14 novembro 2007

Almoço de confraternização do pessoal ligado à Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio de Moçâmedes







1ª foto: A Nova Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio de Moçâmedes, sita na rua perpendicular à Avenida da Praia do Bonfim que passa à frente do Palácio da Justiça e da Fonte das gazelas.

2ª e 3ª fotos: Almoço de confraternização dos Empregados da Casa de Saúde do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio de Moçâmedes, corpos directivos e convidados, onde se podem ver, em 1º plano, de fronte, e da esq. para a dt.: o casal Manuel João T. Carneiro (advogado), esposa Manuela e filhos, e o casal Chalupa e filhos. À esq., Américo (Sofrio) e esposa, Luís Gonzaga Bacharel e esposa, ?,?,?. Ao fundo, Manuel Bagarrão (Nelinho) e filho, ?,?, .

4º foto: Outra perspectiva do mesmo almoço onde se podem ver, de fronte, e da esq. para a dt.: ??, Eduarda Carvalho e marido, Zete Veiga e marido, Diogo Baptista; Dr. Pinhão de Freitas (médico), esposa e filho, Dr Vaz (médico) e esposa, Américo (Sofrio) e esposa. De costas: o casal Chalupa e filhos e o Dr. Carneiro e filho.
 
Fotos gentilmente cedidas por Marizete Veiga, então escriturária na Secretaria da Casa de Saúde deste Sindicato.


                                *********************************************

Sem desprestígio para os demais, aproveito para fazer aqui uma referência a uma senhora, uma poetisa, que no decurso da sua  não muito demorada passagem estadia em Moçâmedes deixou a sua marca: Concha Pinhão 
 
Tinham passado 33 anos...  Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver Concha Pinhão. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas. 
 
Recordo a figura de Concha Pinhão quando, na companhia do marido, Dr Pinhão de Freitas (médico) esteve em Moçâmedes. Recordo que em 1971, Concha fora contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o Diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.

A Concha Pinhão que vi em Moçâmedes, era mulher de altura mediana, magra, têz clara e cabelo negro penteado ao alto, que fazia lembrar uma sevilhana. Concha emanava uma certa exuberância que dava nas vistas. Para quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da minha terra.

Desconhecia o tom provocatório que imprimia nas quadras que fazia  dedicadas à "flor fina" de Moçâmedes, apanhando-lhes os geitos bons e maus. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e  ritmo dos seus escritos, grande parte dos quais nos remeteram para os meus 30 anos e despertaram em mim sensações de toda a saudade que Concha sentiu ao escrevê-los. A sua poesia de cariz social muito bem observada com apelos tocantes é por si só reveladora da sua fina sensibilidade.

Passarei transcrever alguns dos seus versos, respeitando tanto quanto possível as respectivas datas:


MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito,
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
(Concha Pinhão)
......................


À Querida amiga Celeste Fonseca


Fala bem esta Senhora
Mais parece uma doutora
Tal o seu vocabulário
Que uma amiga despeitada
Diz que ela come em salada
Folhas de Dicionário

Moçâmedes, 1971
(Concha Pinhão)
..........................................................

UM JUIZ AMIGO

Do doutor Juiz, eu sei
Que ao dissertar sobre a lei
Crê dizer coisas sagradas;
Mas a rir sinto vertigens
Porque sei que leis e virgens
Nascem pra ser violadas

Moçâmedes, 1971
(Concha Pinhão)
..........................................


NAMIBE

Por tê-lo assim tão de perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E vive ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola, 1968
(Concha Pinhão)

.......................

BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.
Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Estoril, 1976
(Concha Pinhão)

...............................

Boina Azul

Partirão de novo
Pela madrugada
Percorrendo trilhos
Em que ninguém crê
No corpo do povo
A boina azulada
Heróis andarilhos
Não sabem porquê!...

Comando ambição
Ordena lá vão
Cumprindo a lei
Lá fora sem fronteir
Perdida bandeira
Perdido seu rei.

Estoril 1987
(Concha Pinhão)
........................

TERRA TRISTE


Ai! Moços da terra triste
A vossa esfera armilar
Não tremula não existe
Nos campos por cultivar

Ai! Moços da terra triste
Andais mesmo sem saber
Onde encontrar lar ausente
Sem pai... sem mãe... sem mulher

Logro de mãe erudita
Embrulhada na desdita
De quem nasceu menos forte
Tenta saida de sorte
Pela porta que resiste

Os filhos no infantário
Lar comprado - imaginário

Ai! Moços da terra triste...

Estoril 1988
(Concha Pinhão)

.....................

A LISONJA


É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego croa sinhos
De bergantim sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Estoril 2002
(Concha Pinhão)
............................

