01 abril 2018

Moçâmedes: o Cinema inacabado

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola


Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Estava na fase terminal  da construção, e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada, testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português.

E porque não?

Porque o regime vigente na época não permitia tais ousadias aos jovens arquitectos portugueses e estes, fugindo às regras do Estado Novo, acabaram por emigrar para as Áfricas portuguesas, onde encontraram um clima tropical e um espaço de liberdade criativa como não conheciam na Metrópole, terreno propício para darem asas à imaginação, situação para o que muito veio a contribuir as potencialidades construtivas do betão armado. E foi assim que, inspirado nas criações da arquitectura brasileira, em arquitectos como  o brasileiro Oscar Niemeyer,  nasceu este Cine-estúdio, construção futurista que em 1975 estava praticamente concluida, onde nunca chegou a ser projetado qualquer filme ou realizado um único espectáculo, mas que ficou a marcar esse tempo de mudanças na estética dos edifícios, integrando a cidade de Moçâmedes (Namibe), na corrente modernista internacional. 





 
 A sala de espectáculos e a bela abóbada
O Palco
As galerias

 As galerias
 Os altos relevos que circundam as galerias com figuras africanas e europeias alusivas a Moçâmedes  à pesca e à "Praia das Miragens"

 

 Os altos relevos que circundam as galerias, com figuras africanas e europeias alusivas a Moçâmedes e à pesca
Projecto de um painel


Desconhecemos qual o nome que estava destinado a este cinema inacabado, e se os proprietários seriam de facto os mesmos do Cine Teatro de Moçâmedes, ou gente ligada ao "Arco Iris" de Sá da Bandeira. Segundo uns, esta nova casa de espectáculos iria chamar-se ""Cine Studio Arco Íris", tal como o Cinema de Sá da Bandeira. Segundo outros, seria o ""Cine Studio Welwitschia", enquanto para outros seria  o "Cine Studio Satélite" . O que sabemos é que esta casa de espectáculos, uma obra interrompida por força de um processo histórico que arrancou de Angola praticamente a totalidade da população branca,  ainda hoje se encontra por acabar, mais de 40 anos após a independência de Angola, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa, ou seja, a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista, de ponta, e sem paralelo na época.

Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta êxito.

Repare-se na arquitectura dos interiores, nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam a sala de espectáculos... Descobrirão figuras humanas que evocam vivências do tempo colonial, ora de um passado longínquo (parece-nos a imagem de Diogo Cão e os nautas junto ao Padrão do Cabo Negro???), ora de um passado mais recente, com jovens banhistas europeias num dia de verão na "Praia das Miragens".  E ainda a faina da pesca com gente ligada ao mar, algarvia a africana, a fauna e a flora do Deserto do Namibe, as cabras de leque, a welwitschia, e representantes da etnia mucubal, etc etc. Mas existem outros alto-relevos cujas fotos não se encontram expostas aqui.




O Cine-Estudio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de D Pedro, são as quatro construções que representam a penetração em Moçâmedes (Namibe), da corrente de arquitectura moderna vanguardista entre nós, que muito orgulhosos nos deixavam.

Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe, e cujo autor desconhecemos, desde 1975 encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado. Queremos acreditar que o seu interior conserve ainda intactas algumas das belas esculturas em alto-relevo nas paredes sobre as atividades tradicionais, do deserto e da pesca, etc, mosaicos e azulejos originais, do período colonial português, uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade.




 MariaNJardim


Em tempo:

Acrescento que acabei de ser informada de que esta obra foi projectada pelo arquitecto Botelho Pereira (certeza).

Também fui informada de que os altos relevos são obra do escultor, já falecido, Fernando Marques (certeza). Aliás, cedidas foram novas imagens por Paula Marques, sua filha, que vieram enriquecer esta postagem.

Quando ao nome atribuído a este Cinema, todas as informações recebidas  apontam para que fosse  " O Cine-Estúdio SATÉLITE".

Outras informações colhidas apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade. E que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. 


Aguardamos novos informes!

Segue um video recente sobre este Cinema
https://www.msn.com/.../lusav%C3%ACdeo-cinema.../vp-AAviPDL


31 março 2018

O Ginásio Clube da Torre do Tombo e o "Baile da Pinhata"




 
Estávamos em época pascal...

