19 dezembro 2008

Passeio à Praia das Conchas em Moçâmedes (Namibe), Angola, na década de 1940




Nesta foto, tirada em 19.4.1941, por Rodrigo Baião Alcario, podem ver-se três dessas famílias. Reconheço nesta foto, em cima e da esq. para a dt: ?, Mário António Guedes da Silva (o 2º), seguido de António Guedes da Silva , Júlia Celeste Gomes Guedes da Silva, ?, Lídia de Sousa Alcario , Orbela Gomes Guedes da Silva (um pouco à frente), e os restantes ???? Em baixo, sentados: Élia Paulo, ?, José Nascimento?, ?, e Maria do Carmo Paulo (Carminha).

Foto gentilmente cedida por Mário Guedes da Silva.



Familias de Moçâmedes na Praia das Conchas. Os Ribeiro/Pires Correia


Em Moçâmedes era costume uma ou mais familias irem ais fins de semana a um passeio até à Praia das Conchas

 


Chamavam praia, mas de praia não tinha nada, pois era pedregosa, não dava para banhos de mar, e até magoava os pés, mas ali apanhavam-se búzios, burriés, pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, pescava-se à cana e à linha uma imensa variedade de peixe, como garoupas, pargos, sargos, etc.


O farol do Saco do Giraúl para além da função estritamente inerente à sua actividade, estava inserido num local onde as pessoas se deslocavam, designadamente aos fins de semana para passearem pela zona litorânea a norte de Moçâmedes, passando dali até à Praia das Conchas e Barambol.


 Aliás, toda a zona do Farol até à Praia das Conchas, onde se situava um banco rochoso, é uma zona de muita rebentação, e, se uns iam para o local com o fito de darem asas ao gosto pela pesca/caça aos peixes, outros iam simplesmente para as zonas menos rochosas apanhar búzios, burriés, pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, sujeitando-se, a cortar os pés ou as sapatilhas com as conchas afiadas como lâminas, outros ainda para contemplarem o espectáculo que lhes era dado apreciar das altas ondas do mar envoltas em espuma a baterem furiosas nas altas rochas da zona, como que as querendo galgar.

Também era comum verem-se ao fim do dia pescadores desportivos dos  mais aguerridos a tentarem ali a sorte levar para casa uma variedade de peixes, tais como garoupas vermelhas pintadas, pargos, sargos / mariquitas, canelas, meros, moreias, anchovas, tinhas, badejos, chocos, polvos, lagostas, que davam para encher o frigorífico para a semana. Eram 3 zonas muito frequentadas, especialmente, por pescadores desportivos de pesca à linha, de pesca à cana e caça submarina, a partir da Praia das Conchas até foz do rio Giraúl.

Afinal valia mesmo a pena ir até ao Farol, à Praia das Conchas e ao Barambol! Uma curiosidade: na «Praia das Conchas», como em algumas outras praias como a do Chiloango, etc., é comum verem-se grandes ossaduras de baleias, que ali vão «encalhando» trazidas pelas correntes desde a Praia Amélia (*), em tempos mais para trás (década de 1920/30), uma vez que durante essa década existiu naquela praia, a 6 km a Sul do centro da cidade de Moçâmedes, uma grande empresa norueguesa que ali se instalou, vocacionada na industrialização de carne e gordura desses cetáceos.

MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão


MariaNJardim

13 dezembro 2008

Rallies e circuitos em Moçâmedes













1ª e 2ª fotos: Avenida da Praia do Bonfim em dia de provas.

3º foto: Na curva da Fortaleza: José Pedro Bauleth e Moinhos?.

4ª foto: Assistindo à provas sobre o muro da Fortaleza e em frente ao Palácio do Governador: Arménio Jardim, Rui Alberto Sousa Jardim Leonel Sousa e Ana Paula Almeida Jardim.

5ª foto: Em frente ao Palácio do Governador, multidão assistindo às provas.
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Moçâmedes parava quando aconteciam circuitos automóveis e ralis. Aliás, todas as cidades de Angola paravam quando havia alguma prova , fosse em que cidade fosse: Moçâmedes, Lobito, Sá da Bandeira, Nova Lisboa, Benguela Luanda... Eram circuitos de rua demarcados com pneus e fardos de palha colocados em volta dos percursos, em pontos estratégicos e a certa distância das curvas, para evitar despistes e as suas consequências, uma vez que as localidades enchiam-se de gente, e muitas vezes, até não caberem mais. Um dia de provas automobilísticas, era sempre uma festa. Nesses tempos tempos participavam carros de turismo de diversas marcas e níveis de preparação, todos disputando as provas e correndo juntos, sem distinção. Corria-se porque se gostava, por amadorismo, e os carros com que se corria eram os mesmos do dia a dia e até os pneus eram os mesmos fosse qual fosse o seu piso. Mais tarde as pistas angolanas evoluiram com novas aquisições, entre as quais se salienta o Porsche 904 GTS adquirido por Henrique Ahrens de Novais etc., e na década de 70 as provas eram já divididas em corridas distintas de pilotos consagrados e de pilotos iniciados.
Para ver mais, clicar AQUI

08 dezembro 2008

Famílias de Moçâmedes:a família Duarte e a pescaria da Praia Amélia





 João Duarte entre os  filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)




João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluia banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e que tinha o seu ponto alto numa animada almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que geralmente constava de uma caldeirada de peixe acabadinho de pescar, feita mesmo alí embaixo do telheiro da pescaria, ou seja, sob um amplo barracão onde ficavam os tanques de salga do peixe.

Estes passeios, importa referir, já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as pessoas se deslocavam para a Praia Amélia em baleeiras de pesca, à vela, a partir das pontes que ficavam mais à mão, a da Praia das Miragens, ou a partir das várias pontes das pescarias da Torre do Tombo, carregando consigo cestos com produtos alimentares destinados à ementa, cebolas, batatas, azeite, fruta, doces, sobremesas, refrigerantes, bebidas variadas, toalhas, etc., para além do carvão para combustivel ou de um fogão a petróleo , desses que foram vedeta na época, antes do surgimento dos fogões alimentados a gás.

João Duarte era considerado um homem rico para a época. A pescaria de João Duarte  na Praia Amélia, onde toda a gente era sempre bem recebida, encontrava-se nos anos 1960 apetrechada com uma fábrica de farinhas e óleos de peixe, totalmente automatizada, instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, 3 traineiras de bom porte, uma ponte, várias casas para o pessoal e 1 capela.  João Duarte era também proprietário de algumas vivendas ocupadas por familiares, de um conjunto de casas antigas situadas na Torre do Tombo que ocupavam quase todo um quarteirão  junto à estrada que subia para a Praia Amélia, e ainda de um prédio de 4 pisos  num gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,  arrendado ao Banco de Angola.  João Duarte era considerado um homem rico, mas naquele tempo, ser rico, nada tinha a ver com as rápidas e por vezes escandalosas fortunas que se estão a criar em Angola  nos dias de hoje.  É preciso que se saiba que ser industrial de pesca em Moçâmedes no tempo de João Duarte, podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se tratava de uma actividade dependente das capturas de peixe.  Para que a industria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade de peixe tinha prejuízo pela certa. Bastava um ano de crise para de um momento para outro tudo ir por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58, com a  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes e  abalou muitas boas empresas de pesca do distrito, levando umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a desistirem do sector pesqueiro e a ficarem-se pelo comércio, pela agricultura, e  pelo imobiliário. Lembro-me que desapareceram na voragem dessa crise do sector das pescas,  a "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  a "J. Patrício Correia, Lda" ,   a "Marcelino de Sousa, Lda", e todas as pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", e a "Raúl de Sousa" , na Baía das Pipas. Desapareceram a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda , todas em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário, sendo depois vendida ao Dr Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda" e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram como tal. Em Moçâmedes, a SOS,  "Sociedade Oceânica do Sul, Lda.", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade Industrial da Ponta Negra Lda", no Canjeque, sociedade da qual faziam parte António Bernardino, Virgilio Almeida e Matos,  adquirida pela "Projeque, SCRL Lda", e foram abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda" e  a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco,  bem como a "Venâncio Guimarães, Lda" da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento, como seria de supôr a crise afectou também o comércio,  abalou empresas como por exemplo  a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. Como a "Torres Irmão, Lda"  que  ficou-se pela Horta, e com o imobiliário.




Este é um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo e naquelas paragens. E  para se fazer uma ideia da complexidade do problema e da relatividade do valor do produto, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábricas davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia, era vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada.





