18 julho 2018

O morro da Torre do Tombo. As «furnas» ou «grutas». As «inscrições»



O «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas históricas e numerosas «furnas» ou «grutas».
Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT


O «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas «furnas» ou «grutas». Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT

Hoje já nenhuma destas «inscrições», verdadeiras preciosidades, podem ser vistas, nem pelas gentes que habitam Moçâmedes, nem pelo visitante ou pelo turista que ali se desloque. Simplesmente porque elas já não existem. Porém na data em que esta foto foi tirada,  provavelmente já em finais do século XIX, ou inícios do século XX,  estas eram, como vem legendado, as mais recentes «inscrições» do morro da Torre do Tombo, a Ocidente da povoação. Também das inúmeras «grutas» ou «furnas» que percorriam a base do morro, já muito poucas restam e estas em estado de lastimosa  degradação. Nada disto foi preservado, nem no tempo colonial nem no pós-independência, por falta de consciência daquilo que é um património histórico da humanidade. Uma falta de consciência que persiste e se prolonga no tempo...




O MORRO DA TORRE DO TOMBO: «FURNAS» OU «GRUTAS»  E  «INSCRIÇÕES»



Escavadas a punho na rocha branda, desde tempos remotos, para servirem de abrigo a mareantes e  a corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada» antes de prosseguir viagem, ou seja, abasteciam-se de água potável na foz do Rio Bero, sitio que ficou conhecido por AGUADA, foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico. 
A mais remota informação à qual conseguimos aceder sobre este histórico local, vem-nos das Memórias «Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha». Este autor diz-nos que foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, enquanto comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa,  quem pela primeira vez registou as «inscrições» impressas na rocha branda do Morro da Torre do Tombo, quando fazia uma visita, em 1785,  à «Angra do Negro». E mais adianta que foi Pinheiro Furtado quem destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, que essas «inscrições» estavam datadas desde 1645 a 1770, como mais adiante se descreve. Aliás, pensa-se que tenha sido Pinheiro Furtado que m primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e colocando uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.



"Kemy 1723, II-IS-1766;

LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER GY 1665;

JAN DIER;

FRANCISCO DE BARROS,

BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;

o- FRN - PMO
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;

JOSÉ DA ROSA 1645;

MR 1649;

MEDIDA W 1768;

18-1770;

DE TONCHON;

RIO CONENE;

MUNDO en..65;

SF 1770;

Aqui esteve o patacho GOYA 1665;

MANUEL RODRIGUES COELHO;

MARTIM em 1770;

Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;

THOMAZ DE SOUSA;

O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;

O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;

Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;

JAN DIMMESEN 1669;

VNSSENGAE PARA 1669;

ADRIIEENDIRERSEN".

A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:  «1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES ». 

Existia no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes cópia de um documento onde se podia ler o seguinte: «...lembraram-se três moradores de Moçâmedes, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições...»  Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641. Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que a teria fixado em sua memória.

Devemos, finalmente, salientar o natural reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía». Diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665), acredita Sousa Dias, houvesse erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

"...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossamedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais."

"...Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. "

No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc.

Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias,"Pioneiros de Angola»)


(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes
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No ano de 1862, sobre este assunto refere o autor anónimo de um  livro bastante crítico então publicado, e assim intitulado

"Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem"


...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram àquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos.


Esta foto mostra-nos uma dessas "grutas" ou "furnas" que iam sendo utilizadas pelos proprietários das pescarias. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


Estas são as instalações pesqueiras da firma de Martins Pereira/ex Morgado& Morgado, de concessão régia. Aqui podemos ver, à direita, uma das  muitas "grutas" ou "furnas" ali encontradas, então encoberta  pelas instalações pesqueiras.  Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT







O morro da Torre do Tombo visto do mar. Esta é a zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira

 


Ao centro desta foto vêem-se as instalações pesqueiras de Martins Pereira  (ex-Morgado&Morgado, de concessão régia). Na metade esquerda da foto vêem-se mais algumas "grutas" ou "furnas" contornando a fase da falésia.



Esta foto mostra-nos várias "inscrições", de entre as quais  ÍNDIA e SADO. Ainda que nos pareçam
"inscrições" forjadas e não reais, a verdade é que os nomes ali impresos, INDIA e SADO, estão intimamente ligados à História de Moçâmedes.   

