24 julho 2017

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18 julho 2017

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio

João Thomás da Fonseca

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, D. Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste (Celeste Fonseca Robalo), por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mocuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com sua posição de industrial de pesca  bem sucedido.  Na foto, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mocuio, com Mocuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mocuio.  E foi ali, naquela praia deserta pequena e inacessível, situada a sul de Benguela, no distrito de Moçâmedes,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, onde vales secos foram no rodar dos tempos substituindo  rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que necessitavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mocuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas  para o nordeste americano, em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos. A pescaria dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mocuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mocuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mocuio, devido à tubagem de cobre das canalizações.

A pescaria do Mocuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres, uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975.



 
Foto: Estas são duas das mais recentes fotos do Mocuio, através da qual podemos ainda ver, 35 anos depois, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante chalet, sua imagem de marca. Na continuidade do Mocuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mocuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres.


Foto: A pescaria do Mocuio nos  tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.



Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mocuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a ter em conta a indumentária das senhoras. Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  por destacamentos alemães, bem como a submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...

Em África, naquele tempo era assim!  Ver em  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas? 
Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.

Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Algumas destas fotos foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o primo João por as ter tirado para o nosso blog! Não resisti!

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Um pouco de História alusiva ...


Recuando na História, a primeira pescaria instalada em praias do Distrito de Moçâmedes/Namibe foi fundada pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães, em 1843, na sequência de um acordo com "sobas" da região para instalação de colonos, Em 1840  havia sido fundado o Presídio. Mas tal como outras feitorias fundadas a seguir, não obstante as actividades exercidas e as exportações efectuadas, também esta não teve continuidade.Uns anos após a rainha D. Maria enviava a graça de 1000 anzóis para Moçâmedes, por constatar que era terra de muito peixe...


Na Metrópole, já com séculos de presença portuguesa em terras de Angola, era praticamente desconhecida toda região litoral a sul de Benguela bem como o Interland. A colonização na zona teve início apenas em meados do Século XIX, com a fixação paulatina de famílias portuguesas, a começar com a primeira "leva" de colonos vindos de Pernambuco (Brasil), fugidos da onda revolucionária que emergiu em Pernambuco e colocava em perigo as suas vidas. Estes pioneiros embora dedicados essencialmente à agricultura  nos vales férteis dos Rios Bero e Giraul, chegaram a montar pequenas pescarias nas praias a norte de Moçâmedes, que se encontravam  entregues a serviçais indígenas (quimbares) que  pescavam em pequenos barcos, enquanto os proprietários continuavam a a residir em Moçâmedes. O pescado destinava-se a consumo da escassa população.

A seguir aos luso-brasileiros, no início da década de 1860, começaram a chegar a Moçâmedes os primeiros algarvios vindos de Olhão, viajando de conta própria e servindo-se nas suas viagens de caiques, palhabotes e outros barcos à vela.  Moçâmedes era o porto de chegada, mas logo se dispersaram por  tudo quanto eram praias e enseadas desérticas preferencialmente a sul de Moçâmedes, onde montaram as suas pescarias.  Importa referir contudo que, segundo relatórios oficiais,  a pesca no Mocuio e na Baia das Pipas foi licenciada em 1854, ainda antes dos olhanenses se fixaram.   Em 1857 há referências que havia em  Moçâmedes, e em mais 4 praias a norte até à Lucira, 16 pescarias com 40 escaleres, onde trabalhavam 280 escravos.   

Estranha-se que estes dados sejam para a história da região pouco considerados, uma vez que quase todos os escritos apontam o arranque da industria de pesca, em 1861, com a chegada dos primeiros algarvios de Olhão às costas de Moçâmedes,

Assim, o ponto de chegada  era de início Moçâmedes, mas logo a fixação passou a fazer-se também em Porto Alexandre, e alguns anos após, em 1865, a Baía dos Tigres. A notícia da fartura de pescado na Baía dos Tigres foi dada aos nossos pescadores pelos tripulantes dos baleeiros americanos que demandavam a zona a partir da Ilha de Santa Helena e que frequentavam a costa de Moçâmedes onde se iam abastecer de frescos e para comerciar cera e marfim.