A empresa de João Duarte, na Praia Amélia também não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado.  A sua pescaria  chegou mesmo a ser vendida a uma empresa sul-africana, porém a sorte esteve ao lado do proprietário, pois a operação acabou por não se concretizar porque o Governo daquele país não autorizou o investimentos no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perderem o sinal que tinham adiantado por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado. A empresa de João Duarte conseguiu como poucas não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise conseguiu até modernizar em termos de maquinaria as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção de um prédio, na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado ao Banco de Angola.

Estamos a falar dos estragos acontecidos nos finais da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório em Moçâmedes veio a acontecer  a partir dos anos 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe e aladores mecânicos para carregamento do pescado.




João Duarte possuia um quarteirão quase inteiro de casas no bairro da Torre do Tombo, em Moçâmedes. Casas de traça colonial portuguesa, de grande valor em termos de património arquitéctónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, que, lamentavelmente, apresentam hoje em dia um avançado estado de degradação. E quanto a cidade teria a ganhar com a  recuperação deste património que ainda hoje faz a delícia de visitantes, sobretudo os estrangeiros, que não resistem em o fotografar...


Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado da casa onde viveu a familia João Duarte, e embora tenham passado já 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste loca, que me foi familiar, e deste conjunto habitacional, que conheci por fora e por dentro, como às minhas mãos.

Tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei com alguns dos filhos desta numerosa familia, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lurdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte, os mais velhos, eram o Jinho, o Norberto, o Quim, e o Mandinho, e os mais novos, a Guida, o Mário e o Eduardo. O Norberto faleceu era ainda muito novo, cheguei a conhecê-lo. O Mandinho também faleceu relativamente jovem.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita brincava, sentada na escadaria da entrada do casarão familiar. Eram confeccionadas pela D. Micas, que lhes colocava longas tranças feitas de lã amarela, e as vestia com  vestidinhos de chita estampada com flores colorida. E as bonecas feitas de papel de lustro colorido que a Zita guardava religiosamente no interior de uma caixinha de lata, munidas dos respectivos vestidinhos, sainhas, meias, sapatos, chapéus, etc.  Naquele tempo  não havia à venda a variedade de brinquedos que hoje em dia apresenta o mercado, e as nossas mães jogavam mãos às suas habilidades manuais para proporcionarem este tipo de brinquedo às suas filhas; as bonecas de pano com tranças de lã...

Ainda sinto o cheiro da água de colónia que a D. Micas, ela própria fazia, colocando num frasco uma porção de perfume ao qual adiciona água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. Era com este líquido, cuja mistura tomava a côr branca, que perfumava os filhos caçulas, a Guida, o Mário e o Eduardo após o banho diário.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama diária não parava, desde manhã cedo até à hora de dormir, e onde D. Micas, mulher-mãe, esposa, dona de casa, educadora de seus filhos, embora ajudada por seus empregados, não declinava suas grandes atribuições em mãos alheias.

Recordo os "jogos de esconde esconde" e outras brincadeiras mais, que nós, garotada endiabrada, fazíamos por baixo do assoalho daquela casa, construído sobre uma caixa de ar, onde um dia encontrámos um saco com moedas antigas. Essa casa que surgia aos meus olhos criança como um enorme casarão

Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Lembro-me que o meu pai deixava à porta da nossa casa a carrinha de caixa aberta que possuia, uma Ford, com a chave na ignição. E que a porta da nossa casa ficava sempre aberta, excepto à noite. E à noite fechada apenas no trinco. No Verão, as janelas da rua também ficavam abertas de par em par. Como o mundo mudou neste aspecto. Hoje em qualquer cidade proliferam gradeamentos e não faltam policiamentos.
 
Naquele tempo brincávamos no meio da rua, em frente das nossas casas. A rua era o campo onde se jogava futebol, era o trajecto que se percorria quando se brincava às escondidas, era o palco onde se representava, era  terreiro onde se jogava à macaca e aos queimados. Rapazes e raparigas. Meninos e meninas. Tanto juntos como separados. Não havia casa da vizinhança que não lhes conhecessemos os recantos. Para brincar às escondidas devassávamos as imediações, saltando  de um lado para o outro da rua, entre a casa do João Duarte e a  casa do velho Reis e da Ritinha Seixal onde sobre terraços de quartos feitos com bordão punham a secar rodelas de batata doce,  as célebres "macocas",  que faziam a delicia da garotada.  Do grupo de rapazes faziam parte o Zézinho e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Aires Domingos e o irmão Vitor,  o Lolita Lisboa (às vezes), e quando se tratava de futebol também  o Zequinha Esteves e o Travão alinhavam na brincadeira.

Brincava-se muito naquele tempo. Escola da parte da manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje. Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam os "deveres de casa", terminadas as aulas brincava-se até à hora do jantar, mais propriamente, até à hora da chegada a casa de João Duarte, na sua limousine cinzenta, Dodge, por volta das 20 horas.  Era o limite,  a hora do descanso do "guerreiro", a nossa hora do recolhimento a casa.

Uma coisa que João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino". Alí encontravam-se, diariamente, ao fim da tarde, para animada cavaqueira, o velho Cabral, de fato e lacinho;  o velho Ringue, de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicaro da Pesca, depois Grémio, onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém) ou Virgilio Russo, também conhecido carinhosamente, por "Virgílio aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar, e outros mais que a memória e o tempo não permitem recordar. E outros mais que a memória, traiçoeira, não deixa lembrar...

João Duarte foi, pois, um exemplo da vontade, persistência e determinação de mais um português do Norte, simples emigrante, que um dia resolveu partir para Angola, ali fixar-se para sempre, nessa terra onde viveu, casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho e investiu o fruto desse trabalho, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus algures em algum Banco na Europa. Hoje tende-se em Angola a confundir "colono" e "colonialista". Pior ainda, o "colono", simples emigrante, foi elevado a "bode expiatório" de todos os males do colonialismo. A perspectiva não irá mudar enquanto imperarem preconceitos que impedem uma visão mais clara e realista da história da ex-colónia. Uma coisa foi um projecto europeu de exploração económica e dominação política que aconteceu, dirigido por homens do poder encostados a homens de dinheiro, a partir das Metrópoles, os Oligarcas, outra  coisa são os "colonos", geralmente grupos humanos constituido de gente pobre e trabalhadora, dos quais os "colonialistas" se serviram, tal como se serviram dos povos colonizados, para levarem por diante os seus intentos sobre um território afastado do seu lugar de origem. Por vezes há "colonialismo" sem haver "colonização", aí os metropolitanos não se fixam, apenas desempenham cargos de funcionalismo, sempre a pensar no regresso. Quando há "colonização", como aconteceu em Angola, a camada de metropolitanos  fixa-se com carácter permanente na terra, onde lhes nascem os filhos, e onde, como refere Luiz Chinguar,  procuram o “ultimo refúgio na velhice, edificam uma casa com jardim à frente e horta e pomar no quintal..."  Em Angola onde houve "colonização" e houve"colonialismo". Era fácil distingui-los.  As leis não eram dirigidas para favorecer os colonos mas para favorecer colonialistas que delas beneficiavam. Ou seja, eram emanadas para benefício de uma oligarquia de Lisboa colada ao poder (detentora das grandes fazendas e de inúmeros privilégios e monopólios), que vivia em um execrável absentismo mas com um total poder de decisão, e que desde sempre desprezou a vontade dos colonos. Mas foi sobre estes que infelizmente recaiu o ónus das injustiças praticadas, enquanto as mais valias económicas e financeiras deste mau proceder ficavam para os oligarcas, que nunca deram a cara. Até na independência ficaram “assobiando para o lado”, acrescenta Chinguar. Angola teria beneficiado  imenso, se em vez de "descolonização" tivesse havido um "descolonialismo"! Este,sim, acabava com o colonialismo, principal causador do atraso cultural, económico e, principalmente, social.  Depois de 1974, em Portugal, não se procura a verdade, ou melhor, as verdades. Apenas o que é politicamente correcto. Oculta-se o passado através de uma imprensa controlada e ignorante, as consagradas “verdades” definitivas e oficiais. Aconselha uma consulta a : http://psitasideo.blogspot.pt/2009/06/os-ossos-da-colonizacao-1.html.