A "inscrição" SADO remete-nos para a chegada a Moçâmedes do brigue assim designado, em Julho de 1857, transportando consigo 12 alunos da Casa Pia de Lisboa, e uma colónia de 29 alemães. Iam com destino à colonização das Terras Altas de Mossâmedes, como então se designava o planalto da Huila, e com o patrocínio de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos, com a recomendação ao Governador para que constituíssem com eles uma aldeia que deveria denominar-se "KRUSS", apelido do contratador.  Este grupo, 16 dias após ter desembarcado em Moçâmedes, marchou rumo ao planalto durante 7 dias, com paragem de 2 dias no Bumbo, segundo informação de Francisco Godinho Cabral de Melo, de 22 de Junho de 1957. Acabou por desaparecer sem deixar vestígios, segundo refere Pereira do Nascimento (in "O Distrito de Mossamedes"), ou como refere Ponce de Leão no artº n. 4 do Jornal de Mossâmedes:  "Esfacelou-se pelos erros da sua organização"  (...) "Os alemães desgostosos perante os insucessos no interior acabaram por se estabelecer em Mossâmedes onde prestaram relevantes serviços".

Consultando o Boletim do Conselho Ultramarino: "Legislação Novissima", Volume 3 By Portugal, Conselho Ultramarino, podemos ver a lista dos nomes colonos alemães, bem como outros dados alusivos ao assunto.

Por esta altura os portugueses preferiam emigrar para o Brasil, a África era vista como um Cemitério para os europeus, devido a doenças mortais, como paludismo, malária, doença do sono que por lá livremente campeavam. O recurso era o envio de degredados para as colónias, gente não grata a cumprir as mais diversificadas penas, que em grande número por lá ficou e que deu mau nome à colonização.  No entanto, começava a ser difundida a ideia da benignidade do clima naquelas paragens do sul de Angola onde se haviam instalado os primeiros colonos fundadores de Moçâmedes, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos da Revolução Praeeira.

Quanto à "inscrição" ÍNDIA, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que  largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro de 1884, carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças e  mais uma criança, entretanto nascida a bordo, tendo por destino o planalto da Huila.  

Era o primeiro contingente de europeus que iam dar inicio ao povoamento branco das "Terras Altas  de Mossâmedes". Iam concretizar um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e de pressão internacional, enquanto na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884-1885), cujo objectivo era definir as regras para a partilha de África entre potências industrializadas. 

Portugal detinha os "direitos históricos" mas não  uma "ocupação efectiva". O interior era praticamente desconhecido, não obstante Serpa Pinto ter viajado em 1869 pela África Oriental em expedição ao Zambeze, e Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo Ivens terem, em 1877, sob os auspícios da Sociedade de Geografia, participado na travessia entre Angola e a  Contra-Costa, onde colheram todo um conjunto de registos geográficos, cartográficos e etnográficos com intenções políticas implícitas e bem definidas. A ocupação portuguesa encontrava-se reduzida a pequenos nucleos instalados nas cidades litorâneas de Luanda, Benguela e Moçâmedes, sendo ainda desconhecida a maior parte do interior do território angolano.

Dava-se assim início à colonização europeia do sul de Angola, uma precária colonização que por muito tempo esteve àquem da concretização do sonho do Visconde de Sá da Bandeira,  o liberal progressista que, aproveitando-se de uma conjuntura favorável após a queda do absolutismo em Portugal,  assinou e mandou publicar o  Decreto de 12 de Dezembro de 1836, visando a abolição do tráfico de escravos para  o Brasil e as Américas, e inaugurando um novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento para as colónias africanas. Mas foi apenas após a Conferência de Berlim que a ocupação passou a ser vista como uma prioridade.  

Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá consultar mais dados AQUI 





Mais uma foto do morro da Torre do Tombo, onde foram encontradas as «grutas» ou «furnas»  e as célebres «inscrições» , e onde surgiram as primeiras e rudimentares pescarias


Esta foto retrata a mesma zona das fotos anteriores, embora tirada de sul para norte. O morro de facto apresentava um aspecto desolador. Se "furnas" ou "grutas" existiam por ali nesta altura, estas encontravam-se praticamente cobertas pela movimentação das areias.