Convém salientar que a fixação de famílias portuguesas no distrito de Moçâmedes, é posterior à publicação do decreto de Sá da Bandeira que em 1836 aboliu o tráfico de escravos, ainda que o mesmo tráfico se tivesse mantido na clandestinidade por décadas e fosse definitivamente abolido 1869. Durante este período a costa angolana esteve sob vigilância, patrulhada  por navios das marinhas portuguesa e inglesa, e as áreas económicas do distrito, então em formação, essencialmente a agricultura e pescas,  viram-se preteridas do acesso à necessária mão de obra indígena, dado que os serviçais livres ou escravos, ao aperceberem-se do que estava a passar, escapavam-se para as suas terras de origem à primeira oportunidade. Foram os algarvios de Olhão que vieram colmatar essa falta, ajudando-os lusobrasileiros nesses tempos de crise. 

Diz-se que com a o decreto da abolição e a proibição dos embarques a partir de Luanda e de Benguela por onde escoava o tráfico para o Brasil e Américas, os mesmos passaram a fazer-se clandestinamente a partir do Ambriz e a norte de Moçâmedes. Acreditamos que assim fosse, aliás há referências de que o nome "Baía das Pipas" provem do facto de em 1842 a estação naval portuguesa ter queimado ali, onde estavam armazenadas, grande número de pipas destinadas a embarque em navio negreiro.

Os algarvios em relação à pesca tiveram uma adaptação mais feliz que os luso-brasileiros que se dedicavam essencialmente à agricultura.  A vida era difícil, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco, e que apesar das difíceis condições, era exportado para algumas colónias africanas, ainda que de início muitas toneladas de produto fossem destruídas, ainda em Angola, devido às condições de tratamento, infiltração de areias, etc. A adaptação dos algarvios foi ao ponto de se fixarem com êxito em praias onde não existia água doce disponível, e sequer se vislumbrava um ponto verde no horizonte. O exemplo da Baía dos Tigres, povoação actualmente abandonada, é crucial. Aliás o próprio estado português tardou em dar-lhes o apoio de que necessitavam por se entender que aquela zona não tinha as condições suficientes para a sobrevivência digna. O apoio chegou bastante mais tarde.

Com o rodar dos tempos, a indústria pesqueira no distrito de Moçâmedes foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Surgiram fábricas de enlatados, conseguiam preparar óleo e farinha de peixe que exportavam sendo valiosa a ajuda dos Serviços Veterinários que se instalaram em Moçâmedes, veio o negócio do peixe refrigerado e congelado, que era transportado para os consumidores  por caminho-de-ferro.  Em meados do século XX, o grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes.

Em 1929  o Sindicato da Industria da Pesca de Moçâmedes  foi criado com o nome de Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, tendo como 1º Presidente o Dr. Carlos Alberto Torres Garcia. Tentava-se com a sua criação debelar a crise que se instalara no sector, na década anterior, devido à crise de mercados de consumo que fizera paralisar o escoamento do peixe que se acumulava nos armazéns, ao ponto de ter sido deitado de novo ao mar. Chegara-se ao ponto do Sindicato ter que dar senhas de crédito aos pequenos industriais/pescadores possuidores de sacadas para pagamento do peixe que lhes ia sendo entregue. Contudo, julgava que com o Sindicato das Pesca os problemas estaria resolvido, não foi isso que aconteceu. Logo após a sua formação geraram-se dois grupos, de industriais/ /exportadores que se «guerreavam» entre si, criando situações complicadas, com a acumulação de dívidas, acções em tribunais, etc. De acordo com a orientação dada ao Sindicato, este não obrigava à sindicalização, e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se ao ponto de os Sindicatos serem dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca e os industriais//exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo até que o Governo Geral acabou demitindo.
 
Com o aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria, o Sindicato da Pesca e Comércio de Moçâmedes, criado no ano da grande crise da indústria pesqueira que a todos afectou e que foi decisiva para construção das primeiras fábricas de transformação de peixe em farinha e óleo, foi extinto, e criado em seu lugar, em 1 de Maio de 1949, o Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes, com o fim de organizar a indústria de peixe seco e farinhas e óleos de peixe, que até àquela data, como referia um Relatório, vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas.
 