Rebuscando o sótão das minhas recordações mais remotas, estou a ver-me, menininha ainda, de vestido de tafetá azul com saia de três folhos, peitilho de renda com folho, e ostentando dois grandes laços brancos na cabeça, um de cada lado, meias brancas de croché até ao joelho, e sapatos de verniz igualmente brancos. Ia para o "Baile da Pinhata". O vestido tinha sido confeccionado com esmero para ser estreado naquela noite pela exímia costureira que era a  prima Idalinda Ferreira, que morava no Bairro da Facada, no outro extremo da cidade.

Já era noite cerrada, as ruas não eram iluminadas, andava-se a pé, e lá ia eu pela mão da minha mãe, meia acordada, meia ensonada, rumo ao salão de festas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Todos queriam assistir ao baile, e ninguém deixava os filhos sozinhos em casa. Naquele tempo raros eram os automóveis em Moçâmedes, mas também não nos fazia falta, porque o Ginásio, o clube de bairro, era ali mesmo, a uns minutos a pé.

O Ginásio era então o mais importante e o mais animado clube da cidade, Outro salão muito concorrido era o do Aero Clube, em edifício próprio junto à Avenida, numa esquina a dar para a Praça de Táxis, onde foi mais tarde erguido o primeiro edifício de grande porte na cidade, que foi objecto de crítica cerrada por desvirtuar o plano director para a mesma.  Havia que conservar a traça original  do "centro histórico", e não deixar vir abaixo nem mais um edifício térreo. Lutar contra a gula daqueles que por desamor da terra só pensavam na rentabilidade conseguida à força do betão...


O Ginásio Clube da Torre do Tombo foi a primeira agremiação desportiva do distrito de Moçâmedes a adquirir sede própria, com actividades quer desportivas quer recreativas, que incluíam o futebol, a vela, o remo, a natação, o ténis, o bilhar, mas também peças de teatro, os célebres bailes de Carnaval e da Pinhata, Reveillons, festas juninas aos Santos Populares, com grandes fogueiras e danças de roda á sua volta, e outras que se desenrolavam no seu amplo e bem frequentado salão, para onde convergia, aos fins de semana, gente de toda a cidade que ali procurava divertir-se. E no seu pequeno palco exibiam-se peças de teatro, recitais e espectáculos de variedades, etc.
 
Crianças daqueles tempo, octogenários de hoje, muitas das quais já falecidas, participaram em vários espectáculos no palco do clube azul e branco. Fotos gentilmente cedidas por Etelvina Ferreira de Almeida
 
Outro grupo de gentis meninas e senhorinhas de Moçâmedes, que no início da década de 1940 actuaram no palco do Ginásio Clube da Torre do Tombo em Moçâmedes. Nesta foto reconheço a 3ª e a 4ª, da esq para a dt, em cima, Dina Ascenso e Rosalina Bento, e à dt. tab em cima, com uma bola no cabelo, Ruth Ferreira Gomes, e a penúltima de avental, Rosette IIlha. Ajoelhada, à esq, Regina Trindade e sentada no chão reconheço à dt, a penúltima, filha mais nova de José Gomes de Freitas.
 
No rescaldo de uma noite de S. João em Moçâmedes


Mas falemos do "Baile da Pinhata", esse baile que vem de épocas antigas e que se realizava normalmente na véspera da Páscoa, a quadra em que as famílias presentes e ausentes se encontravam e reencontravam.

