14 novembro 2007

Almoço de confraternização do pessoal ligado à Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio de Moçâmedes







1ª foto: A Nova Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio de Moçâmedes, sita na rua perpendicular à Avenida da Praia do Bonfim que passa à frente do Palácio da Justiça e da Fonte das gazelas.

2ª e 3ª fotos: Almoço de confraternização dos Empregados da Casa de Saúde do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio de Moçâmedes, corpos directivos e convidados, onde se podem ver, em 1º plano, de fronte, e da esq. para a dt.: o casal Manuel João T. Carneiro (advogado), esposa Manuela e filhos, e o casal Chalupa e filhos. À esq., Américo (Sofrio) e esposa, Luís Gonzaga Bacharel e esposa, ?,?,?. Ao fundo, Manuel Bagarrão (Nelinho) e filho, ?,?, .

4º foto: Outra perspectiva do mesmo almoço onde se podem ver, de fronte, e da esq. para a dt.: ??, Eduarda Carvalho e marido, Zete Veiga e marido, Diogo Baptista; Dr. Pinhão de Freitas (médico), esposa e filho, Dr Vaz (médico) e esposa, Américo (Sofrio) e esposa. De costas: o casal Chalupa e filhos e o Dr. Carneiro e filho.
 
Fotos gentilmente cedidas por Marizete Veiga, então escriturária na Secretaria da Casa de Saúde deste Sindicato.


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Sem desprestígio para os demais, aproveito para fazer aqui uma referência a uma senhora, uma poetisa, que no decurso da sua  não muito demorada passagem estadia em Moçâmedes deixou a sua marca: Concha Pinhão 
 
Tinham passado 33 anos...  Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver Concha Pinhão. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas. 
 
Recordo a figura de Concha Pinhão quando, na companhia do marido, Dr Pinhão de Freitas (médico) esteve em Moçâmedes. Recordo que em 1971, Concha fora contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o Diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.

A Concha Pinhão que vi em Moçâmedes, era mulher de altura mediana, magra, têz clara e cabelo negro penteado ao alto, que fazia lembrar uma sevilhana. Concha emanava uma certa exuberância que dava nas vistas. Para quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da minha terra.

Desconhecia o tom provocatório que imprimia nas quadras que fazia  dedicadas à "flor fina" de Moçâmedes, apanhando-lhes os geitos bons e maus. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e  ritmo dos seus escritos, grande parte dos quais nos remeteram para os meus 30 anos e despertaram em mim sensações de toda a saudade que Concha sentiu ao escrevê-los. A sua poesia de cariz social muito bem observada com apelos tocantes é por si só reveladora da sua fina sensibilidade.

Passarei transcrever alguns dos seus versos, respeitando tanto quanto possível as respectivas datas:


MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito,
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
(Concha Pinhão)
......................


À Querida amiga Celeste Fonseca


Fala bem esta Senhora
Mais parece uma doutora
Tal o seu vocabulário
Que uma amiga despeitada
Diz que ela come em salada
Folhas de Dicionário

Moçâmedes, 1971
(Concha Pinhão)
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UM JUIZ AMIGO

Do doutor Juiz, eu sei
Que ao dissertar sobre a lei
Crê dizer coisas sagradas;
Mas a rir sinto vertigens
Porque sei que leis e virgens
Nascem pra ser violadas

Moçâmedes, 1971
(Concha Pinhão)
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NAMIBE

Por tê-lo assim tão de perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E vive ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola, 1968
(Concha Pinhão)

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BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.
Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Estoril, 1976
(Concha Pinhão)

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Boina Azul

Partirão de novo
Pela madrugada
Percorrendo trilhos
Em que ninguém crê
No corpo do povo
A boina azulada
Heróis andarilhos
Não sabem porquê!...

Comando ambição
Ordena lá vão
Cumprindo a lei
Lá fora sem fronteir
Perdida bandeira
Perdido seu rei.

Estoril 1987
(Concha Pinhão)
........................

TERRA TRISTE


Ai! Moços da terra triste
A vossa esfera armilar
Não tremula não existe
Nos campos por cultivar

Ai! Moços da terra triste
Andais mesmo sem saber
Onde encontrar lar ausente
Sem pai... sem mãe... sem mulher

Logro de mãe erudita
Embrulhada na desdita
De quem nasceu menos forte
Tenta saida de sorte
Pela porta que resiste

Os filhos no infantário
Lar comprado - imaginário

Ai! Moços da terra triste...

Estoril 1988
(Concha Pinhão)

.....................

A LISONJA


É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego croa sinhos
De bergantim sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Estoril 2002
(Concha Pinhão)
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Poema dedicado ao marido, o Dr. Pinhão, (nas fotos, ao fundo, de óculos escuros).


Esse médico...que conheci



Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão

Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão


(Concha Pinhão)

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Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro»:

EMBONDEIRO

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão pocurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!

Na solidão... eu e tu.

Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.

Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.

Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.

Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão

Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...


(Concha Pinhão)

Ficam mais estas recordações




MariaNJardim



Recordando ainda mais ...