Poema dedicado ao marido, o Dr. Pinhão, (nas fotos, ao fundo, de óculos escuros).


Esse médico...que conheci



Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão

Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão


(Concha Pinhão)

-------------------
Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro»:

EMBONDEIRO

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão pocurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!

Na solidão... eu e tu.

Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.

Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.

Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.

Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão

Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...


(Concha Pinhão)

Ficam mais estas recordações




MariaNJardim



Recordando ainda mais ...

Seguem alguns nomes de médicos, dentistas, analistas, enfermeiros e parteiras, que no decurso dos anos passaram pelas cidades de Moçâmedes e Porto Alexandre:
 
1. Médicos
Dr. Paixão, Dr. Damas Mora, Dr. Aguiar Branco, Dr. Moreira de Almeida, Dr. Raul Farrica,
Dr. Dr. Julio Monteiro, Baptista Coelho (dentista), Dr. Milheiro de Campos (dentista), Dr. Luis Serra de Matos, Dr. Mário Castelo Branco Biscaia, Dr. Augusto Herculano de Morais Alvim, Dr. Jaime Delgado (falecido em acidente de aviação na estrada para a Praia Azul), Dr. Julio Monteiro, Dr. Mário Miranda Garrido, Dr. Maia, Dr. Veloso (último médico de Porto Alexandre), Dr. Gata, Dr. Vaz, Dr. Pinhão de Freitas, Dr. Sotero, Dr José Manuel Marques de Carvalho (falecido juntamente com a esposa, Maria do Rosário, num acidente de avião nas dunas da Baía dos Tigres),

2. Analistas:
Dr. Julio Mac-Mahon Vitória Pereira...
 
3. Enfermeiros:
Coelho, Franco, Reinaldo Chibante, Egídio da Silva Jesus (Enfº do CFM), Milagre (Dispensário), Fernanda (Dispensário), Rodrigues (Hospital Moçâmedes), Cortês (enfº chefe do Hosp. Moçâmedes)

4. Parteiras: Maria Júlia Pinto Pereira Duarte de Almeida (neta do 1º residente bacharel em medicina), Fauna Souto, Olga, Aurea Marina Duarte Pereira de Lima, Ângelo, Isabel, Paula, Crescencio Lopes, Leal, Loureiro,

Praça de táxis e taxistas de Moçâmedes


Trecho do jardim nos anos 1950

Eduardo de Matos (taxista), Rosa Matos e os filhos de ambos, Rui e Eneida.
Anos 1950, no jardim de Moçâmedes


 



Aqui podemos ver a Drogaria Nova (Rosa)  a Farmácia Moderna e o Chafariz





Aqui podemos ver o belo edifício do Grémio da Pesca e uma parte  da Alfândega

                           Enquadramento da Praça Leal na cidade, junto da Alfândega e do Jardim



Quem viveu em Moçâmedes nos últimos 20 anos antes da diáspora decerto viajou alguma vez no táxi de Eduardo de Matos, um táxi branco, que, como todos os outros ficava estacionado nesta Praça. Eduardo de Matos, como outros taxistas, transportou inúmeros moçamedenses aos mais diversos locais da cidade e do distrito, e o seu táxi, por ser branco, era um dos mais bonitos da cidade, e geralmente o escolhido para levar as noivas à Igreja de Santo Adrião. Foi o meu caso.

Recordo outros taxistas de Moçâmedes, tais como o velho Sereeiro (finais da década de 40, princípios dos anos 50). O velho Sereeiro, como lhe chamávamos, era uma figura "sui generis", de grandes bigodes retorcidos, à moda antiga, pai do Zé e do Álvaro (tocador de maracas do célebre conjunto "Os Diabos do Ritmo"). Sua esposa, D. Beatriz, fazia as melhores bolungas da cidade (bebida fermentada feita de fuba (farinha de milho) ou de cascas de abacaxi, que faziam concorrência à melhor laranjada do Pereira Simões, Sereeiro era proprietário de um mini-taxi, conhecido na época pelo «bébé do Serieiro»,  o ganha pão da família. Antes de aceitar a corrida, Sereeiro perguntava sempre: «Vai para longe?».

Recordo outros taxistas de Moçâmedes nas décadas de 50/60/70, um, de nome Pinto, um deles jogou futebol no Atlético Clube de Moçâmedes e mais tarde no Ginásio Clube da Torre do Tombo . Lembro-me ainda de outros taxistas, tal como Manuel Guedes, Morais Leite, e Quinha Almeida. Ficam mais esta recordações!

MENINOS DO NAMIBE, estudantes no Lubango







Estas fotos, tiradas nos anos de 1953, 1954 e 1956 em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas.

Na primeira foto (1956), trata-se do Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hoquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Alvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo). Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes, na época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60.


Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






De novo a equipa de hóquei em patins dos Liceus de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques.  Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?.
 
Pergunta-se: 
Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário, terem que se deslocar para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinavam-se  aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a
Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível estatal do ensino secundário, existia apenas a Escola Comercial de Moçâmedes que havia sido convertida
em 17 de Março de 1952, a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, escola de cariz técnico-profissional, que não dava a equivalência ao curso geral dos liceus. Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira, os nossos jovens ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu, ou em pensões (como a Pensão Lubango, que nos anos 1950 foi propriedade de uma moçamedense, Hélia Paulo Dias e de seu marido, o algarvio Armando Sabino Dias), ou  ainda em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da disciplina e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário.

Outros estudantes de Moçâmedes havia, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huila, no alto da Serra da Chela,
em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Adriano Moreira se deslocou a Moçâmedes, aquando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir:  queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).


Quanto aos estudos gerais universitários em Angola, foi já após os acontecimentos no norte do território, e num cenário bizarro de guerra e prosperidade que, em 1962, vieram a ser criados em Luanda, quando do surgimento do Plano Deslandes propondo a criação urgente do ensino superior em Angola. Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!
Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui


«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala»



Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários
e sobre ensino em Angola: http://petrinus.com.sapo.pt/ensino.htm
e
«Levar a escola à sanzala».
Slideshow e blog desporto: Moçâmedes DESPORTO: slideshow FLICK
Moçâmedes: memórias desportivas



Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
Colocado por mariusangol

07 novembro 2007

Jovens moçamedenses à época frequentadoras do Curso da Cristandade: Finais da década de 60


Esta foto, tirada nos finais da década de 60, representa um grupo de jovens de Moçâmedes, à época frequentadoras de um Curso da Cristandade.
------------------

Sobre os Cursos de Cristandade, sabe-se que estes surgiram com certa força numa época em que o mundo ocidental estava sendo atravessado por uma onda de contestação, em que todos os aspectos da vida são questionados: o poder da família, a autoridade do Estado, a emancipação dos povos, os direitos humanos, os valores tradicionais da burguesia, o ensino enciclopédico e elitista, as relações interpessoais etc, contestação que teve o seu auge em Maio de 1968, em França.
Viva-se num mundo dividido pela guerra fria, a crise de valores e a ameaça atômica, e nos EUA o movimento hippie emergia como uma corrente anarquizante, mesclada com laivos de pacifismo romântico: «Make love, not war», que traduzia, simultaneamente, uma atitude anti-belicista e de adesão à revolução sexual.

Na Metrópole, as ideias emancipalistas de libertação dos povos, os direitos humanos, influenciaram muitos jovens urbanos que, engajados politicamente participaram em lutas estudantis e laborais, procurando acompanhar os ventos da contestação a um sistema que consideravam caduco e que teimava em persistir preconizando a revolução social, as liberdades democráticas e a queda do regime.

Mas outros jovens trilhavam diferentes caminhos. Enquanto isto,
Igreja Católica animava movimentos de jovens e grupos de reflexão cristã num movimento nascido sob a influência da renovação que o Concílio Vaticano II tinha trazido, estendeu-se também às então províncias ultramarinas.

A Encíclica Pacem in Terris, proclamada por João XXIII em Abril de 1963, os debates e resoluções do concílio Vaticano II concluído em finais de 1965, e o movimento de revisão e abertura litúrgica, teológica e ecumênica protagonizada por Paulo VI visavam aproximar a Igreja da sociedade e do mundo moderno.
As pessoas organizavam-se em movimentos cívicos que promoviam encontros, reuniões, acções de entreajuda e muitas outras formas de expressão cultural que iam proporcionando um certo enriquecimento pessoal e colectivo. No mundo católico, alguns sectores questionavam as desigualdades sociais e os desequilíbrios mundiais, e apelavam para os direitos humanos, para a democracia, para o fim da miséria, da injustiça social, da tolerância religiosa, ao interesse pelo Terceiro Mundo, à mobilização contra a guerra, etc.

Grupos de jovens católicos praticantes nas suas localidades promoviam a reflexão, o debate para além de acções concretas tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa, mais humana, mais solidária com jovens mais conscientes dos seus problemas e valores, do seu meio e da sociedade em geral.


Os anos 60, foram o apogeu da Acção Católica, do aparecimento do Movimentos para um Mundo Melhor e dos Cursos de Cristandade, entre outros
. É desta altura o Movimento Salon movimento começado em Angola os anos 60 com o padre Luís Carlos nos tempos da guerra colonial, numa altura em que de repente algo no seio da Igreja Católica se abriam horizontes de esperança a esses jovens que sentiram então o apoio da Igreja para revolucionarem e rejuvenescerem a forma de SER Igreja e de fazer Jesus Cristo vivo! Com a independencia de Angola, estes jovens partiram e plantaram as semente do movimento em Portugal e no Brasil!