Com o salão do Ginásio esplendorosamente decorado e repleto de gente vinda de todos os cantos da cidade, o momento da abertura do baile tinha lugar com a chegada do rei e da rainha eleitos no "Baile da Pinhata" do ano anterior. Estes inauguravam o baile, dançando apenas os dois, ao som do gramofone ou da concertina, enquanto eram apreciados pela multidão que os aplaudia nessa primeira peça do "Baile da Pinhata".  Ao lado, numa quermesse encontravam-se, em meio a todo um arsenal de objectos a leiloar, estavam dois grandes bolos de folha, uma especialidade da doçaria algarvia, grandemente apreciada, um deles oferecido ao clube pela minha avó, Maria da Conceição Paulo, outro pela tia Rosária Almeida, as duas peritas na matéria. E verdade se diga chegavam no leilão a  atingir 100 vezes mais o real valor, importância que revertia para as despesas do clube com a festa. Um 3º bolo de folha ficava reservado no interior da Pinha para o novo par real, e era servido com vinho do porto ou champagne, cuja garrafa e copos também ali se encontravam. Aliás, no decurso do  "Baile da Pinhata"  era comum uma paragem para se fazerem leilões de tudo quanto eram objectos oferecidos ao Clube, quer por pessoas comuns, quer por comerciantes da praça, e que se encontravam  expostos na quermesse,  desde caixas de bombons a serviços de chá e de café, garrafas de vinho de porto, cognac, bonecas, etc etc.

Como era comum na época, em todos os bailes dançava-se alegremente até madrugada. Eram bailes em que famílias inteiras estavam presentes, desde os avós aos netos da mais tenra idade, e era por volta das 4 horas da manhã, quando a criançada já dormitava ao colo das mães, que era chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção: o momento da "dança da pinha" ou "dança da fita". Só os pares de dançarinos podiam ter acesso às dezenas de fitas coloridas que pendiam soltas para fora da Pinha, confeccionada em madeira leve, que se encontrava pendurada no tecto, a meio do salão, e vinha até ao chão. As fitas eram previamente numeradas, e a cada par cabia uma delas por sorteio. A dança da pinhata podia durar uma hora e tinha por finalidade o abrir da grande pinha  toda forrada de flores de papel nas mais diversas cores, e a eleição dos novos rei e rainha da festa.

Todos podiam participar nesta dança, ao longo da qual o animador do baile anunciava o momento em que a pinha é aberta. E a dança durava até que "a fita premiada" ao ser puxada accionava o mecanismo de abertura da pinha, ao mesmo tempo que as luzes do salão se apagavam e acendiam as luzes multicoloridas no interior da pinha. Era o momento de maior emoção, acompanhado com gritos de alegria e aplausos ao novo rei e à nova rainha, ao casal que abriu a pinha. Era o fim de um reinado e o começo de outro. Depois os novos eleitos recebiam a coroa que lhes dava “poderes reais" para a "pinhata" do ano seguinte. E davam início a outra série de danças.

Ficam estas recordações de um tempo em que Moçâmedes não ia além dos 5 mil habitantes brancos, que a luz eléctrica ainda não tinha chegado a todas as casas da zona baixa da cidade, que não havia luz nas ruas da Torre do Tombo nem na maioria das casas do bairro, iluminadas a petróleo, um bairro que era afinal o coração da economia do Distrito.


Mas o Ginásio, dirigido por verdadeiros aficcionados, era o ponto de encontro das gentes de toda a cidade.


MariaNJardim

11 março 2018

As casas da Rua 04 de Agosto em Moçâmedes, no tempo colonial, eram assim...







Ficam na ex-rua "4 de Agosto", aquela que nasce na Avenida da República, passa entre o Cine Moçâmedes e a Alfândega e sobe na direcção do deserto. Por ser um grupo de casas em banda contínua, estas casas são preciosas, elas representam o tipo de casario térreo de traça portuguesa dos primórdios da colonização. São casas que tem também um interior muito característico, e isso talvez seja uma herança dos luso-brasileiros fundadores. Elas possuem todas um vasto corredor, com cerca de 3 quartos de cada lado, sendo geralmente os da entrada aproveitados para a sala de visitas e a sala de jantar. O corredor termina numa grande varanda envidraçada, e esta por sua vez dá para um quintal, onde existe um jardim ou uma pequena horta, onde ficava o galinheiro, e numa das bandas laterais ficavam a dispensa, a cozinha e a casa de banho. É interessante este uso de jardim ou pequena horta integrando a planta das casas. Estava então muito em voga o conceito de cidade-jardim, pelo que em Moçâmedes as pessoas tanto tinham a Avenida como um grande espaço verde, de fruição e de lazer, como tinham o salutar contacto com as plantas nas suas próprias habitações, que geralmente, em tempos mais recuados possuíam também, nos quintais, uma cacimba. Este conjunto que parece não estar mal, merecia ser cuidado e preservado.

