16 julho 2008

As grandes calemas de 1955 em Moçâmedes









 

 




A zona entre o Canjeque e a Praia Amélia, "Canjeque Sul," era e ainda é a zona 
menos resguardada e a mais batida pelo mar em época das "calemas", que de longe em longe fustigavam a costa de Moçâmedes, por tal seria a menos indicada para a construção destas pescarias.   Mas não havia muito a escolher para  os proprietários  deslocalizados das primitivas pescarias da Torre do Tombo,  por força da construção da marginal e cais comercial. 

 O lançamento da 1ª pedra que deu início à construção do porto de cais aconteceu no dia 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes a Moçâmedes, e a inauguração do 1º troço foi efectuada em 24.05.1957, com a visita a Moçâmedes do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes, no paquete Uíge. Naturalmente foi dado um prazo para que antes do início da construção os pescadores e pequenos industraida Torre da Torre do Tombo abandonassem as suas pescarias e se deslocalizarem-se para outros locais. Mas não foi-lhes concedida qualquer indemnização a pretexto de que as suas pescarias se encontravam estabelecidas na faixa marítima.  Em nome do progresso, os pobres industriais expoliados das suas pescarias, na Torre do Tombo, tiveram que se afastar, e construir novas pescarias em locais mais afastados das suas habitações,  sem qualquer ajuda, para em seguida veram inatalar-se no local onde existial algumas pescarias, a sul, a ARAN, (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), de capitais metropolitanos. E viram a seguir chegar os arrastões a devastar os mares de Moçâmedes com uma outra forma de captura de peixe em grande escala como testemunha o site Mar de Viena .  Moçâmedes tornou-se o porto base onde se passou a fazer os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da AR, cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se, era o Almirante Henrique Tenreiro, que fazia parte do triunvirato Salazar/Cardeal Cerejeira/Almirante Tenreiro.

 
Quanto aos espoliados, estes para poderem continuar a trabalhar, sustentar suas familias, pagar os salários dos seus empregados, pagar as contribuições, tiveram, os poucos que o conseguiram, que erguer novas instalações pesqueiras, e o único local que se lhes oferecia, não muito longe das suas casas na Torre do Tombo, era  a zona do Canjeque,  a uns 3/4 km de distância.  A zona mais a norte era excelente, mas a zona mais a sul era mais batida pelo mar e sempre perigosa em época de grandes calemas. Tiveram pois que à custa de inúmeros sacrificios e sem qualquer ajudas estatais, nem indemnizações, partir para esse solução, e foram muito poucos os que o fizeram. Aconteceu porém que um ano após a deslocalização forçada, em Março de 1955, as "calemas" foram avassaladoras, e durante dois longos dias destruiram pontes, arrancaram telheiros, partiram tanques de salga de pescarias recentemente inauguradas. Fácil será avaliar o montante dos prejuízos  causados, que não podiam contar com quaisquer ajudas estatais em época de calamidades. Aliás, também a deslocalização forçada não havia dado lugar a quaisquer indemnizações. Caberia ao Estado que deu a ordem de demolição das primitivas pescarias, zelar mais pela situação daquela gente, acautelado situações como esta, incluso deveria ter procedido antecipadamente a estudos da costa, e apontado os locais mais indicados para a construção de novas pescarias, interditando zonas não aconselháveis como esta. Mas o Estado não se preocupou tanto quanto seria de esperar com a sorte daqueles pequenos e médios proprietários que se dedicavam à faina já de si instável da pesca, mas que inda assim iam contribuindo para o engrandecimento do Distrito. Na escolha do local para a construção do cais-acostável, o Estado acautelou, dando a preferência à zona das primitivas pescarias, por ser a mais protegida das «calemas», não obstante menos espaçosa e arejada que a do Saco do Giraúl.
 
Outros houve que se juntaram em sociedade, compraram as instalações da antiga «Sociedade da Ponta Negra» que havia entrado em regime de falência, com dívidas de impostos ao Estado. Estes foram os únicos que tiveram algum sucesso, porque se tratava de uma zona do Canjeque mais abrigada, a norte, porém já estava lotada.


 

 
 Perspectiva feliz da baía de Moçâmedes com as suas pescarias e profusão de barcos de pesca, tal como se apresentava antes do desmantelamento das antigas pescarias e início da construção do cais comercial e avenida marginal.
 



