31 outubro 2008

Conjunto Musical «Os Diabos do Ritmo»: década de 50









1ª foto: Bio Aquino (Albino), o pianista e acordeonista do popular conjunto musical dos anos 50 em Moçamedes, «Os Diabos do Ritmo».
 

O conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» foi o grande animador das festas da minha juventude. Eram eles que animavam os bailes aos sábados à noite e as
matinées dançantes nas tardes de domingo nos Salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). Os bailes prolongavam-se pela noite fora até ao raiar do dia, e as matinées dançantes, com grande pena nossa, acabavam impreterivelmente às 20 horas. A propósito, este excelente conjunto musical tinha por hábito fazer serenatas por volta da meia noite à porta das raparigas deslocando-se para tal em camionetas, de casa para casa, umas vezes por iniciativa própria, outras, a pedido de namorados que acompanhavam o grupo e ajudavam o côro.



 

 





 

 
2ª foto: Albertino Gomes, o baterista do mesmo conjunto, aqui a tocar bandolim.

Sem dúvidas, duas figuras inesquecíveis para quem teve a sua juventude na 2ª metade da década de 50. Faltam aqui as fotos do Lito Baía com a sua guitarra,
do Marçal com o seu saxofone e do Frederico Costa e Serieiro com as suas maracas. Quantos bailes de Carnaval e «Reveillons» ficamos a dever a este grupo de talentosos amadores de música cheios de vivacidade e contagiante alegria!







 

.Senhora do Monte

Aos colegas da EICIDH e do
Liceu de Diogo Cão


Nas Festas da Senhora do Monte
os Diabos do Ritmo foram tocar
ao Casino que ficava bem defronte
da grande piscina, (ou seria do lago?)
para onde os jovens iam namorar.

A noite fria bem pedia um afago
e eles, olhando o céu tão estrelado,
maldiziam a espectacular claridade
daquele superluar de mágico enleio
que iluminava a branca capelinha , lá no alto,
a cidade e o espaço que havia de permeio.

É o primeiro amor e vivem-no em sobressalto.
sentindo-o olhado, exposto e devassado.

Até eles chegavam acordes melodiosos
de um bolero e, os pares de namorados
que à volta do lago passeavam silenciosos,
acertam à melodia o passo e o abraço
apertado, beijando-se entre cada compasso.

No céu, milhões de estrelas dão vida ao espaço
e cintilam como se quisessem juntar a sua luz
ao fogo preso que sobre eles em mil cores explodia,
deixando ainda a noite mais clara que o claro dia.

O encanto dos festejos de Agosto, a todos seduz . . .

De tão encantado, o povinho nem o frio sentia,
e ria, e corria entre os Stands e barracas do arraial,
enchendo de vida e movimento carrosséis coloridos,
botequins e "roulottes" de comes-e-bebes, concorridos,
e até a barraquinha das rifas, das Irmãs da Caridade,
comprando tudo, para levar uma recordação desse dia
e das Festas daquele ano, do Lubango e da Cidade.

Como sempre acontecia, amanhã será o último dia.
O dia maior oferecia-nos provas de atletismo matinais;
hóquei, basquetebol e provas de natação. Torneios habituais.
e, à tarde, «Football», com o Estádio a rebentar de gente
que lá ia ver as duas Selecções. no eterno frente a frente.

Quem viera de carro levava-o já preparado e atestado.

Manifestações, antes da partida, só trazem confusões.
Assim, proibido estava quaisquer sinal das emoções
porque, em última instância, quem tudo depois pagava,
era a malta do velho e lento Comboio, de via estreita .

Seriam eles a apanhar do adversário que ficava à espreita.

Ai, meu Lubango, minha Cidade,
quanta distância, quanta saudade ...

Neco
2.06.2006



SAUDADES DE UM VALDEVINOS


Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...

Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...

Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...

Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...


NECO


19.05.2009





Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto).


 
Reinaldo Bento, Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa
 
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha



 

Fica aqui mais uma recordação de gente que
marcou uma época na cidade de Moçâmedes, gente que de um dia para o outro deixamos de ver e que deixaram laços em nossos corações.