Quanto ao conceito de cidades-jardim de que Moçâmedes beneficiou, este teve a sua origem nos danos provocados pela Revolução Industrial (XVIII), na Europa e nos EUA, em consequência da poluição do ar com os fumos das fábricas e o caos urbano em consequência da fuga dos campos para as cidades, da acumulação em cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, etc etc. Foi um tempo de intenso deslocamento das populações rurais para as cidades, atraídas pelas ofertas de emprego e pela crise no sector agrícola, em que as cidades não estavam preparadas para as receber, não tinham onde morar, acumulavam-se nos cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, doenças, epidemias, etc etc. Foi diante desses problemas que surgiu o urbanismo moderno, para solucionar esse caos urbano, opondo o conceito cultural de cidade à noção material de cidade, e colocando no centro a saúde e o bem estar humano. As cidades não deviam exceder os 30 mil habitantes, seriam limitadas por um cinturão verde para impedir a fusão com outras aglomerações vizinhas. E para lhes dar um aspecto agradável deveria proceder-se à abertura de espaços verdes de lazer e de manifestações públicas, para os quais eram escolhidos locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros.

Moçâmedes beneficiou desta onda que movimentou arquitectos e urbanistas mo século XIX, a cidade não nasceu de forma caótica, foi imaginada e desenhada no papel antes de se as habitações serem erguidas, e pôde beneficiar logo de ínicio de um traçado que fez dela uma das mais belas cidades de Angola. A partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam os já referidos pequenos quintais que representavam os necessários espaços verdes, a juntar aos dos Jardins da Avenida da República.

E foi assim que ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, nasceu esse belo, vasto e longitudinal jardim, que se estende por dez quarteirões de casas, a perder de vista -o jardim da Avenida da Praia do Bonfim- que chegou aos nossos dias preenchido com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc.. É possível ver-se através de fotos muito antigas este espaço já reservado para o efeito, numa altura em que do jardim da Avenida apenas existia um esboço.


MariaNJardim

01 março 2018

O CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES COMO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL









Cemitérios têm um potencial didático que não deve ser desconsiderado, eles guardam História, eles evocam Memórias, boas, más, expõem arte e oferecem cultura. São tudo isso! E por tudo isso os túmulos que ostentam merecem ser preservados, o Cemitério cuidado, e não deixados ao estado de semi-abandono como parece estar o Cemitério de Moçâmedes.

Na história da humanidade a morte sempre foi a única certeza, e junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egipto buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis na Grécia Antiga.  Com o avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos Crematório, os Cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, lugar de descanso para entes queridos, para se tornarem um património arqueológico, lugares de arte, de arquitectura, de escultura e de genealogia, lugares que guardam Historia, que suscitam memórias, ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas, sendo alguns Cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.   Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. Chegámos a uma época em que a prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular com seu cunho  artístico e cultural, pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador.   Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram os seus Cemitérios,  porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX. Em Portugal as Câmaras começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, sendo a procura  cada vez maior, e as receitas cescentes, com o aumento do turismo cemiterial. Neste Cemitério, o terceiro maior da Europa, as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, batem records em termos de visitação turística.

Cemitérios oferecem-nos, pois,  uma viagem no tempo, são espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem. São testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas, desde que foram construidos.  Eles obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e  as menos influentes de uma cidade ou de um lugar, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Quanto ao Cemitério de Moçâmedes, abstraindo-me da consideração e do respeito que todos mortos merecem, dos mais conhecidos aos menos conhecidos, dos mais importantes aos mais humildes, independentemente do seu estatuto social,  estou a lembrar-me do valor histórico dos mais antigos e importantes mausoléus e jazigos erguidos à memória dos colonos fundadores, oriundos de Pernambuco (Brasil),  os fundadores da cidade em, 1849, e que considero verdadeiros monumentos a preservar.

Este assunto é trazido aqui porque acredito que a cidade de Moçâmedes irá ter um dia necessidade de os mostrar ao Mundo. Porque acredito que quer a cidade, quer o distrito que a envolve irão  ter um dia o lugar que merecem no Turismo Nacional e Internacional, e este Cemitério há-de enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como também por escritores, historiadores, curiosos, etc .  E se assim vier a acontecer, quero acreditar, o guia turístico de uma  rota por este Cemitério torna-se  indispensável. 