O Grémio dos Industriais de Pesca viria a extinguir-se também, por força plano da reestruturação da Indústria de Pesca de Angola e a criação do  Instituto das Industrias de Pesca de Angola, com sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção, com o fim de orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua transformação e o comércio dos produtos fabricados, coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins.

Por sua vez, o Instituto da Pesca de Angola , que teve o Dr. Andrade como 1º Presidente, em 1970 criou as suas «secretarias» regionais, ou seja, Institutos da Pesca nas capitais de distrito dedicados à pesca, tais como Benguela, Porto Amboim e Luanda. facto que levou os industriais do distrito de Moçâmedes a se organizarem, através da criação da Associação dos Industriais de Pesca, só que agora alguns, poucos, ficaram preferivelmente de fora, isolados, como foi o caso de Gaspar Gonçalo Madeira, que exportava individualmente tendo para tal aberto uma empresa independente em Lourenço Marques (finais de 50). peixe seco meia cura e ultimamente congelado.

Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca

Finalmente, Moçâmedes exibia já em vésperas da Independência de Angola (1974), 86 sócios inscritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva, Lx 2005:

No seu livro «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva», Lx 2005, Carlos Cristão refere que em vésperas da independência de Angola, em 31/12/74, era a seguinte a relação das empresas industriais dedicadas à pesca em todo o distrito de Moçâmedes, entre as quais figura a de João Thomás da Fonseca & Cª:


A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes/Canjeque)

A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)

Um Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)

Abano & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)

Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)

Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)

Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)

Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)

António Francisco Antunes (Porto Alexandre)

António Francisco Baraço (Herds) (Moçâmedes)

Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)

Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)

Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)

Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)

Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)

Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)

Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)

Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)

Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)

Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. ( Cipesca-Moçâmedes)

Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)

Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)

Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)

Costa & Silva, Lda.

Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)

Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)

Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. Farinhas e Oleos de Peixe, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. e Mercantil de Pescas, SARL (Moçâmedes)

Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)

Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)

Francisco Baptista (Porto Alexandre)

Herds Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)

Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)

Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)

J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)

João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)

João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)

Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)

José Dias Ferreira (Moçâmedes)

José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)

José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)

José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)

José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)

Juventino Ferreira Graça , Lda. (Porto Alexandre)

Mamedes Sucessores, Lda. (Porto Alexandre)

Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)

Manuel Mendes Mamedes, Herds. (Porto Alexandre)

Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)

Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)

Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)

Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçamedes)

Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)

Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)

Pescarias Namibe, Lda. (Moçâmedes)

Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)

Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)

Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)

Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (ARAN - Moçâmedes)

Sociedade Congeladora do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade de Conservas da Lucira, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Lucira)

Sociedade de Pesca da Lucira, Lda. (Lucira)

Sociedade Piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Piscatoria do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)

Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)

Sopesca, Sociedade Ang. de Pescarias SARL. (Moçâmedes)

Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)

Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)

Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda. (Moçâmedes)

Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)


Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio? 

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de, no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”. É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida na loquela local e, por definição e determinação filológica, não desfrui de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano. Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.
Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio)
a quem muito agradecemos.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver  gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

Fotos cedidas por um familiar.


VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html

19 março 2017

Moçâmedes e a sua juventude nos anos 60. Os conjuntos Musicais




O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964
 Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964

 

?, Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964

Laurentino Jardim e Reinaldo Bento

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo


Os Goldfinger


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu





Os anos 60 do século XX constituem aquilo que se poderia considerar um século dentro do século, devido à intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais a tal ponto operadas, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes e continuam em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. 

Foi uma década em que, entre outros, surgiram os Beatles, os Rollings Stones, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc.  Tempo da revolução sexual, do movimento hippye, do culto às drogas e ao psicodélico, da utopia marxista, da Guerra Fria, do assassinato de Kennedy, da Guerra do Vietnam, da revolta estudantil em Paris, do cinema cult/experimental de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes.   

Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também, de algum modo, sentiram os efeitos dessas transformações que sopravam  dos EUA, onde surgiram nos anos 1950,  que alastraram pela Europa, acompanhando o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes vindas da Metrópole,  com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.

