15 março 2007

Eduardo Brazão-Filho (Mossungo).







Escritor e poeta, Eduardo Brazão-Filho (Mossungo), nasceu em Moçâmedes (actual Namibe), no dia 06 de Novembro de 1937. Mossungo pode ser compreendido no quadro de uma geração que ficou conhecida, como a «Geração da Utopia» (*),  a geração de Pepetela, e outros tantos que acreditaram no sonho de uma pátria independente e unida, onde todos juntos, independente de raças superariam dificuldades e construiriam uma sociedade mais justa e fraterna, liberta da fome, da exploração e da miséria. Esse sonho que Mossungo viu ruir a partir de 1982, com o fim das utopias e que se extinguiu completamente com a adopção de novos paradigmas neoliberais.

A partir do ano de 1982, Mossungo exilou-se da pátria que amava, da terra que o viu nascer e jamais viria a esquecer, tendo a ela regressado em 2002, 20 anos depois, para alí falecer um mês depois, a 16 de Fevereiro de 2002 .
 

Deixo aqui este artigo de Cláudio Frota sobre este grande poeta moçamedense  que foi Eduardo Brazão-Filho (Mossungo):
"Mossungo/Moçâmedes/Namibe

Tive o privilégio de conhecer um grande poeta angolano chamado Eduardo Mossungo. A sua alma estava encarcerada nas memórias da terra que o viu nascer. Vivia amargurado num Portugal que não lhe trazia qualquer razão de viver e a sua vida decorria sem objectivos de futuro. Ansiava pelo dia que teria de pôr fim a esse desterro. E esse dia chegou. Estive com ele dias antes de partir. Disse-me que ía regressar a Mossungo, a sua Terra. Pouco tempo sobreviveu. O chão onde nasceu acolheu-o no seu seio num abraço eterno ao filho pródigo e amado. Foi um poema que nunca pôde escrever. Mas os seus amigos, aqueles que admiravam a sua luta, o seu amor, a paixão, nunca poderão esquecer o exemplar sentimento que nos legou.


Mossungo, Moçâmedes, Namibe, três fases no tempo. O mesmo mar piscoso e o mesmo deserto de microclima temperado. A pesca e a agro-pecuária em desenvolvimento galopante. Um casamento perfeito entre e Terra e o Mar. Dois povos pacíficos que se tornaram irmãos e que caminhavam lado a lado em direcção ao futuro que se visualizava promissor e feliz num progresso surgido no confronto de duas culturas que se apuraram no aproveitar útil de todas as suas capacidades em convivência pacífica. Por fim uma cidade que foi crescendo, filha desse Mar e desse Deserto, construída a pulso, onde abundavam as indústrias, as escolas que levavam o ensino a toda a população citadina e suburbana, o liceu, os clubes desportivos, os parques, o cais comercial e o de embarque de minério onde acostavam os maiores navios do mundo. E tudo isto fruto duma colonização que só pode ser exemplar pelo esforço, pela dedicação e pelo trabalho de todos e não pela devassa do burguês dissoluto como alguns querem fazer crer. Valeu o esforço, o sacrifício e o afecto do Homem na obra feita.


Este texto é uma homenagem a todos aqueles que lá viveram, construíram em Mossungo/Moçâmedes a sua Casa, desbravaram com charruas e enxadas o seu Chão, lançaram as suas linhas e redes no seu Mar generoso. Nos desalentos mais profundos foram buscar ânimo ao lema de Bernardino, o fundador: "vence, quem perseverar até ao fim", transformaram um pedaço de deserto em cidade e viram crescer a obra glorificada pelo trabalho árduo duma vida: a cidade de Moçâmedes. (Labor Omnia Vincit). 


A Eduardo Mossungo, pseudónimo de Eduardo Brazão Filho: ele era o afecto, o exilado desesperado pelo regresso, a expressão mais sentida do Amor que alguma vez alguém sentiu pela sua Terra: a cidade de Mossungo, que segundo ele, poderia ser a nova e a mais apropriada designação para a cidade de Moçâmedes, quando Angola deixasse de ser colónia portuguesa. No entanto, logo no primeiro governo da nova República independente (República Popular de Angola) apareceu alterado o nome para cidade do Namibe.

A Namibe (cidade) o desejo que o desenvolvimento torne àquele espaço para que não seja o Namibe (deserto) a fazê-lo com as suas areias.

