05 agosto 2007

O Carnaval em Moçâmedes nos 1950: bilibaus, tragateiros, torredotombenses, e outros mais ..

 "Bilibaus" e Tragateiros". Reconheço, da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Em baixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio Peyroteu...

     Estas fotos captam momentos inesquecíveis dos «Tragateiros» envolvidos numa batalha de cacotes nos jardins da Avenida, junto do Quiosque do Faustino, do Cinema e da Alfândega de Moçâmedes.
 

     Batalha de "cocotes" nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, 
em frente ao Quiosque do Faustino visível na foto
 
O grupo «os Tragateiros» desfila na Avenida da Praia do Bonfim, empurrando (sobre rodas), uma enorme pipa de vinho. Nota-se perfeitamente nesta foto a antiga Farmácia do Pequito, à dt,  que ficava entre a Papelaria Regina e o antigo Banco de Angola. Ao fundo, pintado de branco, o prédio do Brian.

Moçâmedes era assim nos três longos e animados dias em que decorria o Carnaval, que, sob a forma de Entrudo, era festejado na Avenida da Praia do Bonfim, na década de 1950, deixando-a completamente irreconhecível, toda coberta de farinha ...

Eram dias, em que toda a gente da cidade e arredores vinha para a rua, assistir às "enfarinhadelas", às batalhas de "cocotes" entre grupos rivais, "bilibaus", "tragateiros" e "torredotombenses", efectuadas no terreno, corpo a corpo, ou a partir do cimo de carrocerias de "camionetas" de caixa aberta, que percorriam de ponta a ponta a Avenida, ou para assistirem aos corsos, que de quando em quando aconteciam nesta quadra festiva, e que era ali que também se realizavam. E chegada a quarta-feira de cinzas, lá estavam os varredores da Câmara a tentar dar um ar civilizado àquele local, que era afinal a sala de visitas da cidade.


 
Eis o grupo dos rebeldes "torredotombenses". No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.

 

Foliões reunidos no antigo campo de futebol, entre eles reconheço, em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, Artur Costa, ??? António Barbosa, ?? João Bernardineli. Embaixo: António Bernardino, Albertino Gomes, Renato Veli, ? Frederico Costa,?? Diogo,??

 
Reconheço Mário Luís Figueiredo e Albertino Gomes
 
Entrada em jeep no Campo de futebol
       Grupo de foliões, do início dos anos 1950, concentrando-se para a paródia e cumprindo «rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Da esq. para a dt: José Adriano Borges, ?,?, Caala, ???, Artur Paulo Carvalho (Turra), ??


  
Esta era a "juventude rebelde" daquele tempo, cujo comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes, ora no salão do Atlético, ora no do Clube Nautico, sabendo ser romântica, qundo as circunstâncias convidavam a tal...

Depois do jantar, aos sábados, estes salões de festas do Atlético e do Casino animavam-se com bailes, no decurso dos quais eram eleitos o rei e a rainha do Carnaval, geralmente escolhidos entre os mais dados à folia... Era sem dúvida gratificante ser-se jovem em Moçâmedes na década de 1950!


Mas o Carnaval de Moçâmedes até aos anos 1950 apresentava também facetas mais populares, que num repente deixaram de acontecer. Reminiscências de outras épocas, costume trazido pelos colonos vindos de Olhão que se instalaram no bairro da Torre do Tombo, era geralmente depois do jantar que um grupo de parodiantes, que incluia por vezes membros de uma mesma família (homens, mulheres e crianças, sem distinção de idades), percorriam as ruas daquele bairro disfarçados com trajes improvisados de momento, que podiam ir de um simples lençol branco simulando fantasmas e um cajado na mão, até ao uso dos mais variados disfarces rudimentares (feitas de papelão, com buracos no lugar dos olhos, grandes narizes e bocas vermelhas, etc, etc...). E assim iam batendo às portas das casas de outras famílias, conhecidas e amigas, ou até mesmo desconhecidas, sendo o objectivo da brincadeira o desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer, mudando para tal a tonalidade da voz, ou simulando um qualquer defeito físico, etc, etc. Nesse tempo não havia à venda as requintadas máscaras actuais, e a improvisação era a saída. Eram  paródias nocturnas que foram perdendo actualidade  conforme se avançava para finais da década de 1950.



Segue um poema de Neco Mangericão que sempre tem procurado eternizar em verso este tempo, que foi também o tempo da sua juventude:


PATALIM, PATALIM



Para a Nené Carracinha
e todos os Moçamedenses


O Norberto Gouveia, era um amigo especial
e, quem um dia o conheceu, não o esquecerá jamais.
Brindou-o a Natureza de dons e virtudes tais
que o elevaram e fizeram dele uma figura imortal.

Grande, muito grande em tudo que se meteu,
Honrou a camisola do Atlético, foi desportista,
brindou-nos com a graça e maestria de Artista.
Dos que o viram actuar na revista, quem se esqueceu

dele no papel de compère, junto do Mestre Campos
- que sozinho, com graça e arte podia o palco encher -,
a dar-lhe luta, e respostas brilhantes como pirilampos,
dançando, cantando e fazendo rir até mais não poder.

Foi Homem que, entre o sempre jovem povo Macongino,
como Arcebispo da Praia das Conchas, exerceu com graça
a função de benzedor – provador de barris de boa vinhaça
com prédicas e orações dignas d’um abençoado do destino.

Esta é tão só uma página das minhas Memórias
e, de entre o que me pesa meio século de ausência
da terra natal, é não poder hoje contar mais histórias
de quem que nos fazia rir sem usar da indecência.




João Manuel Mangericão (Neco)




Ficam mais estas recordações
MariaNJardim


Créditos de imagem: algumas destas preciosidades foram encontradas no baú de recordações da minha sogra, 30 anos depois... Outras foram retiradas dos livros de Paulo Salvador( 2ª e 3ª), e outras ainda, de Sanzalangola 

1 comentário:

José Moreira disse...

Olá! Boa tarde, ao fazer uma pesquisa para recordar, encontro neste blog na foto nº 5 o meu avó ( Leão da Encarnação ) chamo-me José Moreira filho de Anabela Maria da Encarnação e gostariamos de saber um pouco mais sobre ele, para quem souber aqui fica o meu e-mail: moreira.encarnacao@hotmail.com

Serei um seguidor assiduo do vosso blog!!

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