 Clicar sobre esta foto para ampliar.
Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica
 


Nesta foto que se pressupõe de finais do século XIX, mostra-nos o morro da Torre do Tombo  com as «grutas» ou «furnas» parecendo ainda soterradas pelas areias soltas acumuladas pelo vento que cobriam o morro até grande altura. Existem escritos dos quais existem cópias no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes que revelam que três moradores da povoação, em 1858, se lembraram de o desentulhar e de reproduzir as "inscrições". Nesses escritos encontravam-se descritas as inscrições, tal como Pinheiro Furtado as destacara num ofício, datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, onde referia que as mesmas estavam datadas desde 1645 a 1770. Não foi, porém referida inscrição de 1641. A este respeito consulte-se as Memórias «Histórico-Estatísticas de Brito Aranha.


Aqui de novo a Pescaria de João da Carma/ João Martins Pereira, apresentando aqui um estado lastimoso...

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SEGUEM FINALMENTE ALGUMAS DAS MEMÓRIAS QUE GUARDO DESTE HISTÓRICO LOCAL...



As "grutas" ou "furnas" dos meus avós





Para terminar, irei deixar aqui algumas das memórias ainda vivas e claras que possuo de momentos vividos na minha infância e na minha adolescência, intimamente ligados a este histórico local. 

Essas memórias tornaram-se mais transparentes quando deparei na net com esta foto há tanto desejada e finalmente conseguida.  A foto das "grutas" ou "furnas" que pertenceram à pescaria dos meus avós, situadas no morro da Torre do Tombo.

Embora estas foto não  mostrem na íntegra aquilo que de facto eram as citadas "grutas" ou "furnas", uma vez que apenas nos mostra uma parte da fachada, e estas já então se encontravam em estado de degradação, fica-se com uma ideia do seu exterior, bem do troço de escadas que conduziam à porta de entrada e das janelas existentes, como se fica também com uma ideia de como eram os quartos em adobe que existiam no exterior, e que serviam de apoio à pescaria. Enfim, uma paisagem da cor da areia, que me surge agora paupérrima e  triste, tal como a Moçâmedes do antigamente fora cantada por poetas que por lá passaram... 

 Moçâmedes beijada pelo Deserto
 


"A velha ponte-cais

de traves carcomidas,
O morro triste,

 a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre

 da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)



Minha tia Lidia e meu irmão à porta da entrada das "grutas" ou "furnas"que já denotava um certo grau de desgaste na pintura devido à salinidade do ar. 1940.
                                  



Direi contudo que naquele tempo foi com certo «requinte» atendendo ao tipo de construção, que meus avós transformaram numa casa de habitação essas 3  «grutas» ou «furnas» continuas que haviam sido cavadas a punho na rocha branda por corsários e mareantes que no decurso dos séculos pela velha "Angra do Negro" passaram, e ali fizeram aguada e descansaram antes de prosseguir viagem, ao ponto de quem estivesse lá dentro não tivesse a mínima sensação de enclausuramento. E como as 3 "grutas" ou "furnas" ficavam num plano elevado em relação à base do morro, foi preciso construir-se uma escadaria para a eles se ter acesso. Uma obra de arte! A verdade é que elas foram transformadas numa confortável habitação, com compartimentos de paredes rebocadas, caiadas, pintadas, quartos interligados entre si, ventilados através de janelas envidraçadas para o exterior e porta de entrada à qual se acedia subindo um troço de escadas em cimento, conforme se pode ver pela foto. 

Num dos compartimentos ficava uma sala comum, devidamente mobilada, com mesas, cadeiras, louceiro, um sofá onde se podia dormir, e pendurados encontravam-se um quadro e um relógio de parede. 

Noutro compartimento ficava o quarto de dormir,  que possuia uma cama de casal em ferro, duas mesas de cabeceira e um  armário guarda roupa. 

No terceiro compartimento ficava uma rudimentar casa de banho, com chuveiro desses ripo balde de fabrico artesanal, feitos de zinco ou latão, de colocar a água dentro, fazer subir e descer na direcção do tecto, com a ajuda  de uma corda, onde ficava pendurado, pois na Moçâmedes da época era o que havia, e ali sequer havia água canalizada, nem cacimbas, a água tinha que ser acarretada em baldes, ou levada para as habitações em barris puxados por  cordas, a partir de chafarizes.