Símbolos positivos do fim do período colonial, estas pessoas, de que João Duarte é um exemplo, as que ali ganharam e alí investiram a totalidade do seu ganho, acabaram por ser a mais prejudicadas, porque Portugal, a potência colonizadora, que teve o direito de colonizar (de acordo com o direito internacional), não cumpriu o dever de descolonizar no tempo próprio. Rumando no sentido contrário da processo histórico, sem a mínima consideração pelos naturais e pelos europeus que alí labutavam e alí investiam o resultado do seu trabalho, optou por uma guerra sem fim à vista, que não podia ter outro resultado. E na hora da verdade, o Portugal de Abril foi obrigado a debandar pura e simplesmente do território, deixando aquelas gentes entregues a uma guerra fraticida, e oferecendo aos portugueses e aos seus descendentes, ali nascidos, e a uns poucos africanos vinculados ao Estado, como descargo de consciência e  única alternativa,  uma «ponte área» montada à pressa, e sem retorno. A juntar-se a isto, o "favor" de se poder trocar 5 mil escudos angolanos, por cinco mil escudos portugueses.

Estas pessoas regressaram às suas terras com as mãos mais vazias que nunca. Os que possuiam poupanças de uma vida depositadas em Bancos do dito Ultramar, tudo perderam. Sim, porque para nada valiam. Os outros, os tais Oligarcas, os grande empresários domiciliados na Metrópole, os protegidos do sistema, aqueles que desde sempre se serviram de Angola apenas para «sacar», e investir na Europa, sem vínculo afectivo que os ligasse àquela terra, nada perderam, porque tinham o seu pecúlio a bom recato!

Esperemos ao menos que a História consiga um dia separar o trigo do joio e finalmente fazer justiça àqueles que deram a Angola o melhor de si mesmos, e ainda hoje continuam escarnecidos e vilipendiados!

As lições da vida têm sido uma grande Escola para os angolanos! Sairam os portugueses, a guerra entre os movimentos de libertação arrastou-se até 2002, e tornou-se mais feroz que nunca. Acabada a guerra, foram-se os colonialismos, foram-se as ideologias, instalou-se o discurso do neo-liberalismo. Aliás hoje em dia, um pouco por toda a parte, assistimos, impotentes, ao surgimento de um tipo de Estado que já não controla a sua própria estrutura política, desprestigiado por agentes económicos sem ética, sem respeito pelos mais elementares direitos dos outros. Ali, aqui, acolá, e por toda a parte.

Angola é um país de futuro, apregoa-se. Oxalá um dia o seu povo possa vir, também a beneficiar das suas riquezas.




Algumas fotos de familia:



Aqui podemos ver a D. Micas (Maria da Conceição Guedes Duarte), esposa de João Duarte,  e os seus 8 irmãos, alguns dos quais trabalhavam na empresa da família Duarte. São: Isaura Guedes da Silva, Joaquim Guedes da Silva, João Guedes da Silva, António Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva, Armando Guedes da Silva, Delfina Guedes Lisboa e Carlos Guedes da Silva. 
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Aqui podemos ver o José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha enquanto namorados, no Parque Infantil de Moçâmedes.  José Duarte é um dos filhos de João Duarte e D. Micas. Os miúdos são o Ricardo (Kady), a irmã, Lena Duarte, e o Fernando Duarte que Deus Tem. Ao fundo o Colégio das Doroteias. São todos filhos do casal  Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), portanto netos de João Duarte. Foto de finais doa anos 1950.

Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte:

João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.



Familiares e amogos na ponte da pescaria da Praia Amélia. Da esq para a dt: Jorge Duarte, Kady Duarte, Lelito?, Marito Saavedra, Fernando Duarte, Lenita, uma prima de Sesimbra, Marito Duarte (o caçula), Lena Duarte (de óculos) menina de Porto Alexandre de Maria Cândida (Sial). Ao fundo duas traineiras e a ponta do Canjeque. Na foto a seguir: Lopo, São, Jorge. Embaixo; Lena, Márito, Fernando e Kady Duarte.
 


Interessante é o perfil que Kady traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, conhecido Jinho, que tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel...  Ei-lo:

"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Jinho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

 
João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos

João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.


"...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....

O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge


"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 O casal João Carlos Guedes Duarte  e Maria Helena Ramos Duarte


Alguns elementos da familia Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência, momentos antes de abandonarem aquela cidade




Fica aqui mais uma recordação de gentes e factos ocorridos um dia, algures na nossa terra.




MNJardim 


Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI

24 novembro 2008

Gente de Porto Alexandre






Quem se lembra da primeira loja dos gémeos de Porto Alexandre, do Álvaro e do Eduardo Faustino?

Quem se lembra deste carro original e do seu proprietário?

Ao volante, Caciano, atrás, Taruca Pacheco + Álvaro Faustino...

18 novembro 2008

Desporto escolar em Moçâmedes (Namibe, Angola) no âmbito da Mocidade Portuguesa Feminina: entre fins 1969 e meados 1970



Cecílio Moreira (de gravata) rodeado por um grupo de alunos da Escola Prática de Pesca e Comércio 
de Moçâmedes, em finais dos anos 1940.  Reconheço, entre outros, Tito Gouveia (filho), em cima, à esq. Bento
?, Mário Rocha?, ?, e Amadeu Pereira?


A Mocidade Portuguesa e o Desporto em Moçâmedes

1. A Mocidade Portuguesa Masculina

Foi nos finais da década de 40 que tiveram inicio as aulas de Educação Física na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no âmbito da Mocidade Portuguesa, tendo como professor Emídio Cecílio Moreira.

Cecílio Moreira era ainda um jovem de faces rosadas quando, na década de 40 chegou a Moçâmedes ido da Metrópole, integrado na Marinha portuguesa e vinculado à Capitania do Porto Moçâmedes, tendo em seguida enveredado pela carreira docente como professor de Ginástica  e de Trabalhos Manuais da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 
Cecílio Moreira, na Metrópole, fora campeão nacional de box de peso médio, talvez este facto tivesse influenciado a  sua carreira profissional e ao mesmo tempo contribuido para a grande colaboração que prestou à cidade na expansão das actividades desportivas nos clubes locais. Foi o caso do Sport Moçâmedes e Benfica, que viria a criar as suas primeiras equipas de basquetebol nas classes masculina e feminina, na sequência de aulas de Ginástica por si ministradas aos atletas do clube.
 

 Uma equipa de voleibol da Escola Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes
no início dos anos 1950. Em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, ? José Manuel Frota e Soares. Embaixo: Caetano, Fernando Morais e ?



Uma equipa representativa da MP nos campeonatos distritais, com elementos
recrutados das equipas daquela modalidade do Benfica e do Atlético de Moçâmedes

Mas as actividades da MPM,  primeiro na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, mais tarde da Escola Comercial e Industrial de Moçâmede, e ainda mais tarde na Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, não se limitaram à Educação Física (os tradicionais exercícios ginásticos). Elas também se estenderam a outras modalidades desportivas, como futebol, voleibol, basquetebol, o hóquei em patins, ainda que estas não passassem de experiências de curta duração, dado o grande número de clubes existentes em Moçâmedes que as praticavam. Levados a sério, sim, nesta época, e em épocas anteriores, e quase até aos momentos finais da colonização portuguesa, foram os desportos náuticos que tiveram o seu início na década de 40 (finais), primeiro na classe de «Sharpie e mais tarde, na década de 50 e 60, na classe de «Snipes», e cujos velejadores-estudantes pertenciam ao «Centro Nautico» da Mocidade Portuguesa. O instrutor desta modalidade, como não podia deixar de ser, era o professor Emídio Cecílio Moreira.



  Vela «sharps», em 1950.
A velejar Mário Guedes e António Martins Nunes (Cowboy).

 
  Perspectiva da Praia das Miragens com «snypes» e velejadores da Mocidade portuguesa. 
Finais da década de 50.


A vela foi outra das modalidades desportivas, esta sim, grandemente beneficianda com o concurso da Mocidade Portuguesa.
A baía de Moçâmedes tinha óptimas condições para a prática da vela devido aos ventos não muito fortes que facilitavam os treinamentos dos jovens estudantes, e pelas «regatas» que alí por vezes ocorriam, por ocasião das Festas anuais da Cidade, a «4 de Agosto», e mais tarde durante «as Festas do Mar», «regatas» que eram entusiasticamente acompanhadas pela população que se concentrava na Praia das Miragens. Aliás foi para Moçâmedes que veio o título mais honroso alcançado em 1956, em Luanda, em «snipes» por Fausto Ferreira Gomes, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos da Mocidade Portuguesa: Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes. 

