15 abril 2007

No deserto do Namibe em Moçâmedes















O DESERTO DO NAMIBE
Sua fauna e seus parques
No deserto de Moçâmedes, o célebre deserto do Namibe, local fascinante pela sua monotonia, aridez e imensidão, há caça em grande quantidade e bastante variada, razão porque lhe chamavam de ...«paraiso de fotógrafos e caçadores». Nele desfilam as tímidas gazelas; os altivos guelengues: as aristocraticas avestruzes, as «bailarinas do deserto», as zebras; o trombudo elefante; os magestosos leões; os olímpicos leopardos, o «neura» do imenso areal; o rinoceronte e muitos outras espécimes.
A 60 km de Moçâmedes, no Pico do Azevedo, situa-se a reserva Parcial de Moçâmedes onde existe um acampamento da guarda do Parque. Mais para o sul, a cerca de 240 km da cidade, fica o Parque Nacional do Iona, onde se topa com realtiva facilidade todas as espécies selvátivas da região.
«Deserto do Namibe, perante ti sentimo-nos como vermes! - disse alguém ao tomar contacto pela primeira vez com a sua solidão, monotonia, aridez, miragens e imensidão incomparáveis!
in caderno/programa das Festas do Mar- Moçâmedes Março-1970

1ª foto: Uma espinheira e uma welwitschia, od dois símbolos do Deserto do Namibe.

2ª foto: Nesta foto, tirada no deserto do Namibe, junto a uma welwitschia,
reconheço entre outros, em cima e da esq. para a dt: a esposa de Zeca Castro Alves, Zica Castro Alves, (?) Guida e Álvaro Ascenso com o filho Telmo ao colo. Em baixo à esq. José Alves, Paulinha, Gestosa e esposa. Não posso deixar aqui de fazer uma referência especial e carinhosa à D. Zica, que me traz à recordação os saborosos bolos por sí confeccionados (canudos, bêbados, suspiros, pastéis de nata, nógados, etc., etc), que deliciaram a minha infância e a de muitas crianças e jovens, e não só, de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por Telmo Ascenso.
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E já agora alguns poemas alusivos â Welwitschia Mirabilis:

Welwitschia Mirabilis

Welwitschia de longos braços
Que vive e nasce aos abraços
Que vive e morre em tormento.
Por tanto amar o deserto
Por tê-lo perto, tão perto
Num amor sem casamento.

Concha Pinhão

VELVÍTCHIA

Mora a velvítchia no emo solitário,
A flor de Angola, dum areal do Sul,
Braços coleantes, sob céu azul,
Á flo da sede, em prece, num calvário...

A estranha raridade vegetal
Será, talvez, num velho mar extinto
Um polvo exótico o a flor do mal,
Vencendo a morte, no vigôr do instinto...

Será, talvez, no cálido deserto,
Uma estrela cadente que tombou
Da convulsão da noite, em céu aberto,
ou a alma dum aspro que expirou...

Seja o que for - estrela, monstro,flor -
Eu sinto-lhe nos braços revoltados
A trágica expressão da imensa dor,
talvez, de belos sonhos destroçados...

E eu penso que a velvítchia exilada
N seu mundo de sede e solidão,
É irmã de tanta alma torturada.
Que anda sózinha em meio da multidão...

(José Galvão Balsa)
De «Feitiço do Namibe»


NAMIBE

Grande é o Namibe
Aquém e além Cunene
Vida em murmúrio a passar.

Grande é o Namibe
e a alma-poeta
uma grande Welwitschia Mirabilis
macho e fêmea
cio em flor
no deserto vida teimosa a rasgar.

