16 agosto 2017

Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores


Os transportes e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento e por tal em Moçâmedes foi necessário aplicar os conhecimentos levados pelos colonos idos de Portugal e de Pernambuco (Brasil) a fim de se constituirem meios de transporte que facilitassem a deslocação de pessoas e de mercadorias.



Conforme «Anais do Muncípio de Moçâmedes», de início, após a chegada dos primeiros colonos do Brasil a Moçâmedes, o transporte utilizado era o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó, as viaturas dos animais de tracção e sela. Contudo, deve também figurar neste período, o camelo oriundo das Canárias e introduzido por JOAQUIM DA PAIVA FERREIRA, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.


O camelo, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Mossâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, pedra, cal, adobe, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, etc., etc.


O «carro boer», destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam onde houvesse mercadorias ou onde estas fosssem produzidas que se fazia a sua distribuição pelos locais onde eram procuradas por consumidores impossibilitados de as adquirir.Era um veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes sob um toldo curvo de lona, e surgiu em 1881, com a chegada às terras altas da Huíla de familias emigrantes do Transvaal (boers) que se fixaram na região da Humpata.


O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado por um condutor.


Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegara-se a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Os habitantes de Moçãmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Moçâmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.


24 julho 2017

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18 julho 2017

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio

João Thomás da Fonseca

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, D. Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste (Celeste Fonseca Robalo), por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mocuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com sua posição de industrial de pesca  bem sucedido.  Na foto, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mocuio, com Mocuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mocuio.  E foi ali, naquela praia deserta pequena e inacessível, situada a sul de Benguela, no distrito de Moçâmedes,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, onde vales secos foram no rodar dos tempos substituindo  rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que necessitavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mocuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas  para o nordeste americano, em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos. A pescaria dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mocuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mocuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mocuio, devido à tubagem de cobre das canalizações.

A pescaria do Mocuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres, uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975.



 
Foto: Estas são duas das mais recentes fotos do Mocuio, através da qual podemos ainda ver, 35 anos depois, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante chalet, sua imagem de marca. Na continuidade do Mocuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mocuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres.


Foto: A pescaria do Mocuio nos  tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.



Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mocuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a ter em conta a indumentária das senhoras. Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  por destacamentos alemães, bem como a submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...

Em África, naquele tempo era assim!  Ver em  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas? 
Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.

Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Algumas destas fotos foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o primo João por as ter tirado para o nosso blog! Não resisti!

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Um pouco de História alusiva ...


Recuando na História, a primeira pescaria instalada em praias do Distrito de Moçâmedes/Namibe foi fundada pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães, em 1843, na sequência de um acordo com "sobas" da região para instalação de colonos, Em 1840  havia sido fundado o Presídio. Mas tal como outras feitorias fundadas a seguir, não obstante as actividades exercidas e as exportações efectuadas, também esta não teve continuidade.Uns anos após a rainha D. Maria enviava a graça de 1000 anzóis para Moçâmedes, por constatar que era terra de muito peixe...


Na Metrópole, já com séculos de presença portuguesa em terras de Angola, era praticamente desconhecida toda região litoral a sul de Benguela bem como o Interland. A colonização na zona teve início apenas em meados do Século XIX, com a fixação paulatina de famílias portuguesas, a começar com a primeira "leva" de colonos vindos de Pernambuco (Brasil), fugidos da onda revolucionária que emergiu em Pernambuco e colocava em perigo as suas vidas. Estes pioneiros embora dedicados essencialmente à agricultura  nos vales férteis dos Rios Bero e Giraul, chegaram a montar pequenas pescarias nas praias a norte de Moçâmedes, que se encontravam  entregues a serviçais indígenas (quimbares) que  pescavam em pequenos barcos, enquanto os proprietários continuavam a a residir em Moçâmedes. O pescado destinava-se a consumo da escassa população.

A seguir aos luso-brasileiros, no início da década de 1860, começaram a chegar a Moçâmedes os primeiros algarvios vindos de Olhão, viajando de conta própria e servindo-se nas suas viagens de caiques, palhabotes e outros barcos à vela.  Moçâmedes era o porto de chegada, mas logo se dispersaram por  tudo quanto eram praias e enseadas desérticas preferencialmente a sul de Moçâmedes, onde montaram as suas pescarias.  Importa referir contudo que, segundo relatórios oficiais,  a pesca no Mocuio e na Baia das Pipas foi licenciada em 1854, ainda antes dos olhanenses se fixaram.   Em 1857 há referências que havia em  Moçâmedes, e em mais 4 praias a norte até à Lucira, 16 pescarias com 40 escaleres, onde trabalhavam 280 escravos.   