E depois surgiu a ARAN... E chegaram os arrastões devastar os mares de Moçâmedes...






 






Na década de 60, após a construção do cais de embarque/desembarque e da avenida marginal que levara ao desmantelamento completo das antigas pescarias,
 surgiram em Moçâmedes os «Arrastões», e o nosso mar foi invadido por uma outra forma de captura de peixe totalmente devastadora. Moçâmedes tornou-se o porto base onde se efectuavam os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da ARAN (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se então, se encontrava ligado ao  regime (HT). Era ali que o peixe ficava a aguardar o transporte para a Metrópole, para a subsequente comercialização, constando naquele tempo que a pescada (marmota) era vendida como pescada de Vigo.

No local onde a ARAN ergueu o seu complexo ficavam, pois, as primitivas pescarias, que se estendiam por toda a praia em direcção à zona da Fortaleza e que foram desmanteladas na década de 50,
sem quaisquer indemnizações aos seus proprietários, tendo uns acabado na miséria, outros, reduzidos às suas pequenas embarcações, passaram a dedicar-se à pesca à linha, e aqueles que possuíam algumas economias, acabaram deslocalizando-se para o Canjeque, onde construíram, com grandes sacrifícios, novas pescarias. E como se não bastasse algumas delas foram fustigadas pelas célebres calemas que assolaram a costa de Moçâmedes nos finais dessa mesma década, restando-lhes proceder a sua reparação, de novo sem quaisquer ajudas. Era assim que naquele tempos os homens que detinham o poder tratavam os nossos pescadores e pequenos industrias... A solução que lhes sugeriram não foi uma ARAN, tal seria inviável para eles, se fossem eles a solicitá-lo, mas sim uma sociedade no Saco, considerada por demasiado irrealista para ter pernas para andar. Obviamente não interessou a ninguém.

Quanto aos arrastões, a pescada era abundante na costa mais a sul do distrito de Moçâmedes, ao ponto de muitas vezes o pessoal não dar escoamento ao peixe capturado, como testemunha o site Mar de Viena onde se pode colher algumas informações sobre o modo como funcionava na época, a pesca de arrastão:

«...A pesca efectuava-se para sul do paralelo 18' 00" S em fundos arenosos onde abundava a pescada (marmota) em grandes quantidades. O tamanho da marmota era por vezes de baixo calibre o que motivava o desperdício de grandes quantidades que eram deitadas novamente ao mar, para gáudio dos leões marinhos que abundavam nessa zona.

Por vezes acontecia quando da manobra de virar a rede, um ou mais leões marinhos serem apanhados pela rede. Era um pandemónio a bordo. Depois de despejado o saco do peixe no parque de pesca, o animal encurralado, fora do seu ambiente natural, com mais de quinhentos quilos, esmagava as frágeis marmotas, tentando libertar-se do cativeiro e dando urros impressionantes de desespero. A princípio não sabíamos o que fazer, o mestre de redes , o contra-mestre e os pescadores tentaram passar um laço na tentativa de içarem o leão para o convés e arrastá-lo para a rampa da popa, mas o corpo roliço do animal impossibilitava essa tarefa.

Quando isto acontecia todo o pescado estava perdido e gastava-se imenso tempo. A solução era matar o animal. Embora fosse um acto repugnante tinha de ser tomada essa atitude para bem do animal que estava em sofrimento e acabava por morrer lentamente e também porque o navio tinha de continuar a pescar. Era encarregue dessa ingrata missão o mais corajoso e ousado. Numa das frequentes idas a Moçâmedes, normalmente de quinze em quinze dias, para descarregar as cerca de 250 toneladas de peixe, carga máxima do navio, fomos informados que o navio ia fazer uma adaptação dos paióis da popa, normalmente utilizados como depósito de material de apoio à pesca, redes, cabos, fio, esferas de borracha para arraçal, etc., para camaratas de "pescadores".