Namibiano Ferreira

Sobre caça:
Memórias de um caçador
e ainda Blogdangola

Conheça a história da vida de Luis Carriço, o botânico falecido repentinamente no ano de 1935 no Deserto do Namibe:
http://www.uc.pt/herbario_digital/hist_botanica/carrisso
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WELWITSCHIA MIRABILIS



Eis a imponente WELWITSCHIA MIRABILIS planta milenar contemporânea dos dinossauros apenas existente no deserto de Moçâmedes. Esta espécie vegetal foi descoberta a 3 de Setembro de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch

Frederic Welwitsch (1809-1878) foi para Lisboa em 1839, onde consegue autorização para entrar em Angola, para onde embarcou a 8 de Agosto de 1853 e onde fez demoradas explorações botânicas tendo descoberto a Welwitschia Mirabilis no deserto de Moçâmedes, actualmente Deserto do Namibe.


«A planta que recebeu o binome de Welwitschia Mirabilis Hook. F. era tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que dada a grandeza dessa diferenças, não “cabia” em nenhum dos géneros já descritos.
Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Houve ainda que definir uma nova família de plantas para este único género, a família das WELWITSCHIACEAE.
WELWITSCHIA , é também conhecida por "Tumbo", pelos autóctones, nativos da região do deserto de Moçâmedes.




As suas flores são unisexuadas.
Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.




Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada á vida nas regiões desérticas da África tropical.
É uma planta acaule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento.

Diversos trabalhos mundiais sobre a Welwitschia encontram-se em exposição em vários
Jardins botânicos espalhados pelo mundo.

Que se encontram descritos no livro Botanical Gardens of the World


Entre outras pessoas que deram igualmente o seu contributo na pesquisa desta espécie no período de 1953 a 1955, podemos destacar os seguintes Professores:
A.H. Church,
E. Salisbury,
Henri Humbert,
Jose Dalton Hooker,
Luís Wittnich Carrisso,
Melo Geraldes,
R. J. Rodin,
W.J.Hooker

Mais recentemente, Maria Helena Boavida
Coisas que já se disseram acerca da "welwitschia mirabilis":

"A "welwitschia mirabilis", descoberta nas vizinhanças do Cabo Negro, da costa odicental africana, é a mais curiosa das gnetaceas e talvez que de todas as dicotiledoneas. Este bizarro vegetal é conhecido entre os indígenas pelo nome de TUMBO."
(Dr. José Dalton Hoecker, Presidente da Socidade Real de Londres e sócio da Academia das Ciências de Paris)
"Uma das curiosidades do deserto de Moçâmedes é a célebre "welwitschia mirabilis", planta estranha, verdadeiro aborto do reino vegetal. O caracteres aberrantes do seu aparelho vegetativo, conferem-lhe um lugar de destaque no conjunto das formas vegetais."
(Dr. Luís Wittnich Carrisso, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra.)
"A "welwitschia mirabilis" é uma das maiores maravilhas que tem produzido a natureza."
(Dr. Augusto Henriques Rodolfo Griesbach, Professor de Botânica da Universidade de Göttingen)
"É sem sombra de dúvida a planta mais maravilhosa e também a mais feia que jamais trouxeram a este país."
(Regius Keeper, do Royal Botanic Gardens, Kew - 1863)
"Foi nos anos de 1858/59 que o botânico austríaco Dr. Welwitsch, contratado pelo governo português, descobriu e classificou a "welwitschia mirabilis", dando-lhe o nome de "tumboa bainesii". Os caracteres desta notável planta são de tal modo desconsertantes, que vindo a ser estudada há perto de 80 anos pelos mais eminentes botânicos, ainda hoje se discute qual o lugar que lhe compete na escala botânica, como se pode ler nos autores citados e nos trabalhos de Baines, Anferson, Júlio Henriques, Hallier, Chodal, etc..
A "welwitschia mirabilis" por consenso geral é tida como a maior descoberta botânica do século XIX e, em todo o globo, é o distrito de Moçâmedes o único lugar em que ela vegeta, havendo centenas de milhares na parte desértica, desde os minúsculos exemplares, até aquelas que, pelo seu porte, demonstram uma existência multissecular."
(M.A. de Pimentel Teixeira)
Consultar ainda:
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Gente da nossa terra: Porto Alexandre e Moçâmedes









































1ª foto:

2ª foto:
Manuel e Marianela Baptista e os dois filhos (em baixo), Aurélia e Constantino Faustino (em cima e ao centro).