Num cantinho junto da entrada, a "casa" dispunha de uma espécie de cozinha com um  fogão a petróleo, e lá fora havia um forno construído em tijolo e barro, com porta de abrir e fechar, onde se podia cozer o pão, os bolos, etc etc. 

O tecto das "grutas" ou "furnas" era alto e ligeiramente arredondado, em abóbada, e tal como as paredes da entrada, encontrava-se rebocado e caiado de branco.
Lembro-me que na parte de fora havia uns vasos com flores que davam alguma alegria àquele ambiente árido e rudimentar, e que meus avós tinham plantado nas proximidades uma oliveira, que nunca medrou. Talvez tivesse medrado  se antes tivessem plantado uma casuarina...  
Na verdade parece incrível que os meus avós tivessem conseguido transformar três daquelas «grutas» ou «furnas» na casa perfeitamente habitável que conhecemos, onde desfrutavam de todo o conforto.  Foi quando  por volta de 1935/1940 meus avós receberam uma herança de família vinda da Metrópole, que, dado o grande apreço que tinham  pelo dito local e pelas ditas "grutas" ou "furnas", resolveram investir com paixão no seu arranjo, embora tivessem a sua morada de família, numa casa grande e de boa construção para a época, no Bairro da Torre do Tombo, lá para os lados de uma pedreira que ali existia, no local onde mais tarde foi construida a Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes. 

É que as «grutas» ou «furnas» ficavam muito próximas do sitio onde o meu avô trabalhava, nos armazéns do Sindicato da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, cujas instalações ficavam ali pertinho, mesmo ao lado da fábrica de conservas que conhecemos por Sociedade Oceânica do Sul, S.O.S, e que nasceu como Fábrica Africana. E isso facilitava-lhe a gestão do tempo.  Sei que era ali que almoçava e dormia a sesta, regressando ao fim do dia para a casa grande da Torre do Tombo.

Trabalhavam na pescaria dos meus avós, não contratados, mas sim «quimbares», gente africana aportuguesa, descendente de antigos escravos naturalmente, mas naquele tempo já livres,  que se dedicavam voluntariamente à pesca à linha numa canôa (pequena embarcação), e ganhavam uma percentagem do pescado, com prévio acordo.
Resta referir que estas «grutas» ou «furnas»  pela forma tão bem cuidada com se encontravam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português, quem quando de passagem por Moçâmedes,  não deixavam de as visitar, conduzidos para ali naquele tempo pelo grande amigo de Moçâmedes, o muito estimado veterinário Dr. Carlos Carneiro.

Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas "grutas" ou "furnas" foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado.  Antes porém já havia sido visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que para ali se deslocou no automóvel do moçamedense Mário de Sousa (o conhecido proprietário de uma oficina de reparação de automóveis e de um taxi) para combinar o momento da visita. Mário de Sousa sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações. Era um tempo em que eram escassos os automóveis na cidade. (2)
Convém ainda referir que as ditas "grutas" ou "furnas» se encontravam registadas na Conservatória de Moçâmedes e pagavam imposto ao Estado. Aliás quando o  Presidente Carmona visitou Moçâmedes, em 1838, meu avó apresentou uma reclamação a esse respeito, considerando que pagava indevidamente imposto  por um bem que encontrou completamente abandonado,  inserido numa zona não urbanizada, completamente entregue aos proprietários das pescarias, na maioria pescadores, tendo eles que abrir carreiros, uma vez que sequer uma estrada digna ali havia, por onde pudessem passar. 

De início, como mostram algumas das fotos expostas, não havia estrada que permitisse avançar pela base do morro até à Ponta do Pau do Sul, porque o morro chegava ao mar. O acesso às primeiras pescarias que ali surgiram tinha que ser feito através das pequenas embarcações de pesca. Mais tarde  o trajecto passou a ser feito através de simples e atribulado carreiro, que ia dando sequencialmente acesso  às pescarias que percorriam a base do morro da Torre do Tombo. 

