27 abril 2007

Estudantes da Escola Com. e Industrial de Moçâmedes em excursão à Matala.





Grupo de estudantes da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes no decurso de uma excursão à Matala. Da esq. para a dt. Em cima: Aurora Vieira, Lurdes Infante da Câmara, Ivone Serra, Maria José Gastão, Mitsi Aboim, Maria do Carmo Domingues, Maria da Graça Nunes de Sousa, ? , Lili Salvador, Fausto Gomes, Maria Helena Anselmo e?
Embaixo: desconheço

 

Da esq. para a dt. Em cima: ?, Lurdes Infante da Câmara, Maria da Graça Nunes de Sousa, Lili Salvador, Maria do Carmo Domingues, Mitsi Aboim, Graciete (gémea), Ivone Serra e Luisa (gémea)
Em baixo: Dudu Ferreira da Silva, Marmelete, Fausto Ferreira, Luis Dolbeth e Costa, Cocas Ferreira da Silva, ?, José Fernando Soares, Álvaro da Silva Jardim (Chamenga) e Aldorindo.


As raparigas, umas eram, tal como os rapazes, do Curso Comercial, outras, do Curso de Formação Feminina.

A ideia da criação de colonatos no interior de Angola com gente do campo vinda da Metropole estava concretizada na prática, mas segundo críticos entendidos foi o maior sorvedouro de dinheiro, dos quais não se retirou qualquer benefício para o tesouro público. Um capital delapidado sem qualquer retorno.  O governo central  insistiu até à exaustão nos colonatos sempre segundo um esquema do século XIX, e sempre incidindo nos mesmos erros: indução sem a necessária experimentação. Neles consumiu verbas astronómicas, os resultados foram o fracasso.


Para saber mais sobre este colonato modelo e sobre as causas que levaram a que acabasse por redundar como tantos outros num autêntico fracasso, restando ao colono, obrigado a descontar para amortizar os investimentos, um rendimento tão baixo que após suportar as despesas essenciais sequer dava para poder ter um nível de vida razoável... clicar aqui: A colonização portuguesa e os colonatos - Angola

26 abril 2007

Usos e costumes dos povos do sul de Angola: Os cuanhamas e os cuamatos




Rituais cuanhama e cuamato. Homens possantes carregando mulheres no decurso de uma cerimónia de iniciação (efundula leegoma) 


Jovens iniciadas da recebem instruções e mulheres mais velhas para a cerimónia que inclui a injestão de determinada «mixela» que acreditavam, iria cimentar a relação.

Batuque de homens
Batuque de mulheres em Pereira d'Eca
Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Dança nocturna
 Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Rituais de Iniciação





"Efundula leengoma"  era uma cerimónia de iniciação que simbolizava a passagem da rapariga, neste caso da rapariga da etnia cuanhama, da adolescência à idade adulta.

Depois desta cerimónia, a jovem podia ser tomada como esposa. Para que este cerimonial acontecesse era marcado o dia, e dado conhecimento à rapariga através das mulheres da familia materna, mas se  estas desconfiassem que a jovem iria negar, esta era levada à força por homens jovens convidados para o efeito, entre os mais corpulentos e fortes, mais capazes de a carregarem ao ombro e de a levarem à presença dos anciãos que presidiam à cerimónia.

A festa era realizada em casas conhecidas da área e a jovem era apresentada  seguindo-se o ritual do ‘oufila’. Decorridos os rituais e os três dias que durava a festa, a rapariga tomava consciência de que aquele era o seu destino e que nada havia a fazer para o evitar.

De entre os rituais destacava-se o de "ondjuwo". Este decorria no quarto da mulher principal da casa, que ficava ao lado de "olupale", uma espécie de sala principal de jantar. A cerimónia de "ondjuwo" continha elementos imorais contrários à dignidade da pessoa humana, e foi condenada pela Igreja, como pecado. 

Entre os Cuanhamas (kwanyama ou oxikwanyama), no segundo dia da «efundula», as raparigas bebiam uma cerveja especial, misturada com drogas, em que se incluia um pouco de líquido seminal  de um circuncidado de outro grupo, já que eles não praticam a circuncizão. No «olufuko» dos Cuamatos, a mestra anciã preparava uma cerveja com drogas da qual retirava uma porção numa taça; nela, um circuncizo lavava o seu membro três vezes, e a rapariga, que desconhecia estas práticas, bebia um gole. O resto, a mãe ia-lho derramando pelo baixo-ventre.