(posted by Cláudio Frota in Memórias e Raizeswww.memoriaseraizes.blogspot.com
) 

Eduardo Brazão-Filho, encontrava-se inscrito na União o dos Escritores Angolanos e da sua obra em poesia e prosa, na maioria inédita, contam a «Cidade e Sanzala» publicada em Dezembro de 1972, na cidade do Sá da Bandeira/Lubango. Deixou para publicar os seguintes livros: «Amar Angolamente» (poema de exílio), «Pelos Horrores da Guerra» (poesia), «Batuque, Amor e ... Traição», «Mukandas» (em versos Poemas de Ontem, Hoje e Àmanhã), «Meu Sonho de País«, «Parnaso» (poesias e sonetos). Em prosa temos: «Tchango e Tchango Tchango», «Dona Mikota e os seus passarinhos de estimação» e «O Exilado ou Diário do Absurdo de Si Mesmo». Seguem alguns dos poemas de Eduardo Brazão-Filho:

Existe um blog recente na net, para quem estiver interessado em saber mais sobre
Eduardo Brazão-Filho: http://mossungo.blogspot.com/ do qual retirei alguns dos seus belos poemas para colocar aqui bem como a foto do saudoso poeta moçamedense:



Fraternidade

Meu irmão branco, meu irmão negro,
A cor da nossa pele
É o desencontro de continentes
Colocados no mesmo mundo

Aqui estamos
Erguendo o estandarte da fraternidade
Unindo o desencontro dos continentes
Num mundo melhor.

Em cada uma das raças
O mesmo ideal de universalidade
Nos toca e nos anima
A desfazer preconceitos.

Numa taça de ouro ou numa taça de barro,
O nosso brinde selará o encontro
Dos nossos continentes
E a fusão das nossas raças

Meu irmão branco, meu irmão negro,
Perpetuamos o testamento
Deste ideal gigante
Por todas as gerações sem continentes.

Eduardo Brazão-Filho (Mossungo)
“Cidade e Sanzala”, 1972


Amar Angolanamente XX


Estou mas não sou da Europa
dos meus antepassados.
Sou África gigante;
Serei a pele do tambor gritante
que o imortal Neto descreveu outrora.

Não me encontro na cor
duma razão buscada;
minha Pátria é o solo onde nasci.
pelo meu Povo sofri
para a ver Libertada.

No punho erguido
sigo a flâmula progressista.
Eis minha razão buscada:
Sou um encontro no mundo - a pele do tambor esticada
do tantam imortal
repercutindo na harmonia dos tempos
em som triunfal
a dignidade de ter uma Pátria
sem igual !

Eduardo Brazão-Filho (Mossungo)
"Amar Angolanamente - Poemas de Exílio", inédito,


ÁFRICA MINHA CANTORA

Guitarra, que estás tocando ?
Não vês a cor do luar ?
Não vês a cor do Sertão ?

Não vês a erma magia
Romântica Tentação
Desta Angola que nos criou
E nos toca o coração ?

Repara a ganga infiltrando
Em selvagem natureza
O feiticeiro espeldor ;

Ouve o cantar das viuvinhas,
Dos chacais ouve os latidos ;
Vê o clarão das queimadas
E o romper das madrugadas
Em quadros belos... perdidos...

Guitarra, que estás tocando
Nesta noite de luar ?
Não vês para além das chamas
As mucaias a gingar ?
Olha as sombras africanas
Brincando sob o palmar...

Ouve o rugir do leão
Ouve o chorar duma hiena
E verás quão bem pequena
É tua voz no Sertão !

E quando vires o manto
Do grande Zaire entre as relvas...
Pára guitarra teu canto
E deixa cantar as Selvas

Eduardo Brazão-Filho (Mossungo) 1972




Filho branco de Angola, assumidamente progressista  e lutador pelo seu povo, em Mossungo sente-se África pulsar-lhe no sangue de uma forma tão sentida e tão intensa que até arrepia. E não só a África-terra, acima de tudo a das suas gentes. A sua poesia soa como um grito na defesa dos oprimidos,  das condições materiais e espirituais do seu povo, da sua nação, de todas as ânsias, sofrimentos, esperanças, realidades, revoltas. Trata-se de uma poesia de resistência, uma forma bela de manifestar o seu protesto, a de lutar cantando!