18 outubro 2010

Grupo de moçamedenses a bordo do navio «Império», em dia de despedida que foi também dia de «S. Vapor»: 1957



Até meados dos anos 1950, os navios ficavam fundeados, ao largo, na baía de Moçâmedes...



Até à inauguração do 1º troço das obras do cais comercial, em 14 de Maio de 1957, os navios que chegavam a Moçâmedes (Namibe) ficavam ancorados a meio da baía, e o transporte das pessoas até eles era efectuado através de "gasolinas", a partir da  ponte velha da Praia das Miragens, enquanto o transporte das mercadorias era efectuado através de batelões e escaléres motorizados.

O período da II Grande Guerra (1939/45) veio atrasar as obras de fomento que deviam ser levadas a cabo em Angola, uma vez que as fábricas europeias fornecedoras do matéria necessário ao empreendimento se encontravam ao serviço da guerra. O início das obras aconteceu em 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes, e a inauguração do 1º troço do cais comercial aconteceu em  24 de Maio de 1957, com a presença do Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo o então Governador Geral de Angola.


Mas o que eram os «Dias de S. Vapôr»?

Até pelo menos aos anos 1960, entre a população de Moçâmedes, cultivou-se o gosto pela visita aos navios de passageiros que escalavam Moçâmedes, no decurso da suas viagens, de Lisboa a Lourenço Marques, e vice-versa, passado pela cidade do Cabo, na Africa do Sul. A razão,  é que as deslocações a bordo não se reduziam apenas a recepções ou a despedidas a familiares e amigos, elas eram motivo de satisfação porque os navios traziam novidades, coisas bonitas e baratas que naquele tempo não se encontravam facilmente à venda no reduzido número de lojas que existiam na cidade. Escusado será dizer que os grandes clientes desse mercado paralelo  eram as senhoras, por um lado, porque elas eram à época, na sua maior parte, donas de casa, e podiam mais facilmente dispôr do seu tempo, por outro, porque o sector feminino da população era o mais apegado a este tipo de coisas, sempre à espera das últimas novidades trazidas da Metrópole, da África do Sul e de outros lugares.

Os navios chegavam normalmente pela manhã e partiam ao fim do dia, deixando aos visitantes tempo suficiente para uma  ida a bordo. Esta prática vinha acontecendo  desde os tempos em que não havia cais acostável, e os navios ficavam fundeados ao largo, sendo a deslocação de passageiros, funcionários e visitantes, assegurada por «gasolinas».

Fosse o navio Pátria, o Império, ou os mais recentes Uije, Príncípe Perfeito e Infante D. Henrique, fosse o velho Quanza ou o velhinho e pioneiro João Belo, fossem navios da CNN/Companhia Nacional de Navegação, (agenciada pela Duarte de Almeida, Lda.), ou da CCN/Companhia Colonial de Navegação, (agenciada pela Sotrage) ou ainda da CUF, (agenciada por Pereira Simões e Cª.Lda.), a verdade é que a possibilidade de se fazer compras nunca falhava, estas eram efectuadas em alguns pontos estratégicos dos mesmos navios, geralmente nos camarotes do pessoal que trabalhava nos navios, onde camareiros e camareiras, já conhecidos de longa data, faziam o seu negócio paralelo, vendendo toda a variedade de artigos: peças de lingerie em nylon e renda,  roupas diversas, meias de vidro, camisas, gravatas, carteiras, malas de senhora, bonecas e perfumes de Las Palmas (Tabú, Maderas do Oriente e outros), bibelots do Oriente, fios de ouro, botões de punho, anéis, pulseiras, pregadeiras, colares, bebidas, charutos, tabaco, pastas de chocolate, caramelos, rebuçados, etc, etc, e até caixas de uvas de Metrópole e da África do Sul.  Era um vê se te avias, havendo ocasiões em que os ditos camarotes ficavam a abarrotar, fazendo-se fila no corredor a aguardar a entrada. Na barbearia do navio e no bar, comprava-se tabaco, cigarrilhas, whisky escocês, balas para caça, óculos, pastas de chocolate e toda uma série de guloseimas, livros, revistas, e pouco mais.  E porque em Moçâmedes não havia piscinas (a única «piscina» era o tanque de água para regas que ficava no epicentro das Hortas da família Torres), alguns visitantes mais jovens, do sexo masculino, aproveitavam a  ocasião para  uns mergulhos na piscina do navio, e faziam-no,  é claro, ante o olhar condescendente do Comandante.