 Penso que as furnas ou grutas que acabei de citar são as mesmas  que podemos ver, nesta foto, no canto superior esquerdo.  Aqui, em primeiro plano vêem-se as instalações da Pescaria de João da Carma / João Martins Pereira

A partir da segunda metade do século XX Angola entrou numa fase decisiva do seu desenvolvimento, de que Moçâmedes muito beneficiou. Mas em Moçâmedes, na primeira metade do século XX, a precaridade dos meios era enorme e as ajudas estatais quase nulas.  Era ainda comum, tal como nos velhos tempos, fazerem-se subscrições entre os moradores para se levar por diante uma qualquer obra de interesse público, quando a ajuda do Estado não chegava. Foi assim que surgiu a iniciativa tomada por particulares,  proprietários de pescarias da zona sul da baia, de arcar com as despesas do alargamento do carreiro,  sendo contudo os  trabalhos desempenhados  por degredados metropolitanos  requisitados, que se encontravam a  cumprir pena na  Fortaleza.  A estreita  passagem que mais tarde passou a existir, foi pois objecto dessa intervenção.  Mas até à construção da Avenida Marginal e do Cais Comercial, iniciada em 1954, que levou ao desmantelamento  das pescarias,  o acesso às pescarias  ali existentes, como a foto imediatamente acima mostra, continuou servido por carreiros rudimentar,  reflexo da falta de consideração que existia em relação aos proprietários pescadores e pequenos industriais do ramo. Apenas o troço intermédio entre a Fábrica de Conservas S.O.S e os Armazéns do Sindicato da Pesca, mais tarde Grémio da Pesca, até próximo da pescaria dos meus avós, puderam beneficiar de uma estrada de terra batida que permitia um carro passar. O resto era praia.


 Eu e as velhas pescarias e a Avenida Felner, numa foto tirada pelo meu irmão, em 1955 do cimo do «morro» da Torre do Tombo, precisamente por cima do sitio onde ficavam  "grutas" ou "furnas" e  a pescaria dos meus avós



Nós, junto do morro, em 1955. Por esta altura estavam fazendo terraplanagens para as obras da marginal e cais acostável. Ao fundo, à esq. vêem-se algumas "furnas" ou "grutas"



 
 As eiras onde secavam o peixe


Em 1954 começaram finalmente as obras do cais, que levaram a que fossem retiradas  do morro ou falésia da Torre do Tombo toneladas de areia que foram que alteraram a morfologia do terreno. A estrada que então havia sequer  permitia a um carro avançar até às pescarias mais distantes, que ficavam mais a Sul. 
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LINO, UM DEGREDADO ESPECIAL...

 Já estávamos à beira de meados do século XX, e persistia ainda em Portugal a velha mania de fazer de Angola um lugar de destino para degredados a cumprir pena, tal como em séculos anteriores. Aliás de início era com degredados que se tentara colonizar, nesse tempo em que os portugueses se negavam a "emigrar" para África, devido à falta de saneamento, e à fama da malignidade do clima africano, fatal para europeus

Um desses degredados, o Sr LINO  foi protagonista de uma história que ouvi contada pelos meus avós na minha infância. Este senhor foi requisitado para o trabalho da abertura da estrada, na década de 1940.  Apesar de degredado era um bom homem, oriundo da Póvoa de Varzim, latoeiro de profissão, que sempre se  afirmou inocente em relação ao crime de assassinato que lhe fora atribuido. Os pescadores da Torre do Tombo acreditavam na sua inocência, consideravam-no uma pessoa educada e  de porte irrepreensível.  Tudo aconteceu num dia azarento para o pobre senhor  que ia  manhã cedo na sua bicicleta para o trabalho, e à berma da estrada, junto a uma ravina, encontrou caído um homem ensanguentado. Julgando-o ainda vivo, tentava arrastá-lo para a estrada a fim de pedir socorro, quando o assassino que se encontrava escondido, para se ilibar, incriminou-o,  pondo-se aos gritos e chamando-o  de "assassino... assassino..." .  

Assim foi encarcerado e enviado para Angola. Contava-se que apesar do apoio que tivera  em Moçâmedes, minado pelo desgosto, saudoso da sua terra e da sua família  (tinha uma filha a estudar para professora e teve que desistir), foi acometido de doença súbita enquanto fazia os trabalhos da estrada, e acabou por falecer a caminho do Hospital, enquanto estava a ser transportado numa tipóia. A prova da sua inocência chegou anos mais tarde, quando à beira da sua morte, o verdadeiro assassino, arrependido, confessou a sua culpa.
  (1) Estas informações foram-me fornecidas por uma tia minha, a Maria do Carmo, pessoa dotada de uma memória incrível  com quem muito aprendi sobre o que sei da vida do dia a a dia dos anos 30 e 40 em Moçâmedes.


