24 julho 2008

A indústria de pesca em Moçâmedes até aos anos 1950: a arte da «sacada»



                                       Uma baleeira de pesca de "sacada"



A foto que aqui vemos, tirada em finais da década de 1940, em plena faina no mar, representa uma das muitas baleeiras que se dedicavam à arte «sacada», e que na altura povoavam a baía de Moçâmedes. O local onde se desenrola a acção, é na zona então conhecida como «mar da Alemanha», entre a ponta do Pau do Sul e o Canjeque. Nesse dia o mar estava agitado. A foto, toda ela sugere acção e movimento: o baloiçar da embarcação, as ondas, a postura dos pescadores, o mastro que sustenta a vela, o erguer da rede, etc. etc. Como podemos ver, a vela, no momento em que a foto foi tirada já se encontrava recolhida na verga que lhe serve de suporte.


                               A baía de Moçâmedes e as antigas pescarias, na década de 1940
 

A «pesca de sacada» era efectuada em duas baleeiras de pequeno porte, uma com motor (a que carregava as redes), e a outra a reboque. Nesse tempo estas baleeiras navegavam à vela, e era interessante vê-las desfraldando as suas velas brancas ponteagudas ao vento, (vela latina) bolinando, ora para um lado, ora para outro, para poderem vencer o ventinho que soprava sempre em sentido oposto. A partir da década de 50, passaram a ser movidas a motor, facilitando substancialmente a navegação e a pesca em si.
 
Chegadas ao local escolhido, as baleeiras fundeavam, recolhiam as velas, e posicionavam-se lado da outra, com espaço suficiente entre si para se poder arrear a rede ao mar. A rede ficava presa a cada uma das baleeiras, à frente e atrás, através de cabos e chumbadas, em forma de saco. A operação seguinte consistia em atirar o engodo para o meio da rede, a fim de atrair os cardumes de peixe (de preferência cachucho, corvina, taco-taco, merma, etc.), e ao fim de algum tempo, com uma linha e anzol , verificava-se se havia peixe a picar. Em caso positivo, a rede era içada manualmente, através de uma operação que naturalmente, obrigava as baleeiras a se aproximarem uma da outra. Os primeiros cardumes eram despejados para uma das baleeiras, o 2º para a outra, uma vez que se voltava a arrear a rede ao mar.

A pesca de sacada era normalmente efectuada numa área que ia até ao «Três Irmãos», nome dado a três morros que se avistam do mar e que ficavam em pleno deserto, próximos da costa, no caminho para Porto Alexandre (actual Tombua).




Nesse tempo a maioria das gentes dedicadas à pesca, eram pescadores/proprietários das suas pequenas embarcações, tinham os seus empregados mestres, motoristas, quimbares e pessoal contratado, etc. Os proprietários eram na maioria descendentes de algarvios que ali se tinham fixado e partir de 1860 e que prosseguiram a arte de seus pais e avós, sem  nunca terem enriquecido. Eram "patrões", mas a maioria trabalhava ao lado dos seus empregados, de mangas arregaçadas, pois o resultado final da pesca não dava para muito mais.  A arte mais difundida era a «pesca à sacada», e como a área da residência era geralmente a Torre do Tombo, não muito longe das pescarias onde laboravam, saiam de casa para a faina do mar pela madrugada, a pé, pois naquele tempo (até finais dos anos 1940, eram raros aqueles que possuíam carro).  


Todo o pessoal do mar reunia-se nas pescarias onde em instalações precárias umas, ou melhoradas, outras, se alojava o pessoal africano contratado, e alguns africanos aportuguesados desde há muito radicados na área, os "quimbares". Como nesta altura a rede de luz eléctrica ainda não estava instalada, ou estava a sê-lo em algumas zonas, mas não havia chegado à Torre do Tombo, era normal, para vencerem a escuridão, verem-se pescadores levando consigo pela mão um candeeiro   alimentado petróleo, tipo lampeão, apropriado para usar na rua, feito de metal e vidro com uma pega para transporte.Com a mesma finalidade se podiam usar as lanternas a pilhas. Até aí as pessoas usavam para iluminação no interior de suas casas candeeiros, primeiro alimentados a azeite, depois a  petróleo.  As pessoas estudaram à luz de candeeiros a petróleo!  Quantas donas de casa fizeram malha ou costura à luz de tal tipo de iluminação! O surgimento sos petromaxes foi  uma inovação. A luz produzida era muito clara e de grande intensidade.