Estranha-se que estes dados sejam para a história da região pouco considerados, uma vez que quase todos os escritos apontam o arranque da industria de pesca, em 1861, com a chegada dos primeiros algarvios de Olhão às costas de Moçâmedes,

Assim, o ponto de chegada  era de início Moçâmedes, mas logo a fixação passou a fazer-se também em Porto Alexandre, e alguns anos após, em 1865, a Baía dos Tigres. A notícia da fartura de pescado na Baía dos Tigres foi dada aos nossos pescadores pelos tripulantes dos baleeiros americanos que demandavam a zona a partir da Ilha de Santa Helena e que frequentavam a costa de Moçâmedes onde se iam abastecer de frescos e para comerciar cera e marfim.

Convém salientar que a fixação de famílias portuguesas no distrito de Moçâmedes, é posterior à publicação do decreto de Sá da Bandeira que em 1836 aboliu o tráfico de escravos, ainda que o mesmo tráfico se tivesse mantido na clandestinidade por décadas e fosse definitivamente abolido 1869. Durante este período a costa angolana esteve sob vigilância, patrulhada  por navios das marinhas portuguesa e inglesa, e as áreas económicas do distrito, então em formação, essencialmente a agricultura e pescas,  viram-se preteridas do acesso à necessária mão de obra indígena, dado que os serviçais livres ou escravos, ao aperceberem-se do que estava a passar, escapavam-se para as suas terras de origem à primeira oportunidade. Foram os algarvios de Olhão que vieram colmatar essa falta, ajudando-os lusobrasileiros nesses tempos de crise. 

Diz-se que com a o decreto da abolição e a proibição dos embarques a partir de Luanda e de Benguela por onde escoava o tráfico para o Brasil e Américas, os mesmos passaram a fazer-se clandestinamente a partir do Ambriz e a norte de Moçâmedes. Acreditamos que assim fosse, aliás há referências de que o nome "Baía das Pipas" provem do facto de em 1842 a estação naval portuguesa ter queimado ali, onde estavam armazenadas, grande número de pipas destinadas a embarque em navio negreiro.

Os algarvios em relação à pesca tiveram uma adaptação mais feliz que os luso-brasileiros que se dedicavam essencialmente à agricultura.  A vida era difícil, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco, e que apesar das difíceis condições, era exportado para algumas colónias africanas, ainda que de início muitas toneladas de produto fossem destruídas, ainda em Angola, devido às condições de tratamento, infiltração de areias, etc. A adaptação dos algarvios foi ao ponto de se fixarem com êxito em praias onde não existia água doce disponível, e sequer se vislumbrava um ponto verde no horizonte. O exemplo da Baía dos Tigres, povoação actualmente abandonada, é crucial. Aliás o próprio estado português tardou em dar-lhes o apoio de que necessitavam por se entender que aquela zona não tinha as condições suficientes para a sobrevivência digna. O apoio chegou bastante mais tarde.

Com o rodar dos tempos, a indústria pesqueira no distrito de Moçâmedes foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Surgiram fábricas de enlatados, conseguiam preparar óleo e farinha de peixe que exportavam sendo valiosa a ajuda dos Serviços Veterinários que se instalaram em Moçâmedes, veio o negócio do peixe refrigerado e congelado, que era transportado para os consumidores  por caminho-de-ferro.  Em meados do século XX, o grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes.

Em 1929  o Sindicato da Industria da Pesca de Moçâmedes  foi criado com o nome de Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, tendo como 1º Presidente o Dr. Carlos Alberto Torres Garcia. Tentava-se com a sua criação debelar a crise que se instalara no sector, na década anterior, devido à crise de mercados de consumo que fizera paralisar o escoamento do peixe que se acumulava nos armazéns, ao ponto de ter sido deitado de novo ao mar. Chegara-se ao ponto do Sindicato ter que dar senhas de crédito aos pequenos industriais/pescadores possuidores de sacadas para pagamento do peixe que lhes ia sendo entregue. Contudo, julgava que com o Sindicato das Pesca os problemas estaria resolvido, não foi isso que aconteceu. Logo após a sua formação geraram-se dois grupos, de industriais/ /exportadores que se «guerreavam» entre si, criando situações complicadas, com a acumulação de dívidas, acções em tribunais, etc. De acordo com a orientação dada ao Sindicato, este não obrigava à sindicalização, e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se ao ponto de os Sindicatos serem dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca e os industriais//exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo até que o Governo Geral acabou demitindo.
 