Encontravam-se aqui as pescarias de João da Carma/pai de João Martins Pereira conhecida por «Morgados», era a maior da zona; a pescaria propriedade do legado Pereira da Cruz (assim conhecido porque deixou os seus bens, incluindo as moradias que ficavam ao fundo , na continuidade da Rua 4 de Agosto, à Câmara Municipal da cidade); a pescaria de Manuel Paulo; a pescaria de Maurício Brazão; a pescaria de Óscar de Almeida; a pescaria de António Paulo ou António da Rita; a pescaria Ondina Lda (Sociedade de Matos (CTT) e Rosa (do RCM, ou Rosa da Rádio); pescaria de João Lisboa (sacada). A partir da pescaria de João da Carma até à zona próxima da Ponta do Pau do Sul, então conhecida por «Pedras», ficavam pescaria de José Pedro dos Santos (Capagalos); a pescaria de Domingos Viegas Seixal; a pescaria de Virgilio Nunes de Almeida; pescaria de Aníbal Nunes de Almeida; a pescaria de Mário dos Anjos Almeida e a pescaria de Raul Pacheco.
A seguir às instalações do Sindicato da Pesca e da Fábrica de Conservas SOS, e até aos estaleiros quase a chegar à base da Fortaleza, ficavam as pescarias  do Ilha, do Manuel Teixeira (Cambuta), Manuel de Faro, ......................Por esta altura, finais da década de 1940, havia também na Praia Amélia, as instalações de Venâncio Guimarães e de João Duarte; no Cangeque a Sociedade da Ponta Negra Lda. dos sócios Virgilio Almeida, António Bernardino e A. Matos; no Saco a de Torres & Irmão Lda, e outras mais pequenas que não recordo de momento..
De facto a deslocalização forçada não chegou a dar lugar a indemnização como se esperava, porém convém dizer que, para os proprietários de todas estas pescarias (cerca de dúzia e meia) , o Estado português representado nas pessoas do Ministro do Ultramar, Governador Geral de Angola, Governador do Distrito (Vasco Nunes da Ponte) e ajudado pelo Grémio dos Industrais de Pesca do Distrito de Moçâmedes e Banco de Angola mandou edificar no Saco do Giraúl uma Fábrica de Farinhas e óleos de peixe a eles destinada, com o objectivo de formar entre todos uma socieddade, a União dos Industrais de Pesca da Torre do Tombo. Ou seja, uma Fábrica mecanizada, vocacionada principalmente para a indústria de farinhas e óleos de peixe, que acabou por se revelar uma iniciativa irrealista que os pescadores de menores recursos não puderam aproveitar, ou seja, os detentores daquelas pequenas pescarias familiares, habituados a trabalhar com peixe fresco e peixe seco, sem transporte próprio, uma vez que a mudança obrigava a grandes deslocações, não tinham qualquer hipótese de aderir ao projecto. E os poucos que aderiram ao novo empreendimento no Saco do Giraúl, deslocalizados para fora da sua área, acabaram por não ter o sucesso esperado. Outros pegaram nas suas pequenas economias, não esperaram pelas indemnizações que nunca mais chegavam, e retiraram-se para o Canjeque, zona junto da Praia Amélia, mais próxima das suas habitações na Torre do Tombo, tendo alí construido as suas pescarias. Mas muitissimo poucos o fizeram por falta de condições. A maioria resistiu à deslocalização, preferiu manter as suas pequenas embarcações na baía, dedicar-se à pesca à linha e ao estremalho (*) , passando a vender o peixe em fresco para as peixarias da cidade, e bastante mais tarde, após a construção da Serra da Leba, também para a cidade de Sá da Bandeira (Lubango)´. E lá conseguiram ir sobrevivendo... Mas houve também aqueles que, não conseguindo meios para avançar, acabaram na miséria.

 Os melhor sucedidos foram os muito poucos que se deslocalizaram para o Canjeque norte, com o empreendimento «Projeque», associando-se para o efeito. A sociedade conseguiu evoluir de indústria de peixe secopara a industrialização de farinha e óleos de peixe. 

Resta referir que o Estado não indemnizou, mas prometeu criar para os deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo a «União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo», porém este projecto logo de início não agradou à maioria, na medida em que vinha colocar problemas de vária que foram colocados pelos «novos associados» e se resumiam mais ou menos no seguinte: 

1. Entendia essa dúzia e meia de pequenos industriais  que a instalação no Saco do Giraúl de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe para onde deveriam remeter o pescado, ficava fora de mão, e que o produto da pesca não daria para  suprir as despesas com deslocações , sendo grande a perda de tempo nas mesmas.
 