Quanto à modalidade de «REMO» esta coneçou por ser praticada em Moçâmedes, nos velhos tempos da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e foi perdendo o entusiasmo dos jovens uma vez que existiam somente dois barcos, para além da «guiga», um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, um «Yolle» do Centro Nautico da Mocidade Portuguesa.
O desporto era fundamental para a Mocidade Portuguesa devido à disciplina que esta actividade implica. A Mocidade Portuguesa, criada em 19 de Maio de 1936 era uma organização juvenil que procurava enraizar uma nova mentalidade ao serviço do Estado Novo que defendesse a trilogia «Deus, Pátria e Família». Para isso era necessário estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física da juventude, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever cumprido. A ela deveriam pertencer, obrigatoriamente, os jovens dos sete aos catorze anos. A MPM encontrava-se dividida por quatro escalões etários: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14 anos), os vanguardistas (dos 14 aos 17 anos) e os cadetes (dos 17 aos 25 anos).É evidente que a Mocidade Portuguesa não era inocente. Eram estruturas que de inicio serviam o sistema educativo e divulgavam doutrinas e princípios cujos objectivos eram o de formar consciências de acordo com ideologia do regime, identificada com a tradição, a obediência, o respeito pela autoridade, o patriotismo e a aversão à modernidade estrangeira, etc., etc.
De início a Organização abrangia toda a juventude escolar ou não, contudo acabou por recrutar quase exclusivamente os alunos dos ensinos primários e secundário, e com o pós Guerra (1939-1945)  foi perdendo o caracter  para-militar que detinha desde o seu início  sendo extinta após o 25 de Abril de 1974.

Na década de 1950  ainda que a juventude continuasse a ser  de certo modo politica e ideológicamente  manipulada, era-o subrepticiamente, e não tinha disso a consciência. O que  contava para a juventude, na Mocidade Portuguesa, era a parte lúdica, e nada mais. Através da MPM tinham acesso a muitas coisas gratuitas que os jovens de agora para as terem tem que as pagar a bom preço, e nesse aspecto a Mocidade Portuguesa era camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. Através da MP ganhavam amigos, passavam momentos agradáveis, nos acampamentos, nos passeios, no desporto, ou seja, em actividades que as posses da maioria não permitiriam penetrar. E não creio que os objectivos de inculcação ideológico-políticos da MP tenham tido algum sucesso entre os jovens da minha terra. Em termos factuais, o que sei é que eles souberam aproveitar aquilo que era bom na MP, ou seja os já citados aspectos lúdicos; e que houve alguns que nos anos 60 se tornaram mesmo activistas contra o regime de Salazar e do Estado Novo quando tiveram que partir para a Metrópole para prosseguirem os estudos para níveis superiores, uma vez que na altura Angola não possuía uma Universidade. Curiosamente, todos eles faziam parte de uma segunda geração de brancos nascidos em Angola, todos eles , portanto, rotulados à nascença como euro-africanos ou «brancos de 2ª». Curiosamente também muitos deles estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Perduraram até à década de 60, normas que visavam distinguir os filhos de portugueses originários de Portugal (reinóis), dos brancos nascidos em Angola para lhes limitar os direitos civis, reflexo da desconfiança e suspeição em relação aos naturais das colónias. Estes não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia a nível superior na administração pública colonial, etc., etc. O próprio facto de não haver em Angola uma Universidade era significativo...  







Equipa de basquetebol feminino da Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu 
de Moçâmedes
Anos 60.


 Equipas de Badmington.Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu de Moçâmedes
 
Excursão à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina. ECIIDH

  
A Mocidade Portuguesa Feminina foi Criada em Portugal, em 1937 com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã, sempre pronta a contribuir para o bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens, ou seja, como veículos de transmissão dos valores e comportamentos ditados pelo regime de Salazar de acordo com os ditames da trilogia "Deus, Pátria e Familia". Assim descreve esta organização estudantil do Estado Novo a historiadora Irene Flunser Pimentel, que acrescenta, ser a MPF uma organização que dava indicações inclusivamente sobre o fato de banho oficial com decote pouco generoso e saia não muito curta, sobre a atitude a ter em casa com o marido, conselhos sobre livros fundamentais e outros proibidos aos olhos das jovens, e a aprendizagem das virtudes dos grandes heróis nacionais como D. Filipa, etc.

 
Naquele tempo os ideólogos do regime como veículo indispensável à prossecução do programa do Estado Novo. Aliás, no ano a seguir ao golpe do 28 de Maio de 1926 e à «ditadura militar», logo o Estado Novo se apressou a estabelecer através do regime jurídico algumas das obrigações em relação à mulher, tais como regime de separação de sexos nas escolas, a introdução da disciplina de Economia Doméstica incidindo nas tarefas de "coser, bordar, cozinhar, olhar pelo asseio da casa, talhar, cozer e conservar as peças de vestuário da sua família, considerar o valor da higiene, etc. E em 1931 se é reconhecido o direito de voto foi apenas àquelas que possuíam cursos superiores ou secundários, enquanto aos homens bastaria saber ler e escrever. Também o Código do Processo Civil de 1939 veio submeter ainda mais a mulher à tutela do marido, interditando-lhes o poder de afiançar, exercer comércio, viajar para fora do país, celebrar contratos e administrar bens sem a autorização escrita do marido.

Inserida neste contexto, a
Mocidade Portuguesa Feminina o objectivo prioritário de estimular nas jovens portuguesas a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social no amor de Deus, da Pátria e da Família, tendo a biologia vinda em socorro da ideologia através da apresentação desse argumento infalível que é a capacidade da mulher gerar mais «filhos da Nação", de os educar assimilando para tal o programa instituído e dispensando toda e quaisquer pretensões de autonomia, fazendo lembrar o que passava noutros regimes ditatoriais europeus tais como a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco.

Já na década de 1960, houve como que  um reoganizar da MP masculina e feminina. Existem fotos dos alunos do secundário de Moçâmedes e de Porto-Alexandre, tiradas na década de 60 e na década de 70,  que nos motram  como a MP see encontrava activa, mesmo mais activa que nunca, com especial empenho ao nível do desporto.

Quanto à Mocidade Portuguesa Feminina esta foi uma organização serôdia entre nós raparigas moçamedenses daquele tempo, veriicando-se como atrás foi dito uma grande actividade  nas décadas de 1060 e 1970.  Eu própria frequentei em Moçâmedes o secundário na segunda metade da década de 1950 e ao nível da Escola que frequentava, a Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, nunca me dei conta da existência de qualquer actividade feminina levada a cabo por aquela organização. Nunca vesti nem vi colegas minhas envergarem fardas, não obstante  tive acesso a fotos de finais dos anos 1940 que mostravam desfiles da MP feminina, em saudação olímpica, desfilando pelas ruas da vizinha de Sá da Bandeira. 

E em relação a actividades desportivas escolares, na segunda metade da década de 1940  chegaram a ter a disciplina de Educação Física, prática que  quando muito perdurou pelo menos até 1950, pois já não existia esta disciplina quando frequentei a Escola Comercial de Moçâmedes que veio substituir a Escola de Pesca.

Concluo que entre nós a MPF, excepto talvez nas décadas de 1940 e inicios de 1950, a MP masculina que frequentava o secundário, não demonstra objectivos de inculcação ideológica de que Irene Flunser Pimentel nos fala quanto à MP metropolitana, e que até aos finais do Império,  se encontrava reduzida à actividades desportivas e lúdidas. Aliás, segundo a própria história da MP, a partir de meados da década de 50, na Metróple, já a organização havia começado a perder o seu anterior carácter de obrigatoriedade e de otganização para-militar. Não obstante, o Curso de Formação Feminina, Disciplina de Lavores no Ciclo Preparatório, foi uma realidade defebdida peka MPF, veiculava pois a ideologia  do Estado Novo em relação à mulher.

Quanto ao resto,
imposição de
decote pouco generoso, saia não muito curta, etc. etc., só posso dizer que as jovens da minha geração não deram por isso. Seguiamos a moda que chegava a nós atravé da Revista BURDA. Praticavamos a modalidade de basquetebol com curtos calções e treinavamos nos nossos clubes jogando contra equipas constituídas por rapazes sem quaisquer dessas inibições de que nos fala a referida historiadora. Aliás, a década de 1950 foi entre nós de grande actividade  desportiv promovida pelos vários clubes da cidade, altamente ouganizadosm que pouco espaço deixavam à MP. 






