26 abril 2007

Usos e costumes dos povos do sul de Angola: Os cuanhamas e os cuamatos




Rituais cuanhama e cuamato. Homens possantes carregando mulheres no decurso de uma cerimónia de iniciação (efundula leegoma) 


Jovens iniciadas da recebem instruções e mulheres mais velhas para a cerimónia que inclui a injestão de determinada «mixela» que acreditavam, iria cimentar a relação.

Batuque de homens
Batuque de mulheres em Pereira d'Eca
Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Dança nocturna
 Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Rituais de Iniciação





"Efundula leengoma"  era uma cerimónia de iniciação que simbolizava a passagem da rapariga, neste caso da rapariga da etnia cuanhama, da adolescência à idade adulta.

Depois desta cerimónia, a jovem podia ser tomada como esposa. Para que este cerimonial acontecesse era marcado o dia, e dado conhecimento à rapariga através das mulheres da familia materna, mas se  estas desconfiassem que a jovem iria negar, esta era levada à força por homens jovens convidados para o efeito, entre os mais corpulentos e fortes, mais capazes de a carregarem ao ombro e de a levarem à presença dos anciãos que presidiam à cerimónia.

A festa era realizada em casas conhecidas da área e a jovem era apresentada  seguindo-se o ritual do ‘oufila’. Decorridos os rituais e os três dias que durava a festa, a rapariga tomava consciência de que aquele era o seu destino e que nada havia a fazer para o evitar.

De entre os rituais destacava-se o de "ondjuwo". Este decorria no quarto da mulher principal da casa, que ficava ao lado de "olupale", uma espécie de sala principal de jantar. A cerimónia de "ondjuwo" continha elementos imorais contrários à dignidade da pessoa humana, e foi condenada pela Igreja, como pecado. 

Entre os Cuanhamas (kwanyama ou oxikwanyama), no segundo dia da «efundula», as raparigas bebiam uma cerveja especial, misturada com drogas, em que se incluia um pouco de líquido seminal  de um circuncidado de outro grupo, já que eles não praticam a circuncizão. No «olufuko» dos Cuamatos, a mestra anciã preparava uma cerveja com drogas da qual retirava uma porção numa taça; nela, um circuncizo lavava o seu membro três vezes, e a rapariga, que desconhecia estas práticas, bebia um gole. O resto, a mãe ia-lho derramando pelo baixo-ventre. 

O noivo podia reclamá-la quando lhe apetecesse, se a noiva já tivesse regressado a casa, após a cerimónia de iniciação (efundula :cerimónia de mudança de lugar, estado, de situação social e de idades), e  se o "alambamento" (oinda) já tinha sido entregue aos pais. Uma parente e um amigo do noivo apresentavam o pedido e acompanhavam a noiva a sua nova casa, onde dormiria com o marido e o casamento ficava consumado.
O "alambamento" não era considerado um dote nem sequer uma compra, muito embora tivesse carácter de investimento, e era constituído, essencialmente por um boi, destinado ao pai da noiva, e várias enxadas para a mãe, como que uma compensação que funcionava como um seguro de casamento.  A família da noiva perde um elemento de trabalho e recebe um boi e as enxadas em troca. Por outro lado, a fim de evitar a restituição do "alambamento", a família da esposa tudo fazia para que o casamento não se desfizesse por culpa desta.  Inda assim o divórcio era reclamado pela mulher, uma vez que havia sempre um pretendente disposto a indemnizar o anterior marido. Se o Cuanhama batesse e injuriasse a mulher, não a presenteasse com vestidos, não lhe lhe proporcionasse mantimentos, ficasse muito tempo fora de casa, etc, dificilmente a relação se mantinha . Também o adultério da mulher não constituia motivo de divórcio. Se o marido tivesse conhecimento do facto, exigia o pagamento de um boi e considerava a "cara lavada". Se esta indemnização não fosse paga, vingaria a sua honra ofendida, porém, quase sempre o prevaricador pagava sem relutância, e, quando isso não sucedia, a questão era levada perante a autoridade local, que sanava o conflito. E a mulher não tinha repugnância em confessar o desvio cometido. Raramente o marido propunha o divórcio, mesmo após infidelidades sucessivas. E mesmo se a mulher fosse estéril, apesar do seu grande desejo de ter muitos filhos, não utilizava o facto como causa de separação, antes trataria de arranjar outra mulher que lhos desse.

 A  tribo cuanhama ocupava um vasto território que ia desde uma zona próxima de Vila Roçadas, acompanhava a margem esquerda do Rio Cunene até às quedas de Ruacaná, confinava com o território Himba nas savanas semi-desértica até à foz do rio Cunene e ultrapassava a fronteira de Angola, penetrando na actual Ovambulândia, Namibia (antigo sudoeste africano). Os Cuanhamas eram um povo altivo e de grande estatura, criadores de gado por excelência, ignoravam por completo as fronteiras coloniais impostas. Povo guerreiro, fez frente à permanência portuguesa até meados da década de 1920, e foi Pereira d'Eça, militar ao serviço do governo português que os obrigou a recuar, mas até nesse recuo muitos portugueses foram abatidos, dada a sua persistência, e até o célebre João Roby  por lá ficou.

Hoje em dia é um povo integrado. Como todas os povos no estado tribal, os cuanhamas tinham o seu modo de encarar o mundo, os seus hábitos e costumes... a sua ideossincrasia.

(Texto elaborado a partir de várias leituras de blogs e sites na net, entre os quais: http://www.geocities.com/patricia_rosa2002/index.htm
 http://web.uct.ac.za/org/gwsafrica/knowledge/patricia/efprint.htm

http://dna.polytechnic.edu.na/greenstone/cgi-bin/library.cgi?e=d-01000-00---off-0dna--00-1----0-10-0---0---0direct-10---4-------0-1l--11-gu-50---20-about---00-3-1-00-0-0-11-1-0utfZz-8-00&a=d&c=dna&cl=CL1.8.14

1 comentário:

Bruno Silvestre disse...

Bom dia,

Despertou-me o facto de ver uma das imagens dizer princesa do Namibi e ser muito parecida com a minha avó que sempre disse que era uma princesa cuanhama. Haverá mais informação?

Obrigada

Enviar um comentário