Vivíamos num quadro politico de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo, sempre atento à penetração e disseminação das ideias vindas de fora, através de livros, revistas, etc, essencialmente as ideias marxistas, consideradas altamente subversivas pelo regime.  Essa a grande preocupação. Já a penetração dos novos gostos musicais  fazia-se naturalmente,  com o surgimento das bandas musicais e através da moda, aspectos ligados ao lazer da vida que não sofriam quaisquer impedimentos.   Os primeiros passos surgiram com twist e o rock-n-roll, na segunda metade da década de 50, géneros  musicais que abriram as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock, que exigiam uma outra desenvoltura.   Nessa década em Moçâmedes, era o conjunto musical " Os Diabos do Ritmo", o principal conjunto  da cidade, aquele que  abrilhantava as festas que decorriam no Atlético ou no Casino,  onde até então filhos, pais, mães, avós, conviviam e se divertiam  num mesmo espaço. Ainda na década de 1950, o Rock n' Roll e o Twist conviviam entre nós com o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões.  
Foi na década de 60 que jovens adolescentes por toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª  Discoteca,  que entretanto inaugurou.


A verdade é que nada podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos,  as valsas, os pasodobles, etc,  que foram substituídos pelo  rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso, e arrebatavam a juventude.

Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento.    Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma daquelas belas mulheres da tribo  himba, do sul de Angola, Deserto do Namibe.  Foi assim que tive acesso a este livro, muito bem escrito e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda, o qual recomendo.
  
Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, mas das quais pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar, excepto as colocadas no início desta postagem.   Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70,  nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava a velha ordem, usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... Usando elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés,  olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...

Os anos 60 foram pois aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora trazendo uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.

Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, quando vigoravam os "salões românticos" onde se dançavam tangos, valsas, slows , etc. Entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc,  ganhava um outro dinamismo.  

O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreirasO avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos,  deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.
 
No nosso mundo em transformação  se é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraíu uma imensidão de  jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Não tivemos  movimentos de contestação estudantil  contra as injustiças sociais que eram muitas (o racismo, a pobreza, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc.), e que noutras latitudes levaram a confrontação com a polícia, etc.  Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podiam estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança  não tiveram uma expressão radical.  A música, a moda,  alguma  literatura clandestina de difícil acesso,  determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor, iam  contribuindo para as mudanças que foram acontecendo. 


 


Em Moçâmedes. as festas e os bailes passaram a decorrer, também, no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. "Os jovens já não querem mais divertir-se, indo aos mesmos bailes que os pais", dizia-se. Percebe-se a crítica e o receio ao que é novo. 




Cedida por Manuel Faustino

Foto: Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos e valores da juventude. Aqui há algo que  nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varrereram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual,  na postura.  Considero que estas fotos tem valor histórico. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam.


Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio jovenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc). 

Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  procurar e a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.Este também foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

 

    Baile na Paróquia. Cedida por um conterrâneo


Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. 

Outro exemplo foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.

 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 

Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo  Concilio Vaticano II que se estendeu e  chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África.  A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.

Seria bom que escrevessemos mais e publicássemos mais fotos sobre esta época e sobre os modos de ser e de estar desta geração.

A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime.




 MariaNJardim










ATENÇÃO:
Estas fotos são pertença dos nossos amigos e conterrâneos moçamedenses, pelo que ninguém, excepto aqueles a quem as mesmas dizem respeito, poderá daqui retirar algo sem a devida autorização, incorrendo em falta quem o fizer. Também o texto tem direitos de autor que devem ser respeitados.

MariaNJardim

15 março 2017

Finalistas da EICIDH e do Liceu de Moçâmedes

Finalistas do Liceu de Moçâmedes em 1973. Cedida por J Faustino

Finalistas da EICIDH de Moçâmedes
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 
  Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes. Judith Freitas com Governadot
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes.