Com o aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria, o Sindicato da Pesca e Comércio de Moçâmedes, criado no ano da grande crise da indústria pesqueira que a todos afectou e que foi decisiva para construção das primeiras fábricas de transformação de peixe em farinha e óleo, foi extinto, e criado em seu lugar, em 1 de Maio de 1949, o Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes, com o fim de organizar a indústria de peixe seco e farinhas e óleos de peixe, que até àquela data, como referia um Relatório, vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas.
 
O Grémio dos Industriais de Pesca viria a extinguir-se também, por força plano da reestruturação da Indústria de Pesca de Angola e a criação do  Instituto das Industrias de Pesca de Angola, com sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção, com o fim de orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua transformação e o comércio dos produtos fabricados, coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins.

Por sua vez, o Instituto da Pesca de Angola , que teve o Dr. Andrade como 1º Presidente, em 1970 criou as suas «secretarias» regionais, ou seja, Institutos da Pesca nas capitais de distrito dedicados à pesca, tais como Benguela, Porto Amboim e Luanda. facto que levou os industriais do distrito de Moçâmedes a se organizarem, através da criação da Associação dos Industriais de Pesca, só que agora alguns, poucos, ficaram preferivelmente de fora, isolados, como foi o caso de Gaspar Gonçalo Madeira, que exportava individualmente tendo para tal aberto uma empresa independente em Lourenço Marques (finais de 50). peixe seco meia cura e ultimamente congelado.

Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca

Finalmente, Moçâmedes exibia já em vésperas da Independência de Angola (1974), 86 sócios inscritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva, Lx 2005:

No seu livro «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva», Lx 2005, Carlos Cristão refere que em vésperas da independência de Angola, em 31/12/74, era a seguinte a relação das empresas industriais dedicadas à pesca em todo o distrito de Moçâmedes, entre as quais figura a de João Thomás da Fonseca & Cª:


A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes/Canjeque)

A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)

Um Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)

Abano & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)

Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)

Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)

Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)

Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)

António Francisco Antunes (Porto Alexandre)

António Francisco Baraço (Herds) (Moçâmedes)

Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)

Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)

Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)

Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)

Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)

Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)

Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)

Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)

Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)

Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. ( Cipesca-Moçâmedes)

Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)

Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)

Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)

Costa & Silva, Lda.

Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)

Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)

Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. Farinhas e Oleos de Peixe, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. e Mercantil de Pescas, SARL (Moçâmedes)

Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)

Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)

Francisco Baptista (Porto Alexandre)

Herds Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)

Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)

Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)

J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)

João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)

João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)

Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)

José Dias Ferreira (Moçâmedes)

José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)

José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)

José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)

José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)

Juventino Ferreira Graça , Lda. (Porto Alexandre)

Mamedes Sucessores, Lda. (Porto Alexandre)

Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)

Manuel Mendes Mamedes, Herds. (Porto Alexandre)

Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)

Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)

Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)

Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçamedes)

Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)

Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)

Pescarias Namibe, Lda. (Moçâmedes)

Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)

Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)

Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)

Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (ARAN - Moçâmedes)

Sociedade Congeladora do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade de Conservas da Lucira, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Lucira)

Sociedade de Pesca da Lucira, Lda. (Lucira)

Sociedade Piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Piscatoria do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)

Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)

Sopesca, Sociedade Ang. de Pescarias SARL. (Moçâmedes)

Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)

Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)

Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda. (Moçâmedes)

Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)


Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio? 

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de, no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”. É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida na loquela local e, por definição e determinação filológica, não desfrui de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano. Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.
Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio)
a quem muito agradecemos.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver  gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

Fotos cedidas por um familiar.


VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html

19 março 2017

Conjuntos Musicais na Moçâmedes de outros tempos





O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964
 Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964
 

?, Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964

Laurentino Jardim e Reinaldo Bento

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo


Os Goldfinger


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu

Os anos 60 do século XX constituem aquilo que se poderia considerar um século dentro do século, devido à intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais a tal ponto operadas, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes e continuam em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi um uma década em que, entre outros, surgiram os Beatles, os Rollings Stones, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc.  Foi  o  tempo da revolução sexual, do movimento hippye, do culto às drogas e ao psicodélico, da utopia marxista, da Guerra Fria, do assassinato de Kennedy, da Guerra do Vietnam, da revolta estudantil em Paris, do cinema cult/experimental de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes.   Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também, de algum modo, sentiram os efeitos dessas transformações que sopravam  dos EUA, onde surgiram nos anos 1950.

