16 agosto 2008

Gente de Moçâmedes na fantástica Leba/Chela

 




Sempre às voltas, sempre, sempre a subir,
olhos atentos, postos e presos na distância,
numa paisagem que, cada vez mais aumenta,
   que sobe até onde ninguém já ousa desistir…
 
Ai Leba, esse caminho lindo, como outro nunca se viu,
ontem tão longo e difícil, quanto é hoje tão encantador,
não só pela beleza que a mão do Homem nele introduziu,
Mas pelo sublime encanto da Arte de Deus Nosso Senhor.

Aquela Serra imensa, que deste modo assim se agiganta,
espalha e sobe por um céu azul cerúleo, que nos encanta,
que por entre curvas e contracurvas de um asfalto gingão,
agita e renova o ar rarefeito e salva-nos da sufocação.


Do alto da Serra vem uma aragem de sublime fragrância,
que nos ajuda a subir, degrau a degrau, lanço após lanço,
velhos e inenarráveis caminhos de que nunca me canso
e que me proponho subir e descer até à última estância…


5.08.2010

NECO




1ª foto: Grupo de moçamedenses de visita à obras construção da estrada da Leba, a nova estrada que iria ligar Moçâmedes/Sá-da-Bandeira. São eles, da esq. para a dt.: Renato Freitas e os dois filhos, Walter e Nelinho, Maria José Azevedo Jardim, Alice Freitas e Florinda Jardim.(Para remontar aos antepassados de Florinda e Renato, clicar AQUI).
 
 2ª foto e seguintes: A estrada da Leba concluida, e a cordilheira da Chela em todo o seu esplendor... Nas duas últimas, a fenda da Tundavala, vista de cima e do sopé da serra.
 
3ª e seguintes: A espectacular cordilheira da Chela e fend da Tundavala.
Ver mais In 1000imagens.aspx.jpeg de David Ligeiro

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A Leba faz parte da imensa cordilheira da Chela, nascida a noroeste, na direcção de Benguela, que termina bruscamente na Ponta do Lubango, e que nesta região toma várias designações, como serras do Bimbe, do Lépi, Calenga, Numpaca, Tundavala, Bruco, Leba.

A transposição dessa gigantesca muralha feita e ageitada em épocas remotas por convulsões geológicas, constituiu o maior desafio colocado aos primeiros colonos madeirenses que, desembarcados em Moçâmedes, tinham por objectivo povoar o rico e extenso Planalto de Moçâmedes, como então era designada a região da Huíla. 



Foi em 1885, 19 de Janeiro, a data oficial da fundação da Colónia de Sá da Bandeira.
A pé e em carros de bois, a subida foi feita pela garganta da Chela, depois de uma paragem na zona da Vila Arriaga ( Bibala).

No livro o «Districto de Mossãmedes» de Pereira do Nascimento, o autor  refere que se podia escalar a cordilheira da Chela a partir do vale de Capangombe até ao planalto, por quatro gargantas: as portelas do Bruco (abertura rasgada a prumo na rocha por onde se caminha aos zigue-zags por entre tufos de preciosa arborização e aromáticas flores seguindo-se um segundo degrau de subida até ao  arraial da Kaionda (Chela) onde o terreno é cada vez mais íngreme com rochas áridas e  vegetação raquitica incluindo capim, e que desemboca na Humpata., a sul da serra da Neve A altitude é de  1829 metros) e Leba; a aberta de Kilemba; o vale de Tandirikita e, descoberta por caçadores boers, a portela do Hoke.  Pereira do Nascimento refere também que a estrada que sobe pela portela do Bruco (segundo degrau), reveladora de um  vigoroso trabalho de arte, apesar do estado apresenta va devido às chuvas, fora mandada construir pelo Governador Fernando da Costa Leal.