A Torre do Tombo foi sempre desprezada pelas autoridades da terra, e a iluminação de algumas das suas ruas só chegou na 1ª metade da década de 1950. Também foi tardia a asfaltagem das ruas nesta zona da cidade, que só veio a acontecer já no início da década de 60 e apenas beneficiando a rua principal que dá acesso à praia Amélia, ou seja, a então denominada Rua da Colónia Piscatória. É caso para pensar, como foi possível tanto atraso, ou tanto laxismo, em aspectos tão básicos de urbanização, num território tão rico como era Angola? E no entanto, apesar de desprezada a Torre do Tombo, com as suas pescarias, apesar das constantes crises que de quando em quando se abatiam sobre o sector pesqueiro, era um dos eixos que faziam girar a economia da terra!



                            O peixe a secar em eiras ou giraus




Quanto à vida dos homens do mar, se ainda hoje é dura, muito mais dura era naquele tempo. Chegados às pescarias, como a maioria delas não possuía pontes que penetrassem suficientemente o mar para que as embarcações pudessem atracar, era em «chatas», pequenos barcos a remos, que os pescadores se dirigiam para as baleeiras, a fim de partirem para a faina no mar.
As noites de inverno em Moçâmedes eram geladas, como gelada era a água do mar, para o que contribuía a corrente fria de Benguela que fazia parte da corrente marítima que vinha do sul da Argentina, passava pela Antártida, e subia ao longo da costa ocidental africana passando por Moçâmedes. Os pescadores tinham que se proteger com roupas grossas de lã, camisolas, calças e calcetas e botas altas de borracha. E nas noites de «cacimbo», com barretes enfiados na cabeça. O pessoal nativo, que era na altura contratado para trabalhar nas pescarias, através de angariadores, em zonas do interior de Angola, como Caconda, Guilengues, etc., usavam camisas feitas com as chamadas «mantas de papa», mantas grossas que possuiam um grau elevado de acumulação de calor, e calçavam botas de borracha para se protegerem do frio e da água do mar. Chegados a terra, o pessoal do mar ia descansar e o pessoal de terra começava a sua rotina, que era a de retirar o peixe das baleeiras, escalar, salgar e pô-lo a secar, e ainda, concertar as redes que amiúde rasgavam, quando ficavam presas a alguma rocha no fundo mar, ou devido ao peso dos lances de pescado, o que geralmente era feito, pelo dono da embarcação, o mestre, após algumas horas de descanso diurno.


Foi a partir da década de 50, primeiro lentamente, depois mais ousadamente, que se deu um salto qualitativo na indústria piscatória no distrito de Moçâmedes, salto que ainda foi maior na década de 60, quando começaram a surgir as primeiras instalações fabris para a transformação do peixe em farinhas e óleos, já dotas com tecnologias de ponta, como reram na época as norueguesas.


Mas voltando ao período em causa, ou seja, até ao final da década de 40, as principais actividades piscatórias encontravam-se voltadas para a salga e seca de peixe, para a venda de peixe em fresco para consumo local e
para a industria de conservas de peixe. As artes utilizadas, eram a «pesca de sacada», a «pesca de armação», a «pesca com rede de arrasto» e a «pesca à linha e à vara». Na «pesca de sacada» o peixe era fundamentalmente destinado a salga e seca, tendo como destino quer o consumo interno quer o externo através da exportação para Moçambique, Congo, etc., excepto quando vinham à rede peixes de qualidade (corvina e do cachucho) que eram vendidos em fresco para consumo local, uma vez que não existia ainda a rede de frio. Importa contudo referir que muitas vezes até estes peixes de qualidade acabavam por ser destinados também à salga e seca para exportação, no caso dos grandes lances que iam para além das necessidades do consumo local. A «pesca à linha», essa sim, era destinada ao mercado consumidor local, excepto quando se tratava de atum, sarrajão, sardinha.. era dirigido para a indústria de conservas. Para a industria conserveira, era também dirigida a «pesca ao currico», a «pesca à vara» , (esta fundamentalmente de tunídios, atum e sarrajão), e também a «pesca de armação».