(...)A pesca era abundante e o pessoal não dava escoamento ao peixe capturado. Chegou-se a parar de pescar, metendo a rede dentro e fundeando até processar a maior parte da marmota, mas a capacidade de congelação era insuficiente e não havia outra solução senão alijar (por pela borda fora) pescado que não se encontrava já em boas condições devido ter muito tempo sem e viscerar como também porque a marmota é um peixe muito sensível e pouco resistente quando se encontra prensado um sobre o outro muitas horas.


(...) A estadia foi mais demorada do que prevíamos porque havia outros navios à nossa frente a descarregar e um navio transportador frigorífico, salvo o erro o” Baía de S. Brás”, a carregar peixe com destino à Metrópole....»
 


Texto completo in MAR DE VIANA(Cantinflas)
Ver também AQUI ( Libório...)



"Festas do mar" em Moçâmedes (hoje, Namibe): Concurso de construções na areia na Praia das Miragens


























































Concurso de construções na areia realizado na Praia das Miragens por ocasião das Festas do Mar na década de 60.

Todos os anos, em Março, enquadrado no programa das «Festas do Mar» realizava-se na Praia das Miragens o tradicional «Concurso infantil de construções na areia». Era geralmente apoiado pelos jornais da terra e patrocinado pela Câmara Municipal de Moçâmedes, e envolvia dezenas e dezenas de crianças em todo o distrito e não só, para além de centenas de espectadores, entre familiares, curiosos e frequentadores da habituais daquela praia.

Os concorrentes de palmo e meio tinham cerca de 1 hora e pouco mais de 1, 5m2 de terreno para mostrarem as suas habilidades na arte de esculpir na areia, e como apetrechos para os seus trabalhos de escultura pouco mais possuíam, como se pode ver, que as próprias mãos, tendo que começar por cavar mais fundo para encontrar terra húmida capaz para modelar. De facto não se vê aqui o recurso aos tradicionais utensílios, tais como baldes de plástico para transportar água do mar, pás e outros acessórios para a modelar a areia. Restava-hes a imaginação na execução dos trabalhos que certamente não poderiam ir muito mais além, dado os meios de que dispunham. As três melhores esculturas seriam as contempladas.
Fotos Salvador/Moçâmedes

29 outubro 2008

O complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica: uma obra arrancada a ferros...




































































1ª foto: O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de construção.

2ª foto: Mário António Guedes da Silva (Tesoureiro) e Lourdino F. Tendinha (Presidente da Assembleia geral) expõem ao Presidente do Conselho Provincial de Educação Física, major Fausto Simões, o plano de obras para o novo complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica. Foto tirada em 08.11.1959.


3ª foto: Os abnegados dirigentes do Sport Moçâmedes e Benfica, Luís de Sousa Simão, João Maurício, João R. Trindade e Mário António Guedes da Silva - que convictamente procuraram levar para a frente o projecto da construção do seu Complexo Desportivo - cumprimentam o então Governador Geral de Angola, Horácio de Sá Viana Rebelo que no decurso de uma visita ao Distrito aproveitara para se inteirar do andamento das obras. (foto tirada em 13.03.1959).

4ª foto: O campo de jogos do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).


5ª foto: o aspecto exterior do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).


O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de constução, uma construção «arrancada a ferros» por falta de disponibilidade financeira. Em consequência, o ambicionado projecto de um punhado de benfiquistas «ferrenhos» ficou por terminar, incluindo a parte que iria constituir a sede directiva e administrativa do clube. Estas tiverem que passar a funcionar, provisoriamente e à espera de melhores dias, nos espaços inferiores das bancadas que foi aproveitado para o efeito.

Apesar da riqueza de Angola, e do mito da «árvore das patacas», só com muito esforço, muita luta e muita dedicação por parte de dirigentes e atletas, os Clubes desportivos conseguiam subsistir. Sem quaisquer subsídios por parte do Estado nem das Câmaras Municipais, os Clubes mantinham-se financeiramente através das pequenas quotizações dos seus associados, do precário produto dos jogos, e pouco mais. Neste contexto, era sempre uma aventura, para os dirigentes dos clubes, enveredarem por quaisquer melhoramentos que os viesse a beneficiar, bem como ao Desporto e à Cidade em geral, uma vez que não possuíam uma base financeira estável.