Mas havia um problema com que os visitantes-compradores tinham que se confrontar. Como passar a mercadoria, ante o olhar vigilante da Guarda-Fiscal que ficava à saida do portaló que dava acesso a uma estreita, longa  e íngreme escadaria, por onde  se descia para os «gasolinas» que levaria o visitante de regresso à ponte, no regresso às suas casas?  A estratégia era mostrar descontração para que algum guarda-fiscal mais desconfiado, não desconfiasse... Geralmente as senhoras ao regressarem a casa iam um pouco mais cheinhas, uma vez que vestiam as roupas que compravam, sobre as roupas que traziam...

A cidade era pequena, praticamente todos se conheciam, os guarda-fiscais sabiam bem distinguir aqueles que iam comprar perfumes, bibelots, bijiteria, etc, para si próprios,  daqueles que iam a bordo os navios comprar artigos para revenda, como balas para caça, etc.  Por isso, já em terra, o visitante, que ainda tinha que passar pelo romântico e bonito Piquete da Guarda Fiscal,  e podia estar sujeito à intervenção de "apalpadeiros" e  "apalpadeiras" em busca de eventual contrabando.

Porquê esta sede por compras a bordo?

A explicação para este fenómeno eram as carências do mercado moçamedense da época, que gerava por isso mesmo estes facilitismos, que se reduziam, bem vistas as coisas a inocentes compras, e a nada mais.

Como ficou atrás referido, no tempo em que os navios ficavam fundeados ao largo, na baía,  por não existir cais acostável, a deslocação de passageiros, dos funcionários e dos visitantes era assegurada por "gasolinas", um tipo de barco pequeno, movido a motor, com um bonito design, pintado de branco, com uma parte coberta com toldo, janelas e bancos corridos à volta, e outra parte ao ar livre, que permitia transportar cerca de 40 pessoas, sentadas e de pé, perante a cobrança de um bilhete. No início da década de 1950, eram proprietários dos gasolinas, Raúl de Sousa Jr. e  António Bauleth/José Pedro Bauleth (este gasolina havia sido adquirido  a Mário de Almeida, um familiar, e era o que possuia um design mais atraente). Neste "gasolina" era Orlando Gomes quem cobrava os bilhetes, e que, tal como José Pedro Bauleth, ajudava as senhoras e as crianças no embarque e no desembarque, dando-lhes a mão para que não caíssem à água, nesse vai vem entre os navios e a ponte.

Lembro-me dos dias de mar encapelado, da dificuldade que tínhamos para nos equilibrar e subir e descer as escadas dos navios, excepto nos agarrássemos  às cordas que as ladeavam, para não cairmos ao mar... Lembro-me que quando chegava o Verão, a velha ponte de embarque e desembarque da Praia das Miragens ganhava movimento e animação, com jovens exibindo sinuosos mergulhos, muitas vezes do alto do guindaste, para em seguida nadarem na direcção da  "praia da Capitania", aquela mesma praia, onde um dia, um polémico Capitão do Porto resolveu abater a tiro uma foca que se encontrava no tanque da  Avenida. Lembro-me das manhãs de cacimbo cerrado, em que nem a água se via, e para se chegar junto dos navios de carga ou de passageiros a orientação era feita pelos toques das buzinas dos gasolinas e pelos apitos dos navios.