03 março 2017

Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia




 
Brazão de Armas
Dado foi a este Povo enobrecido
Pelo seu valor nunca desmentido
Brazão d’Armas respresentado:
Escudo bem lançado, esquartelado,
No primeiro quartel. As sem rival
Armas do nosso q´rido Portugal!
Assenta em campo d’oiro verdadeiro
No segundo, um ramo de algodoeiro
Com cana d’ áçucar em aspas posto
Com inimitada arte e fino gosto,
Simbolizando então a Agricultura,
Que aos Povos traz riquezas e ventura
No terceiro, em campo de prata está,
A mostrar a riqueza que o Mar dá,
Barco de pesca verde sobre o Mar.
Assim podemos nós asseverar
- E a Verdade conhece-a bem o Mundo –
Que não há nenhum outro tão fecundo
E o verde do barco diz  -Esp`rança –
Pelo que – quem porfia sempre alcança!
E, mo campo vermelho, d’oiro o arado.
No quarto bem está simbolizado.
- Em gloriosa Data, a vez primeira.
Debaixo dessa lídima  Bandeira.
Lusas gentes e sem igual no Mundo –
Audazes, arrostanto o Mar profundo,
Vieram estar terras desbravar
E no solo sementes espalhar!
Num listão azul, posto em contrabanda
Fica a sobressair, numa cor branda,
Por lindas mãos de Fada bem bordada,
Legenda altiva e letra prateada:
O “Labor omnia vincit”, seu teor,
É lema deste Povo vencedor!
Repousa sobre o escudo c`roa mural,
Que é dum aspecto belo, senhorial!
Por timbre a Cruz vermelha e bem florida,
A Cruz cercada d’oiro e no Céu erguida –
Símbolo de Jesus: o Redentor,
Que aos homens trouxe Luz, Paz e Amor!
Moçâmedes, 04 de Agosto de 1935
António Menandro Guerra



Edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes (ex-Mossâmedes), ou Casa da Câmara, como era conhecida nos primórdios da sua fundação.

Edifício da Câmara Municipal, onde funcionou em tempos idos uma Escola. Postal de colecção particular

 
 O lado oposto do pateo.

 
Perpsectiva do interior do edificio





 


No livro «O Distrito de Moçâmedes», da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, encontrei este texto, que passo a transcrever:

«Moçâmedes, a gentil cidadezinha do Sul de Angola, possui , desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia.


A Câmara Municipal tendo
deliberado em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, aprovar o Brasão de Armas representado no desenho , que à mesma sessão fora presente , requerera ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.

Em Novembro do ano anterior havia passado por Moçâmedes o doutor Manuel Moreira Feio, na qualidade de secretário particular do eminente estadista
Mariano de Carvalho, que então empreendia uma viagem de estudo às nossas possessões africanas. A especial situação e o fino trato do doutor Moreira Feio, levaram a Câmara a solicitar-lhe a incumbência de obter dos Ministérios da Marinha e do Reino favorável e pronto despacho ao seu requerimento de 4 de Janeiro : de alcançar o respectivo diploma; de o fazer registar na repartição competente; de conseguir uma cópia do desenho do Brasão executada por artista da sua escolha; e de o mandar abrir em pedra para ser colocado num edifício destinado a Paços do Concelho, cuja construção a Câmara estava construindo. A esta solicitação, resolvida em sessão de 14 de Janeiro, anuiu prontamente o doutor Moreira Feio , que, em carta de 22 de Abril, comunicou à Câmara ter vencido as dificuldades inerentes ao processo de concessão, já desembaraçado àquela data dos Ministérios da Marinha e do Reino, e ainda da Procuradoria Geral da Coroa, estações oficiais por onde tivera de transitar. Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, referendado pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino Lopo Vaz de Sampaio e Melo. o decreto de 29 de Maio do mesmo ano, que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Municipio, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».

O Brasão de Armas do Município é composto, segundo o Decreto de 29 de Maio de 1891, do seguinte modo:- um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açuçar postos em aspas; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho,um arado de oiro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

A cultura da preciosa malvácea, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da Província, aquele por onde se fazia mais larga exportação de algodão. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no Distrito, merecera, de igual modo, por suas vantagens económicas, vigilantes cuidados aos antigos colonos, que viriam medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, a conhecida gramínea.

No terceiro quartel, avulta a mancha graciosa de um barco de pesca. É a animada representação da indústria piscatória so Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do Sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.

Nota-se no último quartel, o singelo recorte dum arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no Distrito, remontava, assim como a indústria piscatória , aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeavam-se então, luxuriantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

O simbolismo contido no Brasão de Armas do Municipio de Moçâmedes, perfeito na sua evocadora dignificação, exalta, num hino brilhante de colorido e opulento de harmonia, a firmeza do sentimento patriótico e a vida árdua de trabalho dos beneméritos fundadores do Distrito, realçando, para exemplo e incentivo das gerações vindouras, o êxito sem igual da sua obra magnifica de colonização.

