29 maio 2008

Jovens de Moçâmedes dourando ao sol da Praia das Miragens



A Praia das Miragens,  as pessoas, as arcadas e o Casino  numa manhã de domingo algures num verão nos anos 1960
 
Praia das Miragens... alguém resolveu um dia dar o nome a esta praia, inspirando-se para nas miragens características do Deserto do Namibe... Nada mais natural!  Esta praia, verdadeiro "ex-libris" da cidade, ficou para sempre ligada à vida de quantas crianças, adolescentes e adultos nasceram, cresceram e viveram em Moçâmedes. De fácil acesso (mesmo junto do centro), para os mais afastados moradores bastava andar uns quantos quarteirões, atravessar o vasto do jardim da Avenida da Praia do Bonfim (anterior Av^ª da República) e as antigas instalações dos bombeiros, perto do coreto, onde mais tarde foi construída a fonte luminosa, para entrar numa rua que terminava na praia, tendo do seu lado direito um aglomerado de casuarinas que, no tempo quente, ofereciam uma agradável sombra e do esquerdo o Clube Náutico (Casino), onde alguns "maduros" do pequeno burgo se dedicavam à "batota".

Outro trajecto era através da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, contornando um armazém onde se depositavam as mercadorias que chegavam e partiam de e para os mais variados destinos, atravessando uma espécie de portão para se alcançar outro lado, passando com todo o cuidado e atenção por sobre as linhas do caminho de ferro, ao lado de locomotivas, carruagens, etc, não fosse o diabo tecê-las e acontecer algum atropelamento.




Jovens de Moçâmedes dourando descontraidamente ao sol da Praia das Miragens. Da esq. para a dt, na 1ª foto  junto às arcadas: Vina Almeida, Teresa Ferreira, Tó Zé e João Thomás da Fonseca. Ao fundo podemos ver, para além das arcadas da praia, as cazuarinas e o Clube Nautico (vulgo Casino)
 


Nesta foto, os moçamedenses Vina, Lula e Vanda Ferreira. Ao fundo, a velha ponte.


Nesse tempo eram comuns os toldos coloridos individuais, bastante fechados onde se podia trocar facilmente de indumentária sem o perigo dos "mirones", para além, é claro, de outros, mais simples que se reduziam a um rectangulo de lona, geralmente de riscas azuis escuras e brancas, preso por grossos fios a duas traves de madeira enterradas na areia para as suportar. Mais tarde vieram as enormes e coloridas sombrinhas de abrir e fechar. 

Por baixo dos toldos reuniam-se adultos e crianças, meninas que jogavam ao "prego" com uma habilidade fora de comum, senhoras que faziam croché e, conversando umas com as outras, iam pondo a conversa em dia, gente que lia ou que simplesmente observava o ambiente à sua volta, não perdendo "pitada" do que se estava a passar, fosse em terra fosse no mar... A correr pela praia era comum nos anos 1950 verem-se rapazinhos segurando "papagaios" e "joeiras" dos mais variados tamanhos, feitos em casa com tiras de bordão e papel de seda das mais variadas cores, que exibiam um longo "rabo" composto de pequenas tiras de pano amarradas umas às outras. "Papagaios" e "joeiras" que subiam e desciam, davam voltas e piruetas lá em cima, no ar, tudo dependendo da habilidade do manipulador.

Escusado será dizer que era na areia, à torreira do sol, que a malta mais nova gostava de ficar... e o mais perto possível da água... Era de facto um local de grande sociabilidade a Praia das Miragens de Moçâmedes, ponto de encontro nas manhãs de sábado e domingo de grande parte da população que para alí ia descarregar as energias acumuladas no viver quotidiano, fosse nas actividades escolares, fosse no trabalho.

A Praia das Miragens, naturalmente frequentada na sua maioria por moçamedenses, recebia no verão a visita de muitos habitantes do Lubango e de outras terras do planalto, mais propriamente da vizinha Sá-da-Bandeira (Lubango) e Vila Arriaga (Bibala). Era a praia mais próxima que por vezes era também frequentada por toninhas, parentes dos golfinhos, animais marinhos extremamente sociais que faziam o encanto mas também o temor de quantos de mais longe ou de mais perto os observavam. 

A jangada (um estrado quadrado, de uns 3 x 3 m, que flutuava graças a tambores de ferro vazios, presos à sua parte inferior, que eram periodicamente substituídos) era o grande atractivo da rapaziada. Espécie de baliza para pequenas corridas de natação, local de exibicionismos para quantos jovens dali mergulhavam  para o mar. Mas também era na jangada, ou junto dela, sobretudo na parte traseira, a mais escondida e protegida dos olhares curiosos, que muitos namoricos acontecerem, que muitos encontros se  deram, que muitas carícias se trocaram, nesse tempo em que as raparigas eram persistentemente vigiadas e que o mais leve deslize punha em causa a sua reputação...

Finalmente resta referir o quanto esta praia e esta bela e singular cidade onde tive o previlégio de nascer, filha de pais já ali nascidos, de crescer, casar, ter filhos... e que nais parece uma estância balnear,  tem sido objecto de inspiração poética na pena de alguns admiradores:

Ai MOÇÂMEDES

Moçâmedes quer dizer infância plena 
Tempo de férias que não tem idade
Amigos de sorriso em pele morena
Alegria salgada na igualdade

Azul de mar ouro quente de areia
Toninhas assustando alegremente
Calema sai do mar à minha mente
Deserto a prender-me em sua teia

Deserto nunca só; tão habitado!
O vento morno conversa pela noite
Prolonga o tempo num gesto apaixonado

Sabor de manga nas bocas salgadas
Se bate lua no mar há quem se afoite
Ninguém no paraíso teme as vagas

(Jovita Carolina *Março2006)

Sem comentários:

Enviar um comentário