Quanto aos lucros proporcionados aos pescadores pelas artes em questão, nesta altura, havia abundante pesca, mas era baixo o valor do pescado. O peixe apanhado pelas sacadas destinado à salga e seca era encaminhados para o Sindicato dos Industrias de Pesca de Moçâmedes (mais tarde Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes) que se encarregava de o colocar nos mercados consumidores, quer de consumo interno em Angola, quer para consumo externo, em Moçambique, no Congo, etc., como aliás já fora atrás referido. Mas as condições em que se trabalhava não eram as melhores e o escoamento para os mercados não obedecia por vezes ao ritmo que seria necessário . 


No seu livro “O Mar de Angola”, o Dr Carlos Carneiro, (1949), escreveu um artigo sob o título: “E assim nasceu, em Angola, a indústria de farinhas de peixe”, onde nos fala da grande crise da indústria de pesca em 1929, crise que afectou grandemente Moçâmedes, e acabaria por ser decisiva na construção das primeiras fábricas para a transformação de peixe em farinha e óleo. Numa passagem do mesmo podemos lêr:

...Em 1929 a indústria de pesca no sul de Angola atravessava a pior das crises. A produção de peixe seco era enormemente superior ao consumo”. O preço aviltava-se... “abandonavam-se na praia ou lançavam-se ao mar centenas de toneladas de peixe que apodrecia em armazém”. Nesse tenebroso período, um alemão, gerente da casa Weermonn, Brock & C.ª, em Moçâmedes solicitou-me autorização para exportar, para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, para fins industriais”. “Como nada havia legislado sobre o assunto, autorizei a exportação... Mas o fim a que ele se destinava espicaçou-me a curiosidade”. Solicitei informações ao Departamento Científico e Técnico de Pescas Marítimas de França e recebi vagas notícias sobre a utilização desses peixes na alimentação de animais, depois de beneficiados e farinados. Por essa época uma comissão de médicos veterinários elaborava o Regulamento Geral de Sanidade Pecuária e Industria Animal em Luanda e solicitava-me elementos para estabelecer doutrina sobre a fiscalização sanitária do peixe e seus sub-produtos. Assim aparece publicado e mantém-se em vigor, o “art. 134º: Fica autorizada a escala de peixe com cabeça e sem sal quando destinada a fins industriais” (Carneiro, 1949). Entretanto, com a preciosa colaboração do meu saudoso amigo Dr. Torres Garcia faço os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha. Sem maquinaria própria e sem ciência certa as primeiras amostras enviadas para a Alemanha não agradaram, como tanto era de desejar. Mas as indicações que de lá vieram permitiram produzir-se melhor e, em pouco tempo, o mercado germânico estava aberto a toda a farinha de peixe que Angola fabricasse. E assim se começaram a construir as primeiras instalações fabris e se adquiriram as primeiras fábricas para a transformação de peixe em farinha e óleo. Hoje, a costa de Angola tem ao serviço desta riquíssima indústria, 4 grandes fábricas e cerca de 60 fabriquetas que estão laborando, anualmente, largas centenas de toneladas de farinha de peixe....

 

Esta é uma pequena amostra daquilo que era a vida das gentes do mar neste periodo em Moçâmedes.Vida que, embora fosse possibilitada e garantida pela presença de pessoal africano contratado vindo do interior de Angola, quantas vezes objecto de exploração por parte de angariadores,  não poupava ninguém, incluso os próprios patrões que em grande parte eram proprietários-pescadores, e, lado a lado com seus empregados participavam na labuta do dia a dia. E se ganhavam algum a mais e amealhavam, era para investir na arte, melhorar as condições de trabalho, porque nem créditos bancários havia para lhes facilitar a vida. E com o Estado não podiam contar. 

Depois de uma vida feita de lutas e sacrificios, em meados de 1950, ficaram sem as suas pescarias que foram desmanteladas para que os respectivos terrenos dessem lugar ao novo cais comercial e à avenida marginal, ficando grande número na miséria.

Ficam mais estas recordações
 


MªN.Jardim
Para mais informações, clicar AQUI
AS GRANDES CALEMAS DE 1955


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