24 julho 2008

A arte de pesca em Moçâmedes: Traineiras de João Duarte































1ª foto : A traineira de João Duarte, «Maria Margarida» passando junto a um navio de passageiros, ancorado ao largo, na baía de Moçâmedes.

Desconheço a data desta foto, onde traineira e navio se encontram embandeirados, mas tudo indica que tenha sido tirada
no decurso da visita do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, quando a inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes, em 24.05.1957, cujas obras haviam sido iniciadas no dia 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.

Para ver fotos sobre esta visita clicar AQUI
Para ver fotos sobre a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes , clicar AQUI.

Esta foto encontrei In Mazungue

2ª foto: Outra traineira do mesmo proprietário, a «São João de Deus».



Moçâmedes era o distrito de Angola onde a população branca era em maioria. Isto acontecia porque ao chegarem ali os portugueses apenas encontraram duas pequenas tribos vivendo junto das várzeas dos rios Bero e Giraúl, dos sobas Mossungo e Giraul respectivamente, os restantes povos do Distrito viviam em regime nómade, seminómade  camcurreando o Deserto do Namibe, na busca de pastos para os seus bois. Eram todos eles avessos à integração,  havendo desde sempre grande dificuldade no recrutamento de trabalhadores para ajudarem na  agricultura e na arte da pesca. 

De início eram escravos recrutados no centro e norte de Angola, junto dos sobas, e chegaram a ser distribuidos por Moçâmedes escravos libertados de navios de tráfico negreiro para o Brasil e Américas que operavam na clandestinidade e iam sendo apresados clandestino após a entrada em vigôr do Decreto de abolição de Sá da Bandeira.  Por esta altura, o recurso era o contrato a tempo certo, geralmente por 2 anos, e o recrutamento era efectuado através de angariadores e da autoridade administrativa da zona em conjunto com o «soba», ou seja, a autoridade tradicional de cada região. Numa primeira fase o salário estipulado era-lhes pago no final de cada mês, a partir de determinada altura, parte do salário passou a ser depositado mensalmente pelo patronato na Administração do Concelho, para lhes ser entregue no final do contrato.

O contrato incluía alojamento, roupa de trabalho, cobertores, e uma base de ingredientes para a alimentação da sua preferência (tomate, farinha de milho, óleo de palma, peixe seco ou fresco (preferiam o seco), feijão, carne, limão,
batata doce. Os trabalhadores contratados podiam contar também com assistência médica e medicamentosa que era fornecida pelo médico e enfermeiros do Sindicato da Pesca do Distrito de Moçâmedes, ao qual os seus «patrões» estavam associados. Alguns desses trabalhadores no final do contrato e após terem regressado às suas terras, voltavam por sua conta para as pescarias, já sem qualquer contrato, e ali ficavam como capatazes, motoristas, etc, mas eram raros os que o faziam porque a maioria regressava aos seus «kimbos» de origem, no interior, onde se dedicavam à agricultura, criação de gado, pastorícia, etc. O gado era a sua maior riqueza e muitas muitas vezes acontecia chegarem às pescarias para trabalhar em regime de contrato, indivíduos cujos pais possuíam em gado uma pequena fortuna.

Os salários bem como o preço do pescado eram os estipulados pelos orgãos estatais, e, escusado será dizer que eram irrisórios, em consequência do regime de então que organizava e detinha o leme da sociedade, e porque a rentabilidade por vezes não dava para muito mais. Para além de que muitos dos «patrões» iam sobrevivendo sempre dependentes das crises cíclicas do pescado e do baixo preço a que o mesmo era colocado nos mercados.


«Quimbares»
, chamava-se assim, o povo de origem africana desde há muito enraizado em Moçâmedes, urbanizado e aportuguesado, que vivia na periferia da cidade, mas não totalmente integrado, porque na sua maioria eram iletrados, viviam na base da subsistência e nada preocupados em mandar os filhos à escola das missões que embora não cobrissem o território, já estavam bastante dissiminadas e  abertas aos não «assimilados».


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