Hoje interrogamo-nos como foi possível, no século XIX, um punhado de madeirenses ter escalado aquelas encostas com meia dúzia de carroças puxadas por bois? Qual terá sido o preço em vidas humanas de tal empreendimento? O certo é que foi conseguido e esse feito, a par com a travessia do deserto de Moçâmedes, constituiu a parte mais dramática do nascimento do Lubango!

Desde essa altura e até ao início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro, que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais... 

Infelizmente, só apareceu a par das realizações  levadas a cabo nese tempo extra, entre 1961-1974, em que Angola, a par da guerra, teve um grande invremento, mas isso não lhe tira o mérito. Todas as cidades estavam ligadas por estradas asfaltadas. Em 1973 Angola dispunha de mais de 8000 km de estradas pavimentadas. Vale ressaltar aqui a excelência da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola).

:


A Leba, uma das mais majestosas fatias da Serra da Chela, um contraforte aparentemente intransponível que separa as planícies do Namibe dos férteis planaltos da Humpata, Palanca e da Huíla.

«...Foi em meados da década de 60 que se iniciaram os estudos para a construção da nova estrada, tendo-se colocado nessa altura três hipóteses de traçado: a primeira era o aproveitamento do traçado actual (221 Km); a segunda, Moçâmedes - Cainde - Capangombe - Chibia - Sá da Bandeira, um itinerário mais longo (264 Km), mas que tinha a vantagem de contornar a Serra da Chela, entrando em Sá da Bandeira pelo Sul; e finalmente o traçado da Leba (175 Km) mais curto mas muito mais íngreme. A decisão, baseada em estudos de custos de construção e de utilização, foi tomada em finais da década de 60 pela Junta Autónoma de Estradas, então presidida pelo engenheiro Rego Cabral. Foi escolhida a solução mais económica, se bem que a mais pesada em termos de investimento inicial, que no entanto viria a ser largamente compensado pelas diferenças do custo unitário de transporte no percurso total.

A obra, adjudicada à firma portuguesa Lourenços Lda, e dirigida pelos engenheiros da Junta Autónoma de Estradas, viria a ser uma das realizações mais emblemáticas de Angola. Incluindo seis lacetes construídos dentro das normas usadas nos Alpes suíços, o lanço apresenta 20 Km serpenteados, a cobrir uma extensão que em linha recta é inferior a 7 Km. O desnível entre esses dois pontos é de 1000 metros. Nunca até aí fora construído um troço de estrada tão caro: mais de 3 mil contos por quilómetro!
» (1)

O mais sensacional da Leba é, para além da paisagem de uma grandiosidade e beleza indescritível que dali se desfruta, formada pela cadeia de montanhas e de vales a perder de vista, o projecto geométrico da estrada, com as suas as curvas e contracurvas bastante pronunciadas, e uma inclinação de pelo menos 10, que imprime ao trajecto o sabor de aventura plena de emoções.

«...É impossível não ficar algumas horas sentado no miradouro natural em frente daquela serpente rodoviária e deixar que o olhar abrace toda a Chela até aos difusos contornos setentrionais. Espraiar o olhar para poente e saltar de morro em morro até ao início da planície deserta do Namibe, relembrar as lendas do Morro Maluco, a protuberância fálica rompendo o hímen das nuvens e que constitui a referência visual mais marcante daquela paisagem única!»

Quase sem consciência de que o dia se esvai, sou surpreendido pelo mais majestoso dos espectáculos da natureza naquele local: o pôr de Sol na Leba é indescritível! Não há palavras, nem fotografias ou filmes que possam traduzir a luz, as cores, os matizes e os recortes da bola de fogo que se deita de mansinho por trás dos montes, na sua cama do deserto que se adivinha mesmo ali! » (2)

Esta estrada, um dos «ex-libris» de Angola,  é considerada a obra de engenharia mais grandiosa levada a cabo na última fase da colonização portuguesa. Acabada de construir já na década de 70 tal como a ponte do Caminho de Ferro de Moçâmedes,  projectada por Edgar Cardoso , aproximaram sobremaneira, moçamedenses e huilanos, que passaram a visitar-se muito mais vezes, e a fruir do grande prazer de viverem numa das zonas mais ricas em potencial turístico de toda a Angola.

