09 agosto 2007

«Kazecutas» da nossa terra, num carnaval de rua na década de 50, e mais adiante no tempo...




A concentração começava no antigo campo de futebol de terra batida, situado em local próximo da Estação dos Caminhos de Ferro (fotos 1 e 2). Anualmente pelo Carnaval e durante três dias as "danças de rua" indígenas desfilavam pela cidade, cantando, batucando, dançando, soprando apitos, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes... Era a festa que o povo africano tanto adorava e nós, a garotada branca, negra e mestiça daquele tempo, também!

Nestes dias de Carnaval, na Moçâmedes dos anos 1950, descarregam-se energias, ânimos, desânimos, emoções... 

As danças indígenas, eram nem mais nem menos o que vemos aqui: povo na rua, uns exibindo chapéus de abas largas, outros, lenços, panos garridos, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, bonés, soutiens, óculos, etc... E ainda outros, semi-nús, saia curta sarapilheira, soutiens, colares, brincos, rostos pintalgados, penas na cabeça simulando índios em suas lutas e rituais, apito na boca, pau na mão, máscaras rudimentares de papelão, etc. etc.


 
 
"Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes

 
E a dança sai à rua passando junto às pérgulas e aos  caramanchões da Avenida...

Os tocadores utilizavam bombos, cornetas, reco-reco, marimbas, quissanges, apitos para cadência rítmica, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, etc., etc. 

Regra geral eram três as danças indígenas carnavalescas, a do plateau da Torre do Tombo, a da Aguada, e a do Forte de Santa Rita, ambas formadas por quimbares *, homens, mulheres e crianças. 


  

Estas «danças» eram lideradas pelos seus reis e as suas rainhas que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não lhes faltava as respectivas coroas e os ceptros reais...coroas que nas rainhas eram colocadas em cima de véus que vinham até ao chão fazendo lembrar as santas dos altares nas igrejas católicas... Atrás seguiam os músicos com diversos instrumentos para marcar o ritmo, especialmente tambores. Anda mais atrás seguiam os bailarinos, vestindo trajes individualistas ou, nos grupos "mais ricos", apresentando trajes repetitivos de tecidos de algodão de cores fortes. Enfim, toda uma encenação que dava um tom característico ao Carnaval de rua que se desenrolou em Moçâmedes, acredita-se, desde a chegada dos 1º colonos vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, sob a influência dos serviçais, escravos e livres que os acompanharam e que carregavam em sí, já  uma mistura de influências  afro-brasileiras.   

As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição, passo para a frente, passo para trás, que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «mata-bicho», gratificação em dinheiro, ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar...
 
O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado na cidade que aos sábados a percorria de ponta a ponta em busca de esmolas,  era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita. O cozinheiro do ti Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres de mau porte, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente era tema para canções.


E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decurso das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal, de luta corpo a corpo, que obrigava, em último recurso, à intervenção da polícia.. 

Era a grande festa do povo, a festa dos «cazecutas» da nossa terra, que se constituía em momentos de autêntica catarze, e  que terminou abruptamente com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras nas ruas da cidade pelas autoridades portuguesas, a partir das sublevações no norte de Angola e dos acontecimentos trágicos de 1961. 




 

Em Luanda, o centro de informação e turismo de Angola (CITA) criou  mais tarde regulamentos próprios para o Carnaval de rua junto das câmaras municipais, determinou os locais onde deveriam decorrer os desfiles, proibiu o uso das máscaras incrementaram os corsos, corsos alegóricos que desfilavam nos espaços que separavam os grupos carnavalescos e incentivaram cada vez mais as festas de salão, entre outras acções. 

 

O mesmo aconteceu com o Carnaval de rua no Lobito que passou a constituir um cartaz turístico para a cidade. Nesse período, depois de Luanda, só o Carnaval de Lobito, na província de Benguela, se destacou, chegando a ser considerado o mais animado e mais organizado Carnaval de Angola. A Câmara Municipal fazia desfilar na bela restinga e desde o início do Porto do Lobito à colina da saudade. 