O noivo podia reclamá-la quando lhe apetecesse, se a noiva já tivesse regressado a casa, após a cerimónia de iniciação (efundula :cerimónia de mudança de lugar, estado, de situação social e de idades), e  se o "alambamento" (oinda) já tinha sido entregue aos pais. Uma parente e um amigo do noivo apresentavam o pedido e acompanhavam a noiva a sua nova casa, onde dormiria com o marido e o casamento ficava consumado.
O "alambamento" não era considerado um dote nem sequer uma compra, muito embora tivesse carácter de investimento, e era constituído, essencialmente por um boi, destinado ao pai da noiva, e várias enxadas para a mãe, como que uma compensação que funcionava como um seguro de casamento.  A família da noiva perde um elemento de trabalho e recebe um boi e as enxadas em troca. Por outro lado, a fim de evitar a restituição do "alambamento", a família da esposa tudo fazia para que o casamento não se desfizesse por culpa desta.  Inda assim o divórcio era reclamado pela mulher, uma vez que havia sempre um pretendente disposto a indemnizar o anterior marido. Se o Cuanhama batesse e injuriasse a mulher, não a presenteasse com vestidos, não lhe lhe proporcionasse mantimentos, ficasse muito tempo fora de casa, etc, dificilmente a relação se mantinha . Também o adultério da mulher não constituia motivo de divórcio. Se o marido tivesse conhecimento do facto, exigia o pagamento de um boi e considerava a "cara lavada". Se esta indemnização não fosse paga, vingaria a sua honra ofendida, porém, quase sempre o prevaricador pagava sem relutância, e, quando isso não sucedia, a questão era levada perante a autoridade local, que sanava o conflito. E a mulher não tinha repugnância em confessar o desvio cometido. Raramente o marido propunha o divórcio, mesmo após infidelidades sucessivas. E mesmo se a mulher fosse estéril, apesar do seu grande desejo de ter muitos filhos, não utilizava o facto como causa de separação, antes trataria de arranjar outra mulher que lhos desse.

 A  tribo cuanhama ocupava um vasto território que ia desde uma zona próxima de Vila Roçadas, acompanhava a margem esquerda do Rio Cunene até às quedas de Ruacaná, confinava com o território Himba nas savanas semi-desértica até à foz do rio Cunene e ultrapassava a fronteira de Angola, penetrando na actual Ovambulândia, Namibia (antigo sudoeste africano). Os Cuanhamas eram um povo altivo e de grande estatura, criadores de gado por excelência, ignoravam por completo as fronteiras coloniais impostas. Povo guerreiro, fez frente à permanência portuguesa até meados da década de 1920, e foi Pereira d'Eça, militar ao serviço do governo português que os obrigou a recuar, mas até nesse recuo muitos portugueses foram abatidos, dada a sua persistência, e até o célebre João Roby  por lá ficou.

Hoje em dia é um povo integrado. Como todas os povos no estado tribal, os cuanhamas tinham o seu modo de encarar o mundo, os seus hábitos e costumes... a sua ideossincrasia.


MariaNJardim

(Texto elaborado a partir de várias leituras de blogs e sites na net, entre os quais:


 http://www.geocities.com/patricia_rosa2002/index.htm
 http://web.uct.ac.za/org/gwsafrica/knowledge/patricia/efprint.htm

http://dna.polytechnic.edu.na/greenstone/cgi-bin/library.cgi?e=d-01000-00---off-0dna--00-1----0-10-0---0---0direct-10---4-------0-1l--11-gu-50---20-about---00-3-1-00-0-0-11-1-0utfZz-8-00&a=d&c=dna&cl=CL1.8.14



NOTA: Respeite o nosso trabalho!  Se vier aqui e retirar algo, não se esqueça de citar a proveniência.