Esta foto foi dipensada pela moçamedense Vera Freitas

Esta foto representa uma familia de Moçâmedes, a familia Almeida, e alguns familiares próximos e amigos, numa ida a bordo, em 1959, para despedida de um familiar que na Metrópole ia continuar os estudos. São,  atrás, da esq para a dt: Celeste Guedes, Mª Nídia Almeida, Mª do Carmo Matos, Mª Paula Ferreira, Ângelo Almeida, Olga Almeida, Virgilio Almeida e Betinha Bagarrão. À frente:
 Mª da Conceição Paulo, Marito Guedes  e Margaretm Matos



Não eram numeroso o número de residentes que ia de férias à Metrópole. A maior parte das familias de Moçâmedes, descendentes de algarvios, radicava-se na cidade, e nunca mais voltava à sua terra. isto pelo menos até meados do século XX.  Por isso, excepto aqueles que beneficiavam de Licença Graciosa por serem funcionários do Estado, bancários, e um ou outro residente mais desafogado financeiramente, ou um ou outro estudante deslocado para continuar seus estudos na Metróple, ou na África do Sul, não era muito comum, até meados da década de 1950, os moçamedenses viajarem para a Metrópole, de férias. Eram viagens muito dispendiosas a que a maioria da população, remediada, não tinha acesso.  Mae é preciso dizer que a "Graciosa" instalou-se entre funcionários públicos, dada a ideia de falta de salubridade nas colónias (Africa foi durante muito tempo considerada  um cemitério para os europeus e durante muito tempo foi problemático conseguir-se, na Metrópole, quem se dispusesse a  avançar para as terras de Africa). Assim, os funcionários públicos passaram a ter esse incentivo, trabalhando para o efeito mais 1 hora por dia que o funcionário metropolitano para que, ao fim de 5 anos, pudessem retemperar-se na Metrópole, e por África continuar. E porque não eram muito comuns, na época, essas deslocações, sempre que alguém saia, quando regressava, sobretudo entre os  homens contavam-se histórias  da vida nocturna em Lisboa, falava-se das prostitutas da Avenida da Liberdade, da polícia dos costumes que as levava  a enfiavam o braço no primeiro homem que aparecesse para que não fossem presas, etc etc. Havia miséria na Metrópole, enquanto as províncias Ultramarinas não progrediam, reduzidas que estavam a coutadas de umas quantas familias sediadas na Metrópole.  Ainda em meados dos anos 1950, as gentes de Angola eram olhadas na Metrópole com certa curiosidade, como se fossem todos ricos, como se houvesse por lá uma árvore das patacas que bastava abanar para se enriquecer. Os baixos salários da classe trabalhadora na Metrópole, e a ideia de que as pessoas que vinham do Ultramar eram ricas, gerou uma exploração tal, que os recém desembarcados no cais da Rocha, em Lisboa,  para levantarem as suas bagagens, tinham que o fazer à custa de gorgetas e mais gorgetas aos carregadores, para além das exorbitantes taxas  de  desalfandegamento que tinham que pagar.

 


                      Na foto, algumas visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira


                                    O João Belo, o primeiro verdadeiro paquete português. DAQUI


O mais emblemático dos navios da frota da C.N.N. era o paquete "Príncipe Perfeito", ao serviço entre 1961 e 1976, concorrendo nas linhas de África com o "Infante D. Henrique" da C.C.N. DAQUI
  
 O Uije

A verdade é que para aqueles que tinham o privilégio de fazer estas viagens, que duravam regra geral cerca de 12 dias pelo mar fora, era como se estivessem a fazer um Cruzeiro, em que as férias começavam logo alí à saída da baía de Moçâmedes. Pelo menos para aqueles que viajavam em 1ª classe.

Estas são algumas das memórias daquele tempo, que foi o meu tempo de criança e de jovem adolescente, em que, tal como eu, a cidade onde nasci, Moçâmedes, após um periodo longo de quase estagnação, começava finalmente a despontar para uma nova fase, e para um novo estilo de vida, em que grande parte destas situações aqui descritas, deixaram de ter lugar e de fazer sentido.


(ass)MariaNJardim

Ver também: O piquete da Guarda Fiscal
                     Inauguração do cais acostável
 

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