Foi por uma destas aventuras que enveredou a Direcção do Sport Moçâmedes e Benfica, quando,
no ano de 1957, a 11 de Março, após várias reuniões levadas a cabo para o efeito, a sua Direcção resolveu empossar uma «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» constituída pelos seguintes elementos: Intendente José da Silva Vigário (Presidente), Gaspar Gonçalo Madeira (Vice-Presidente), Mário António Gomes Guedes da Silva (Secretário), João Soares (Vogal), Arménio Joaquim Lemos (Vogal), Ernesto do Oliveira (Vogal), José Alberto Pereira Monteiro (Vogal) e Pedro Lopes da Silva (Vogal). O Benfica não possuía nem uma sede nem um campo de jogos com as condições minimamente aceitáveis e muito menos de acordo com a excelência dos seus atletas, como ficara comprovado no ano de 1956, com as vitórias alcançadas nas modalidades de basquetebol feminino e masculino

Criada a Comissão, em seguida, e por deliberação de 22 de Março de 1957, são iniciadas diversas campanhas tendo em vista a angariação de fundos entre a população, industriais e comerciantes. Outras resoluções se seguiram quanto à aquisição do terreno, projectos, cálculos de betão, exposição ao Governador Geral de Angola solicitando a comparticipação no investimento, etc., etc.. Foi assim que começaram a surgir os primeiros fundos e foi possível arrematar o terreno com cerca de 4900 mts 2 por 16.802$10 à Câmara Municipal de Moçâmedes e partir para a elaboração do projecto que incluía o parque de jogos e o edifício-sede, da autoria do desenhador-técnico, António Coelho. A Câmara Municipal da cidade apenas ofereceu as primeiras carradas de areia, e Gaspar Gonçalo Madeira, membro da «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» prontificou-se a assegurar a cobertura dos camarotes e a fornecer todo o ferro necessário para a respectiva construção a preço do custo. O produto das subsequentes angariações de fundos permitiu erguer as paredes de todo esse complexo. O sonho dos benfiquistas de um estádio completamente circundado de bancadas e camarotes com a capacidade de cerca de 4 mil pessoas sentadas, estava finalmente em marcha... Faltava, porém, para que a obra pudesse avançar o subsídio do Governo Geral, e foi perante essa necessidade que Mário António Guedes da Silva foi levado a deslocar-se a Luanda para angariar também alí donativos, tendo regressado com a quantia de 20 mil escudos que foi imediatamente aplicada.

Esgotados todos os recursos, e com a obra em risco de parar,
em 19.11.1957 foi apresentada uma 2ª exposição ao Governo Geral de Angola, desta vez despachada favoravelmente, tendo sido atribuído um subsídio de 150 mil escudos. Como refere Mário Guedes no seu livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola»: «trilhava-se diariamente os caminhos da fé para se chegar à ilha dos sonhos»...

No ano de 1958, perante o reconhecimento dos esforços efectuados, o Governo Geral de Angola acabaria por reforçar a verba inicial com mais 1o0 contos, perfazendo um total de 250 mil escudos. Contudo esta verba era ainda insuficiente e não permitia avançar para a conclusão do empreendimento, e no ano de 1959,
no decurso da visita do Governador Geral de Angola a Moçâmedes e ao complexo desportivo a 13.03.1959, uma 3ª e última verba foi concedida, no valor de 150 mil escudos, face ao reconhecimento dos trabalhos já executados.
Esta verba permitiu a conclusão do campo de jogos, porém não permitiu a total concretização do sonho:
a construção da Sede, integrada no complexo. Faltava ainda uma nova etapa bem como verbas mais elevados, situação que daí para a frente se tornara ainda mais difícil para o Benfica. Era com estas mentalidades que se vivia na época. Se alguma coisa era feita, era, como neste caso, graças ao esforço de um punhado de abnegados dirigentes que conseguiram o complexo, inacabado embora, mas funcional e mais de acordo com as aspirações dos seus atletas, afinal os grandes inspiradores deste projecto!

Entretanto
os tempos mudaram...
Ficam mais estas memórias para a história da nossa cidade!