Porém em Moçâmedes e não se sabe bem porquê, o Carnaval de rua extinguiu-se a partir de 1961, e nunca mais voltou. A Terminou também a "batalha de cocotes" que durante décadas. messes 3 dias, deixava a Avenida da República toda coberta de farinha...  E as danças de rua indígenas acabaram substituídas por dolentes batucadas, das quais apenas se ouviam os ecos vindos de entre muros, lá dos lados da Aguada, Forte de Santa Rita e  Plateau da Torre do Tombo ...

Uma década depois... 
 
Fevereiro de 1974. Estava-se a mês e meio antes do golpe militar de 25 Abril em Portugal, que depôs o Estado Novo, e a pouco mais de ano e meio da independência de Angola...

Carnaval de 1974, sem dúvida! O próprio cartaz o comprova.  Desfilando pela Avenida da Praia do Bonfim,  grupos de jovens africanas vestidas de côr alaranjada, sedas e setins, brincos, colares, turbantes, etc, inauguram um outro modo de viver o Carnaval, bem diferente das tradicionais "danças indígenas" que não  mais tinham voltado às ruas de Moçâmedes!
Outra foto do mesmo grupo


A influência a cultura europeia entre os moçamedenses brancos manteve-se até ao fim! De facto a raiz cultural de um povo, tem muita força. Para quê disfarçar?  No mesmo desfile participaram jovens  exibindo trajes que evocavam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não faltava o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
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Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em si outras mensagens, como o  da JAEA  (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola, progressiva e multirracial, que agora se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política  de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. O processo de integração e miscegenação estava em marcha, mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido revelaram-se tardias demais...

Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes. Mas o derradeiro Carnaval festejado mas ruas da cidade foi mesmo o de 1975, a poucos meses da independência de Angola. Desse já nada sei!


Angola foi independente em Novembro de 1975, com a cidade de Moçâmedes esvaziada da sua população europeia. Seguem algumas fotos daquele que penso ter sido o  1º Carnaval (pós dipanda), festejado nas ruas do Namibe:

 
 



Ver também AQUI, tudo sobre os carnavais em Moçâmedes
 
MariaNJardim




* Chamavam-se quimbares os nativos urbanizados naturais de Moçâmedes, em grande parte descendentes de antigos serviçais, livres e escravos, que em 1849 e em 1850 desembarcaram em Moçâmedes acompanhando os seus senhores, que, vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos das hostilidades nativistas, iam dar início à colonização do Distrito de Moçâmedes. Retornados a África, escravos ou livres, esses africanos de origens várias, sobretudo ambundos, transportavam consigo uma cultura própria, cristianizada, eivada de usos e costumes lusos, que haviam adquirido no contacto com seus patrões nas relações de trabalho, no Brasil. Vestiam-se de panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto (as mulheres), e com calças e camisas (os homens) e sabiam festejar o Carnaval, ao qual emprestaram um cunho próprio, com danças de rua e mascaradas acompanhadas de cânticos e batuques, cuja ritmica fazia lembrar danças de recriação espírita, em dias de óbito. Não andavam pois, nús, nem semi-nus como os povos que foram encontrar fixados nas margens dos rios Bero, Giraúl, Coroca, etc, ou deambulando, numa vida nómade e semi-nómade pelo Deserto do Namibe, vivendo da caça, do gado e do pastoreio. 

Com o rodar do tempo esse núcleo inicial dp povo designado por quimbar  foi-se alargando, em resultado da misceginação aos poucos verificada com indivíduos de outros grupos étnicos que com eles se cruzaram. Refiro-me a escravos libertados de navios negreiros apresados e enviados de Luanda para Moçâmedes, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino para o Brasil e Américas, tempo de grande carência de mão de obra, quando se pretendia enveredar para um um novo paradigma colonial, de povoamento e desenvolvimento do território. 