Vivíamos num quadro politico de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo sempre atento à penetração e disseminação das ideias marxistas, consideradas altamente subversivas, contudo ao nível  das bandas musicais, não se verificou impedimento à penetração de alguma  influência desse movimento de CONTRA CULTURA, que embora tardio, veio para ficar.  A década de 60 foi sem dúvida aquela em que se deu o despertar do Rock'n Roll,  estilo musical que abriu as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock. Jovens adolescentes por toda a Angola formavam bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que os nossos jovens escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na Discoteca, que entretanto inaugurou.

Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve.   Tive o grato prazer de receber em minha casa , pelo correio, um exemplar do mesmo livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci e recomendo. O livro inclui na pg 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma bela mulher da tribo  himba do sul de Angola, Deserto do Namibe, as chamadas "mulheres de vermelho".  Foi assim que tive acesso a este belo  livro, muito bem escrito e ilustrado, testemunho de uma época, no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda.  Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, mas das quais pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70. Ou seja nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" usava, eles cabelo comprido à beatle, calças boca de sino, andava despreocupado mascando swinga, quando não calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto. Elas,   mini-saia, pernas ao léu, saias floridas até aos pés como as hippyes,  tira amarrada na cabeça, cigarro na boca.

Este também foi o tempo da introdução do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Aquilo que posso aqui descrever não irá  além daquela que foi a época que antecedeu a do movimento hippye e a todas estas mudanças. Portanto a metade da década de 1950 e o início da década de 1960, altura em que o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões começaram a conviver com twist e o rock-n-roll, géneros  musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e cabia aos conjuntos musicais existentes, como "Os Diabos do Ritmo",  abrilhantar as festas da chamada cidade branca, em clubes de bairro e outras colectividades, em Moçâmedes, no Atlético, no Casino, no Ferrovia, etc, em que filhos, pais, mães, avós, conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.




 



Nos anos 60 o controle familiar começara a afrouxar ao impacto das novas liberdadesos. Os salões românticos cederam lugar às discotecas onde tudo ganhava dinamismo, desde as luzes aos corpos. Os jovens construíram um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se, na mais completa liberdade, sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950.

Em Moçâmedes. as festas e os bailes antes efectuados no interior dos salões dos clubes da cidade, passaram a decorrer, também, no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. "Os jovens já não querem mais divertir-se, indo aos mesmos bailes que os pais", dizia-se. Percebe-se a crítica e o receio ao que é novo. 
 
Em meio a um mundo em transformação, alguns párocos no interior da Igreja católica, rompendo a tradicional resistência à mudança, procuram chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências. Em simultâneo os eventos visavam resgatar valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.




 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 
 
 
 Um dos exemplos foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.

 Em 1972, com outros jovens,fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.




 

Importa referir que em Moçâmedes foi  o Padre Martinho Noronha, um dos promotores do movimentodesta cauasa dedicadas aos jovens paroquianos, procurando, naturalmente desviá-los dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças.

  
Retenha-se que no campo político,  o Concilio Vaticano II  que chegara ao fim (1965), ficou marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África. A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso. 

Mas a década de 1960  veio marcar também a passavam para uma sociedade mais integrada que favoreceu a adesão  das populações autóctones assimiladas. Uma mudança de paradigma  impulsionada por factores vários, entre os quais o descontentamento da população negra, o surgimento dos movimentos de libertação, o início da guerra colonial, as pressões da ONU, as posições de  grandes potências que se disputavam na cena mundial, EUA/URSS, e que levaram a profundas alterações nos sistemas social e económico. 

Foi  a partir da década de 1960, a década de todos os descontentamentos, de todas as mudanças e de novas situações, que surgiu em Angola, ao nível das cidades, um sistema de vida mais cosmopolita, que ficou a dever-se, sobretudo, ao novo ciclo de expansão económica, e à grande movimentação de gentes vindas da Metrópole e ali fixada desde 1961, de que Moçâmedes  e as outras cidades muito beneficiaram,  mas que  se reflectiu sobremaneira ao nível da capital.

Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime...
 

15 março 2017

Finalistas da EICIDH e do Liceu de Moçâmedes

Finalistas do Liceu de Moçâmedes em 1973. Cedida por J Faustino

Finalistas da EICIDH de Moçâmedes
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 
  Finalistas da EICIDH de Moçâmedes 1972
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes. Judith Freitas com Governadot
 Finalistas da EICIDH de Moçâmedes.



