13 agosto 2008

Baile no Ferrovia em Moçâmedes, na década de 60





















1ª foto:
Nesta foto, tirada num baile realizado no Ferrovia de Moçâmedes, reconheço, entre outros, o Dr. Mesquita, Chefe da Delegacia de Saúde de Moçãmedes (de óculos, a dançar, creio que com a sua mulher), Fernando Leonel Pita de Sousa (Leona), também a dançar, de perfil, um pouco mais à dt. Na mesa,o piloto da barra (o Sr. forte de costas), tendo por detrás, Dias Ferreira. Na mesma mesa, de frente a conversar, com óculos escuros, o marido de Manuela Martins.

2ª foto: Foto actual, mas que permite recordar a fachada do edifício onde ficava a sede do Ferrovia, hoje uma empresa »Vamar». ...................

O Ferrovia de Moçâmedes, ou Associação Benificente dos Ferroviários de Moçâmedes, ficava na então denominada Rua Serpa Pinto, a rua que fechava com a sede do IASA (Instituto de Assistencia Social de Angola), ao lado dos antigos escritórios de J. Patrício Correia. Mais tarde, nessa rua, em frente ao Ferrovia foi construido um novo edifício, onde ficavam os escritórios da Companhia Mineira do Lobito.

Nos seus primórdios, por volta da década de 20 do século passado, o Ferrovia chegou a possuir uma aguerrida equipa de futebol com grande espírito colectivo, e totalmente constituída por ferroviários. Contudo, com a proliferação de clubes desportivos na cidade de Moçâmedes, a sua Direcção acabaria por encerrar o sector desportivo, tendo mais tarde, por resolução do Governo Geral de Angola , se transformado em instituição de utilidade pública. Não obstante, a vocação desportiva do Ferrovia acabaria por vir de novo à tona, na década de 50, através da sua equipa de basquetebol feminino, surgida numa altura em que Moçâmedes registava uma intensa actividade na modalidade de basquetebol feminino com nada menos de nada menos de 4 equipas, que se disputavam entre si, e enchiam completamente os campos de jogos da cidade. Ou seja, as aguerridas equipas do Atlético Clube de Moçâmedes, Sport Moçâmedes e Benfica, Ginásio Clube da Torre do tombo, e do Sporting Clube de Moçâmedes. Não obstante, a equipa de basquetebol feminino do Ferrovia não passaria porém, de um epifenómeno, pois após as primeiras actuações, acabaria por se diluir.

Quanto à vocação cultural e filantropica do Ferrovia enquanto instituição de utilidade pública, essa sim, manteve-se durante décadas, através de actividades recreativas dinâmicas e vigorosas dignas de louvor, que se mantiveram até à independência de Angola, em 1975.

Era na Associação Benificente dos Ferroviários de Moçâmedes (Ferrovia), que, na década de 40, a população de Moçâmedes assistia a sessões cinematográficas aos sábados e aos domingos, à tarde e à noite, quando a bela sala de espectáculos do Cine Teatro Garrett, que fazia lembrar o Coliseu de Lisboa, com a sua arquitectura clássica ao estilo da época, com camarotes a toda a volta, foi transformada na sede do Atlético Clube de Moçâmedes.

Era nessa altura proprietário do Cine Teatro Garrett, Raul de Sousa (pai de Dina Chalupa e do Lico de Sousa), e com a venda do edifício ao Atlético, toda a aparelhagem cinematográfica foi transferida para o Ferrovia, onde, na amplo salão de festas munido de um palco, passaram a decorrer as sessões. Ainda recordo D. Aninhas, a esposa de Raul de Sousa, antigos proprietários do Cine Teatro Garrett, senhora benemérita por quem a criançada fica à espera à porta da Associação para uma entrada «à borla» nas matinées. ,

A biblioteca do Ferrovia, a única biblioteca publica da cidade, era outro dos atracticos que canalizavam para a Associação grande número de leitores assíduos. Alí o leitor podia encontrar dispostos, numa ampla sala, livros de todos os géneros e para todos os gostos. Cheguei a ler, levados da biblioteca do Ferrovia para minha casa livros de grande nível que alí se encontravam, tais como : Êxodos, Mila 18, Os subterraneos da liberdade (2 vols) de Jorge Amado, « Os capitães da areia», este mais tarde proibido e retirado da Biblioteca pela PIDE, e outros como «Os capitães de areia», «A Cabana do pai Thomás», «As vinhas da ira», «Não matem a cotovia» e outros mais, como coleccção Alexandre Herculano, Eça de Queirós, e autores estrangeiros, como Stefan Zweig,

Foi ali que muitos jovens e adultos tomaram o gosto pela leitura e tiveram a oportunidade de actualizar os seus conhecimentos, ou inteirar-se através da leitura de jornais das últimas notícias da actualidade.

Recordo perfeitamente o interior das instalações do Ferrovia, com o seu amplo salão de festas munido de um palco, ao fundo, onde muitas peças de teatro, (dramas e comédias) subiram à cena, como «Inês de Castro», e outras que não recordo, em espectáculos apinhados de gente e calorosamente aplaudidos, ensaiados por «carolas»que se revelaram grandes actores amadores como Campos, avô Lena Rocha, António Martins (Latinhas), o jovem Norberto Gouveia (Patalim), Jacqueline Simão, e outros tantos que a memória não deixa recordar, como Salomé Inácio, Everdosa, etc., etc.

Recordo o salão de jogos, onde se jogava às damas, ao gamão, xadrez, bilhar, cartas, etc., e onde ao fim do dia se reuniam uma série de frequentadores assíduos, que para ali convergiam ao fim do dia trabalho, como Pissarro da Alfandega, o patriarca da família MInas , Antonio Matos (pai de Julica), Leonel Sousa e outros mais
uns para jogos, outros para ler jornais. Recordo o pequeno bar que ali existia e servia cervejas sandwiches, bolos, refrigerantes, chocolates, etc. , bem como o local onde ficavam os lavabos, num quintal que existia nos fundos do edifício.

No Ferrovia era também comum realizarem-se «copos de água» de casamentos,
bem como bailes como aquele que podemos ver aqui representado através da 1ª fotografia.

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