(texto elaborado a partir da leitura do livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes», de Mário Guedes da Silva. Imagens do mesmo livro (as 3 últimas)

Para ver mais sobre Desporto em Moçâmedes, até 1975:
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Créditos de imagem: As três primeiras fotos: livro
«Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola» de Mário António Guedes da Silva
As 4ª e 5ª fotos foram gentilmente cedidas por Telmo Ascenso.

09 outubro 2008

Mulheres mucubais no distrito de Moçãmedes/Namibe















Mais uma foto de mulheres da etnia mucubal, em Moçâmedes/Namibe (Caraculo-2ª foto)


Eram assim as mulheres da etnia mucubal, povo exótico e semi-nú que vive no deserto do Namibe e Serra da Chela, e que ainda hoje, 32 anos após a independência de Angola, resiste à integração.

As mulheres mucubal, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Um mucubal pode ter quantas mulheres quiser, eles limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer enquanto elas trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado. Cada mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as suas mulheres e família. O curioso é que elas vivem em harmonia umas com as outras e os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Trata-se, pois, de um tipo de sociedade em que os casamentos plurais (poligamia) são normais permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia).

Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:

«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)

Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)

O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)

A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »

Os homens mucubal cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais. São pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola. A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.

Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos. 


 A vida destes povos indígenas era tida ela voltada  para os seus rebanhos, para a busca de pastos e  água , uma vida  errante e que exige uma deslocação  permanentemente, na  busca de terras, que atinge momentos dramáticos em tempos de secas ,  que no sul são recorrentes. 
De acordo com o veterinário Carlos Baptista Carneiro, " O regime de chuvas no sul de Angola é de uma irregularidade inquietante. Ora são torrenciais, enchendo de água os rios, inundando as planícies, formando lagoas nas terras baixas e fertilizando, com exuberância, o solo, ora são raras e tão escassas que mal refrescam a terra requeimada por um sol violento e torturante. Mas, por desgraça destas terras e das gentes que as habitam, são raros os anos de boa chuva e frequentes aqueles em que a seca traz desassossegos e causa destroços na vida animal e vegetativa deste recanto angolano. E em tais anos é atormentadora a vida dos seres animados que na terra buscam alimentos e água que resolvam, equilibradamente, as suas necessidades fisiológicas, o seu trabalho vital. É confrangedor o viver dos povos indígenas que, cuidando dos seus rebanhos como preocupação única , não encontram para eles os pastos precisos e a água que lhes é indispensável. A vida dos rebanhos é errante e comiseradora. em busca de pastos deslocam-se permanentemente, na esperança tantas vezes falível de encontrar terras que a seca não tenha atingido e que lhes dêem, ainda com seiva, ressequidas, gramíneas ou folhas viçosas de leguminosas, cheias de espinhos."


MUCUBAL

Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.

Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.

Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.

publicado por zé kahango
in BIMBE

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Outros Donos d'África

Seminus...
ricos de bois
de peles se cobrem...

Em seu passo rápido
as encostas da Chela
descem e sobem...

Os donos do Namibe!!!!

Povo d'antepassados
guerreiros e pastores
de típicos panos coloridos

pouco expostos à convivência
sem fronteiras...
viventes demais isolados

Os senhores do Deserto!!

portadores de cultura e arte
gestores de trabalho e prazer...
seus tempos... os mais preferidos

Marcados do espírito africano
tribo d'excelência...
percebidos e não entendidos

Os Mucubais!!!


Aileda in Mazungue

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Fotos de outras etnias AQUI

Sobre os povos de Angola, clicar AQUI

Video AQUI

Traineira "Albino da Cunha" (Porto Alexandre)





































1. Vista aérea de Porto Alexandre, a pequena cidade litorânea mais ao sul de Angola, edificada em pleno deserto do Namibe, a 100 km de Moçâmedes, que em 1975 era já o maior centro piscatório , não apenas de Angola como de toda a África. Mais de 90% do sector piscatório do distrito de Moçâmedes, encontrava-se ali representado. Era tão grande o número de pescarias que se perfilavam ao longo da praia de Porto Alexandre, que já não havia condições para mais. O mar de Porto Alexandre até à Baía dos Tigres era riquíssimo em pescado; talvez por força da corrente fria de Benguela acrescida ao facto de não haver pescarias a montante, os cardumes chegavam ali em abundância. As indústrias da pesca que mais floresceram em Porto Alexandre e em todo o distrito de Moçâmedes até 1975 foram a salga e seca (peixe seco e meia cura), a congelação, as farinhas e os óleos de peixe e as conservas.