Sobre a acção católica num mundo em mudança:http://www.entreostextosdamemoria.blogspot.com/

Address 7

05 novembro 2007

Praia das Miragens de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), até aos anos anos 1975




 
A ponte nasceu mesmo ali em plena Praia, aquela que viria a chamar-se "Praia das Miragens"... Desde logo o local foi transformado em "mirante" dos eventos acontecidos na baía: regatas, provas de natação, etc.
 

Desde a fundação de Moçâmedes em 1849 a sua praia foi sempre motivo de orgulho dos habitantes e com o rodar do tempo tornou-se o ponto de encontro de grande sociabilidade,  local insubstituível, sobretudo para as camadas mais jovens. Esta foto que pressupomos tirada no início do século XX, mostra-nos a ponte da Praia das Miragens cheia de gente a assistir a uma prova de natação. E não só a ponte, onde até colocaram um toldo protector, como também a praia, onde se podem ver espectadores em ambos os lados.  Estes postais foram publicados na Net através do blogue que vem registado no canto  inferior esq. das mesma, e  foram trazidas de Moçâmedes por um militar que participou nas Campanhas do Sul de Angola, destinadas à demarcação de fronteiras, em 1914.

Nesta foto vê-se a Praia e a ponte, no início do século XX
, quando já existiam a Estação do Caminho de Ferro e os edifícios do Cabo Submarino, Colégio das Madres (Primitivo) , Piquete Guarda Fiscal e Observatório Metereológico   .

Tenho imensa pena de  não possuir uma dessas fotos antigas em que as senhoras tomavam banho vestidas, não só porque os fatos de banho não eram peças de fácil aquisição, como era assim mandavam  as regras...    
             


O tempo foi passando...

A Praia, as Arcadas,  o Casino, as Casuarinas, os DKW,  os SAAB e os Volvo Marrecos, conjugados com as NSU de duas velocidades, completam o cenário idílico da nossa meninice...
Era assim que a Praia das Miragens ficava as domingos, em finais dos anos 1950...  Não sei quem teve a ideia das arcadas, sei que foi uma ideia luminosa... Arcadas e barracas evitavam a exposição demorada ao sol , serviam para relaxar, eram decorativas...

Interessante olhar os modelos carros de cada época. Estava-se já nos anos 1960.
 
O tabuleiro da ponte de embarque e desembarque de Moçâmedes mesmo em cima da Praia das Miragens,  funcionava como autêntico ponto estratégico para curiosos, que, sem irem a banhos gostavam de ficar ali a conversar, e a porem-se ao corrente do quanto naquele local se passava...
 A Praia das Miragens era sem dúvida um ponto de encontro de grande sociabilidade.

 A praia, as arcadas e o Casino vistos do mar
 Vista aérea da cidade de Moçâmedes, com especial enfoque sobre a zona da Praia das Miragens e áreas adjacentes. Década de 1960. Por esta altura um edifício de grande porte (3º andar), propriedade de José Alves, foi inaugurado no local onde até ali. no gaveto da Rua da Praia do Bonfim para a Praça Leal, estava o edifício térreo do Aero Clube. Moçâmedes teve sempre desde as primeiras décadas da colonização, alguns edifícios de 1º andar, mas quando este surgiu houve quem se insurgisse contra o projecto considerado inadequado, perturbador carácter do "centro histórico".


Mas voltemos à Praia das Miragens. Não são todas as cidades que tem o privilégio de ter uma bela praia de areia grossa e branca, mesmo ali bem juntinho ao "centro histórico", bastando atravessar a  Avenida, para lá se chegar... Um praia citadina frequentada por gente de todas as idades que morava  mesmo ali perto, como se estivesse numa estância balnear, frequentada  por jovens ladinas, bonitas, espalhadas por  toda a extensão, a contaminar o ambiente com o ar da sua graça...  E como era agradável o trajecto  para aqueles que viviam na zona alta da cidade, e desciam a florida Avenida  da República, assim  chamada a partir da queda da monarquia em 1910 (até aí era denominada Avenida D. Luiz) .


Na vedeta da frente as irmãs Ferreirim. Na de trás Bento, esposa e filho






 A jangada da Praia das Miragens, em foto cedida por Vitor Torres
 A jangada para onde se atrevia apenas quem sabia nadar, está aqui bem visivel. E até parece  bem pertinho a beira mar...