3ª foto:
Foto cedida por Fernanda Barata (à dt.)
. As duas raparigas são a Laurete e a Suzele, tenso os pais por detrás.

Elementos da Direcção da Cooperativa «O Lar do Namibe» : finais da década de 60


 
Era aqui a sede da Cooperativa de Habitação «O Lar do Namibe»,
Grande nr de casas em Moçâmedes tinham na parede o distintivo da Cooperativa



Elementos da direcção da Cooperativa de construção «O Lar do Namibe»,
do livro «Recordar Angola» 2. vol.

  Cooperativa «O Lar do Namibe»

Nesta foto podemos ver elementos da direcção da Cooperativa de habitação «O Lar do Namibe» reunidos em casa de Mariano Pereira Craveiro, o seu fundador e presidente, em Moçâmedes. Da esq. para a dt: João dos Santos (polícia Santos). Luís de Sousa Simão, Mariano Pereira Craveiro, Maria de Lurdes, José G. Henriques de Freitas, Arménio Matos, Maria Isabel Cardador, António Rodrigues Tavares e por detrás destes, José Antunes Salvador e José Alves.

De entre todas estas figuras que deram o seu esforço e saber àquela que foi a nossa grande «Cooperativa o Lar do Namibe», salienta-se, sem desprestígio para os demais, a extraordinária figura que foi Mariano Pereira Craveiro (à esq. de camisa branca e óculos). Mariano Pereira Craveiro foi um dos espíritos mais empreendedores, se não mesmo o mais empreendedor, a quem a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe muito ficou a dever. Foi graças a esta Cooperativa, nascida na década de 1940, e a Mariano Pereira Craveiro, que as gentes de Moçâmedes que na sua maioria vivia do vencimento único do chefe de família, puderam, finalmente, aceder ao velho sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam ali depositando, sendo a aquisição do direito de construção efectuada através de dois sistemas, um, por sorteio mensal entre os associados, outro por número de ordem de antiguidade (número de ordem também ele efectuado por sorteio, na fase de arranque da referida Cooperativa). Foi assim que na cidade de Moçâmedes começaram a surgir bonitas vivendas e moradias, o que permitiu à cidade modernizar-se, alindar-se, e ir vencendo as areias do deserto, transformando-se na bela cidade que um dia tivemos a infelicidade de ter que abandonar...

Mas a actividade da «Cooperativa o Lar Namibe» não se limitou apenas à cidade que a viu nascer, ela acabou por se estender, numa primeira fase, à cidade de Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida à cidade de Serpa Pinto (hoje Menongue), acabando por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metrópole da época (Portugal) onde já havia associados, uma vez que não existiam à data, em Angola, financiamentos bancários à habitação própria.

Faço aqui uma referência especial à cidade de Serpa Pinto que estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa o Lar do Namibe», que a transformou de uma vilazinha do interior numa cidadezinha bonita e moderna à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se pode ver o azulejo com o distintivo desta Cooperativa. Infelizmente toda esta obra acabaria por ser interrompida, com grande perda para as cidades de Angola e não só.

Em 1972 ou 1973, Mariano Pereira Craveiro, vogal ("deputado") à Assembleia Legislativa de Angola por SErpa Pinto (Actual Menongue) queria impressionar o Engº. Santos e Castro. Nessa altura, fez deslocar ao Caraculo, umas dezenas de empregados, sócios e dirigentes da Cooperativa e fez colar disticos de "O Lar do Namibe" em dezenas de carros particulares que acompanharam a caravana do então Governador-Geral até ao interior da cidade de Moçâmedes (Namibe). Foto de José Fragata, testemunho de José Ascenso.