2. Entendiam que a dita fábrica, apenas com uma traineira, não seria rentável e que chegados ali os barcos para descarregarem o pescado teriam que ficar à espera uns dos outros enquanto o peixe se deteriorava.

3.Queixavam-se os pequenos industrias que era ilusória a situação que se apregoava de virem a ser sócios participantes de uma excelente unidade de indústria munida de fábrica de farinhas e óleos de peixe nestas condições.

Ainda a  respeito do  assunto, "União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo", passarei a transcrever algumas informações recolhidas do Boletim Geral do Ultramar nº 383, de 1957,  pg 202, sobre a inauguração da dita fábrica de farinhas e óleos de peixe.

No Saco do Giraul, com a presença do Governador Vasco Nunes da Ponte realizou-se a cerimonia de lançamento da primeira pedra do edifício que a União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo ali vai construir para a instalação de uma moderna fábrica de farinhas e óleos de peixe.
Depois das cerimónias da benção, lançada pelo Reverendo Pe. Rebelo, e do lançamento da primeira pedra   pelo Sr. Dr. Nunes da Ponte, usou da palavra o Sr. João Martins Pereira Junior,  um dos poucos interessados no projecto, seguindo-lhe o Sr. governador do distrito que proferiu  seguinte alocução: 


"As cerimonias de colocação da primeira pedra  de uma obra são por vezes ingratas porque as segundas e demais pedras levam meses ou anos a seguir-se àquela primeira. E até acontece nunca mais chegarem . Se as pedras falassem, creio que por esse mundo fora se ouviriam os gritos de muitas primeiras pedras solitárias, a reclamar as companheiras. Podemos estar certos contudo, que tal não acontecerá com esta primeira pedra.  Está assegurado o financiamento da obra que hoje se inicia. E brevemente será decidido o consurso para aquisição das máquinas ao fabrico da farinha e óleos de peixe.
A fábrica que neste terreno irá ser construída não representa apenas outra instalação de pesca no distrito. Tem um especial significado. Será mais uma demonstração do que pode a união de esforços. O Ministério do Ultramar, o Governo Geral , o Banco de Angola, o Grémio da Pesca e cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos modestos, conjugaram as suas vontades e as suas possibilidades para resolver os problemas desses industriais cujas instalações na Torre do Tombo tiveram que ser demolidas em consequência das obras do Porto. E dai vai nascer uma importante empresa. Alguns pequenos industriais tornar-se-ão, assim, participantes, sócios de uma excelente unidade da sua indústria. Creio que, noutras condições, isso constituiria, para a maior parte deles não só uma impossibilidade absoluta como uma oportunidade com que nem se ousaria sonhar. Espera-se que esta empresa tenha um bom futuro traduzida em lucros apreciáveis. Se assim for, a própria sociedade poderá e deverá adquirir embarcações modernas, essas embarcações serão de todos e os rendimentos da sua actividade serão repartidos igualmente por todos. Esta fábrica assume ainda relevo por apontar o caminho do futuro , o caminho que a industria de pesca de Moçâmedes terá de seguir o mais rapidamente que for possível: a mecanização completa da produção dos derivados de pesca.   São conhecidas as dificuldades que são levantadas à exportação de farinhas de Angola, pelo facto de parte do produto não ser fabricado  segundo os processos mais eficientes. Ora, a industria da pesca para a qual Moçâmedes contribui com metade , ou pouco menos do valor total, é actualmente como actividade económica que interessa a grande numero de pessoas e firmas  a segunda de Angola. Os valores da sua exportação revelam um progresso constante, e entram na casa ds centenas de milhares de contos. Apresenta portanto a pesca um profundo interesse geral. O Grémio da Pesca em representação dos industriais do Distrito está conduzindo negociações para assegurar a esterilização das farinha de peixe. A esterilização será um solução imediata, que razões de urgencia exigem, mas não deve fazer esquecer a ínica solução plenamente satisfatória, que consiste, repito, na integral mecanização do fabrico.Só assim a industria de pesca angolana poderá competir com outros paises nos mercados comsumidores, onde a concorrência é cad vez maior.  Sei que a direcção do Grémio da Pesca e, creio , a maior parte dos industriais, estão conscientes desta verdade e dispostos a conjugar as suas energias e as suas possibilidades com o esforço, que o Estado projecta realizar para o reapetrechamento da industria. Não me pareceu porem, receosa  referência ao assunto , porque mesmo a verdade, para ter a aceitação geral, tem que ser repetida muitas vezes. Mas voltemos à presente cerimónia. A ela preside a esperança e a confiança no futuro. 
 