Porto Alexandre (actual Tombwa): 1. Grupo feminino de acção católica 2: Espectáculo no Club Recreativo (1961)



Esta foto foi tirada durante um espectáculo realizado no ano de 1961, no Cinema do Clube Recreativo de Porto Alexandre, pode ver-se, entre outros, o casal Eteldina Carvalho Frota (Tedina) e José Manuel de Frota (Chefe de Produção do Rádio Club de Moçâmedes e grande comunicador) em primeiro plano, o Dr. Moreira de Almeida, (médico e figura muito estimada no distrito de Moçâmedes), e mais atrás, Alexandre Francisco Trocado (conhecido por Xanduca), Marrão (da Cimar), Eduardo Faustino (gémeo) e Parente. O Clube Recreativo de Porto Alexandre, implantado num velho edifício no centro da Vila, era nessa época o grande animador da cidade. Foi alí que os alexandrenses começaram a assistir às primeiras sessões regulares de cinema, foi alí que se desenrolaram as várias manifestações sócio-culturais que animaram a vila com frequentes bailaricos e reuniões várias, onde não faltavam os jogos de cartas, jogos de "batota" e outros, quer a dinheiro quer a maços de cigarros, um dos grandes entretenimentos dos alexandrenses do sexo masculino após o dia de trabalho e até à hora de jantar.
Fotos: «Recordar Angola»



CLUBE RECREATIVO ALEXANDRENSE
 
Este Club, fundado em 1920, um ano após a formação do Independente Clube de Porto Alexandre, no tempo colonial encontrava-se sediado num velho edifício no centro da Vila, e era  alí o local onde se realizavam todas as manifestações sócio-culturais: bailaricos, reuniões de todo o género, havendo também salas de jogos onde os homens da terra jogavam  à "batota" quer a dinheiro, quer a maços de cigarros a que não faltavam clientes, especialmente entre as cinco horas da tarde e a hora de jantar, e foi no Recreativo o ponto de encontro que pela primeira vez pod alexandrenses puderam assistir  a sessões regulares de cinema. Possuía uma Guiga para regatas a remos que talvez utilizada em outros tempos, teria acabado os seus dias corroida e desgastada. 

Centenário de Porto Alexandre. Resumo da Reportagem em 8.1.195. Sessão Solene no Clube Recreativo Alexandrense, fundado em 1920, com as seguintes representações: Carlos Moutinho (chefe de produção do Rádio Club de Moçâmedes), Magalhães Monteiro (Diário de Luanda), colono Sebastião Sena,  Câmara Municipal de Moçâmedes
 (Raul Radich Junior, Virgilio de Carvalho, Abilio Gomes da Silva, e Rui Mendonça Torres). Como porta.bandeira Artur Trindade, Secretário da Câmara Moçâmedes. O discurso foi efectuado pelo Capitão Gastão de Sousa Dias.


 


Nesta foto, tirada no interior do Colégio Cónego Zagalo por volta dos anos 60, e representativa do Grupo de Senhoras da Acção Católica alexandrense, reconhece-se, de cima e da esq. para a dt.: Maria da Graça Neves Graça, Nide Ilha Sena, Josefina Tendinha, Lídia Delgado Peleira, Maria Feiteira Trocado, Margarida e Angelina Barreto. Em baixo: Lurdes Ilha Tendinha, Gladys Sampaio Nunes, Zica Cristão Marques e Beatriz Assunção. Os movimentos de acção católica no feminino, eram em geral constituídos por senhoras bem colocadas na sociedade, que se dispunham a fazer a sua acção social de apoio e ajuda aos mais carenciados, e de facto as senhoras que aqui vemos faziam parte desse grupo de famílias muito conhecidas e consideradas, que constituíam o eixo em volta do qual gravitava a vida social e económica da cidade de Porto Alexandre


Para mais informações sobre o movimento de Acção Católica iniciado em Portugal no período entre guerras, do século passado, tendo por objectivo uma intervenção junto das massas populares, em ordem à restauração dos valores do cristianismo: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=45659&seccaoid=3&tipoid=186Sobre famílas alexandrenses, para mais informação: http://geohistharia.blogspot.com/2006/02/relembrando-porto-alexandre-i.html






24 abril 2007

Porto Alexandre (actual Tombwa)










































































































1ª e 2ª fotos: Fotos tiradas no decurso de um «porto de honra» oferecido pelo Independente de Porto Alexandre às basquetebolistas do Atlético Clube de Moçâmedes. Na 2ª foto reconheço Julia Jardim,
do Atlético, (sentada à esq.), e Alvaro Faustino, de pé à esq. Na 2ª, reconheç, à dt., Ernestina Coimbra, e ao fundo, a meio, Álvaro Faustino e Armindo Alves.