O escudo das quinas, a insígnia heráldica da Nação, ocupa o primeiro quartel. Orgulhosos da sua Pátria, os antigos colonos adoptaram no Brasão de Armas do Município essa elegante e gloriosa divisa, que, na era dos Descobrimentos e Conquistas, pompeara por toda a Orbe, e ainda hoje se ostenta, ufanosamente, no Pendão Nacional. Anelando, com o melhoramento da própria condição, o prestígio e o engrandecimento de Portugal, os antigos colonos conseguiram, à custa de uma luta pertinaz, acerba por vrzes, erguer, no areal adusto da baía de Moçâmedes, a donairosa cidade de igual nome, e difundir por todo o Sul da Província, norteados pelo mesmo alto desígnio e fortalecidos pela mesma indómita vontade, o consolador benefício da civilização da Mãe-Pátria.

Figuram, no segundo quartel, doid emblemas expressivos: um ramo de algodoeiro e uma cana de açúcar. Indicam as espécies arbustivas mais cultivadas então no Distrito. A cultura da preciosa malvácea. iniciada, e da cana, as das plantas hortenses, e as das árvores frutíferas.

O conjunto, imponente pela eloquência dos símbolos e aprazível pelo encanto da policromia, é cortada em diagonal por uma faixa de côr azul, onde se lê o conhecido fragmento Labor Omnia Vincit dum verso das Geórgicas, o célebre poema didascálico de Virgilio. A máxima virgiliana «o trabalho tudo vence», sobreposta ao Brasão, traduz com nobresa, a epopeia de esforços e o assinalado triunfo dos antigos colonos, enaltecendo-lhes e glorificando-lhes a honrosa memória.

A corôa mural e a cruz florida, motivos ornamentais da arte heráldica, rematam superiormente o todo, dando-lhe graça, distinção e beleza.

O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal.

Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam.

Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá-lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as hontras e privilégios de que gozam as demais Câmaras que têm obtido igual mercê.

No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.

Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos.

A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. »

Curiosidades encontradas na Net:

Sobre as dificuldades orçamentais que desde sempre as Câmaras Minicipais se confrontavam, um mal antigo em relação ao qual, já em 1908 o Presidente em exercício da Câmara Municipal de Mossâmedes se manifestara atraves de oficio de congratulações dirigido a Braamcamp Freire, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pelas listas do Partido Republicano, cujo mandato lhe merecera inequívocos elogios:

"Congratula-se pois em ter ocasião de prestar homenagem à corporação a que V. Exª dignamente preside e que com raro valor tão sabiamente tem administrado, já zelando os interesses dos seus munícipes, já pugnando por que não sejam cerceadas as poucas regalias municipais e relegando a política para um plano tão inferior que ninguém a descortina nas vossas acertadas deliberações.
5(5) Anselmo Braancamp Freire (1849-1921) / Sua actividade política, José Miranda do Vale, Lisboa, Ed, Seara Nova, 1950, p, 66.
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Tambem na Net, encontrei esta Constituição da Câmara Municipal de Moçâmedes
para o biénio 1856-1857, eleita por sufrágio directo realizado a 16 de Dezembro de 1855:

Presidente: José Joaquim da Costa
Vice-Presidente: José António Lopes da Silva
Vereadores:
António Romano Franco
João Dolbeth e Costa
Joaquim da Silva Costa Fradellos

in “Programa das X Festas do Mar” – 1971
pesquisa de José Frade
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O primeiro Código Administrativo, promulgado para vigorar na Metrópole, em 16 de Março de 1842 (Costa Cabral), era, na época de que nos estamos ocupando, o principal diploma que também regulava nas províncias ultramarinas a acção administrativa nos Municípios. Logo na acta da primeira sessão da Câmara Municipal de Moçâmedes, de 02 de Janeiro de 1856, se faz referência àquele código, donde se presume, embora nele expressamente não se declare, que foi, com a sua publicação, tornado extensivo ao Ultramar. Assim devemos concluir, pois, que, no Decreto Orgânico das Províncias Ultramarinas, de 01 de Dezembro de 1869 (Rebelo da Silva), se lê que, nesta data, aquele código «se considerava em vigôr em todas as colónias». (Dec.Org. cit., artº 76).


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