MariaNJardim

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AINDA SOBRE AS «FURNAS» ou «GRUTAS», e sobre as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA TORRE DO TOMBO.
O que resta das mesmas e o significado histórico...





Na verdade conheci este local como às minhas mãos, porque era ali que ficavam as "grutas" ou "furnas" dos meus avós, a sua pescaria e a pescaria dos meus pais, esta lá mais para diante já próximo da Ponta do Pau do Sul, num local onde apenas se podia penetrar a pé. E em tempos mais recuados, apenas de barco.  


E também porque foi em Moçâmedes que nasceram meus pais, que nasci, que  casei e que nasceram os meus filhos. Na infância trepei algumas vezes este morro, de cima baixo e de baixo para cima, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, onde se guardavam os apetrechos, redes, anzóis, tambores de alcatrão, bidões de óleo, caixotes, latas de tinta, etc etc. Nunca pensei que fossem tantas! 

Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a falésia  da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a descoberto,  e mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância, não obstante as memórias que ainda hoje evocam.   Não admira!

Na Escola não fui sensibilizada para a importância deste histórico local. Nem eu nem ninguém!  Os programas das escolas, cingidos que se encontravam a regulamentos, não lhes deram qualquer atenção. Mais importante era aprendermos os apeadeiros dos Caminhos de Ferro portugueses, as serras, os montes e as montanhas do território metropolitano e ilhas adjacentes, etc, etc, que tínhamos que decorar.  A política de então era o silenciamento em relação às grandes questões que tocavam a todos nós! Éramos despolitizados, ao ponto de já em vésperas da independência de Angola, quando a onda dos nacionalismos já há muito se fazia sentir, sequer nos dávamos conta que estávamos construindo as nossas vidas sobre um barril de pólvora que a todo o momento poderia explodir. O regime político vigente, não permitia qualquer abertura. 

Hoje, já distante e amadurecida, consigo entender processo histórico que nos apanhou a todos desprevenidos, incapazes até de  avaliarmos in loco que este «morro», que estas «grutas» ou «furnas», como outros lhes preferem chamar, apesar do aspecto cinzento, árido, seco e agreste, estão carregadas de História, guardam muitas memórias ligadas a Moçâmedes, a Angola e a Portugal. Por isso mereciam ter chegado aos nossos dias preservadas, e  não maltratadas e destruidas. 


Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum,  que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas, gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro,  é também certo que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando, com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, na fase dos aterros e terraplanagens, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. 


Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer destinado no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos

Jamais poderemos esquecer que era ali, na velha "Angra do Negro" de Diogo Cão,  na «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, o ponto de passagem dos primeiros navegantes e corsários, nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo. E  que era ali que faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero (1), e  era no interior destas "grutas" ou "furnas" escavadas a punho na rocha branda, que descansavam antes de prosseguir viagem.

Escavadas a punho na rocha branda, desde tempos remotos, para servirem de abrigo a mareantes e  a corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada» antes de prosseguir viagem, ou seja, abasteciam-se de água potável na foz do Rio Bero, sitio que ficou conhecido por AGUADA, foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias.

Para além do historial que ficou para trás, elas serviram também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861,  sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.

Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz parte da História  de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola,  actualmente em processo de acelerada  degradação, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual.






 

Termino com este texto carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano, Mário Pinto de Andrade, fundador  do MPLA, que lembra a necessidade quanto possível da preservação deste histórico local, que já não guarda as velhas «inscrições» de grande valor histórico, mas que ainda pode oferecer à cidade, a Angola, e ao mundo, com a preservação das "grutas" ou "furnas" que restam, testemunhos da história desse mesmo Mundo.


"...A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»



 
in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].




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      Canôa/Embarcação
 Foto de finais do sec XIX
 As pescarias até meados de 1950
 
 Um trecho do morro de Torre do Tombo
 A pescaria de João da Carma


O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, onde ficavam as casas de traça portuguesa muito especial. de João Duarte, casas  muito apreciadas pelo visitante estrangeiro, e que pelo seu valor histórico e arquitectónico, seria de preservar, mas que se encontram, também elas, em estado avançado de degradação.