3ª , 4ª e 5ª fotos: Encontro de basquetebol feminino realizado em Porto Alexandre, entre o Independente daquela cidade (shorts brancos) e o Sport Moçâmedes e Benfica (calções brancos).


4ª foto: Campo de jogos de terra batida do Independente de Porto Alexandre, no largo onde estacionavam os autocarros da carreira de Sousa e Irmão. Foto tirada no decurso de um treino de basquetebol feminino em que participavam as seguintes jogadoras: Bernardete Tavares, Ernestina Coimbra, irmãs Goelas, Rosa Gancho, ...

5ªfoto: Uma pausa para o descanso dos empregados da pescaria CIMAR.


6ªfoto : Este era geralmente o ambiente aos domingos à porta do Flamingo Bar, onde alguns alexandrenses tinham por hábito reunirem-se para um agradável bate-papo... Curioso é o cartaz que se encontra colado na montra do café, onde se lê nitidamente «Vem aí o Varzim», sugerindo uma próxima visita deste clube a Angola e a Porto Alexandre no ano 1966

7ª foto: O bonito Cine Alexandrense e o seu pequeno jardim.
Fotos retiradas de
http://www.sanzalangola.com/

Sobre a 6ª foto, encontrei esta quadra que se adapta no site da ADIMO/poetas moçamedenses, em AROMAS DA MINHA TERRA (5)

No desporto, o Independentezito
Famoso com Estrelas lá do sítio
Conquistaram taças Provinciais
E discutiram até títulos Nacionais


O autor tenta explicar:
(...) Fala do Clube da terra, o Independente Sport Clube, que foi várias vezes campeão de Angola e veio por duas vezes ao Continente Europeu disputar a Taça de Portugal. Uma delas com o União de Tomar e outra com o Benfica (na altura, o Eusébio ainda jogava). O jogador mais habilidoso e que fazia a diferença, de nome Estrela, inspirou-me para o conjunto.

Também encontrei aí numa outra quadra
(7), algo sobre o Flamingo Bar, o Bar que se pode ver na 5ª foto:

Nos “flamingos” dessa terra
Muito líquido se bebericou
O copo que a mão cerra
Nunca das voadoras se livrou

E a seguir a interpretação dada pelo autor:
«.....havia um Bar muito famoso chamado “Flamingo”. Por esta razão, considero no poema, que todas as casas de pasto existentes passam a chamar-se “os flamingos”. Para se beber qualquer líquido tinha que se tapar o copo com a mão para evitar as moscas e a sopa tinha que ser comida o mais rapidamente possível. »



Professores e estudantes de Porto Alexandre (actual Tombwa) : finais da década de 60




























1ª e 2ª fotos: Visita à Escola 114. Reconheço, vestida de branco, a prof. Maria José Lino de Moura.
Foto de Sanzalangola

3ª foto: alunos das escolas 57 e 114 de Porto Alexandre, aguardam a visita de uma personalidade (governador do distrito?) Foto cedida a Sanzalangola por Dilar Silva.
3ª foto: Meninos e meninas estudantes de Porto Alexandre.Em cima: Mário Caldeira, Claudia Viegas, São, João Paulo, Fátima Republicano, Sameiro, Ana Júlia, Anisabel, Armando Carvalho, Zequinha, Aureliano, Toninho Gomes, MiguelEm baixo: Lurdes Costelha, Lourdino Marques, Mário Viegas, Joaquim Proença, Carlos Sancadas e Chiquinho. À esq., a prof. Maria José Lino de Moura (conf. inf. de Namibiano Ferreira).
Foto: Sanzalangola (cedida por Isaura Pinda)
Créditos de imagem: www.sanzalangola

23 abril 2007

Porto Alexandre (actual Tombwa): Traineiras e Pesca de Armação





                                               


 
Porto Alexandre - Pesca de cerco: traineira recolhendo a rede



Porto Alexandre - Descarga de peixe. 1962
  
Porto Alexandre: pesca de sacada  
                                                           Porto Alexandre: seca de peixe

