09 fevereiro 2007

Histórias tristes ocorridas na cidade de Moçâmedes: a morte da FOCA que um dia a nós viera...



Curiosos junto da FOCA na fonte de água luminosa de Moçâmedes. Foto Salvador


Curiosos observando as habilidades da FOCA. Da esq. para a dt: Daniel Santos, Camilo Costa, Passos (de óculos), ??, Anatálio Pereira, ?, Rui Figueiredo (Rabiga), Calita Guerra, Castelo Branco, ?, e Rui Coelho de Oliveira. Foto Salvador


Carlos Moutinho, radialista do Rádio Clube de Moçâmedes, simulando uma entrevista à FOCA. Uma paródia para um programa, atentamente observada por várias pessoas, entre os quais,  Fonseca e Castro, e  Bica. Foto Salvador


                                Curiosos junto da FOCA. À dt. o edifício do Banco de Angola

 
           O poeta moçamedens, Angelino da Silva Jardim, autor do poema "A FOCA", tendo a seu lado  Lurdes Jardim. Ao fundo o Palácio da Justiça

Duas fotos que retratam um mesmo trecho da Avenida da República, em Moçâmedes. Na de cima, em todo o seu esplendor nocturno.


Neste vasto jardim da Avenida da República, paralela à Rua da Praia do Bonfim,  num local em frente ao edifício do Banco de Angola, onde  ainda no início da década de 1950 existia um Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do pólo sul influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de mulheres e crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia teria passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade.  Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevo, saído da pena do moçamedense Angelino da Silva Jardim, que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou:


A FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a Grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora,a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz, da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quizer julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!
Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

Angelino da Silva Jardim

Poeta natural de Moç
âmedes
 
***

Sabe-se que por via deste poema, o referido capitão do porto se deslocou ao Banco de Angola onde trabalhava o poeta para se inteirar de quem se tratava...




(1)
O mar do distrito de Moçâmedes era um mar riquíssimo em pescado, aspecto que se deve à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona. Era comum focas e pinguins darem à costa em Moçâmedes, trazidos pela corrente fria de Benguela, acontecendo haver pinguins que vinham de zonas tão distantes como a Patagónia, na Argentina.
  Isto, porque um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela». Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre ( actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).


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