logo na acta da primeira sessão da Câmara Municipal de Moçâmedes, de 02 de Janeiro de 1856, se faz referência àquele código, donde se presume, embora nele expressamente não se declare, que foi, com a sua publicação, tornado extensivo ao Ultramar. Assim devemos concluir, pois, que, no Decreto Orgânico das Províncias Ultramarinas, de 01 de Dezembro de 1869 (Rebelo da Silva), se lê que, nesta data, aquele código «se considerava em vigôr em todas as colónias». (Dec.Org. cit., artº 76).


Namibe já foi Mossamedes no antigamente....: Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia: Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia