01 julho 2020

 
  COLÉGIO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DE MOÇÂMEDES
 
 

Sobre Equipamentos e infraestruturas



O projecto do Colégio de Nossa Senhora de Fátima em Moçâmedes, actual cidade de Namibe, foi encomendado ao Ministério das Colónias. A memória descritiva da primeira versão do projeto, assinada por Eurico Pinto Lopes e Lucínio Cruz, não está datada mas a aprovação é de 10 de maio de 1949, o que localiza o encargo no âmbito do GUC.

A proposta assenta na articulação dos volumes independentes que constituem o conjunto: ensino, internato e a residência das Irmãs. No bloco principal, composto por dois pisos, localizam-se os serviços administrativos e de ensino, com salas de aula distintas para alunas indígenas e alunas europeias. O internato forma uma ala perpendicular com entrada e acesso independentes para o segundo piso. No piso térreo, o recreio coberto e o refeitório localizam-se no volume posterior. A zona residencial das Irmãs foi instalada num edifício independente, com acesso direto à capela, interligado com o conjunto através de uma galeria coberta.

A entrada principal do conjunto destaca-se através de um pórtico, contrastando com a horizontalidade dos volumes com longas coberturas em telha.

Conhecem-se dois projetos de ampliação da autoria de Eurico Pinto Lopes. O primeiro, apresentado a 2 de julho de 1951, amplia e altera a localização das dependências destinadas às raparigas indígenas e transfere a aula infantil e respetivos sanitários para uma área em contato com a fachada principal. Em 1953, as alterações mais importantes são a ampliação do salão de festas, transformando a cobertura inclinada numa cobertura plana, e a criação de dois laboratórios (física e química).

O Colégio de Nossa Senhora de Fátima segue as características presentes na maioria dos edifícios oficiais projetados pelo Gabinete, contribuindo para a convergência numa linguagem formal representativa do Estado Novo.


Ana Vaz Milheiro
Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica.
(PTDC/AUR-AQI/104964/2008)

    22 abril 2020

    O boi-cavalo, machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, os carregadores indígenas, as caravanas boeres e finalmente o comboio e o automóvel



    O boi-cavalo



    A utilização do boi-cavalo como meio de transporte e de tracção animal foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos de Moçâmedes, que na labuta agrícola, nesses tempos iniciais, em que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou a outros meios de transporte, substituindo-os pelos bois.

    Bois-cavalos eram utilizados nas deslocações dos primeiros colonos  às Hortas, como vem citado em algumas obras da época, existindo menções à  utilização por  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia de 1849 nas suas deslocações à Quinta dos Cavaleiros.

    A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.


    "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

    Refere também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes, principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois, a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.


     Q
     Na lateral da capela de Nossa Senhora do Quipola vêem-se várias tipóias que transportam f~gente até ali


    Conforme «Anais do Município de Moçâmedes», para além do boi-cavalo, de início o transporte utilizado era a machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, ou melhor o dromedário (este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849), e ainda as carroças introduzidas no sul de Angola pelos boeres, que chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois e que vieram promover uma verdadeira revolução nos transportes.

    Carregadores mondombes numa rua de Moçâmedes em finais do séc XIX


    Mas não podemos esquecer os carregadores africanos, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Em Moçâmedes essa tarefa esteve entregue aos mondombes, um trabalho voluntário desses africanos havendo referencias a custos elevados difíceis de comportar.  




    Carroça de estilo bóer  puxada por uma junta de bois, Carroças boers vieram revolucionar os transportes no sul de Angola no ultimo quartel do séc xix.

     Carroças boers numa das ruas de Moçâmedes, descarregando víveres



    Com as carroças boers o transporte efectuado pelos carregadores africanos entram em recessão e a maioria abandonou a região de Moçâmedes e recolheu-se a região de Benguela de onde era oriundo. (2)

    Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando os primeiros colonos chegaram a Moçâmedes nada tinham ao dispôr que lhes facilitasse a deslocação de pessoas e de mercadorias, se não os meios atrás citados,  Não fora a entrada pelo sul de Angola dos já referidos boers, em 1880, que se estabeleceram na Humpata, os problemas seriam muito maiores. (1)


     Partida inaugural da Composição do CFM rumo ao Saco, em 29 de Setembro de 1905.


    O Caminho de Ferro, uma das grandes reivindicações dos colonos da época chegou tarde, e chegou sob a pressão dos imperativos militares e não tanto pelas necessidades económicas que se faziam sentir.

    Foi quando as potências industrializadas europeias se resolveram pela "partilha da África", quando, obedecendo aos ditames da Conferência de Berlim (1884-5) o direito histórico deixou de ter qualquer valor e passou a ser imposta a ocupação efectiva das colónias, cujo interior era ainda desconhecido, que a ideia de um Caminho de Ferro para Moçâmedes começou a aflorar, mas só veio a concretizar-se em 1905. (3) Portugal corria o risco de ter que ceder as colónias a outra potência em condições de as ocupar e fazer progredir., Por essa altura a fronteira sul estava em perigo, era zona quente cobiçada pelos alemães do Sudoeste Africano, e Portugal teve que enviar contingentes militares que desembarcaram em Moçâmedes e para lá rumaram para a defender e para conter a sublevação dos povos autóctones revoltados. Moçâmedes foi pois o porto de desembarque de soldados, armas e munições destinados a essas operações.O caminho de ferro foi lançado em 1905, mas só subiu a Chela em 1923. Até aí foram sempre precárias as deslocações para o interior, situação que estrangulava a economia do distrito, impossibilitava as trocas e não deixava Moçâmedes progredir. Este período foi de completa recessão e houve colonos que retornaram à metrópole.

    Voltando ao boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849, para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

    Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":

    MariaNjardim


    (1) Próprios para caravanas, eram usados pelos militares para o transporte de armas e munições rumo à fronteira sul de Angola, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto, etc. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada, conforme vem referido por Serpa Pinto, em "Como eu Atravessei a África":

    (2) "Carregadores" eram povos exclusivamente dedicados ao transporte de mercadorias, de entre os quais se evidenciavam os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela e os mondombes, em Moçâmedes. Eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam as suas terras em detrimento de quaisquer outras comitivas. Eles impunham-se como únicos intermediários entre o interior e a costa, não deixando espaço para a concorrência.

    (3) Entre 1907/1910, governava em Angola Paiva Couceiro, suficientemente intransigente e pragmático para conseguir libertar-se das torrentes emanadas do Terreiro do Paço, e com experiência mais que suficiente para saber que dominar o território implicava ocupar fronteiras, obrigar as autoridades gentílicas insubmissas a submeterem-se, proporcionar a estabilidade necessária para que as caravanas de longo curso pudessem circular, e concretizar o pagamento do imposto de cubata.Como governador geral, deu prioridade à abertura de rotas comerciais para o interior tanto em rodovias, (algumas simples picadas) deu início aos troços de caminhos-de-ferro de Moçâmedes, de entre outroa, mas como foi referido no texto só em 1923 foi possível chegar a Sá da Bandeira. Entre 1914-18 as fábricas europeias estiveram ao serviço da guerra, Portugal endividou-se para estar ao lado dos aliados, e tê-los a seu lado se a Alemanha vencesse a guerra, e no poder de então a l republica (1910-28) que atravessando uma conjuntura difícil, pouco mais pôde fazer nesta época pelas colónias.

     Legenda da Gravura exposta: Colono de Mossâmedes montado num boi-cavalo.

    15 abril 2020

    Barcos afundados pelas tropas especiais sul africanas., em Moçâmedes

    Barcos afundados pelas tropas especiais sul africanas no pós independência de Angola, afundados em Moçâmedes, junto ao porto de cais.  Diz-se qque mesma noite atingiram com rocketes os tanques de combustíve no Sacomar. Desembarcaram de um submarino. Os barcos atingidos transportavam alimentos. Um cubano e um russo. Havia mais á frente um navio angolano de cabotagem carregado de armamento que não foi beliscado. Objectivo: Cortar as linhas de abastecimento da Swapo e cubanos, no interior sul de Angola, conf, Aurélio Baptista no Facebook 15.04,20






    12 abril 2020

    A Igreja paroquial de Mossâmedes , Moçâmedes, Namibe, Angola



    A Igreja de Santo Adrião em Moçâmedes
    A Igreja de Santo Adrião em Moçâmedes


    O Palácio do Governador, a Igreja e as casas em madeira  dos funcionários públicos.
    A Igreja Paroquial de Santo Adrião em 1938 por ocasião da visita do Presidente Carmona, Colecção particular.

    A Igreja de Santo Adrião em foto recente

    A Igreja de Santo Adrião em foto recente

       A Igreja de Santo Adrião em aguarela

    A Igreja Paroquial de Santo Adrião de Moçâmedes começou a ser erguida em 27 de Julho de 1849, por Instruções Provinciais de 30 de Março desse ano, emanadas do Governador Geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregando o major Ferreira Horta de

      "construir um templo de dimensões suficientes para albergar não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem. "

    Em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, podemos lêr:

    Sabe-se que a construção de um templo foi uma das exigências de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro ao Governo, ainda enquanto no Brasil, e sabe-se também que não foi conseguido sacerdote que acompanhasse os colonos na sua viagem para Moçâmedes, e que à chegada em 04 de Agosto de 1849, em crónica de 2 de Novembro de 1849 acerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849:

    "... Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxílios de que cada qual carece.


    "... As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja. 

    De facto as obras começaram em 30 de Março de 1849, e quando a colónia chegou a Moçâmedes, em 04 de Agosto desse ano, se já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1), as obras não foram continuadas. Foi Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, quando partiu para Luanda no dia 16 de Agosto do mesmo ano, que tomou providencias nesse sentido. Há quem seja mesmo de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado por Bernardino em Luanda, a tomada de providências no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. A verdade é que quinze dias após, em 27 de Setembro era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "...administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio. 

    No relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, podia-se lêr:

    "...Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso...

    Sabe-se que a sua conclusão foi efectuada com base em subscrições levadas a cabo entre os moradores, numa época de sacrifícios e restrições, falta de material e de tudo, em que em termos económicos os colonos começavam a dar, também eles, os primeiros passos.

    De arquitetura religiosa simples, em barroco tardio, onde domina a habitual composição simétrica expressa na fachada, a Igreja Paroquial de Santo Adrião de Moçâmedes nada tem a ver com outras igrejas torreadas, em que a torre surge frequentemente em posição central, na tradição de algum gótico francês, com marcação expressiva das linhas verticais e aplicação sistemática do arco ogival .

    Em estilo barroco tardio  ela exibe o seu frontispício e as quatro pilastras do costume, o entablamento e duas torres, entre as quais se insere um frontão central triangular com óculo circular envidraçado ao centro, sobre o qual se ergue a cruz de pedra. Como se sabe, vivia-se então num quadro predominantemente laicizante na urbanização do século XIX, em que se verificava pouco investimento público no que diz respeito ao tema religioso, por comparação com a época anterior. A não esquecer, o século XIX em Portugal foi o século das invasões francesas e da penetração de ideias, da luta contra o obscurantismo e as teocracias, da crença no poder da razão e descrença na ideia religiosa, século da abolição das ordens religiosas e o encerramento dos conventos masculinos decretados em Maio de 1834, ou o longo processo de expropriação e venda pelo Estado dos bens de instituições religiosas, revelador radicalismo que então se desenrolou e que consistiu numa ruptura de relações com o Vaticano, que durou entre 1834 e 1841, já menos famosa do que idêntica situação criada pelos governos republicanos em 1911. 

    De facto, as consequências das políticas liberais para a Igreja não foram menos tremendas do que as da «separação» republicana de 1911. A governação liberal terá mesmo provocado «um vazio religioso não mais preenchido» .Os números do clero foram drasticamente reduzidos, tal como os meios ao seu dispor, ao mesmo tempo que o Estado, seguindo a tradição «regalista» da antiga monarquia, reforçava o seu controlo sobre as nomeações e carreiras dos sacerdotes e a sua comunicação com o Vaticano. Com a implantação da I República ainda mais o investimento na área se ia agravar.

    Pelo interesse que reveste para o assunto, passarei a transcrever o texto que segue:

    "...AS SOCIEDADES FLORESCEM QUANDO A RELIGIÃO TRIUNFA

    Filho de pais profundamente católicos, Bernardino católico se conservou até ao fim. Já aludimos a um documento em que Pedro da Fonseca, pároco encomendado de Nogueira do Cravo, dizia, em 1829, do seu paroquiano, o estudante de Leis Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: "Tem sido (...) amigo da Igreja, assíduo observador das leis, tanto divinas como humanas..." Com que devoção Bernardino escreveu a "História Sagrada ou Resumo Histórico do Antigo Testamento", a "História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos" e a "História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias"! Tinha Bernardino o hábito de empregar algumas frases, como frases de cruzado para entusiasmar a sua gente. Uma delas, já o sabemos, era esta: "Só será salvo o que preservar até ao fim!" rebuscada nos livros santos. Outra : "As sociedades florescem quando a Religião triunfa!". Ainda no Recife, preparando meticulosamente a viagem para Moçâmedes, Bernardino tomava como obrigação da colónia, logo que se estabelecesse em terras da nossa África, a "obrigação de ser o seu primeiro trabalho erigir um templo, pois que à colónia, em projecto, acompanhará um sacerdote de exemplar conduta, e é de sumo interesse estabelecê-la o mais moral possível. Além deste sacerdote talvez vão outros..." Não deve ter sido possível a Bernardino conseguir ao menos um sacerdote para acompanhar os 166 portugueses que, sob a sua orientação, deixaram o Brasil em 23 de Maio de 1849, para se fixarem nas paragens de Moçâmedes. Possível lhe não foi também impor ai, como primeiro trabalho, a construção dum templo. Antes de tudo, sem dúvida, se impunha a instalação dos colonos com garante da sua subsistência e da sua própria sobrevivência. Era isso que preocupava Bernardino. Isso o levou a fazer-se ao mar, no barco à vela "Douro", para ir a Luanda conferenciar com o Governador Geral e pedir-lhe auxilio para os seus homens. E tal era a sua preocupação de garantir providências por parte das autoridades, que empreendeu esta viagem ainda sem estarem ultimadas as descargas do Tentativa Feliz. 

    Não conseguiu sacerdote para a viagem, é certo, mas, segundo supomos, tomou providências, quanto a nós ainda antes de embarcar para Luanda, no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. Bernardino partiu para a capital de Angola no dia 16 de Agosto de 1849, quinze dias depois de ter chegado a Moçâmedes. Pois em 27 de Setembro seguinte era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio".

    Há quem seja de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado Bernardino em Luanda. Seja como for, o certo é que Bernardino sempre se preocupou grandemente com os problemas espirituais dos seus homens. Queria-os a todos, como ele próprio era, cheios de fé. Quanto ao templo: é verdade que quando a colónia chegou a Moçâmedes, já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1). 

    Opinamos, porém, que o início da construção do templo se deve a uma como que exigência de Bernardino ao Governo, quando Bernardino estava ainda no Brasil, e se dava ao trabalho de ver e prever tudo quanto lhe ia ser necessário em Moçâmedes. Lê-se, efectivamente, nas Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, que o governador-geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregara o major Ferreira Horta de construir um templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". De facto as obras começaram, mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

    " As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja." Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."

    A seguir transcrevemos mais um passo da crónica - aquela em que Bernardino descreve a primeira missa em Moçâmedes : 

    " Entrado nesta Baía em a noite de trinta do mês passado, a Corveta Oito de Julho, com o chefe da Estação Naval, e conduzindo a seu bordo o reverendo padre Matias, de acordo com o dito chefe, dispoz o Governador deste Distrito que se celebrasse em terra o Augusto Sacrificio da Missa no primeiro do cortente, em que a Igreja celebra a festividade de Todos-os-Santos. Erigiu-se com rapidez um altar portátil na Fortaleza, em uma casa que se edifica para ser o Quartel da Tropa, e que ainda lhe falta ser coberta: serviram para isso, os toldos da dita corveta, e forraram-se as paredes com bandeiras da mesma. Ficou bem decente e engraçada. Às dez horas do dia desembarcaram o Chefe da Estação e toda a Oficialidade, soldados e marinheiros, divisando-se no rosto de todos a maior satisfação, pois vinham trilhar o terreno que começaram a aplainar, porque é à Marinha Portuguesa que Moçâmedes deve o que até agora tinha. Salvou a Fortaleza e depois a Corveta: incorporou-se com a Marinha o Governador, o seu Ajudante, e o Comandante da Força, e, com a música da mesma Corveta na frente, se dirigiram à Fortaleza, para onde iam concorrendo os moradores, suas famílias e colonos, todos decentemente vestidos, e com suas escravas também vestidas ao costume europeu. Como na povoação se encontrava o soba do Giraulo, também ele e mais alguns pretos foram assistir à missa, durante a qual tocou a música, havendo salva à elevação da Hóstia, e lançando-se foguetes. Esteve luzido e edificante o concurso."

    Não há dúvidas, Bernardino levara para Moçâmedes este anseio: dilatar a Fé e o Império. A este anseio foi fiel até à morte. "

    In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.

                                                                       =====

    Ainda sobre a Igreja de Santo Adrião. Os cuidados do pároco Gil Carneiro pela construção e embelezamento do templo; notas biográficas 

    A velha Igreja de Santo Adrião começou a construir-se há um século, com o lançamento solene da primeira pedra, em 27 de Julho de 1849, antes, portanto, da chegada a Moçâmedes da primeira colónia vinda de Pernambuco, Brasil. Estava-se ainda no distanciado ciclo que memoramos "um templo bem acabado, sólido, bonito" como o representava o secretário-geral Pinto de Balsemão, no seu ofício de 27 de Março de 1868, em que relata a visita que fizera à já conhecida e "afamada vila".

    O templo apresentava-se então "gracioso e alegre, mercê das solícitas diligências com que o mui reverendo e digno padre Gil" como se expressava Balsemão, havia ordenado e dirigido a pintura das paredes interiores".                                             

    Quem era o padre Gil?

    -Um sacerdote exemplaríssimo e muito culto, que exerceu, em Moçâmedes as funções de pároco encomendado da freguesia, cumulativamente com as de professor de ensino primário.

    Vamos delinear, com alguns outros, os traços mais salientes da sua biografia, que extraimos do volume III, ano 1895, da Revista Portugal em África, pg.1079:

    O padre Gil, de sua dignidade nome e apelidos completos, cónego João Bento Gil Carneiro, nasceu em Peso-da-Régua, concelho de Trás-os-Montes, e ordenara-se em 1865, tenso estudado Teologia no Seminário de Leiria, onde fora professor. Nomeado missionário da Diocese de Angola e Congo, por Decreto de 24 de Outubro de 1866, assumiu, pouco depois, as funções docentese paroquiais na vila de Moçâmedes, sempre respeitado e benquisto dos colonos. Em 1870 foi pároco em Benguela. E missionário também nos concelhos de Dombe Grande, Benguela, Quilengues e Caconda, ensinando e baptizando indígenas. Ao passr pelos territórios do soba Gola Hiambi, baptizou-o e avassalou-o à corôa portuguesa, realizando assim uma dupla missão, religiosa e política. Em Caconda, cuja Igreja havia desaparecido, celebrou, numa saleta da residência, as solenidades do culto. Baptizou 17 indivíduos. Pouco depois seguiu para Quipembe, a 13 quilómetros de Caconda, avançando daqui para Calugogolo e depois para Quingolo. Durante esta viagem batizou 56 pessoas. Regressando a Caconda, baptizou 121 indivíduos. Saindo para Canjueva, baptizou 262 pessoas, e voltando mais uma vez a Caconda, administrou o mesmo sacramento a 208. Em 30 de Agosto do mesmo ano de 1870, benzeu o novo cemitério, e, no dia imediato, partiu em direcção a Benguela onde chegou a 18 de Setembro, tendo baptizado mais 106 pretos na sua viagem de Caconda a Quilengues, e mais 149 nas terras deste nome. Foi cheia de canseiras e sofrimentos, com iminência de perigos, em climas depauperantes, a vida do respeitável sacerdote, ardentemente compenetrado do virtuoso e patriótico ministério da religião e da Pátria.

    Em Moçâmedes, o padre Gil foi sempre desejoso dos seus progressos e muito querido e recordado de quantos o conheceriam e apreciavam as cativantes qualidades de cultura e coração. Regressando ao Reino, foi colocado, por Decreto de 14 de Junho de 1872, numa freguesia do Patriarcado - a de Nossa Senhora de Azambuja - e, mais tarde, por Decreto de 21 de Dezembro de 1882, na de S. Sebastião da Pedreira. Por Decreto de 11 de Outubro de 1895, foi agraciado com a comenda da Conceição pelos relevantes serviços que prestou como missionário e professor. Abrilhantou a oratória sagrada tornando-se credor dos justos ecómios com que a imprensa o distinguiu. Colaborou, igualmente, com fulgurância em alguns dos melhores jornais do país. Faleceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1907.

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    Tendo referido, no presente trecho deste capítulo, ao edifício actual da Igreja Matriz, parece-nos acertado descrever o concebido projecto da nova igreja a construir, em local indicado, no plano de urbanização da cidade, que já foi aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues.

    Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

    "A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de néon que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

    "A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores, a localização do baptistério, de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente,, o que permite a normal celebração do acto do culto.

    "Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torrem um relógio e um sino de grandes dimensões.

    In Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres. Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349. PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.

    Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.





    MariaNJardim


    10 abril 2020

    Informação sobre Moçâmedes no início da colnização e sobre Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro



                                     «REVISTA UNIVERSAL LISBONENSE. 29»


    Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraúl (perto das borlas) se arranjaram umas salinas, e os autores foram muito felizes, pois tem tirado sal, igual ao de Setúbal, e com muita abundancia.

    Mossamedes, a primeira vista, atterra os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos, já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem ; fique certo que o não estar mais prospera esta Colonia deve-se ao Bernardino. Há dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos 8 navio «General Etegowde» lá  fora mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, iremos: assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. 

    A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 o 1850 em cera, marfim, urzella e peixe secco, foi de 120:000 000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi saiu , o qual sendo governado pela mulher, aqui não quiz ficar, apezar de ganhar por dia 2/300 réis ; veja se elle ahi ganhava similhante jorna. 

    O Manjericão parece que se quer retirar, o que também não admira , visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas dellas estavam falladas para cazarem, como aqui alguém me diz. Fique certo , caro estima , que Mossamedes é uma terra muito boa, e ha-de ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha, esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está succedendo em essa província , na Bahia , Rio de Janeiro , Pará e outras. 

    Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Billancourt. — Saúde e felicidade, e sou de v. attento venerador e criado.— José Antonio Pinto Guimarães.

    P. S. O Rangel e o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.

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                                                                CURIOSIDADES


    «Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.


    Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta:

     «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»

    É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

    Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.

    (...)Cumprimentos,

    José Caldeira »

    in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e
    .


    Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348

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     O Chefe da Primeira Colonia

               ( «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres)
    -                                                   

    Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
    foi o ilustre chefe dessa plêiade ousada de portugueses, que, vinda há um século do Brasil, iniciou, no sul de Angola, a obra de civilização que admiramos.

    Temos sobre a nossa mesa de trabalho um dos seus melhores repretos. Observando-o atentamente, recordamo-nos do que ouvimos a alguns dos seus contemporâneos, e, sobretudo, apreciando os seus escritos, e estudando os livros e documentos que se lhe referem, vamos diligenciar representá-lo em breves linhas.

    Tinha o rosto oval, de tez acentuadamente morena. Iluminavam-no olhos pequenos, mas vivos com expressões de mansidão, reflectindo a um tempo, sentimentos de energia e de bondade. O cabelo era fino, corredio, azevichado. A fronte, espaçosa. O nariz, grosso. Trazia rapado o bigode , e usava barba de colar, que a fotografia nos apresenta branca, correndo, muito curta, em estreita faixa, de orelha a orelha, sob o mento. A fisionomia, simpática; as maneiras, insinuantes. A sua presença agradava.

    No prestigioso chefe da primeira colónia foram surpreendentes a tenacidade com que organizou o grupo de colonos de 49 e a presteza que desenvolveu, junto do Governo Central e do seu alto representante da Colónia, para o bom êxito do empreendimento. Obstáculos, contratempos, oposições, que grandemente lhe dificultaram a acção, tudo venceram a sua infatigável obstinação e a dua férrea vontade.

    Bernardino de Figueiredo nasceu em Nogueira do Cravo, povoação do concelho e comarda de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, província da Beira Alta.

    Em face da cópia paleográfica que consultámos, do seu assento de baptismo, extraído do Livro de baptizados da freguesia de Nogueira do Cravo de 1806 a 1830, tivemos conhecimento de que fora baptizado «em os quatorze dias do mês de Dezembro de mil houto centos e nove». (sic)

    Nãi se encontra neste assento, lavrado, a fls. 18, daquele livro, existente no Arquivo e Museu de Arte da Universiadde de Coimbra, a data do seu nascimento. Mas podemos conjecturar, com grandes visos de exactidão, ter nascido no ano em que foi baptizado. . Não é costume ser a data dos baptizados muito distanciada da dos nascimentos. Assim , tendo sido baptizado em 14 de Dezembro de 1809, último mês do ano, deveria ter nascido nesse mês, ou em qualquer dos outros desse ano. Parece-nos, pois, que, se não acertámos, não estaremos muito longe da verdade, declarando haver nascido em 1809.

    Guidos por este documento e pela árvore genealógica da família Abranches, cujo exame nos foi obsequisosamente facultado, em dua casa, de Galizes, povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, pelo Sr. Dr. Vaz Pato, inteiramo-nos de que foram seus pais Alexandre Campos de Abreu Vasconcelos e D. Rita de Figueiredo; seus avós paternos, Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos, e seus avós maternos, Francisco Abranches Freire de Figueiredo e D. Josefa Maria de Abreu e Castro, da Casa da Torre, hoje pertencente ao nosso amável informador.

    Lemos no dicionário histórico Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues (Lisboa, 1906), «que era estudante de Coimbra, quando, levado pelos princípios e sentimentos de sua familia, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província». Da árvore acima citada, consta também que fora tenente de caçadores do exército de D. Miguel.

    Após a Convenção de Évora Minte, que, em 1834, pôs termo à guerra civil, e extintos todos os bandos de partidários, despersos pelo País, veio para Lisboa, onde se conservou, durante três anos, desde 1837 até 1839, colaborando na redacção do Portugal Velho, órgão do absolutismo.

    Em 1839, partiu para Pernambuco: alí se dedicou ao exercício do magistério. E, ao mesmo tempo que desempenhava funções professorais, escrevia livros. São dele algumas obras didacticas e um romance. Fez parte do corpo docente do Colégio Pernambucano, onde leccionou latim, história e geografia.

    Manuseámos um primeiro volume dum compêndio seu, intitulado História Geral, dividido em seis volumes, que se denominam: o primeiro, História Sagrada do Antigo Testamento; o segundo, História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias; o terceiro, História Antiga e Grega; o quarto, Hostória Romana e da Idade Média; o quinto, História Moderna; o sexto, História de Portugal e do Brasil.

    O primeiro volume que tivemos entre mãos, História Sagrada do Antigo Testamento, é dedicado ao director do Colégio Pernambucano, José Soares de Azevedo. Escreveu-o sob o seguinte tema, consignado na obra: A verdade da Religião, sua antiguidade e santidade, até se demonstram de alguma sorte por sua própria grandeza (P. de Pascal). Nele se declara a empresa e o ano em que foi impresso: Tipografia de Santos & Companhia, Pernambuco, 1841. E nele ainda se lê o anúncio que se segue: «está a entrar no prelo: Resumida notídia da História da Língua e Literatura Portuguesa, do mesmo autor.

    Também nos foi dado compulsar uma outra obra de Bernardino de Figueiredo, Nossa Senhora de Guararapes, romance histórico, descritivo, moral e crítico, epígrafe a que estão sobpostos os seguintes dizeres: «Não vos conto alheias cousas».

    Guararapes é a denominação dos montes que se erguem nas imediações de Pernambuco, onde os portugueses, sob o comando de Francisco Barreto de Meneses, alcançaram, em 1648 e 1649, duas memoráveis batalhas contra os Holandeses, a última das quais foi extraordinariamente sangrenta, mas gloriosa e decisiva. Como as forças portuguesas eram muito reduzidas em confronto com as numerosas tropas holandesas, foi a vitória atribuida convictamente a milagre. O romance de Bernardino de Figueiredo faz alusão ao facto.

    Sobre o acontecimento, é interessante recordar, a propósito, a existência do quadro a óleo «A batalha de Guararapes» do distinto pintor brasileiro Vitor Meireles de Lima, falecido em 1902, autor de inúmeros trabalhos pictóricos, como «Descobrimento e Primeira Missa do Brasil», «Combate de Riachelo», «Panorama da Baía e cidade do Rio de Janeiro», «Flagelação de Cristo» etc. ..

    O romance de Bernardino de Figueiredo foi impresso em Pernambuco, na Tipografia de M.F. de Faria, em 1847.




    03 outubro 2019

    TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO
















    TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
    Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
    A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
    DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 
    DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
    DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
    DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
    Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
    Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
    DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
    Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
    Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
    Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
    Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
    DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
    Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
    DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
    Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
    Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
    Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
    Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
    DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
    PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
    A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
    Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
    TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
    Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO
    Amilcar Sousa Almeida