A jangada anos mais tarde, na década de 1960, teve melhoramentos... À dt as costas do palco da praia


E quem poderá, ao lembrar a Praia das Miragens, esquecer esta jangada, esta velha jangada que fazia as delícias da rapaziada, que nadando até ela, se exibia mergulhando do cimo de duas pranchas, com altura cerca de 2 mts ao nível da água, em saltos acrobáticos de anjo, carpas e saltos mortais?  Em finais dos anos 1940, início de 1950, Romualdo Parreira era o campeão desses saltos acrobáticos, aquele que merecia maior atenção.

E quantos casais de namorados adolescentes, ao redor dela se encontravam, longe dos olhares adultos, e trocaram as primeiras carícias acobertados por toda uma estrutura feita com barrotes fixos e tambores vazios?

Mas a jangada da Praia das Miragens também se prestava a algumas partidas. Constituida por um estrado de madeira de cerca de 3x3metros, assente numa estrutura feita com barrotes fixos a tambores vazios  com capacidade para cerca de 200ltde combustível que serviam de flutuadores, ficava "fundeada" (com 4 cabos presos a blocos e betão assente no fundo do mar), e para que os nadadores pudessem descansar, e facilitar as idas e voltas, da praia para a jangada, e vice-versa, havia duas cordas com pequenas boias côr de laranja "tipo donuts" ligadas a cada um dos dois cantos à praia. Muitas das vezes acontecia que a rapaziada sempre a inventar travessuras, puxava os pés das raparigas enquanto mergulhavam fundo e vinha à superfície, outras vezes afundavam as cordas quando uma rapariga ia a passar.

Até meados da década de 1950, não havia cais comercial em Moçâmedes, a actual Namibe, nem havia marginal, e quando os navios chegavam ficavam fundeados ao largo, na baía. Era em batelões como estes que aqui vemos junto da ponte e  espalhados pela baía, que a carga era carregada e  descarregada. Muitas vezes a garotada nadava até aos batelões que se transformavam também  eles em pontos referencia para os ditos mergulhos.

Possuo comigo um pedaço rasgado de jornal, cujo nome do autor não figura, e que foi escrito  antes da construção do cais acostável e da avenida marginal, nos seguintes termos: "Moçâmedes é senhora da melhor praia de banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, uma praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonga de Novembro a Abril, temporada fértil  mais animada em diversões do que muitas de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm um mar calmo e condições de tanta segurança que tem servido para amaragem de hidroaviões. Assegura, portanto,  as condições ideais para a aprendizagem da natação, na vasta extensão da praias de areia prateada, a iniciar pela "Praia das Miragens", passando pelas do "Cano", pelas que ficam perto "Furnas" e do "Morgado"e por ai fora quase à Ponta do Pau do Sul,  num total de mais de três quilómetros até à enseada do Saco. Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que as crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (oito) e até da parte superior do guindaste existente na ponte de cais da alfândega, usualmente utilizado no embarque e desembarque de cargas. Ali se fabricavam promissores nadadores! Ainda se pretendeu construir uma piscina em Moçâmedes, mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, e mesmo da Câmara Municipal, aliados à realidade de então de inferior rentabilidade resultante da utilização da eventual piscina, cuja construção implicaria um custo elevado incompatível, não incentivara nunca a realização desse desiderato. Além disso a "Praia das Miragens", pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria um publico representado por mulheres, espectadoras entusiásticas e emotivas. As prioridades recairam noutros investimentos, quer da parte da autarquia quer da direcção dos clubes. E assim se foi protelando, ano após ano, a construção de uma piscina olimpica onde se pudesse praticar provas visando melhorar os índices já conseguidos. Independentemente disso, os clubes locais não possuiam nas suas secções de natação técnicos preparados à altura para que pudessem ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito da modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu bel-prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupados em atingir os percursos no mínimo tempo possível. Era casa de ferreiro, espeto de pau! O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e aptência. Isto bastaria, presumiam. Todavia eram atingidas boas marcas considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.  A "Natação" como desporto olímpico mundial, estava em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no numero de modalidades e estilos até 1908, ano em que foram construídas as primeiras piscinas as provas vinham sendo realizadas em mar aberto ou mesmo em rios como aconteceu no Sena, em 1900.


 

Embora frequentada em anos mais atrás, poucas eram as fotos que iam sendo tiradas, que hoje nos deliciariam. Refiro-me a esses tempos em que as senhoras casadas se banhavam vestidas, as solteiras com fatos de banho à moda das épocas passadas ... E eles também,


 Esta foto é de finais dos anos 1940, início de 1950. Nela reconheço Mário Guedes da Silva e Mário Lisboa Frota (Mariúca)

Ainda na mesma altura, em finais da década de 1940, inícios da década de 1950. Da esq para a dt, junto da Guiga do Ginásio: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Braz, Ferreira, João Viegas Ilha, Velhinho, ?, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Zeca Ilha As senhitas são Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Violete Velhinho

Eles pertenciam à equipa de remo e vela do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Em cima: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo:  Mário Guedes, Artur Ferreira (Penha) e ?