Porto Alexandre não tinha porto de acostagem para navios de grande porte, e a farinha de peixe que produzia era escoada assim, ou através de Moçâmedes, onde era embarcada no porto indo para ali de camião, ou em batelões (embarcações de convés raso) rebocados por uma lancha até acostar ao navio e em seguida içada através do guincho do navio. Os sacos eram amarrados com uma corda grossa (linga), daí o termo «lingada» atribuido ao conjunto de sacos que saía do batelão e entrava no porão do navio sendo em seguida arrumado alo, normalmente por indígenas, ou mais propriamente, mucubais.

Uma curiosidade. À ilha de Porto Alexandre era comum verem-se focas, muitas focas.Era um fenómeno curioso e agradável de se ver, o facto de haver focas e pinguins numa terra quente como Porto Alexandre., que deixaria incrédulo, qualquer visitante, sem perceber o que estaria por detrás de tal fenómeno.

O mar do distrito de Moçâmedes era de facto um mar muito rico em pecado, aspecto que se deve à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona. Como funciona este assunto? De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se corrente fria de Benguela. Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Tômbua e Namibe.

2. e 3. Duas perspectivas da traineira «Albino da Cunha», em Porto Alexandre. Albino da Cunha foi um dos grandes empreendedores do distrito de Moçâmedes, quer a nível da actividade comercial, quer a nível da actividade industrial, designadamente no que diz respeito à industria piscatória. Devido a diversas vicissitudes a empresa de Albino da Cunha acabaria por entrar em insolvência no decurso da grande crise piscatória que afectou o distrito nos anos 50, tendo no entanto conseguido recuperar completamente com a gestão de seu filho, Dr. Úrbulo Cunha, que não só liquidou todas dívidas à banca, designadamente ao Banco Angola, como a fez progredir, encontrando-se em 1975 em franca expansão. Houve, no entanto, por todo o distrito de Moçâmedes outras boas empresas que não conseguiram ultrapassar esta crise que avassalou a indústria piscatória e levou muitas delas à falência e ao total desaparecimento, tais como Carvalho de Oliveira & Cª. Lda., Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio, J. Patrício Correia, Portela & Guedes, Angopeixe, Torres & Irmão, Lda., Marcelino de Sousa, Conserveira do sul de Angola, Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda., SOS (Soc. Oceânica do Sul), etc. Importa referir que a crise dos anos 50, por arrastamento, também se estendeu a actividade comercial do distrito de Moçâmedes, actividade que girava à volta da indústria piscatória, afectand0-a ainda que transitoriamente.

Nesta foto podemos ver junto à referida traineira alguns elementos da família de Constantino do Ó Faustino, sócio da firma “Antunes da Cunha”, em Porto Alexandre. Sobre esta família encontrei na Net a seguinte referência:

«FAMÍLIA DO Ó FAUSTINO

Era uma família numerosa e antiga que, em parte, se dispersou. Nesse tempo o seu membro mais representativo era o Constantino, sócio minoritário da firma “Antunes da Cunha” e cunhado do sócio principal, que era o velho Albino da Cunha. A sua secção comercial era a mais importante nesses primeiros tempos. O Albino tinha um filho, o Joaquim Albino, que jogou futebol na Académica. Um seu sobrinho, o John, foi o meu maior amigo dessa época, teve um desastre de avioneta em Moçâmedes e ficou parcialmente paraplégico, morrendo poucos anos depois, em Lisboa.» (1)

(1) ver mais neste blog dedicado a Porto-Alexandre, GeoHistHaria
outras famílias de Porto Alexandre:
Sampaio Nunes
Tendinha
Martins da Silva
Sacramento
Pacheco
Sancadas
Arrobas da Silva
Viegas
Pisoeiro
Romão
Bodião
Barreto
Cruz
Peleira
Gaspar
Neves Graça
Piedade Martins