Como referi nas décadas de 1960 até 1975, a MPF teve realmente um grande incremento entre os jovens estudantes de Moçâmedes, de ambos os sexos, tendo  chegado a organizarem-se torneios provinciais em algumas modalidades como basquetebol, badmington, e outros, realizados fora de portas, excursões incluso à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina, tal como as fotos  testemunham. 

De qualquer modo, a verdade é que os jovens gostavam da MPM e da MPF pela camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. que naquela organização encontravam. Quanto ao resto as mudanças que, entretanto, se foram verificando no  seio da Familia, a instituição basilar da sociedade portuguesa, tal como fora concebida por Salazar e pelo Estado Novo exigiam, nestas décadas já não tanto uma educação que formasse jovens apegadas ao ideal doméstico e ao futuro papel de boas esposas e boas mães capazes de transmitirem aos filhos os princípios ideológicos e os valores morais do Estado Novo, mas também jovens preparadas para se confrontarem com as mudanças que estavam surgindo em toda a parte, saudáveis e fortes para os embates e capazes de manterem uma prole sem degeneração. As décadas de 1950 e 1960, foram aquelas em que se verificou entre nós, a saída em massa das mulheres para o mundo do trabalho remunerador.

14 novembro 2008

Grupo de moçamedenses em amena confraternização numa festa de Carnaval















Grupo de moçamedenses em amena confraternização numa festa de Carnava.
Reconheço, ao fundo, entre outros, Lalai Jardim Baptista e Silvestre.

MOÇÂMEDES NAMORADEIRA

Moçâmedes namoradeira
Jóia de rara beleza
Eu canto á minha mneira
Os teus dotes de princesa
És uma cidade bela
Tão bela que os outros são
Desta Àfrica singela
Que trago no coração

Tens ruas tão lindas
Catitas para pessear
Moçoilas jovens bonitas
Que são de encantar
Assim sozinha no deserto
Formaste um condado
E a brisa do mar
Vem nos cantar
Um triste fado

Conversas amenas e alegres
Pelas esplanadas
E prédios tão lindos catitos
De lindas fachadas
Jardins que são uma saudade
E parques também
Tens a felicidade
De serem bem garrida
Como a Pátria Mãe

E a noite teu céu estrelado
Lembra o céu da minha terra
Do qual me vi separado
Ao ser chamado p'ra guerra
Tens assim a nostalgia
Da terra onde nasci
Se p'ra ti voltar um dia
Nunca me esqueço de ti...
............


12 novembro 2008

Inauguração do novo edifício do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes (1957)



 

O novo e moderno edifício-sede do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, sito na Avenida da Praia do Bonfim em Moçâmedes, inaugurado em 24.05.1957.  O antigo edifício ficava situado na Rua dos Pescadores, com frente para a Praça Leal. Era era um edifício nobre de traça oitocentista e frontão triangular centralizado no alçado principal como era comum na época em edifícios públicos, e folgo em saber, que foi recentemente recuperado. 

 

A inauguração  deste edificio aconteceu com a presença do Governador Geral de Angola, Horácio José de Sá Viana Rebelo que se deslocara a Moçâmedes para presidir a varias cerimónias tais como a  inauguração do 1º troço do cais da cidade e a inauguracao do novo estadio do Benfica. Nesta foto o Governador Geral acabara de entrar no novo edifício-sede, para o acto de descerramento da placa comemorativa da sua inauguração. Presentes, para além do Governador Geral, o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte (2ª foto, à dt.), o Bispo da Diocese ( a entidade religiosa estava sempre presente a este tipo de inaugurações), elementos representativos das «forças vivas» da cidade, industriais de pesca do distrito, funcionários e convidados.. Foto do meu album.

 
No hall de entrada, aguardando o momento do acto solene. Reconhece-se, à dt., o Dr. Álvaro Barreto de Lara, advogado e notário em Moçâmedes, o Bispo da Diocese, o locutor do RCM, António José de Carvalho Minas e Oliveira (Maboque). Ao centro conversando com duas senhoras, Lourdino Tendinha (presidente do Grémio) e o industrial João Thomás da Fonseca. À esq., Raul Radich Júnior (vice-presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes), Mário Guedes da Silva e Rui Duarte de Mendonça Torres. 

 

Reconhecem-se tambem,  na foto imediatramente acima, entre outros, da esq. para a dt: Artur Homem da Trindade, Norberto Edgar de Almeida (func.), Carlos Manuel Guedes Lisboa, (func.) João Carlos Guedes Lisboa e Carlos Vieira Calão (func.). Foto do meu album.

 

Lourdino Fernandes Tendinha, Presidente do Grémio (à esq.), João Thomás Senna da Fonseca (Director-tesoureiro), Isaías Gusmão Fradinho Graça (Director), o Governador Geral de Angola Horácio de Sá Viana Rebelo, Albérico Sampaio Nunes, Director (de óculos, à dt.) e Vasco Nunes da Ponte, o Governador do Distrito (à dt.) Foto do meu album.

 

 

Lourdino Fernandes Tendinha (Presidente do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes) lendo o discurso ao Governador Geral de Angola que na mesa de honra se encontra ladeado pelo juiz da Comarca e o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. Atrás, António José de Carvalho Minas, faz a transmissão do evento através do Rádio Clube de Moçâmedes.
Foto do meu album.


 O Governador Geral de Angola discursando no salão nobre do Grémio. À esq., de pe,  o Presidente do Grémio. Lourdino Fernandes Tendinha. Por detrás, António José de Carvalho Minas, faz a transmissão do evento através do Rádio Clube de Moçâmedes.
Foto do meu album.



O Governador Geral de Angola discursando no salão nobre do Grémio, ladeado, à esq. pelo juiz da Comarca e por Lourdino Tendinha, e à dt. (na foto) pelo governador Nunes da Ponte e uma entidade do Governo. De pé, Rui Bauleth de Almeida, comentador do Rádio Clube de Moçâmedes e o ajudante de campo do Governador Geral.Foto do meu album.

 
 

À cerimónia da inauguração seguiu-se um «beberete» no salão nobre do mesmo edifício em que estiveram presentes, para além das entidades acima descritas, dirigentes do Grémio, elementos representativos das forças vivas da cidade, associados ligados à Indústria da Pesca de todo o distrito, muitas senhoras da elite moçamedense, e alguns funcionários reformados e no activo, etc. Foto  cedida por conterrâneo.
Em representação dos industriais de pesca, João Martins Pereira e Anibal Nunes de Almeida que aqui vemos acompanhados das respectivas esposas, Noémia Bagarrão Pereira e Julia Rosa Almeida. A esq, o funcionario do Gremio, Fernando França Galvão. Foto cedida por conterrâneo.



A galeria dos «velhos pescadores», no edifício do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes . Foto  cedida por conterrâneo.


Seguem alguns nomes de diversas pessoas que estiveram presentes nesta cerimónia que não se encontram representadas nas fotos acima:

Representantes das «forças vivas da cidade»: Mário Moreira de Almeida (Médico e Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes), Raul Radich Junior (Vice-Presidente da Câmara Minicipal de Moçâmedes),
Rui Duarte de Mendonça Torres, Abílio Gomes da Silva e Virgilio Carvalho de Oliveira (vereadores da mesma Câmara Municipal), Urbulo Antunes da Cunha (Presidente da Associação Comercial), Manuel João Tenreiro Carneiro (Advogado), João Martins Pereira (industrial de pesca e agricultura), Álvaro Barreto de Lara (advogado e notário), etc.

Industriais de Pesca associados do Grémio, reformados e no activo, entre os quais Aníbal Nunes de Almeida (industrial de pesca), João Martins Pereira (industrial de pesca e agricultor)...
lista em acrescentamento...
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fotos relacionadas AQUI
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O Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes  foi criado a 1 de Maio de 1949 por imposição legal,na vigência do Governador-Geral de Angola, José Agapito da Silva Carvalho, tomando o lugar do Sindicato da Pesca de Moçâmedes.


Primitivas nstalações do Sindicato dos Industriais de Pesca do Distrito de Moçâmedes,  na Rua dos Pescadores, zona junto da Praça Leal ou Praça de Táxis. Inicio dos anos 1950  Trata-se de um belo edifício de traça oitocentista e frontão triangular centralizado no alçado principal, como era comum na época em edifícios públicos. Folgo em saber que foi recentemente recuperado, como parece estar a ser recuperada a cidade do Namibe. Bem haja!