A Guiga do Ginásio Clube da Torre do Tombo, com desportistas da modalidade remo, e algumas senhoras do mesmo bairro. Ao fundo a ponte e a Fortaleza.



Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Francelina Gomes, Helena Gomes, Marizette Veiga, Nélinha Costa Santos e Olímpia Aquino. Excepro a Nélinha, eram todas da Torre do Tombo.


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Olimpia Aquino, Marizette Veiga Violete Velhinho e ?. Embaixo?


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal, Marizette Veiga, olimpia Aquino e Nélinha Costa Santos. Embaixo. as irmãs Helena e Francelina Gomes

Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal,  Francelina Gomes,  Nélinha Costa Santos e  Helena Gomes. Embaixo:  Marizette Veiga. Não reconheço os elementos do sexo masculino 

Na Praia das Miragens, década de 1950: Em cima,  Angelino Jardim?, Quinha Almeida, Aires Domingos. José Rosa e Arménio Jardim. Embaixo: Claudino Alhinho?


Na Praia das Miragens, anos 1950: Álvaro Jardim (Chamenga), Angelino Jardim, Arménio Jardim. ?. e Carlos Jardim.
Na Praia das Miragens, anos 1950. Os irmãos Angelino e Laurentino Jardim
Na Praia das Miragens, anos 1950



Foto: Da esq. para a dt, sentados: atrás, Armando (Garajau), à frente os primos Arménio, Angelino, Carlos, Guilherme, Laurentino e Álvaro Jardim (Chamenga). Repare-se como eram os toldos característicos desta época, tão diferentes dos actuais.Todas estas fotos foram tiradas em manhãs domingueiras de Verão, na Praia das Miragens de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, entre meados e finais da década de 1950.
 
 Praia das Miragens de Moçâmedes, em 1956. Num "furo" das aulas na Escola Comercial de Moçâmedes,  elementos da turma finalista (5º ano). Em cima: Lurdes Faustino. Graça Nunes Sousa e Rosalina Nunes. Embaixo: Lurdes Tavares, Ricardina Lisboa e Nídia Almeida.



Na Praia das Miragens, em 1961. Desta foto apenas reconheço Guilherme Jardim, ao centro com uma criança (Marília, a filha?)


Nesta altura em Angola trabalhava-se como já referido atrás, aos sábados de manhã, e não havia o hábito de se frequentar a praia na parte da tarde, nem aos dias de semana, excepto por jovens mais disponíveis. A grande avalanche acontecia ao domingo da parte da manhã. Também as férias grandes escolares, para que coincidissem com as da Metrópole, eram gozadas de Junho a Setembro, portanto em pleno Inverno, em prejuízo das crianças e jovens de Angola e das restantes colónias África.


 
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950: Carlos Moutinho , Chefe de produção do RCM e Rui Bauleth, radialista.

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960: João Inácio, ? e António José Minas. Embaixo reconheço um jovem pintor Belga

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, zona das casuarinas: António José Minas, Arménio Minas, Martins, Cecilio Moreira (professor) e João Inácio. Embaixo: ???
 
Farelos e Snypes
Na Praia das Miragens, nos anos 1960: Apenas reconheço em cima, à esq. Fernando Leonel Pita de Sousa.

O tempo foi passando e eis-nos chegados ao final da década de 1960, início de 1970...


Grupo de jovens na Praia das Miragens
Grupo de jovens na Praia das Miragens, vendo-se ao fundo o Casino e as Arcadas
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, vendo-se ao fundo o Casino, as Arcadas e as barracas da época
 
 Na Praia das Miragens
 
 Na Praia das Miragens


Na Praia das Miragens, zona do Chiloango, da esq. para a dt, em cima: Lavadinho, Edgar Aboim, Armando Guedes Duarte, Carlos Jardim e Arménio Jardim. Crianças???


O comboio-bébé passando junto à Praia das Miragens por ocasião das Festas do mar, nos anos pós 1961...




 


Mas à Praia das Miragens não iam apenas banhistas, mas também, por ex., senhoras de mais idade, que ficavam sentadas, debaixo de toldos familiares, umas a fazer crochet, enquanto punham a conversa em dia, outras cuidando dos netos, outras ainda, poucas, como não podia faltar, dedicando-se à «coscuvilhice» e ao exercício da «má língua», prática comum em meios pequenos a que o nosso pequeno burgo não escapava.