Passaram a integrar também o grupo quimbar, povos oriundos das margens do Bero, Giraúl e Curoca, entre os quais os Cuisses, Curocas e Hereros, ou mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W), estes não tanto, que, atraídos para trabalhar na agricultura e na indústria da pesca, e que, deslocados do seu meio, ao passarem a viver na região quimbar (Moçâmedes, Porto Alexandre e outras povoações pesqueiras e agrícolas entre Moçâmedes e Benguela, e mesmo Lubango, Humpata e Chibia) e ao atingirem um certo grau de aculturação no contacto com os brancos e com os primitivos quimbares, passaram a adoptar os modos de ser e de estar quimbar. Ou seja,  aprenderam a falar português, assimilaram alguns usos e costumes que já eram uma mistura de costumes afro-europeus. Tanto que na língua cuanhama o termo que os define o "quimbar", bali, lwimbali ou vimbali, significa, literalmente, "aqueles que vivem como os brancos". Aos primitivos quimbares Lopes Cardoso designaria de "Mbalis próprios", enquanto aos do segundo grupo designaria de"Virados". Olumbali, foi língua por eles criada, para cuja formação contribuiram decisivamente o quimbundu e o umbundu, bem assim como, em menor escala, o português e algumas línguas do sudoeste de Angola.

Resumidamente, a designação quimbar passou a abranger africanos de várias proveniências, sem radicação étnica, nem língua única, povos quimbundos, sobretudo ambundos, povos umbundos, e outros que se expressavam em idiomas do sudoeste de Angola, e que deslocados do seu meio,  passaram a adoptar o modo de ser quimbar, e  inclusive, com o rodar dos tempos passaram a mandar os filhos à escola oficial.

Lingua oficial de Angola: o português
Idiomas existentes em Angola: umbundo, quimbundo, quicongo, fiote, tchocwe, n'ganguela e cuanhama.
Grupos étnicos: perto de 90%, são de origem banto, sendo o principal grupo étnico banto o dos ovimbundos que se concentra no centro-sul de Angola e se expressa tradicionalmente em umbundo, a língua nacional com maior número de falantes em Angola. Por seu lado os ambundos que falam quimbundo, a segunda língua nacional, residentes maioritariamente na zona centro-norte (eixo Luanda-Malange e no Cuanza-Sul). Quimbundo é uma língua com grande relevância, por ser a língua tradicional da capital e do antigo reino dos N'gola. Legou muitas palavras à língua portuguesa e importou desta, também, muitos vocábulos. No norte (Uíge e Zaire) concentram-se os bacongos de língua quicongo que tem diversos dialectos. Era a língua do antigo Reino do Congo. Os quiocos ocupam o leste, desde a Lunda Norte ao Moxico, e expressam-se tradicionalmente em chocué (ou tchokwe), língua que se tem vindo a sobrepor a outras da zona leste do país. Cuanhama, nhaneca e mbunda são outras línguas de origem bantu faladas em Angola. O sul de Angola é também habitado por bosquímanos, povos não bantus que falam línguas do grupo khoisan.



3 comentários:

major_is@yahoo.it disse...

Ok, estou curioso, porque o prpprietàrio destas fotos paarece ser o telmo ascenso, sou o manito major, fomos colegas na 5°a, na 11 de novembro em 1979 com o nelo rios, cahapa, etc. vIVO EM iTàLIA em Veneza formei-me em Moda arte e design. Neste momento sou o coordenador do Pavilhào africano na Bienal de Veneza. Estou quasse certo que o cozinheiro do Oscar era o meu pai, major josè carlos Manuel, mais conhecido ti major. telmo o meu contacto em Italia è 0039 3494055070 email major_is@yahoo.it, UUm abraço, osè carlos alberto major

MariaNJardim disse...


Olá Major. Lembro-me que era esse o nome: Major. Seu pai era uma pessoa impecável e muito divertida. Grata pelo contacto e desculpe e desculpe só agora ter respondido à mensagen pois só agora dei com ela. Cumprimentos .

Anónimo disse...

Sou a Saozinha Duarte d'Almeida, filha mais nova de OSCAR DUARTE D'ALMEIDA e o Major, que adorava o carnaval, bem como a mulher Aida, vivia com intensidade esses 3 dias de festa. O nome dele era Major Jose Carlos Manuel Caminheira Gaspar e ainda estive com ele e Aida em 1992,quando fui a Moçamedes.

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