01 fevereiro 2008

Romagem à capelinha do Quipola em Moçâmedes (Angola)


A Capela da Senhora da Conceição do Quipola, e o recinto devidamente engalanado onde anualmente, no dia  08 de Dezembro decorriam os festejos e a procissão.  Esta foto representa uma romagem ali efectuada algures no início do século XX. Repare-se as "charretes" encostadas à parede lateral da capela. Era em charretes e em carroças puxadas por bois que naquele tempo os moçamedenses se deslocavam a locais mais ou menos distantes da vila como era o Quipola.  










Quanto à data exacta em que foi construida esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma já existia antes de 1884.

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.
"... Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata.
"... O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.
"...A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. Fonte deste texto



  Posando para a posteridade em dia de romagem à capela da Senhora da Conceição do Quipola no início do século XX. A foto sugere tratar-se de um grupo de famílias de classe média, a concluir pelo modo como se acham apresentadas, com indumentária de acordo com a moda na época. Abro aqui um parêntesis para referir que nesse tempo de escasso comércio em Moçâmedes, existia no rés do chão do edifício da família Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, uma loja de modas onde as "elegantes" da terra podiam fazer as suas encomendas ao "Printemps", o famoso Armazém de Paris. O armazém de Moçâmedes denominava-se "Armazem Primavera".

Mais tarde o Caminho de Ferro de Moçâmedes passou a colaborar nas festividades pondo à disposição das gentes da terra o comboio. Na foto: Peregrinos chegando de combóio ao Quipola. Anos 1940



Grupo de peregrinos posando junto do comboio que os transportou ao Quipola. (1949/50)

Destacam-se entre os peregrinos alguns alunos das escolas de Moçâmedes, filiados na Mocidade Portuguesa (A MP era uma instituição de cariz obrigatório ao nível das escolas). Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida,  Alice Freiras, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas.  E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).

Ainda nos finais da década de 1950, esta tradição que reunia grande número de  crentes e de não crentes, mantinha-se viva entre a população, sendo para tal posto à sua disposição  dos interessados um comboio que assegurava as idas e vindas, ajudando a impulsionar as festividades, uma vez que não eram muitos os habitantes da cidade que nesta altura possuíam meio de transporte automóvel  próprio.


Ao comboio chamavam o «Camacouve», devido à morosidade dos percursos, dada a pouca velocidade com que caminhava, demorando o dia inteiro para completar os 250 Km, como era  o arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Inaugurado em 1905, o Camacouve já há muito se encontrava ultrapassado sim, mas era acarinhado, pois era  através dele que a população, inda assim, ia tendo acesso a distâncias mais ou menos longas, e  a este tipo de festividades onde, à boa maneira portuguesa, sagrado e profano se misturavam. Ou seja, chegada ao Quipola, a população assistia  a uma «missa campal» seguida de procissão, e a festa continuava com um arraial em recinto de terra batida enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras,  etc., onde se podiam ver algumas  barracas onde de tudo um pouco se vendia, estatuetas, rifas, gulodices, bebidas, cigarros, etc. etc, para além de um pavilhão erguido ao lado da  capela, onde se comia, bebia e confraternizava.



Aqui podemos ver o momento em que após a missa campal, as pessoas preparavam-se para dar início à procissão . O padre era o popular Padre Guilhermino Galhano, e à peregrinação acorriam europeus e africanos.
 


Outro momento da preparação para a procissão junto da Capela de Nossa Sra da Conceição do Quipola
.

A procissão em andamento dirigida pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão onde decorriam os comes-e-bebes, o estrado para a dança e as barracas onde se vendiam vários artigos, guloseimas, bebidas, etc.


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre o citado estrado de madeira, de forma arredondada, também ele enfeitado com folhas de bananeira e embandeirado, onde gente de todas as idades se divertia ao som da velha concertina ou  do gramofone, que um altifalante pendurado em alguma árvore lançava para o ar. E enquanto uns dançavam e rodopiavam, um pouco mais adiante outros disputavam  os mais variados jogos (tiro ao alvo, o jogo das argolas, dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc, etc), e ainda outros,  no largo em frente  à Capela,  disputavam a subida ao cimo do  «pau ensebado»,  um elevado mastro ou poste de madeira impregnado de sebo no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida que desafiava  quem o ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre ganho por africanos kimbares (1), cuja estratégia era, para não escorregarem, levar areia nos bolsos das calças, de forma a que de quando em quando pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem a garrafa de bebida.

Estas festividades, como tudo na vida  tiveram a sua época, e foram aos poucos perdendo o brilho  até que na década de 1960 deixei completamente de ouvir falar delas. A ida ao Quipola passou para o rol das nossas recordações, tal como passaram os passeios na Avenida que marcaram, e de que maneira, a nossa infância e a nossa juventude. Não sabemos quando começaram as romarias, mas acreditamos de tenha sido bem dentro do século XIX quando a Capela foi construida. Sabemos sim que enquanto duraram, elas foram sempre bem vindas a uma população crente e carente de festas e distracções, porque era a forma de quebrarem a rotina do quotidiano, tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos  que ainda nos finais dos anos 40 muitas casas de Moçâmedes ainda eram  iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio eram alimentados a bateria, e  às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não aproveitar todas essas ocasiões?


Criança africana junto a um nicho de pedra  com a imagem de Nossa Senhora. À esq. duas quadras gravadas sobre a pedra caiada dedicadas à Santa.

Ficam mais estas recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de uma realidade vivida algures num recanto do litoral ocidental de África, na bela cidade de Moçâmedes, erigida entre o deserto e o mar... 

 



MariaNJardim


Ainda sobre a peregrinação à capela do Quipola, tomo a liberdade de colocar aqui alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:

«...Senhora da Quipola
Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!
Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...
Pergunta ao João...
(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujo  in Mazungue


  ***


Em marcha lenta o comboio lá vai... Voltámos a Angola numa doce oração... aquecemos o coração com a Senhora do Quipola... A tal urbe abençoada, com fulgor, em romaria... pede à Senhora do povo um esgar de calmaria... desejo de mundo novo!!! Em marcha lenta o comboio lá vai... Cada um faz a oração à benção do vinho e do pão... entre comes e bebes a Festa esquenta... tudo mais se inventa... bailarico p'ros imberbes há vivas ao mais folião... há caçador de coração... estamos no Quipola... a assentar a meninice a reunir a mocidade a rever a traquinice da tal palavra Saudade da Menina-Mãe ANGOLA!!! em marcha lenta o comboio lá vai...


(recordando...)





Aileda  (in Sanzalangola)



 
À  Sr.ª da Quipola


Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.       

Manuela Lopes




Créditos de imagem: algumas fotos de Antunes Salvador, outras cedidas por amigos de Moçâmedes

1 comentário:

Francisco disse...

De facto, à direita, de óculos, na direcção da bandeira, encontra-se a minha querida mãe Iolanda. Aquele sorriso é inconfundível em qualquer parte do mundo.
Parece-me igualmente ver a meio da foto uma tia Alice Duarte D´Almeida que salvo erro casou com um irmão (?) da minha avó, o Armando e que eram pais da Alice, Maria Amália, Helder ...) Estarei errado?

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