Sindicato dos Industrias de Pesca: funcionários na década de 50

Da esq. para a dt.
Em cima: Januário Tendinha (pai), Marques, Lili Coquenão Lemos, Etelvina Leitão, Lourdes Gomes, Fragata, Caeiro, Morgado, José Assis de Almeida e Alberto Silva. Embaixo: Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita), Gouveia, Humberto Pinho Gomes, Américo Rodrigues (Leiria) e Fernando França Galvão. Foto cedida por conterrâneo.
 



O primeiro a ser criado foi o  Sindicato da Pesca de Moçâmedes... E só depois, com a sua extinção surgiu, para o substituir o Grémio Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes


O Sindicato da Pesca de Moçâmedes (de início designado Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, foi criado em 1930, e teve a sua origem na grande crise da indústria de pesca em 1929 (1), que afectou grandemente Moçâmedes, com o fim de organizar a indústria de peixe seco e, posteriormente, a indústria de de farinhas e óleos de peixe, tendo concorrido decisivamente para a  construção das primeiras fábricas destinadas à transformação de peixe em farinha e óleo, protegendo ao mesmo tempo os pequenos industriais de pesca que até àquela data vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas. Até então, conforme apontamento histórico "Pescas em Portugal-Ultramar", de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), trabalhava-se em "autênticas fabriquetas, sem um mínimo de condições, em concorrência com outras instalações modelares (para a época, naturalmente). O problema foi que elas permaneceram activas durante várias dezenas de anos, prejudicando a qualidade das farinhas de peixe angolanas"

Nunca é demais recordar a importante organização que foi o Sindicato da Pesca de Moçâmedes criado em 1930 com a designação de Sindicato da Industria e Comércio de Peixe como seu 1º Presidente o Dr. Torres Garcia.

Conheci por dentro as instalações deste Sindicato situadas no Bairro da Torre do Tombo, em Moçâmedes, e posso acrescentar que este Sindicato, cuja função primeira era a de comercializar e dar escoamento aos produtos pescados e transformados pelos industriais em todo o distrito, designadamente peixe seco, farinhas e óleos de peixe, era um organismo de tal ordem que, paralelamente, dispensava aos seus associados, familiares, e a todos os trabalhadores envolvidos na indústria de pesca, de origem portuguesa e de origem africana, livres e contratados, funções de assistência social de suma importância. Para o efeito, este Sindicato era detentor de um Hospital em Porto-Alexandre e de um posto médico com consultório e enfermaria em Moçâmedes, ambos munidos das respectivas farmácias onde se podia facilmente beneficiar de assistência médica e medicamentosa e de cuidados de enfermagem. Este Sindicato possuia ainda um sistema de seguros de conta própria que facilitava grandemente a vida aos pescadores e industriais.

Quanto ao conjunto das instalações, o amplo complexo do Sindicato da Pesca de Moçâmedes situado na Torre do Tombo, estendia-se desde a então denominada Rua da Colónia Piscatória (assim se chamava a rua que dava acesso à subida para a Praia Amélia) até à praia, e englobava uma enorme extensão de armazéns e um conjunto de pequenas casas enfileiradas destinadas ao pessoal contratado, para além de duas habitações destinadas a funcionários (onde habitaram durante muito tempo João Gomes e Alberto Ferreira da Silva), das pontes, telheiros, giraus, etc., etc.

Era nesses armazéns que os industriais de pesca da terra entregavam, avulso, o produto do seu pescado depois de seco e preparado, se procedia à selecção do mesmo, pesava e preparava os fardos ou «malas» de peixe para a venda e exportação. Era desses armazéns, servidos por uma grande ponte coberta, a maior ponte de cais da época na baía de Moçâmedes, que saia a mercadoria em embarcações que faziam a cabotagem ao longo de toda a costa até ao Congo, onde era descarregada para ser posteriormente dirigida para o interior. Cada qualidade de pescado tinha o seu preço, a corvina e o cachucho por exemplo, eram mais valorizados que o carapau ou a cavala, e por tal o peixe era seleccionado e emalado em separado, consoante a sua qualidade/preço. 

Na altura da exportação, o Sindicato recebia a visita da inspecção dos serviços Veterinários, uma vez que o produto a exportar era obrigatoriamente acompanhado de certificados de sanidade passados por aqueles Serviços que na década de 50 se encontrava sob a responsabilidade do Dr. Elias Trigo, o seu Director. A inspecção era obrigatória uma vez que os peixes gordos tendiam a criar ranço e a saponificarem devido às condições climáticas. Mais tarde quando surgiram as farinhas e óleos de peixe estes eram sujeitos a determinados parâmetros organolépticos e eram, para tal, objecto de análise laboratorial, sendo neste caso, os funcionários daqueles serviços que se deslocavam às pescarias. Quanto ao pagamento aos industriais do valor das entregas do pescado pelo Sindicato, este possuía fundos próprios que permitiam o seu adiantamento, e tudo fluía com rapidez e eficiência uma vez que a mercadoria também escoava com a mesma rapidez e eficiência para os seus destinatários.

Cabia também ao Sindicato a função de angariamento de pessoal contratado para que as pescarias pudessem funcionar, uma vez que o distrito de Moçâmedes sempre fora a esse nível carente de mão de obra . Moçâmedes talvez fosse o único ponto de Angola em que a população africana local, constituída essencialmente por «quimbares» era minoritária com relação à população de origem europeia, daí socorrerem-se da mão de obra de "contratados" a tempo certo (2 anos), findos os quais regressavam a sua casas.

A importância deste Sindicato foi de tal ordem que as suas estruturas iniciais foram aproveitadas pelo Grémio e mantiveram-se inalteradas no essencial até 1975, data que marca o ano da independência de Angola e o êxodo dos portugueses, incluindo o dos industriais seus associados.


Segundo o apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), que melhor esclarece a evolução destes organismos, bem como as modificações que, por via dos mesmos se foram verificando na industria de pesca do distrito de Moçâmedes: (Texto completo AQUI)


"...Nos seus relatórios Carlos Carneiro descreveu os vários aparelhos e métodos de pesca que estavam sendo usados, acompanhando-os por um estudo crítico das explorações e das indústrias transformadoras existentes. Entregues a si próprios, trabalhando num campo em que era fácil conseguir lucros avultados com um mínimo de investimentos, dada a abundância da matéria- prima a explorar, não nos admira que Carlos Carneiro refira

"... O problema da qualidade do sal, tão fundamental para a boa conservação do peixe continuava por resolver, como continuava aguardando solução a secagem do pescado salgado, especialmente quanto às espécies gordas. Continuava-se a usar o sistema dos “giraus” mal situados ou desabrigados que facilitavam a conspurcação com as areias levadas pelos ventos. Naturalmente refere-se à desactualização da legislação aplicável ao sector. Não se tinha em consideração a utilização do peixe salgado/seco na alimentação humana, nem as na-urais exigências dos mercados consumidores, nem os centros de concorrência que já existiam. A legislação não se harmonizava com as necessidades da industria nem com as exigências dos mercados importadores. As autoridades centrais ignoravam que: “O problema de Angola é um problema de exportação”.

Carlos Carneiro, optimista, chegava a afirmar: “É inesgotável a fauna marítima da costa” o que infelizmente não era verdade. Seria inesgotável se houvesse uma gestão dos recursos piscatórios, que não havia, nem haveria tão cedo em Portugal ou no Ultramar Português. Pescavam-se por vezes grandes quantidades de pescado condenadas à destruição, por não existirem meios de conservação adequados, ou mesmo por outros motivos, como ainda acontece nos nossos dias, apesar das limitações das mais variadas ordens que actualmente existem para a conservação dos recursos naturais e da sua exploração racional.

"... Como sub-produtos do pescado fabricava-se: óleo e farinha de peixe, mas utilizando métodos absolutamente primitivos ou arcaicos. Então, surgiu em 1931 o Diploma Legislativo nº 283 (BOA, 1963) cuja introdução reconhecia mais uma vez, que a industria da pesca era um importante valor na economia da Colónia pois em 1930 o valor dos produtos derivados da pesca fora de 122 mil libras. O grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido depois pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes; na nota introdutória afirmava-se no documento referido ter havido, contudo, uma sensível desvalorização dos produtos da industria da pesca que o legislador atribuia à falta de selecção do pescado, ao descuido na preparação do produto - sobretudo quanto ao peixe seco, às defeituosas e heterogéneas embalagens, ao desconhecimento dos mercados consumidores, à desorganização dos produtores e tudo isso aliado a uma concorrência desordenada. Como medidas para inverter a situação preconizava-se: a) uma permanente e rigorosa fiscalização sanitária e comercial e b) agremiação da produção, comércio e exportação.
 