                                                         
                             































Fotos de Instituto de Investigação Científica Tropical . IICT/Arquivo Histórico Ultramarino


«..........Na festa da Senhora da Conceição, padroeira da terra, as traineiras e canoas encostavam as proas à praia. O estrado de madeira construído na praia, frente aos barcos, era o púlpito onde o padre rezava a missa nesse dia. Dada a mansidão das águas dentro da baía (tal como em São Martinho do Porto), os barcos podiam, sem receio, encostar a proa na areia pois nunca corriam o risco de encalharem. Ao acabar a missa campal, os barcos engalanados (tal como em algumas povoações piscatórias de Portugal) faziam soar as suas sirenes e a população estalejava foguetes. Abel Marques
posted by Adimo @ 10/06/2006 09:49:00 PM
 


Para saber mais sobre a industria pesqueira no distrito de Moçâmedes: Revista Portuguesa de Veterinária

AROMAS DA MINHA TERRA (3)
1
Depois a ambição das Nações
Deu asas às colonizações
Desenvolveram estratégia Imperial
Jumbo branco ficou, pobre Portugal

2
Quer no Pinda quer na praia da baía
Antes do “camone” construir feitoria
Barretos das Ilhas foram primeiros
Sem lá estarem Algarvios ou Poveiros
Não sei porque raio de razão
Era do Alex o nome da Povoação

3
Madeirenses e Poveiros meus pais
Pescadores dessa terra como tantos
Agora são recordações banais
De vidas doridas, em poesia, encantos

4
Pelo sustento de todos, lutaram
No arrasto, cerco e linha labutaram
Trabalhadores humildes consumidos
Guerreiros de tormentas, enrijecidos

5
Botes enfrentaram o mar, valentes!
Charruando, mágicas redes consistentes
Navegando, velas e motores potentes
A faina foi fruto dessa gente morena
Tripulantes de alma danada, serena

6
Prós pesqueiros a frota se dirigia
Três Irmãos e Chapéu Armado.
Por vezes até o Santo estremecia
Na Ponta Albina, outro afamado

7
Canoa, vela triangular bolinando
Com sacada, sua arte pescando
Lá moravam antes da traina chegar
Na arqueologia teimosamente a brilhar

8
Traineiras, Bota-a-baixo, berrantes
Protectora Senhora dos Navegantes
Vogando, motores a ronronar
Sulcando o azul tapete, indo ao mar
Lá iam, voltavam carregadas
Cheias de sonhos, abençoadas

9
Ziguezagueando, barrigas a brilhar,
Miragens de lantejoulas ao luar
O mar ardia à vista ao borbulhar
Ao largo ou na costa a fainar
O arrais vibrava! Bota-ao-mar!

10
Redes extensas e compridas
No uso da traina partidas
Artes por todos concertadas
Hoje são industrializadas

11
Na enseada navios fundeados
Vindos quiçá de que país imundo
Guano nos porões atulhados
Rica mortandade ia pró mundo

12
Na Pesca do Império reza a história
Foi porto primeiro, não há memória
Sardinha e charro gordo fedorento
Afamou a terra de cheiro pestilento

13
A escala secava no estendal
Quadro que parecia um carnaval
Ficou na memória a tarimba
Tela que não vi mais ainda


14/Fevereiro/2006
Abel Marques
in Nossos Poetas
(Clicar aqui para lêr a interpretação do texto)

Colégio Cónego Zagalo- Porto Alexandre (actual Tombwa) 1968/69


Equipa de basquetebol do Colégio Cónego Zagalo, cedida por Eloísa a Sanzalangola, tirada no campo do Sporting de Moçamedes, num torneio entre escolas (Moçamedes e Porto Alexandre).z.
















 
Em pé: Melita Parreira da Cruz,Paula Parente, Idalina (São), Lourdes Silva, Mariana. De joelhos: José Trindade Couto Julieta Vale, Gena Parente, Luzete Mamedes de Sousa, e Coceição ???, e  .... Fotografia foi tirada no campo de basquete do Independente, em 1969.