Moçâmedes com as suas magnificas praias de areias brancas e águas cristalinas, e
o chamamento de algo verdadeiramente extraordinário como é o deserto do Namibe, habitat das mais belas espécies de animais selvagens, onças, leões, gazelas, elegantes, guelengues, olongos, avestruzes etc. etc, tinha para oferecer ao visitante um conjunto sem igual, todo ele espaço, areia, dunas, pedras, miragens, welwitschias, cactus, as espinheiras... Enfim, tudo quanto o Namibe encerra de especial, em paisagens avassaladoras, diversidade cultural riquíssima, os povos nómadas, as gravuras rupestres do Tchitundu-Hulo (atribuídas aos antepassados dos khoisan), o Iona, as elevadas dunas, o seu rico mar pleno de vida e povoado com a mais excelente e diversificada gama de peixes e mariscos que fazem as delícias da boa mesa.

O Lubango/Huila, terra linda, de ares puros e paisagens deslumbrantes, a oferecer aos visitantes uma mão cheia de belezas naturais, qual delas a mais bela, qual delas a mais prazeirosa: a fenda e a barragem da Tundavala, a Serra da Chela, o Miradouro, a Cascata da Huila, a luxuriante Senhora do Monte, as nascentes de água cristalina, os seus parques e belos jardins floridos, e outros tantos, tantos locais igualmente belos e deleitantes como o Casino, a Piscina e a Capelinha da Senhora do Monte, o monumento ao Cristo Rei, a Barragem da Lagoa, enfim, um conjunto ímpar que faz da região uma das mais bela, senão a mais bela de Angola.

A Tundavala
é uma vertigem e uma emoção. Para se chegar ao abismo da Tundavala, é preciso fazer cerca de 15 quilómetros por estradas de terra batida desde a cidade do Lubango. Acho que não há quem não os faça. Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa.
A quem olhar a partir de cima para os pés da montanha imponente, a Tundavala surge como um autêntico paredão a mais de 2000 metros de altitude, com a dita fenda de cerca de 700 metros entre dois penhascos, a partir do qual se pode observar o casario raso, colorido e ameno de Vila Arriaga (Bibala), e mais além, estendendo-se até ao limite do horizonte, a terras dos mucubais, povo nativo desta região que vive em tribos no deserto do Namibe e no sopé da Serra, cuja riqueza são os bois, povo que não se mistura com outras tribos, pouco social e resistente à integração. Na 5ª foto podemos, outra pespectiva deste gigantesco paredão que divide a região planáltica da Huila, da região desértica do litoral sul de Angola onde ficam as cidades de Moçâmedes e de Porto-Alexandre, região que se estende mais a leste até ao lendário Cunene, rio que com as suas curvas e contracurvas abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar.

A mítica TUNDAVALA, é hoje para quem a visita, um símbolo de morte e terror, que permanecerá para sempre na mente e no coração povo, como mais uma página negra da História de Angola do século XX. Segundo se diz, ainda hoje é possível encontrar no local testemunhos dessa época, bastando com a biqueira do sapato trazer à superfície cápsulas de balas que alí ainda se encontram enterradas no local, para além dos furos de balas
impressos nas paredes do MIRADOURO. Crimes de violência política do mesmo género, diz-se, ocorreram também na ponta do Pinda (Porto Alexandre), onde foram efectuados vários fuzilamentos, e os corpos em seguida impiedosamente atirados ao mar...