Pelo art. 1º do diploma eram criadas “... instituições profissionais sob a forma de sindicatos que abranjam a produção, industria e comércio de peixe e seus derivados, com a designação de “Sindicatos da Industria e Comércio de Peixe”. 

O mesmo Diploma criava em Luanda um “Conselho Especial de Consulta e Parecer, formado pelos: Directores dos Serviços Adu- aneiros, Pecuários e de Agricultura e Comércio, pelo Chefe da Repartição de Industria e Minas e pelo Chefe do Departamento Marítimo, onde baixarão todos os processos que respeitem aos Sindicatos de Industria e Comércio de Peixe e pelo qual transitam os recursos e propostas dos mesmos Sindicatos”. O Art.14º estabelecia que – “A fiscalização sanitária do peixe e derivados cabe, como estiver garantido e regulamentado, aos delegados de sanidade pecuária ou entidades que legalmente os substituam. Seguiam-se vários Artigos relativos à fiscalização sanitária e aos valores das taxas de fiscalização que deveriam ser cobradas pelos médi- cos-veterinários delegados de sanidade pecuária. Nesse mesmo ano os Serviços Veterinários publicaram um folheto de divulgação do colega Isidoro Martins dos Santos sob o título: “Sumárias instruções para secagem, defumação e congelação de peixes, com indicações sobre a legislação e conservação do mesmo produto” que rapidamente se esgotou (Santos, 1931).


Ao abrigo do Diploma Legislativo referido (BOA, 1931) organizaram-se os Sindicatos de Pesca de Moçâmedes e de Benguela e aprovaram-se os Estatutos respectivos, parecendo que tudo estaria resolvido de acordo com a orientação dada pelo diploma referido. Mas como a sindicalização não era obrigatória formou-se um grupo “auto-intitulado dissidente”, com algum poder económico, que procurou por todos os meios destruir os efeitos que se tinham em vista. Geraram-se assim dois grupos de industriais/ /exportadores que se guerreavam entre si (Sequeira, 1937) criando situações muito complicadas, com acumulação de dívidas, ac- ções em tribunais, etc. e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se até que os Sindicatos foram dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca. Então numa manobra de envolvimento económico os industriais/exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo. Foi quando o Governo Geral resolveu actuar decisivamente demitindo a direcção do Sindicato e nomeando em seu lugar uma Comissão Administrativa, presidida pelo Dr. Carlos Carneiro, que encontrou situações económicas gravíssimas que foram sendo pouco a pouco resolvidas por arranjos directos entre a Comissão e os devedores e credores do Sindicato, conseguindo-se normalizar a situação económica existente e beneficiar a grande massa dos pescadores e dos associados dos Sindicatos (Sequeira, 1937).

A partir desse momento entrou-se naquilo que se poderia considerar normalidade quanto à qualidade do pescado salgado/seco e do aumento sempre crescente da produção do produto refrigerado e congelado.»




Os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha

 

Sobre a indústria de farinha de peixe, o mesmo apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa) avança:


 ...«Como surgiu e se desenvolveu a indústria da pesca em Angola já o descrevemos. Além disso existia uma longa tradição de pescas e de pescadores em Portugal, mas como teria surgido a produção da farinha de peixe? Mais uma vez vou referir Carlos Carneiro pois é ele que no seu livro “O Mar de Angola” (Carneiro, 1949) escreveu, sob o título: “E assim nasceu, em Angola, a indústria de farinhas de peixe”. Vejamos portanto: 

"...Em 1929 a indústria de pesca no sul de Angola atravessava a pior das crises. A produção de peixe seco era enormemente superior ao consumo”. O preço aviltava- se... “abandonavam-se na praia ou lançavam-se ao mar centenas de toneladas de peixe que apodrecia em armazém”. Nesse tenebroso período, um alemão, gerente da casa Weermonn, Brock & C.ª, em Moçâmedes solicitou-me autorização para exportar, para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, para fins industriais”. “Como nada havia legislado sobre o assunto, autorizei a exportação... Mas o fim a que ele se destinava espicaçou-me a curiosidade”. Solicitei informações ao Departamento Científico e Técnico de Pescas Marítimas de França e recebi vagas notícias sobre a utilização desses peixes na alimentação de animais, depois de beneficiados e farinados. Por essa época uma comissão de médicos veterinários elaborava o Regulamento Geral de Sanidade Pecuária e Industria Animal em Luanda e solicitava-me elementos para estabelecer doutrina sobre a fiscalização sanitária do peixe e seus sub-produtos. Assim aparece publicado e mantém-se em vigor, o “art. 134º: Fica autorizada a escala de peixe com cabeça e sem sal quando destinada a fins industriais” (Carneiro, 1949). Entretanto, com a preciosa colaboração do meu saudoso amigo Dr. Torres Garcia faço os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha. Sem maquinaria própria e sem ciência certa as primeiras amostras enviadas para a Alemanha não agradaram, como tanto era de desejar. Mas as indicações que de lá vieram permitiram produzir-se melhor e, em pouco tempo, o mercado germânico estava aberto a toda a farinha de peixe que Angola fabricasse. E assim se começaram a construir as primeiras instalações fabris e se adquiriram as primeiras fábricas para a transformação de peixe em farinha e óleo.

Hoje, a costa de Angola tem ao serviço desta riquíssima indústria, 4 grandes fábricas e cerca de 60 fabriquetas que estão laborando, anualmente, largas centenas de toneladas de farinha de peixe...”(Carneiro, 1949). A Carlos Carneiro sucedeu outro colega Dr. João Elias, a partir de 1938, provavelmente com ele estagiando e aprendendo, pois iria depois permanecer à frente dessa Delegação durante mais de 20 anos de inteira dedicação aos assuntos relacionados com o pes- cado: acompanhando, corrigindo, incentivando a in- dústria da Pesca e as dela derivadas, como nos dá nota em excelente trabalho que intitula: “Tese...etc.”(Elias, 1955). Uma vez remodelados e saneadas as dificulda- des económicas é ele quem afirma nesta mesma citação: A indústria, disciplinada pelo Sindicato, caminha firme até que o Governador-Geral José Agapito da Silva Carvalho criou os grémios dos industriais da pesca e seus derivados, pelo Diploma Legislativo nº 6 697 e respectiva Federação em Luanda.


O grémio dispunha de armazéns privativos para peixe seco em Porto Alexandre e em Moçâmedes que recebiam diariamente esse produto – submetendo-o à Inspecção Sanitária do Delegado de Sanidade Pecuária e seus agentes e dispondo de um bem apetrechado Laboratório Regional dos Serviços Veterinários e da Indústria Animal. 

Mas outros trabalhos do colega Elias merecem citação e es- tão publicados nos Anais dos Serviços de Veterinária e Industria Animal de Angola (Carneiro, 1943; Carneiro, s/a, Carneiro, 1955b).Sobre a criação do Instituto das Industrias de Pesca de Angola refere o mesmo apontamento :


«Em 18 de Agosto de 1960, o Decreto nº 43 123 (DG, 1960) diz: tendo presente a importância que as indústrias de pesca têm na economia da província de Angola e a necessidade de se proceder à sua coordenação; considerando a conveniência de que o exercício daquelas actividades em todo o ciclo de extracção e de trans- formação seja apoiado por uma estrutura económica e financeira que lhe proporcione os meios para melhor enfrentar as flutuações dos mercados externos; etc., etc. Artigo 1º - É criado o Instituto das Industrias de Pesca de Angola. Tinha a sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção. Depois definiam-se os seus objectivos que seriam: orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua trans- formação e o comércio dos produtos fabricados; coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins e, como não podia deixar de ser... desenvolver o espírito corporativo. O mesmo Decreto obrigava à revisão dos estatutos dos grémios e ao saneamento das respectivas situações financeiras, o que veio a suceder pela Porta- ria nº 14 254, de 12 de Março de 1966, que aprovava os Estatutos dos Grémios dos Industriais de Pesca de Angola (BOA, 1966). Julgo que o 1º director do Instituto das Pescas foi o Dr. João Benard da Costa Pereira, economista, vogal da comissão administrativa dos Grémios dos Industriais de Pesca (BOA, 1962) junto do Grémio de Benguela, sendo seu director adjunto o Dr. Agílio Leonardo Teixeira de Sousa e Andrade, licenciado em Ciências Ma- temáticas. Das consultas que fiz sobre estes primeiros tempos de vida do novo Organismo pareceu-me que a sua implantação e desenvolvimento foram lentos, fixando e cobrando receitas próprias, reorganizando as estruturas existentes, desenvolvendo uma intensa fiscaização junto dos industriais e exportadores, saneando enfim, as dificuldades económicas de uma estrutura ultrapassada, caduca, macrocéfala e incapaz de solucionar os problemas do sector. Mais tarde o director que se seguiu, capitão – tenente Luiz Gonzaga Reis recebeu um Serviço liberto de dificuldades económicas, de tal modo que em 1969 as receitas próprias do Instituto das Pescas de Angola atingiam a cifra de 22 571 000$00 no orçamento geral da Província (BOA, 1969) mas volte mos um pouco atrás. A sua orgânica previa também, talvez num plano secundário, a investigação e o primeiro investigador do Instituto foi o nosso colega Alberto Barreiros Saraiva da Costa -primeiramente como interino e depois ocupando o lugar do quadro (BOA, 1964; BOA, 1965), em comissão ordinária de serviço. Mais tarde, em 1968, um outro colega foi contratado como 2º Assistente – o Dr. Manuel Biker de Castro Pi- mentel (BOA, 1968). Ainda mais tarde, em 1973 foi contratado também como Investigador o Doutor Manuel Alfredo Teixeira Coelho. »