A vida em Angola, pelo menos até à década de 1960, só era facilitada para muito poucos, e se não fossem homens como Mariano Pereira Craveiro, em termos de habitação, Moçâmedes seria pouco mais que uma aldeia, e cidades como Serpa Pinto não existiam como tal à hora da independência.
A economia de Angola lutava com falta de capitais, e não havia onde os obter. O Banco de Angola não proporcionava crédito a longo prazo e não pagava juros, nem à grandes nem às pequenas poupanças. As pessoas arranjaram “esquemas” habilidosos, mas éticos, para contornarem o vazio de moeda. Os comerciantes conseguiam solver os seus compromissos através de letras e sucessivas reformas. Ter-se uma letra protestada (que não foi paga dentro do prazo) era uma enorme vergonha. Havia a prática dos livros de débitos e, especialmente dos vales, onde se tomava nota da dívida e o devedor colocava a sua assinatura e a data, e assim podia levar a mercadoria. Quanto ao pagamento isso às vezes, tardava a chegar, e muitas vezes era desdobrado em prestações.

Se o atraso de Angola já vinha de séculos atrás, no século XX, até ao termo da II Grande Guerra (1939-1945), foi a passos lentos que a economia cresceu, devido a barreiras intencionalmente erguidas ao desenvolvimento da colónia.  Salazar temia que o progresso de Angola viesse a apressar a sua independência, pondo em causa a própria sobrevivência de Portugal. O resultado foi retirar à colónia toda e qualquer autonomia,  desenvolvê-la o "quanto baste", levando-a a obedecer cegamente e integralmente às ordens que vinham do Terreiro do Paço, de acorso com os interesses de uma burguesia Metropolitana instalada e colada ao poder, sem quaisquer preocupações com os reais interesses dos angolanos e frequentemente aos dos próprios brancos metropolitanos instalados na colónia.

Mariano Pereira Craveiro era um republicano, oposicionista do regime, fez parte juntamente com Carlos Martins Cristão, Pimentel Teixeira e outros mais, da campanha do General Humberto Delgado, na cidade de Moçâmedes.  Pela primeira vez na ditadura, a oposição concorria a eleições. e o facto fez despoletar a curiosidade e o ânimo de certos sectores da população para este tipo de acontecimento, antes proibido.   Ainda me lembro do discurso arrebatador de Carlos Martins Cristão, no palco do Cine-Teatro de Moçâmedes, em finais de Maio de 1958, por ocasião da campanha para as eleições presidenciais contra o Almirante Américo Tomás. Carlos Cristão, tendo Mariano Pereira Craveiro a seu lado, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: "Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...

O que veio a acontecer a Humberto Delgado foi  o que já se fazia esperar: acabou perdendo as eleições, apesar das retumbantes vitórias alcançadas,  e a reacção de Salazar ao General viria algum tempo depois a culminar num  bárbaro assassinado,  quando o General, refugiado desde há algum tempo em Espanha, atravessara a fronteira, em Villanueva del Fresno): http://www.youtube.com/watch?v=r9vSy1S0J6U
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Fica a minha humilde homenagem à memória do grande «patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, figura  que merecia ser erguida das brumas do esquecimento e ser para sempre lembrada pelo povo da cidade do Namibe.. Mariano Pereira Craveiro mereceria, por exemplo, ter o seu nome ligado ao único largo totalmente construído por casas da «Cooperativa o Lar do Namibe»: o ex.bairro "Heróis de Mucaba"! Afinal, em boa parte, melhor que o Namibe herdou de Moçâmedes, em termos de parque habitacional deve-o também ao espirito empreendedor de Mariano Pereira Craveiro!


Ficam  enfim,  mais estas recordações de um tempo passado em Angola e em Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Um tempo que decorreu de forma que o mundo desconhece, e porque desconhece muitas vezes são praticadas graves injustiças através da pena de alguns autores, contra a memória dos que ali viveram, ali trabalharam, ali se sacrificaram, pouparam, investiram, e ajudaram a erguer aquela terra e aquele maravilhoso país.

MariaNJardin