10 março 2017

Avenida de Moçâmedes



 Gravura antiga da vila de Mossâmedes e rua da Praia, em primeiro plano.






O capitão Fernando da Costa Leal, quinto governador de Moçâmedes (então Mossâmedes) (1854-1959).
 



Ainda Moçâmedes se escrevia com "ss", não existia a longa e atractiva Avenida que no meu tempo conheci como "Avenida da República", porém já nesta altura, último quartel do século XIX, estava reservado o espaço para ela, graças à primitiva planta da povoação, delineada pelo talentoso e jovem Governador, Fernando da Costa Leal, homem de grande iniciativa, valor, e  rara tenacidade, que a concebeu com ruas largas, traçadas em rectas à boa maneira pombalina, ao mesmo tempo animando os colonos a construírem prédios de agradável aspecto. Moçâmedes era então para o forasteiro vista como um exemplo de cidade moderna jardim, cidade modelo que nada tinha a ver com as caóticas Luanda e Benguela de povoamento caótico. No livro «Quarenta e cinco dias em Angola», de 1861, o autor refere a necessidade de "primeiro plantar ao longo da praia cinco fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defesa, para ao abrigo dela ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira, essa mesma serve de resguardo às que depois quiserem fazer." Há também referencias de que o Governador Leal tentara edificar a vila "no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a comodidade dos desembarques, e sobretudo o receio que muitos tinham que ali se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa.Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado. A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquele governador a encontrou a pequena profundidade.
 
 
Segundo "Archivo Picttoresco", volume X, de 1867, portanto apenas 18 anos após a chegada dos colonos fundadores vindos de Pernambuco (Brasil) em 1849,  as principais ruas de Moçâmedes ( ascendeu a vila em 1855),  paralelas ao mar eram assim designadas: a da Praia do Bonfim (onde fica a Alfândega e os Correios), a rua dos Pescadores, a rua do Alferes, a rua do Calheiros e a da Boa Vista. As transversais eram a dos Prazeres e de S. João, que cortam a da Praia do Bonfim; a da Alegria e do Bom Jardim, que cortam a do Calheiros; e a Formosa que corta a da Boa Vista. As ruas transversais eram: a dos Prazeres, a do Calheiros. Vem referida a existência das travessas de Santo António, da Cancella, da Alfândega, e das Flores, que partem da Rua da Praia do Bonfim e terminam na do Calheiros. O quadrado formado pelas ruas da Boa Vista, da Alegria, do Calheiros e do Bom Jardim, onde não havia então ainda as respectivas edificações, era destinada a uma bela praça, a qual se iria denominar Praça D Luiz. Com frente para esta praça, em um dos ângulos da Rua Formosa devia erigir-se o edifício para os Paços do Concelho, e no outro ângulo, a casa para o teatro, a pensar nas necessidades dos munícipes, na distracção dos habitantes, no alivio das canseiras trabalho, e como distracção de aborrecimentos e perigos do ócio. Assim testemunhavam autarcas não indiferentes ao conforto população . Conforme o projecto inicial conservou-se sempre a regularidade no alinhamento das mesmas e na construção dos edifícios. O edifício da Alfândega, a porta de entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia, onde foi na década de 1940 erguido o Cine Teatro Moçâmedes. Por esta altura e como se pode ver pelas fotos , em frente ao edifício da Alfândega, e paralelamente a ele, levantou-se um telheiro de madeira com cerca de 9 metros de altura e 23 metros de fundo, apoiado em 12 pilares de madeira que assentam em socos de cantaria. Serve de abrigo a escaleres da alfândega e às mercadorias que tinham que desembarcar a horas em que a repartição esteja fechada.




Esta foto, de finais do último quartel do século XIX mostra-nos a Avenida a desenhar-se em paralelo com a Rua da Praia do Bonfim, então mais conhecida simplesmente por "Rua da Praia", mantendo ainda alguns dos primitivos barracões, porém já preenchida com algumas árvores (coqueiros?)...
 
Foto de um trecho da Avenida em dia de festa. Pressupõe-se tenha sido tirada por ocasião da visita do Principe Real D. Luiz Filipe, filho do Rei D. Carlos, em 1907, quando a Vila subiu a real cidade.



Avenida D. Luiz


A Avenida foi denominada "Avenida D. Luiz", em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II, e passou a denominar-se "Avenida da Republica" após a queda da Monarquia Constitucional, em 1910. Um espaço que desde logo transformou num vasto espaço de confraternização e lazer, como se pode ver.