(1) A origem desta crise, de acordo com o apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), ficou a dever-se «à desvalorização dos produtos atribuída à falta de selecção do pescado, ao descuido na preparação do produto - sobretudo quanto ao peixe seco, às defeituosas e heterogéneas embalagens, ao desconhecimento dos mercados consumidores, à desorganização dos produtores e tudo isso aliado a uma concorrência desordenada.»


Acrescente-se a este conjunto de memórias que:
 
- Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca.

- Em vésperas da Independência de Angola (1974),, finalmente, o Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes exibia já 86 sócios incritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efecriva, Lx 2005:


 

A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)
A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes / Canjeque)
A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)
A Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)
Leque & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)
Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)
Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)
Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)
Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)
António Francisco Antunes (Porto Alexandre)
António Francisco Baraca (Herder) (Moçâmedes)
Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)
Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)
Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)
Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)
Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)
Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)
Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)
Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)
Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)
Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. (Cipesca-Moçâmedes)
Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)
Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)
Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)
Costa & Silva, Lda.
Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)
Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)
Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)
Empresa Ind. Farinha e óleo de peixe, Lda. (Porto Alexandre)
Empresa Ind. e Comercial de Pescas, SARL (Moçâmedes)
Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)
Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)
Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)
Francisco Baptista (Porto Alexandre)
herda Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)
Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)
Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)
J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)
João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)
João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)
Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)
José Dias Ferreira (Moçâmedes)
José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)
José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)
José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)
José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)
Juventino Ferreira Graça, Lda. (Porto Alexandre)
Mamede sucessor, Lda. (Porto Alexandre)
Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)
Manuel Mendes Mamede, herdades. (Porto Alexandre)
Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)
Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)
Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)
Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçâmedes)
Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)
Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)
pescaria Namibe, Lda. (Moçâmedes)
Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)
Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)
Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)
Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (aranha - Moçâmedes)
Sociedade congelador do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade de Conservas da luzir, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Luzir)
Sociedade de Pesca da luzir, Lda. (Luzir)
Sociedade piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade piscatória do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)
Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)
Sopesca, Sociedade Ang. de pescaria SARL. (Moçâmedes)
Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)
Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)
Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)
Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)
Venâncio Guimarães sobrinha, Lda. (Moçâmedes)
Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)
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pesquiza e texto de MariaNJardim


Grande número das imagens que fazem parte de um  album que foram gentilmente oferecido à autora deste blog por Mário António Gomes Guedes da Silva



ANGOLA, PEIXES E PESCADORES

Já te contei a razão pela qual aos fardos de peixe seco lhe chamavam «malas de peixe». Acrescentarei que todas tinham o mesmo aspecto, a mesma forma, dimensões precisas e o peso líquido de 30 quilos. De um modo geral havia grande respeito pela qualidade e apresentação do produto, cuidado que não se notava noutras actividades industriais.

O peixe, sem cabeça, fosse corvina ou carapau, depois de seco e salgado, devia acomodar-se em camadas sobrepostas e em zig-zag simétrico, «cabeça com rabo, rabo com cabeça». Formava blocos compactos que deviam ser atados e contidos em esteiras feitas com fibra grossa de mateba. As malas de peixe ganharam tal popularidade e valor comercial no interior de Angola que, em 1950 e anos seguintes, se transformaram no principal produto de candonga interna do país.

Porque razão se contrabandeava peixe seco ? Simplesmente porque a secagem e o transporte estavam regulados e obedeciam a regras claras estabelecidas pelo Estado e aplicadas pelo Grémio dos Industriais de Pesca. Tudo isto tinha que ver com sanidade e impostos. Quem se desviasse destas regras era considerado marginal e perseguido. Mas o não cumprimento da lei dava lucro fácil e volumoso. Aos industriais e aos candongueiros que entravam no negócio ilegal, o que gerava intrigas, delações e lutas ferozes. Os camiões que transitavam clandestinamente ou seja, com cargas não fiscalizadas, deviam escapar-se a corta mato e tinham os seus caminhos exclusivos que atravessavam a vasta anhara de Benguela. Sobre a areia, as picadas estendiam-se e entrelaçavam num espectacular labirinto, cujas curvas e contra curvas eram dominadas, apenas, por duas categorias de camioneiros, os autenticos «candongueiros» e os «pecadores».

E não era candongueiro quem queria. A própria natureza do delito impunha duras condições. Dinheiro para o negócio, coragem e decisão para enfrentar tanto a polícia como os ladrões que faziam de polícias, boas armas, incondicionais ajudantes ou companheiros de viagem que fossem bons atiradores e, sobretudo, um camião novo, agil e rápido, para evitar encrencas. A partir daqui a mercadoria ou seja o «peixe seco» comprava-se em qualquer pescaria ou salga e havia muitas ao longo da costa, legais ou clandestinas, desde Benguela à Baía dos Tigres e todas dispostas a vender por «dinheiro doce» as malas de peixe que escondiam ou lhes sobravam.

Reconhecidamente, o grande entreposto situava-se na Baía Farta e praias dos arredores, especialmente a Caóta e Caótinha. O negócio era à vista e sempre de noite. Poucos se arriscavam durante o dia. Carregava-se o camião, tapava-se com lonas o melhor que se podia e no acto pagava-se a mercadoria, «cash» e mais barata do que a tabela oficial. Esse era o cerne do negócio, facilmente denunciado pelo cheiro nauseabundo e persistente do peixe seco, que deixava vestígio ou esteira odorífera durante quilómetros, depois da passagem do candongueiro. O cheiro não deixava ocultar a carga aos fiscais que andavam bem armados, ganhavam bem e ainda por cima recebiam metade do valor da multa. Fiscais eram polícias comuns ou guardas fiscais que se passeavam pelas entradas e saidas das cidades principais à caça da multa.

Uma vez em andamento o candongueiro não parava mais e não baixava dos cem quilómetros por hora, escapando-se. Escolhia o caminho como uma lotaria ou inventava novas picadas que só ele conhecia. Se, por acaso, se encontrava com a fiscalização, estavam em risco a carga, o camião e o modo de vida. Velocidade e tiros eram as armas que entravam em jogo. Era um vale tudo. A polícia atirava a matar e de cima dos camiões da candonga, os ajudantes também atiravam a matar.

Dessa guerra e da velocidade dependia a vitória da lei ou a sobrevivência do rico negócio de vender peixe seco na clandestinidade. Contudo, os fiscais não eram o único perigo que o candongueiro enfrentava na estrada. Havia também os falsos fiscais, que eram candongueiros ladrões. Diziam-lhes «pecadores», porque não só assaltavam os transportistas legais, como se encarniçavam sobre os candongueiros «bons», para lhes roubarem as cargas e completarem eles o negócio.

Todas as noites havia, em qualquer lugar do mato e sem testemunhas, estórias fortes de perseguições e roubos e tiros. Se alguém ficava no terreno, os leões ou os mabecos encarregavam-se de limpar o terreno... As malas de peixe e os transportes desapareciam por artes mágicas. Havia as máfias da candonga e as máfias da fiscalização e por vezes, associações das duas máfias. O peixe seco fazia parte obrigatória da ração dos contratados que deviam receber em cada dia uma caneca de fuba e um peixe seco, o salário da fome. A candonga dava resultado porque havia sempre comprador assegurado, o patrão do contratado.


Sebastião Coelho
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