 

As instalações do Colégio Cónego Zagalo

























Meninas de Moçâmedes e Porto Alexandre em dia de Comunhão solene













1ª foto: Vininha Paulo e uma colega momentos antes de receberem a 1ª Comunhão na Igreja de Porto Alexandre. (década de 50)

2ª foto: Na Igreja Paroquial de Santo Adrião em Moçâmedes, Marizette Veiga acompanha uma menina da terra ao altar da para receber os sacramentos da 1ª Comunhão Solene. A menina, hoje uma mulher, estudou na URSS onde se licenciou e actualmente é professora, e casada com um dos quadros do Governo angolano. Ao fundo, à esq., reconheço Mário da Ressurreição M. Rocha., que foi Chefe de Repartição da Câmara Municipal de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por Marizette Veiga (década de 60)

Colégio Cónego Zagalo/Porto Alexandre (actual Tombwa)



















Em cima: alunos do Colégio Cónego Zagalo, ladeiam o Padre Pinto Lobo ( ao centro, de cabelos brancos e vestido de negro), em dia de festa. Nesta foto reconhecem-se entre outros:
Canuca, Beta, Carlos Raminhos, Sissi, Orieta, Rosa, Toni, Braguinha, Eurico, Milena, M José, Dinho, Caldeira, Gena Parente, Adérito, Abel Marques...

Em baixo: docentes e visitantes ladeiam o Padre Pinto Lobo. Deste grupo, reconhecem-se:
Lourdino Tendinha, Presidente da Câmara daquela cidade, ...prof. Maria Baptista, Lídia Peleira, prof. Albertina, esposa do prof. Pólvora Dias, Lourdes Tendinha (de óculos escuros e carteira na mão), Lourdes Oliveira, o Administrador e esposa, Belarmina... As crianças: Nair (filha de Lídia Peleira) e filho do Pólvora Dias. Para saber mais sobre Porto Alexandre, e suas gentes, recomenda-se vivamente este interessante blog: http://geohistharia.blogspot.com/
Fotos: Sanzalangola: (cedidas por Eloisa)

A Igreja paroquial de Santo Adrião e alguns dos seus párocos




O Padre Pinto Lobo no dia do meu casamento.


 
O Padre
Martinho de Araújo Noronha ministrando o sacramento do baptismo a uma criança na Igreja Paroquial de Santo Adrião, nos principios da década de 70 .





O Padre Mascarenhas baptizando uma criança


O altar da Igreja de Santo Adrião. (Foto cedida por Amilcar Almeida)
Esse mesmo altar que viu subir para darem o nó milhares de noivos e noivas de gerações sucessivas, que assistiu ao baptismo de milhares de criancinhas e onde mais tarde muitas delas receberam a sua 1ª comunhão, em cerimónias presididas pelos pelos padres Basilio, Reis, Guilhermino Galhano, Almeida, Simões, Noronha, Pinto Lobo, Mascarenhas e outros que não recordo, padres que deram missas, que organizaram procissões bastante frequentadas por homens e mulheres, mas sobretudo por elas que ali acorriam em maior número.



 A pia baptismal, encimada com a imagem de S. João Baptista. Essa mesma pia de água benta que assistiu aos sacramentos de baptismo de gerações sucessivas de moçamedenses ministrados pelos mesmos párocos aqui descritos e por outros, cujos nomes acabam esquecidos nas brumas do tempo.



De comum, o facto de serem três padres de origem indiana, e por se tratar de baptismos ocorridos na Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes,



 
Não conheci pessoalmente o Padre Noronha, porém tomo a liberdade de colocar aqui este testemunho de alguém que com ele privou de muito perto:



«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cívicos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.


Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.


Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araíjo Noronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.

Em meados de 90 (1994?, 1995?), trouxemo-lo a Macau. Os seus antigos alunos e amigos não hesitaram e, mediante uma colecta, angariámos os fundos necessários para o trazer, e a uma sobrinha, até Macau. O Vítor Leal de Almeida, o Jorge Arrimar (estes, comigo e com o Walter Frota, os organizadores do Kurikutelas I, II e III em 1987, 88 e 89, Convívio dos Angolanos em Macau), o Pedro Redinha, tantos, tantos, tantos! tratámos disso. Ele cá esteve e cumpriu o programa a rigor. Foi bonito, foi bonita a festa, pá! Ele levou daqui a expressão de agradecimento de uma geração dos seus alunos e amigos a quem tocou com a sua amizade e exemplo. E nós sentimo-nos muito mais enriquecidos, por revê-lo, por ter realizado um sonho dele, por sentirmos que não obstante as nossas diferenças (religiosas, políticas, partidárias), além do amor a Angola, tínhamos o Padre Noronha como REFERÊNCIA MORAL comum nas nossas vidas. Uma dádiva de Deus. Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas .



Eduardo A. Correia Ribeiro »
 


( Sanzalangola)

 


Este era um tempo de grandes mudanças em todo o mundo, que também tocaram a Igreja católica, tempo dos movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc).   Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.


Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha,  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este  foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.




Outro exemplo desta aproximação foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968, após ter vivido alguns anos em Moçâmedes, onde trabalhou. Este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" , em verdadeiras festas de juventude.  Em 1972, fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973 especializou-se em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz. O objectivo era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade. A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante como o rock podia ser tocado nas Igrejas, como lá para os anos 70 incluiu algumas letras causticas contra o regime. (1)




 O padre Galhano em meio às crianças, seus pais e familiares, do bairro da Torre do Tombo, em em dia de comunhão

O padre Galhano no entre os jogadores do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Em cima: Pedro Eusébio, Aires Domingos, ?, Fernando Peçanha, Abano, Joaquin Gregório e ? Embaixo: Pacheco, John Pereira, Padre Galhano, Fernando Pestana e Amilcar de Almeida. Foto tirada em 1955. Foto gentilmente cedida por Amilcar de Sousa Almeida.



O padre Guilhermino Galhano

Eis aqui o Padre Galhano, o homem de barbas e barrete negro, pároco da Igreja de Snto Adrião nos anos 1940/50 pessoa muito estimada em Moçâmedes, carola do Ginásio Clube da Torre do Tombo e do futebol, que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. fundado rm 1919. O Padre Galhano era um padre moderno, no bom sentido do termo, que sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra. Ainda recordo, quando aos domingos após a missa e a catequese, de batina branca, meias pretas,e as suas longas barbas negras, o padre Galhano a jogar futebol com as crianças, no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador. 

Passarei a transcrever uma evocação em verso deste local sagrado, onde o poeta , o alentejano Rodrigo Baião Alcario lembra o dia do seu casamento e faz referência ao grande pároco que foi o popular Padre Guilhermino Galhano. O casamento realizara-se no dia 01 de Novembro de 1940.


O DIA MAIS FELIZ

Eu tenho gravada no meu pensamento
Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.
Rompia na cidade, alegre e risonho,
O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.
Quatro horas da tarde desse lindo dia
Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.
Mas eis que um carro à igreja chegou
E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.
Minha noiva intranquila seguia nervosa
De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.
Pelo braço do pai, que feliz sorria,
Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.
Celebrado o acto com solenidade,
Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.
Nunca em minha vida tive um dia igual
Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.
Porque nos queremos, porque nos amamos
Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.

Robaial / R. Baião Alcario (1907-2005 )

  S.João do Estoril, 30/09/97
(tinha 90 anos quando escreveu o poema)



Nota: Rodrigo Baião Alcario era meu tio. Faleceu aos 97 anos, completamente lúcido, menos de uma semana após a morte da minha tia, Lidia Rosa de Sousa, aos 85 anos e idade. Nunca tiveram filhos (por opção), dado a sua profissão (Chefe da Guarda Fiscal), e por ter andado sempre em zonas fronteiriças e isoladas do norte de Angola (mato). Aposentou-se por «doença» em 1958, antes dos trágicos acontecimentos do norte de Angola. Inteligentemente. O tempo contou-lhe a dobrar. Ainda viveu mais 37 anos na sua terra em Moura/Portugal, para onde regressou. Faleceram ambos num lar em A. João do Estoril para onde se tinham radicado, em morada própria, em 1990. Rodrigo também fez crítica literária, ainda que nunca publicada, nos seus tempos de guarda fiscal pelas matas de Angola.




 FIM




(1) Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo Concilio Vaticano II que se estendeu e chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África. A Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram mudanças que preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política (PIDE) estava atenta à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.e lá para os anos 70, incluso algumas letras causticas contra o regime.