Foi
na fenda da Tundavala, diz-se, que foram efectuados nos momentos a seguir à independência de Angola, fuzilamentos de elementos de movimentos opostos, cujos cadáveres ficaram para sempre no fundo do precipício. Foi o caso de José Espírito Santo, militante do MPLA de Moçâmedes, e funcionário do Banco de Angola, que caiu numa emboscada, ao que consta, da UNITA, quando ao volante do seu carro, passava por Sá-da-Bandeira, a caminho de Luanda.

Aproveito para recordar o assassinato cruel de Armando Sabino Dias, o português empreendedor residente há mais de 35 anos no Lubango, casado com uma moçamedense, Hélia Paulo Dias, que explorou na década de 1950 a Pensão Lubango, foi sócio de J. Franco na Peixaria Lubango, e que meia duzia de anos após a independência, numa noite de Natal, acabaria por sucumbir, brutalmente e à falsa fé, sob as lâminas de uma catana quando se encontrava no interior da sua propriedade, a única na região, nos arredores do Lubango, que na altura abastecia o mercado de víveres ( legumes, frutas, carnes, etc), e que ainda exportava para o carente mercado da capital. Recordo também José Dias Ferreira, mais conhecido por «Ferreira do Saco», o português que teimou em permanecer em Moçâmedes após a independência, e que foi brutalmente assassinado, não se sabe porquê, lá para os lados da Praia Amélia, ou mais propriamente, na praia Azul.


Acredito que esta zona do sul de Angola, há-de vir um dia a ter a projecção que merece nos mapas do turismo internacional. Quando virá este dia, não sei!


Alcançada a paz, o povo de Angola pode hoje contar, graças a Portugal e aos portugueses, com um país enorme, que reune condições excepcionais para num futuro próximo vir a ser a grande potência africana, se o actual governante e os que se seguirem forem capazes de ir além do ciclo dos diamantes e do petróleo, se forem capazes de, emanando exemplos para toda a sociedade, acabaram com o escandaloso sistema de corrupção generalizada que o país atravessa que está a comprometer o futuro das novas gerações. É o único caminho de legar-lhes um país digno, credível e merecedor da confiança dos seus filhos e da comunidade internacional.
Que Deus abençõe o povo humilde e sofrido de Angola!

MNJardim
(1) Diamantino Pereira Monteiro, no site AngolaLubango
(2)Pereira Monteiro in Sanzlangola
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Do Bimbe ao Namibe

Dos férteis regadios da Humpata,
pela manhã levantei vôo da chitaca;
do alto divisando a geometria dos valados
sobrevoei o planalto de contornos ondulados.

Chegado à linda Leba, ninho de líricas águias,
onde o meu Irmão Valério erigiu sua Pousada,
meu breve olhar galgou o paredão róseo,
degrau de gigantes, pela serra abaixo.

Seguindo o serpentear do Munhino,
cada vez mais clara se tornava a aridez;
ao longe, avistava-se o azulado horizonte marinho.

Com a baía de Moçâmedes pelo poente,
continuei rumando ao sul, para o belo deserto.

É neste oásis espiritual que se admira a admirável,
tão paradigmática quanto a estranha dualidade humana:
a welwitchia, medrando teimosa na maior secura.

Com duas folhas apenas (como homem e mulher),
lentamente crescendo e sempre se afastando,
tocando-se quando se enrolam, às vezes nunca na vida,
um drama inteiro, sob a doce luz oblíqua na areia fina.

Mais longe, o grande Cunene entre gargantas rochosas.

Nas distantes monumentais dunas do Namibe, as arestas de areias vivas,
os ocres quentes,
o Silêncio Divino.

Zé Kahango


Para mais informação, clicar AQUI
LUBANGO/ LEBA com música Bonga,

MOÇÂMEDES/LEBA
Viagem de comboio (Garrats) Lubango/Moçâmedes

http://www.scribd.com/doc/5568652/Leba

1 comentário:

zé kahango disse...

Bem!
O poema do João Mangericão é fabuloso!
Certamente por lapso não é indicado o nome do autor do segundo...

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