Dentro de alguns meses, quem passar aqui verá, no lugar deste areal, uma fábrica excelente. E dentro de poucos anos, quem aqui passar, na povoação do Saco, visitará certamente fábricas novas, depósitos de carburantes, instalações portuárias e hortas verdejantes. Na verdade, meus senhores, o desenvolvimento do Saco está ligado ao desenvolvimento de Moçâmedes. E creio que o futuro não será ávaro com Moçâmedes.» (De o «Comércio de Angola»)

A fábrica acabaria por beneficiar outros que não aqueles para quem se destinava.
 
A vida era muito difícil naquele tempo. Existia uma flagrante falta de capitais em Angola, e não havia onde os obter.  Os créditos bancários a longo prazo não eram uma prática corrente, não havia poupança, não havia investimentos, não havia macro desenvolvimento económico. Só havia um único banco, o Banco de Angola, o emissor da colónia, com sede em Lisboa, e este não fazia empréstimos aos pequenos industriais de pesca. Era o recurso ao "agiotismo" praticado por alguns moçamedenses que lá ia suprindo as necessidades de alguns e engordando um pouquinho a carteira de outros, num negócio de trazer por casa. Angola apresentava na época uma deflação (vazio monetário) crónica. As pessoas para contornarem o flagrante vazio de moeda. e conseguiam solver os seus compromissos, recorriam a letras e sucessivas reformas. Ter-se uma letra protestada (que não foi paga dentro do prazo) era uma enorme vergonha! Mesmo na indústria de Pesca que era a base da economia citadina era comum o uso do vale onde o devedor punha a assinatura e a data para que o fornecedor/credor permitisse levantar a mercadoria e pagá-la mais tarde.
 
Angola não dispunha de um mercado moderno, a industria sobrevivia, mas na base de salários baixíssimos, quase um mercantilismo do século XIX, e no caso das pessoas não disporem de poupanças não só tinham uma vida complicada como podiam esperar uma velhice de miséria, ou a dependência em relação aos filhos. e este não proporcionava crédito a longo prazo, o único que fomenta riqueza firme, e não pagava juros nem às pequenas poupanças.
Não me lembro de ter conhecido em Angola um milionário que vivesse permanentemente na colónia. A concentração de todas as decisões em Lisboa foi total durante o tempo colonial e tornou-se uma obsessão. Angola nunca teve uma simples autonomia e ai do governador que ousasse ir um pouco mais longe auscultando os asseios das populações e agindo em conformidade. Em Lisboa sempre imperou uma mentalidade de poder absoluto em relação às colónias. Os povos coloniais eram encarados como crianças que precisavam de ser tuteladas e não eram ouvidos nem achados para nada. Por outro lado, o conhecimento científico da colónia deixava muito a desejar. Todos os estudos eram efectuados em Lisboa, daí os falhanços em algumas iniciativas mesmo que efectuadas com a melhor das intenções.

Fica aqui mais esta recordação de um tempo em que a vida não era fácil em Moçâmedes e que nada tinha a ver com o que por aí se apregoava e ainda se apregoa sobre a vida dos brancos naquela «África das mil oportunidades», obviamente, pela boca de quem alí não viveu, não assistiu, nem sabe aquilo que diz... Isto não é lavar as injustiças e discriminações que recairam sobre a outra parte da população, a de origem africana, bloqueada durante séculos na sua evolução civilizacional por culpa dessa mesma política emanada da Metrópole. 
 
MariaNJardim
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Calema: Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando graves estragos.

Estremalho: técnica de pesca que funciona com uma rede com dimensões de cerca de 200/300 mts x 2,5 a 3 mts (podendo aumentar ou diminuir, dependendo das posses de cada um), com «chumbicas» na parte que fica a tocar o fundo do mar e bóias no lado oposto com força para elevar a rede de modo a mantê-la de pé formando uma espécie de parede,sem nunca ser trazida à superficie, de forma a que o peixe ao passar fique preso e impossibilitado de se libertar das suas malhas.

Nota: A sul da Ponta do Noronha, corre a Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de guerra que lhe deu o nome. Sobre o baixo Amélia onde com bom tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, na época de calemas erguem-se alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.

Fotos inéditas do meu album de recordações.
 
Clicar para ver as primitivas pescarias, na Torre do Tombo
 

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