O aspecto actual das «grutas» ou «furnas» . Como se pode ver nesta zona o morro apresenta-se já bastante desgastado.
O meu irmão Amilcar e a tia Lidia à porta dessas "furnas" ou "grutas", em  1942. A tia Hélia a espreitar, e o avô Manuel Paulo sentado no interior, de perna cruzada.


Em 1954 no decurso de uma visita a Moçâmedes do Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram inícios as obras da marginal e cais acostável.

Em 1957 o 1º troço foi inaugurado, com a presença do Governador Geral. Na foto, momentos da inauguração, com a presença do Governador Geral.

Celísia Calão, basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo na década de 1950, entrega as chaves da cidade à chegada do Governador Geral.

 Entidades representantes das "Forças Vivas" da cidade de Moçâmedes recebem no cais o  Governador Geral. 


Com as terraplanagens, o morro sofreu vários desgastes e as "grutas" ou "furnas" igualmente. Posteriormente estas têm vindo a sofrer, progressivamente, a erosão do tempo.




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MariaNJardim







(1) Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito.  Não admira, o início do século XIX foi um tempo de estagnação no  desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola.

Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes. Assim a preto e branco Moçâmedes (Namibe) apresenta um aspecto muito triste, como aliás devia ser, e que já nada tem a ver com aquilo em que se foi transformando ao longo do tempo, sobretudo a partir de meados do século XX . 

Corriam então os tempos que antecederam a implantação da l República em 1910,  tempos de total anarquia em Angola, tendo muitos  portugueses sido levados a abandonar o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi melhor. Desde a Conferência de Berlim (1884-5) procurava-se, com muita dificuldade, fixar as bases de uma nova administração,  promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Este foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de Matos, que em 1912 havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta dos autóctones eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque. Muito haveria mais para dizer...




16 julho 2018


 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 Foto de Amílcar Sousa Almeida.

Foto de Amílcar Sousa Almeida.

 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 




CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO (CEI)

(I)
Em inícios de 1956, com 19 anos, tomei a decisão de vir para Portugal, prosseguir os meus estudos. Tinha feito em regime “post laboral” a Secção Preparatória para os Institutos Comerciais, uma “ponte” para a licenciatura em Economia.

As condições da “luta” que levou o poder de Lisboa à criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na Escola Comercial de Moçâmedes, foram objecto dum texto que já publicámos.

Decisão muito difícil de tomar. Ia deixar a minha terra, a minha família e os meus amigos, além de um “bom” emprego no Grémio da Pesca.

Mas tinha que ser assim. Na época não havia Ensino Universitário em Angola e quem quisesse obter uma formação “superior” tinha de o fazer obrigatoriamente na “Metrópole”.

O regime da ditadura tinha receio que a criação de universidades nas suas colónias de África fosse uma “porta escancarada” para reivindicações de independências futuras. Os “senhores” de Lisboa não queriam nem pensar em “novos Brazis” na “sua” África.

Escrevi então para o ex-colega da Escola de Pesca, Vítor Manuel Figueiredo, que já estava em Lisboa preparando o seu acesso ao curso de Arquitectura. O Vítor era sócio da Casa dos Estudantes do Império que dispunha de uma cantina e de um lar residencial próprios.

Parti para Lisboa em Março de 1956, no paquete “Império”.

À chegada, na gare de Alcântara, lá o estava o amigo Vítor Manuel à minha espera. Dali seguimos para a Casa dos Estudantes do Império, no nº 23 da Avenida Duque de Ávila, a fim de regularizar a minha situação como seu associado.

De seguida fomos para o lar da CEI na Praça Pasteur, no Areeiro, onde fiquei instalado na companhia do amigo Vítor.

O ambiente foi desde logo muito animador, na CEI cruzávamo-nos com estudantes universitários de todas as faculdades e oriundos de todas as colónias: angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, santomenses, macaístas e timorenses.

As refeições da cantina eram boas e a preços acessíveis. No Lar habituámo-nos a estudar ao lado de companheiros de Medicina, Direito, Economia, Engenharia e Veterinária.
A iniciar o Instituto Comercial, sentíamo-nos “pequeninos” ao lado deles. Mas era estimulante para seguir em frente e por de lado as saudades que apertavam da terra e da família. Como disse o poeta cabo-verdiano e sócio da CEI, Tomás Medeiros, a Casa era “o cantinho de saudade, o ponto de encontro com a terra distante”.