Seguem alguns nomes de médicos, dentistas, analistas, enfermeiros e parteiras, que no decurso dos anos passaram pelas cidades de Moçâmedes e Porto Alexandre:
 
1. Médicos
Dr. Paixão, Dr. Damas Mora, Dr. Aguiar Branco, Dr. Moreira de Almeida, Dr. Raul Farrica,
Dr. Dr. Julio Monteiro, Baptista Coelho (dentista), Dr. Milheiro de Campos (dentista), Dr. Luis Serra de Matos, Dr. Mário Castelo Branco Biscaia, Dr. Augusto Herculano de Morais Alvim, Dr. Jaime Delgado (falecido em acidente de aviação na estrada para a Praia Azul), Dr. Julio Monteiro, Dr. Mário Miranda Garrido, Dr. Maia, Dr. Veloso (último médico de Porto Alexandre), Dr. Gata, Dr. Vaz, Dr. Pinhão de Freitas, Dr. Sotero, Dr José Manuel Marques de Carvalho (falecido juntamente com a esposa, Maria do Rosário, num acidente de avião nas dunas da Baía dos Tigres),

2. Analistas:
Dr. Julio Mac-Mahon Vitória Pereira...
 
3. Enfermeiros:
Coelho, Franco, Reinaldo Chibante, Egídio da Silva Jesus (Enfº do CFM), Milagre (Dispensário), Fernanda (Dispensário), Rodrigues (Hospital Moçâmedes), Cortês (enfº chefe do Hosp. Moçâmedes)

4. Parteiras: Maria Júlia Pinto Pereira Duarte de Almeida (neta do 1º residente bacharel em medicina), Fauna Souto, Olga, Aurea Marina Duarte Pereira de Lima, Ângelo, Isabel, Paula, Crescencio Lopes, Leal, Loureiro,

Praça de táxis e taxistas de Moçâmedes


Trecho do jardim nos anos 1950

Eduardo de Matos (taxista), Rosa Matos e os filhos de ambos, Rui e Eneida.
Anos 1950, no jardim de Moçâmedes


 



Aqui podemos ver a Drogaria Nova (Rosa)  a Farmácia Moderna e o Chafariz





Aqui podemos ver o belo edifício do Grémio da Pesca e uma parte  da Alfândega

                           Enquadramento da Praça Leal na cidade, junto da Alfândega e do Jardim



Quem viveu em Moçâmedes nos últimos 20 anos antes da diáspora decerto viajou alguma vez no táxi de Eduardo de Matos, um táxi branco, que, como todos os outros ficava estacionado nesta Praça. Eduardo de Matos, como outros taxistas, transportou inúmeros moçamedenses aos mais diversos locais da cidade e do distrito, e o seu táxi, por ser branco, era um dos mais bonitos da cidade, e geralmente o escolhido para levar as noivas à Igreja de Santo Adrião. Foi o meu caso.

Recordo outros taxistas de Moçâmedes, tais como o velho Sereeiro (finais da década de 40, princípios dos anos 50). O velho Sereeiro, como lhe chamávamos, era uma figura "sui generis", de grandes bigodes retorcidos, à moda antiga, pai do Zé e do Álvaro (tocador de maracas do célebre conjunto "Os Diabos do Ritmo"). Sua esposa, D. Beatriz, fazia as melhores bolungas da cidade (bebida fermentada feita de fuba (farinha de milho) ou de cascas de abacaxi, que faziam concorrência à melhor laranjada do Pereira Simões, Sereeiro era proprietário de um mini-taxi, conhecido na época pelo «bébé do Serieiro»,  o ganha pão da família. Antes de aceitar a corrida, Sereeiro perguntava sempre: «Vai para longe?».

Recordo outros taxistas de Moçâmedes nas décadas de 50/60/70, um, de nome Pinto, um deles jogou futebol no Atlético Clube de Moçâmedes e mais tarde no Ginásio Clube da Torre do Tombo . Lembro-me ainda de outros taxistas, tal como Manuel Guedes, Morais Leite, e Quinha Almeida. Ficam mais esta recordações!

MENINOS DO NAMIBE, estudantes no Lubango







Estas fotos, tiradas nos anos de 1953, 1954 e 1956 em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas.

Na primeira foto (1956), trata-se do Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hoquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Alvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo). Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes, na época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60.


Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






De novo a equipa de hóquei em patins dos Liceus de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques.  Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?.
 
Pergunta-se: 
Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário, terem que se deslocar para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinavam-se  aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a
Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível estatal do ensino secundário, existia apenas a Escola Comercial de Moçâmedes que havia sido convertida
em 17 de Março de 1952, a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, escola de cariz técnico-profissional, que não dava a equivalência ao curso geral dos liceus. Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira, os nossos jovens ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu, ou em pensões (como a Pensão Lubango, que nos anos 1950 foi propriedade de uma moçamedense, Hélia Paulo Dias e de seu marido, o algarvio Armando Sabino Dias), ou  ainda em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da disciplina e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário.

Outros estudantes de Moçâmedes havia, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huila, no alto da Serra da Chela,
em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Adriano Moreira se deslocou a Moçâmedes, aquando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir:  queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).


Quanto aos estudos gerais universitários em Angola, foi já após os acontecimentos no norte do território, e num cenário bizarro de guerra e prosperidade que, em 1962, vieram a ser criados em Luanda, quando do surgimento do Plano Deslandes propondo a criação urgente do ensino superior em Angola. Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!
Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui


«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala»



Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários
e sobre ensino em Angola: http://petrinus.com.sapo.pt/ensino.htm
e
«Levar a escola à sanzala».
Slideshow e blog desporto: Moçâmedes DESPORTO: slideshow FLICK
Moçâmedes: memórias desportivas



Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
Colocado por mariusangol