Não admira, naquele tempo estava em voga o "Passeio Público" uma moda vinda de Paris à qual os portugueses aderiram, e que  perdurou por algum tempo após a reconstrução da cidade de Lisboa por Marquês de Pombal, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade.

Para dar um aspecto agradável às cidades, os urbanistas da época preocupavam-se com a abertura de espaço verdes de lazer e manifestações públicas e escolhiam para tal locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros. E foi assim que, ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, de início denominada "rua da Praia" nasceu essa bela, vasta e longitudinal Avenid de acordo com o projecto de  Fernando da Costa Leal, ao adoptar a metodologia pombalina que abraça todo o "centro histórico", toda ela coberta de jardins, que se estendem por dez quarteirões de casas, a perder de vista, tendo a ladeá-la as Ruas da Praia do Bonfim, e Rua Bastos, rua já aberta no século XX, que nasce junto da Estação do Caminho de Ferro, prossegue junto à Fortaleza de S. Fernando, até ao início da Avenida Felner que liga a zona central (vila) à Torre do Tombo. Uma Avenida preenchida com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc..

 Em 1949, por ocasião do 1º Centenário


Foi pois a partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam pequenos quintais que representavam os espaços verdes da baixa, para além, é claro, dos Jardins da Avenida da República ou da Praia do Bonfim.

Também não foi por acaso que foi escolhida a Avenida Felner, ali bem perto da Avenida da Praia do Bonfim, porém suficientemente afastada do centro, e um dos pontos privilegiados da cidade, sobranceiro ao mar, para serem erigidos os mais importantes edifícios públicos, ou seja, numa 1ª fase, o Palácio/Residência do Governador, a Igreja Paroquial, o primitivo Hospital do Estado, (mais tarde demolido), e numa 2º fase, os edifícios das Finanças, o Palácio do Governo do Distrito e a Associação Comercial. Foi também explorando o efeito de perspectiva que vimos surgir já no início da década de 1950, no topo dos jardins da Avenida da República, o edifício do Palácio da Justiça (Tribunal), um edifício singular, de grande porte, tendo como enquadramento a fonte luminosa com elevados repuxos de água, ladeada por duas elegantes gazelas, um dos mais belos ex-libris da cidade. Como cidade litorânea fundada no período colonial português ( 4 de Agosto de 1849), Moçâmedes não poderia deixar de ter a sua Fortaleza, a Fortaleza de S. Fernando, para cuja construção foi naturalmente aproveitada a elevação de terreno sobranceira ao mar mais tarde envolvida por uma muralha perfeitamente adaptada à morfologia do terreno, por se tratar de um local facilmente defensável onde tem inicio à falésia, que separa a parte baixa da parte alta.

A moda do "Passeio Público", verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer, enraizou-se desde então nas gentes de Moçâmedes, e a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950. A Avenida da Republica era então o local preferido da juventude para passear aos finais de semanas. depois da sessão do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida "para ver e para ser visto".

Até finais da década, os jovens da Moçâmedes de então tomavam conta da Avenida, era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas, estas com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, davam voltas e mais voltas, andando para frente e para trás, em doce confraternização, e aproveitando o encontro para flirtar.

No coreto o Rádio Clube sob a direcção de Carlos Moutinho, levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes, programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes ali pendurados e nas árvores que transmitiam músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos argentinos e modinhas brasileiras: "Alguém oferece para alguém como provade muito amor", e Tony de Matos cantando "Cartas de Amor" ecoa por toda a Avenida.E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações.

Mas o tempo não pára, novos gostos, outros costumes vão tomando o lugar dos anteriores e eis que a bela e vasta Avenida de Moçâmedes rodeada de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver, com tanques onde nadavam vermelhos peixinhos, e bancos de jardim que surgiram em maior número, com os melhoramentos introduzidos no início da década de 1950, transformou-se de novo. O velho e tradicional Coreto deu lugar a um grande tanque de água onde chegou a habitar uma foca que fazia o encanto da garotada. E no topo sul da Avenida, a caminhar para o Palácio da Justiça (Tribunal) surge um espelho de água ladeado por 2 elegantes gazelas, que desde logo se tornou num ex-libris da cidade.

Aos poucos a moda do passeio público também foi regredindo, e com as Festas do Mar que tiveram início em 1961 o polo aglutinador dos momentos de lazer das gentes do pequeno burgo no Verão, desloca-se para a Praia das Miragens, junto do Casino e das Arcadas .
Belos tempos!