Passando ao lado de cada túmulo caberá então ao Guia turístico um resumo  da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores mais proeminentes, que ali respousam. Eis, pois alguns desses túmulos, que passarei a descrever, baseando-me apenas em relatos de factos, na base da leitura de textos disponíveis:


  Mausoléu do colono João Duarte d´' Almeida


Túmulo do colono João Duarte d' Almeida: 


Nascido em 26 de Março de 1822 e falecido no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, os seus restos mortais repousam no Cemitério de Moçâmedes, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.

João Duarte d´' Almeida era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos menores, dos quais 3 varões, era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal) 

Casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização, José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. Os irmãos de João Duarte de Almeida eram Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que conforme acima referido, também foram para Moçâmedes.  

Orfão de pai, muito cedo  resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde estacionou em Benguela e  de onde partiu para Moçâmedes, onde se encontrava quando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro ali chegou, em 1849, na Barca "Tentativa Feliz", chefiando a primeira colónia de luso-brasileiros vinda de Pernambuco, Brasil, para dar início ao povoamento branco da região. Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já ali encontrava (no distrito), João Duarte de Almeida,  "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela no decénio de 1849-1859. Era considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e em 1850, proprietário em 1959 de duas fazendas agrícolas,  onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre.  Também há referências que na margem esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?), o 1º colono que aí se instalou foi João Duarte de Almeida, tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio, ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Outras referências apontam no sentido de que, no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, João Duarte de Almeida possuisse já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodão, empregando entre trabalhadores escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das das fazendas da região. A produção anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Os seus esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, na opinião de Mendonça Torres, a reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e ainda de activo descobridor da "almeidina" em 1883, um produto com uma boa percentagem de borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale que comercializo com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A almeidina foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola.

O artístico mausoléu erguido à memória de João Duarte d' Almeida, por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, como uma verdadeira obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos, como também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização. 

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, outros feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos em alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (em Paris, em Antuérpia, no Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. "Produtos de Moçâmedes!"

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colónia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna.  Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836. 

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português.  Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o  Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista  e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa.  Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português  fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação, e Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava  em risco de tudo deitar a perder. 

As ideias de João Duarte d' Almeida e de  Bernardino Abreu e Castro,  desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria», se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias das cidades de Luanda e de Benguela, maioritariamente mestiça, que beneficiavam com o vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Uma organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos  direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos e negros e fez surgir em Angola uma maioria mestiça, enfim, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. 

Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que  o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!

Quanto ao túmulo de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, aquele que foi considerado o fundador de Moçâmedes, nada de sabe, porque nada se sabe de seus restos mortais.  




Mausoléu do Dr. João Cabral Pereira Lapa

Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da armada, primeiro médico da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes  graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!

 "Aqui jazem os restos mortaes de JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, e sua esposa D. Maria dos Anjos Pinho, natural da ilha de S. Miguel, falecidos, aquelle em 27 de Novembro de 1875, e esta a 1 de Maio de 1873. Seus filhos lhe mandaram erigir este mausoléu com prova de muita estima. Eterna recordação." 


Outro colono que tem o seu mausoléu no Cemitério de Moçâmedes, foi José Joaquim de Pinho, natural de Aveiro, Terra da Feira, c. de 1820,  componente da Primeira Colónia de portugueses que, saídos de Pernambuco, em Maio de 1849, na barca brasileira "Tentativa Feliz", acompanhada do brigue de guerra português "Douro", chegou a Moçâmedes a 4 de Agosto do mesmo ano, para dar inicio ao povoamento branco do distrito. Foi, pois, um dos pioneiros da fundação da cidade de Moçâmedes, onde foi proprietário de terras na região, de entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança. Viria a falecer em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.




Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, José Joaquim de Pinho,  são apenas 3 pequenos exemplos. Há muitos mais!