Praia das Miragens. Foto cedida por Tomás Gavino Coelho


 
Praia das Miragens. Foto cedida por Aurélio Baptista. Esta interessante foto mostra-nos a baia no seu esplendor, os snypes, a Jangada...
s

 
Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga

 
 Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga


Recuando mais atrás no tempo, dou comigo a pensar como era agradável nos meus tempos de menina ir com a família no Verão, depois do jantar, até à Praia das Miragens. Os adultos ficavam sentados ou deitados na areia fresca da praia, em cima de toalhas, a conversar. Uma areia grossa e limpa, que facilmente descolava do corpo. As crianças não paravam quietas, corriam, jogavam à bola, ao ringue, faziam construções na areia, molhavam as pernas até ao joelho, escondiam-se no interior das barracas brincando às escondidas, etc. etc. As noites de luar na praia eram fabulosas, com  revérberos da luz da lua a bater na superfície do mar, o que permitia que apesar da noite todos nos víssemos imd aos outros.  E nas noites escuras, antes da electrificação da cidade, o espectáculo de milhões de estrelas no céu era igualmente digno de ser apreciado. Nunca mais vi céus estrelados como nesse tempo!

O pior que podia acontecer aos banhistas nesta praia, era quando, devido a correntes maritimas apareciam com abundância as chamadas "alforrecas", entre nós "santa-calunga", umas do tipo "Medusa" (Cogumelos) grandes brancos, transparentes, outras mais pequenas mas que ferravam bem.

 Praia das Miragens.As manas Azevedo e Laurentino Jardim. Anos 1960


Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as famílias de toninhas ou golfinhos negros brincalhões (1ª e 2ª fotos), que de longe em longe, vindos do glacial antártico, visitavam a baía de Moçâmedes aproximando-se dos banhistas (na zona entre a jangada e a Praia das Miragens), exercitando desse modo seu costume de salvar náufragos, porque para elas, qualquer ser humano nadando junto à praia é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária.Essas negras e volumosas toninhas ou golfinhos que, de salto em salto, vinham avançando até aos banhistas causavam neles momentos de pavôr, delírio e admiração.Ignoram-se também as focas e que costumavam surgir, nos meses de Junho ou Julho, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós. Ignoram-se os pequenos e engraçados pinguins de «casaca preta e branca» (foto 9), que de quando em quando vinham até nós, e que não raro eram levados por algumas crianças para os quintais de suas casas, onde facilmente se aclimatavam, e de tal modo, que era vê-los a serem levados com seu passinho bamboleado, e uma corda atada ao pescoço, rumo à Praia das Miragens para uma saudável banhoca...  E os albatrozes, os alcatrazes e os garajaus que voavam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul, ou se atiravam ao mar em mergulho picado à caça do peixe que do alto anteviam.Toda esta fauna se deve à corrente fria de Benguela, modeladora do clima, modeladora da costa e das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios (Cunene/Baía dos Tigres). Se o mar do distrito de Moçâmedes era e é um mar riquíssimo em pescado, este aspecto fica dever-se à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climáticada zona.

 

Como funciona este assunto?

De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela»Cada icebergue que se desprende é um zoológico ambulante que vai arrastando consigo grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).









As cinco Marias

Na praia sentadas, as cinco Marias
São caras fechadas, em cinco agonias!!

Não riem ao vento que possa beijar,
Que beijo é tormento de quem sabe amar!!

Não riem à onda, desfeita em seus pés,
Na forma redonda de trazer marés...

Não riem à ave que de asa quebrada,
Já voar não sabe, e vive arrastada...

Não amam na noite, não vibram nos dias.
Que a noite é açoite, para as cinco Marias!!

E, no cinzento, a voz do travão
Diz que há casamento de nuvens, pagão,,,

E rasgam-se ventres, de fogo doirado,
Na terra há sementes, do amor consumado!!

Só...as cinco Marias, de cara fechada,
São cinco agonias que não viram Nada...

Concha Pinhão, 1971

 Praia das Miragens,  em 1970. Os primos  Luis e Vitor Hugo Jardim
 Praia das Miragens,  em 1970 . Com Ana Paula
 Praia das Miragens,  em 1970

 

Por ocasião das Festas do Mar, Gigantones e Cabeçudos passando entre a Praia das Miragens r o Casino


Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição que a seguir são lembrados:  classe feminina (100 metros livres) Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outras na classe masculina, de fundo (da praia do Cano à Praia das Miragens, 1000 metros: Antonio Braga e Manuel dos Santos (Cabouco) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Renato Nunes da Silva e Sergio Nunes da Silva, do Sporting Moçâmedes e Benfica; Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético. E outros, como os de Ermelindo Costa Pacheco de Independente com seus saltos acrobáticos, Porfirio Parreira, Romualdo Parreira, Tulio Parreira , Rogério Gomes Ilha,  Artur Paulo de Carvalho e José Luis Pinto, todos do Sporting, e outros nadadores de curtas distâncias - 100 metros-  como António Martins Nunes (Cowboy) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e ainda Mário Andrade Vieira e Norberto do Vale Gouveia, do Atlético, Vicente Ferreira e Angelino França, do Benfica, não poderão deixar de ser lembrados."