A CEI dispunha de um posto médico, para consultas e tratamentos. Era médico da CEI o “cardiologista” Dr. Arménio Ferreira, o “nosso quimbanda”, como o tratávamos familiarmente, que viria a conhecer como “um grande antifascista”.

Devo muito ao Dr. Arménio: um ano mais tarde, em consequência de uma pancada no ventre num jogo de futebol no Instituo, sofri de uma peritonite. O Dr. Arménio diagnosticou-me “a tempo” e internou-me no Hospital de Jesus, onde fui operado de urgência, assumindo ele as despesas até ao retorno dos meus pais. A CEI promovia ainda “tardes desportivas”, “bailes”, festas de Natal e conferências culturais. Mantinha um Boletim “A Mensagem”. A cantina servia diariamente à volta de 200 refeições, a preços módicos.

A Casa dos Estudantes do Império, “a Casa”, como carinhosamente a tratávamos, como seria natural face à ditadura, foi o “alforge” duma geração de futuros dirigentes das colónias após as independências. Recordo-me de ver o Dr. Agostinho Neto a almoçar numa mesa ao nosso lado, ele que viria a ser o futuro presidente de Angola independente.

Em Agosto de 1965 numa repressão generalizada da ditadura às associações de estudantes, a PIDE, a mando do ditador, encerrou a CEI e confiscou todo o seu “recheio”, o que causou enormes prejuízos aos estudantes ultramarinos.

Estudantes de Moçâmedes, Torre do Tombo, que, na época, fizeram parte dos órgãos directivos da CEI: Manuel Monteiro, Amílcar Almeida, Júlio Almeida e Ângelo Almeida.

08 julho 2018

Os nossos hippies, em 1972 , na Discoteca CARDIN, em Moçâmedes Fotos de Manuel Faustino e outras,,,




Fotos de Manuel Faustino



Estas fotos são históricas!

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos da juventude. Aqui há algo que nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual, na postura...


Esta foto marca uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam. 

Não é que a nossa juventude , neste cantinho dos confins de África, tivesse recebido a influência das movimentações estudantis que tiveram lugar em Berkeley e Columbia em São Francisco e Nova Iorque, nem  da onda contestatária estudantil do 28 de Maio 68 em Paris. Os nossos jovens eram bastante jovens, alheados da política, despreocupados da guerra-fria e da luta pelos direitos cívicos, e de outras lutas que tais, que protestavam então contra as injustiças do sistema capitalista. Não admira que assim fosse, porque eram muito jovens e porque vivíamos em ditadura, e tudo, tudo o que era publicado, noticias, revistas, jornais, livros, rádio, etc , era filtrado pela acção da censura. Excepto a música e a moda. E esses tempos ficaram  marcados pelo Rock n’ Roll mundial como surgimento de de grandes bandas, e diferentes subgêneros. Nomes como Lonnie Donegan, Bob Dylan, Joan Baez, Richie Havens, Clif Richards, os Beatles e outros tantos que influenciaram toda uma geração. E os nossos jovens também queriam romper com a tradição, queriam divertir-se, queriam integrar-se no seu tempo. A moda e a música foram a saída. E Moçâmedes lá teve a sua Discoteca , a CARDIN, onde os jovens, rapazes e raparigas, longe da vigilância dos pais, podiam conviver e divertir-se no seu mais completo à vontade.  Sou de uma geração anterior, e gostaria que jovens desse tempo  em Moçâmedes contassem as suas experiência vividas nesse mundo em mudança.


No interior da discoteca CARDIN, onde os jovens, rapazes e raparigas, podiam conviver e divertir-se sem a vigilância dos adultos.  Muito formalismo, excepto cabelos compridos dos rapazes, talvez calças boca de sino, aqui não há resquícios de indumentária hippie.


Por essa altura e a par das grandes transformações que se iam operando ao nível das mentalidades no mundo Ocidental, a Igreja na pessoa do padre Martinho Noronha  tomou posição e procurou atrair a juventude para a paróquia, onde igualmente se poderiam divertir protegidos dos perigos do consumo da droga que começava a penetrar entre a nossa juventude e inquietava grandemente as famílias.
 
Seria interessante se os próprios por eles mesmos nos contarem-nos,  através da pena, como era essa vivência, e quanto a influência do movimento hippie teve entre eles, e se  reflectiu na sua geração. 

MariaNJardim