Pesquisa e texto de MariaNJardim 
 
 
Este texto tem direitos de autor. Já dei conta que andou a ser copiado e republicado sem que fosse feita a mínima referencia  a este blogue, nem a esta página, à qual venho constantemente introduzindo novos dados, pelo que incorre em falta grave quem assim anda a proceder .PELÁGIO é a  devassa da propriedade intelectual, é crime em que incorre quem daqui algo  e republicar sem a menção da autora.

MariaNJardim (01.03.2018)



(1) Em 1899, 23 anos após a abolição definitiva da escravatura, surgiu o Código de Trabalho dos Indígenas, adoptado em 1911 pela lª República, com o Regulamento do Trabalho dos Indígenas. Estes deviam ser civilizados pelo Governo por meio de hábitos de trabalho, considerado uma "obrigação moral e legal". Manter o trabalho como obrigatório, a fim de prover o sustento, melhorar a condição social do indígena, etc etc.

16 fevereiro 2018

O fugitivo do Iona




Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região
Dixon Ferreira junto de um rino que tinha acabado de abater


"O fugitivo do Iona"


No primeiro quartel do século XX,  as terras do Iona, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram pouco conhecidas dos portugueses , e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso se fazia através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros, que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as famílias, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrar em terras do Iona, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e possibilidades financeiras para tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.



Alfredo Bobela da Mota, jornalista e poeta
 1905 (f. 1978)

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.
 
A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa na década de 1960  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. Mas para além destes fenómenos Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpôr.  Era difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído na época pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2) 

Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, também chamados de Mu-tuas,  era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

Sobre este povo, Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que nos penhascos de Tchamalinde  vivia clandestinamente um branco estrangeiro, conhecido  pelo " homem branco da casa de barro", que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, e  cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  sendo levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento daquilo que efectivamente a passava.

Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera, preferindo afastar-se da civilização e ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo, tornara-se admirado e querido.

Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando o tipo de vida  da selva, no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira.

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais,  tornou-se amigo de Dixon,  desde que o fugitivo fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  Acredira-se que sim!

Cecílio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali,  palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? O súbdito britânico (?) Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estavam? Quem era? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Cecílio Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro", das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.

Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali.  Estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo, talvez porque eles também não o instaram para isso, mas enquanto no mato, sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia, punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Contactou a tribo dos Mu-tuas que o aceitou, e mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se ele mesmo não tivesse descido,  naquele dia,  do cimo das cerranias, para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento, sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua família e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto pela autoridade, em Moçâmedes, e à concessão da nacionalidade portuguesa. Teodósio Cabral e Vasco Ferreira, dois moçamedenses muito estimados, deviam ter intercedido por ele.  Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul! Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, aos portugueses e a Moçâmedes, por várias vezes Dixon manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

3 caçadores muito conhecidos na Angola daquele tempo

Muíla Sá da Bandeira


 Rapariga Cuisse



Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a  mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, onde ficou também a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas parece que não conseguiu porque os Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la.  Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, teria sido vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.  Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários. Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito do qual  Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe como criador de gado, vários anos após ter deixado a montanha. Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

Quanto à região do IONA esta estende-se desde a margem direita do rio Cunene para norte, formando a transição das grandes dunas do Namibe, até  à encosta sul das regiões planálticas, e que se convencionou chamar de IONA que se compõe de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  E que à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante.

Nesta região encontram-se três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra. O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras. 

Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente



Os Cuíssi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, que povo é este?


Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis  Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ovambundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos. 

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã). 

O Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", refere que eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

 Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação relacionada com Mucuissos:

Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis.

Conclusão. Perseguidos e discriminados como diferentes, os Cuissi-Tua, povo pré-banto e considerado não banto, viviam na montanha. onde se refugiaram.  Os Chimbas, ou Himbas, co grupo herero banto, viviam mais na anhara e na encosta da serrania. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha, amedrontado, vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. O nome dos Cuíssis deste surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado, também conhecido por "Morro Sagrado dos Mucuísses", um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.


             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Caçador e Pigmeus


Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT



Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Dimbas e aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Tal como os Chimbas ou Himbas, os Mucubais (Ova-kuvale), pertencem também do grupo etnolinguistico banto Herero, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola.

Existem escritos que integram nos subgrupos Herero, os Curocas que desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastoril que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, mas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. 

O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.

Alguma bibliografia:

-Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,






Pesquisa e texto de MariaNJardim