A partir do início dos anos 1960 começaram a organizar-se, anualmente, no mês de Março, as "Festas do Mar", que vieram animar aonda mais o pequeno burgo e toda a zona junto da Praia das Miragens, com a inauguração do recinto de festas ( que incluía barracas, pavilhões, carrocéis, pistas, de carros, etc, ), e ficava no terreno então disponível, entre o Clube Nautico (Casino) e a Fortaleza de S. Fernando.

Outra aquisição que veio favorecer grandemente este agradável local, foram as arcadas da praia, com os respectivos bancos, e a plantação, entre elas, de um conjunto de palmeiras, que passaram a proporcionar a desejada sombra e momentos de descanso a quem quizesse passar por alí, sem ir a banhos. E lá mais para os anos 1970, com a construção da estrada da Leba e da nova ponte sobre o rio Bero, graças ao encurtamento de distâncias inter-cidades, passaram a afluir com mais facilidade a esta praia e às outras praias de Moçâmedes e distrito, no Verão, gente de todas as idades vinda de Sá da Bandeira e não só,  assistir às "Festas do Mar", quer para passar um simpes fim de numa cidade diferente, ou ainda para um contacto com o mar, (praia, pesca desportiva, caça submarina, etc), ou para uma ida à caça no Deserto do Namibe, 

      

Ainda sobre a Praia das Miragens, em "Um conto de vez em quando...":

Praia das Miragens

Já lá vão 63 anos, mas ainda me lembro como se fosse hoje. Tinha chovido muito lá para as bandas do planalto da Huíla, e as enxurradas chegavam com força bruta ao rio Bero, devastando as suas margens e poluindo as águas da Praia das Miragens. Eu tinha na altura os meus 10 anos e andava com os restantes capitães da areia atacando os batelões carregados de fruta madura, vinda do Lubango. Nesse tempo ainda não havia nenhuma ponte sobre o rio Bero, de modo que o comboio que vinha do planalto ficava-se pelo Saco do Giraul. Era daí que os batelões eram carregados e rebocados para a Vila. E enquanto aguardavam pela disponibilidade do velho Veli, condutor do guindaste que existia na única ponte de serviço, os batelões ficavam fundeados ao largo, um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos e dos nossos contentamentos. Não havia excepção à regra; todos os batelões tinham um guarda, dia e noite de sentinela. Mas acontecia que os sentinelas, como de resto qualquer animal deste mundo, estavam condicionados ao relógio biológico que foi evoluindo desde os primórdios da vida. E era precisamente às seis da matina, quando o sol ainda ameno começava a despontar no horizonte, que os guardas, de vigia toda a noite, mais se aferravam ao sono. Seis da matina era, contudo, a hora em que os capitães de areia iam à praia para os seus banhos matinais. Nadavam silenciosamente como índios bororós até aos batelões, trepavam como macacos pelo cabo das fateixas, e depois, já lá dentro, deliciavam-se calmamente com toda aquela gostosura das mangas maduras, deleitavam-se com os sabores e odores das belas goiabas, vermelhas por dentro e amarelas por fora, e das peras doces, tão doces que as abelhas as detectavam a quilómetros de distância. E por fim, depois de comidos e fartos de todos aqueles sabores de frutos tropicais, os capitães de areia desciam pelas amarras do batelão, nadavam até à praia do cano e iam felizes à igreja de Santo Adrião confessar os seus pecados ao bom e amigo padre Galhano, que Deus o haja!

(Ass) AiresJardim


Recordo que na Praia das Miragens só existiam uns telheiros feitos com carris de comboio e o Clube Náutico era construído em madeira. Os arcos, chamados “marrecas do Leone”, nem sonhavam existir.
A marginal só muitos anos depois é que surgiu. Para ir à Torre do Tombo pela praia era preciso passar por um carreriinho estreito, entre a falésia da fortaleza e os destroços de um navio ali encalhado há muitos anos. A seguir era a venda do peixe num barraco implantado na falésia. Recordo que quem supervisionava era um senhor chamado Olímpio, sogro do “Caguincha” da Câmara. Adiante a “praia do Cano” estaleiros de reparação naval e as pontes do Manuel Cambuta, do João da Carma, da S.O.S., e outras.

Roberto Trindade