Fac-simile do saco de farinha de peixe da SIAL (Soc. Ind. Alexandrense, Lda.), frente e verso.
Créditos de imagem www.kadypress.blogspot.com






Gente de Moçâmedes: famílias Pestana e Costa Santos

































1ª Foto: Reconheço, entre outros, neste «repasto» à sombra de um telheiro na pescaria de Venâncio Guimarães, sita na Praia Amélia, alguns elementos da família Pestana e não só, tais como:

À esq., Francelina Almeida (mãe de Júlio Almeida) com a neta, Vina Almeida, ao colo. Ao centro/fundo, Maria Pestana,
José Pestana (o encarregado da pescaria), Zeca Pestana, Oswaldo Sampaio Nunes, e Lita Pestana (mulher de Júlio de Almeida, que se encontra de pé, ao fundo). À direita, junto ao pilar de cimento, Olinda Pestana, seguida de C. Costa Santos (Carriço) e Julieta Costa Santos. José Pestana era na altura o encarregado da pescaria de Venâncio Guimarães.

2ª foto: Reconheço Lita Pestana e Zeca Pestana tendo ao colo os pequeninos Vina e Juleco. À frente: Nél
inha Costa Santos, ? e Calinhas

Era comum em Moçâmedes, nas décadas de 40 e 50, juntarem-se grupos de famílias e amigos no Verão, aos domingos, em almoçaradas na Praia Amélia.
Os preparativos para a viagem começavam bem cedo, pela manhã, para que o precioso tempo fosse aproveitado o melhor possível já que muito havia a fazer até à hora do almoço.

Ao chegarem ali, os homens do grupo munidos com linhas, isco e anzóis faziam-se ao mar em busca de meros, pargos, garoupas, etc.,
que geralmente encontravam ali bem perto, no canal, tendo em vista uma boa caldeirada. Às mulheres, cabia-lhes os preparativos para o almoço, o ponto alto da festa. Para tal haviam levado consigo panelas, pratos, talheres, toalhas, guardanapos, pão, fruta, sobremesas, o vinho que não podia faltar, os refrigerantes para as crianças e todos os ingredientes necessários (tomate, cebolas, batatas, alho, farinha de milho, óleo de palma, etc...).

Quanto ao transporte, utilizavam-se carrinhas de caixa aberta com carroceria, a fim de caberem nelas o grande número de pessoas que faziam parte do grupo. E assim se viajava naquele tempo, uns três ou quatro à frente, um grupo enorme de cerca de uma dezena de pessoas, sentadas ou de pé, atrás, cabelos ao vento, com a força da aragem a bater no rosto, mas sempre, sempre, com o ar radiante de quem vai para a praia para se divertir verdadeiramente. Importa referir, porém, que em termos de transporte nem sempre foi assim. No início, quando os carros eram poucos ou nenhuns, ia-se de embarcação a partir das várias pontes das pescarias que na altura circundavam
a baía na zona da Torre do Tombo, antes da construção da marginal. Escusado será dizer que às vezes havia gente que enjoava no caminho e estragava a sua festa.

Mas voltemos aos anos 50. Chegados à Praia Amélia, era geralmente para a Pescaria de João Duarte que as pessoas se dirigiam. Verdade seja dita, João Duarte era de facto um homem como uma mentalidade aberta, uma vez que permitia que toda aquela gente, quase por sistema, invadisse as instalações da sua pescaria aos fins de semana, desde a zona destinada aos tanques de salga até ao extremo da ponte. A ponte da pescaria de Joao Duarte era de facto um grande atractivo para os mais novos, que, assim que chejavam a Praia Amelia corriam em direcao a ela para se atiravam ao mar em mergulhos acrobáticos e saltos mortais (na zona havia um fundão), mostrando deste modo as suas habilidades. Uns tomavam banhos de mar mesmo ali junto a ponte, na zona do fundao, outros partiam em correria louca pela praia fora para se atirarem às altas ondas do mar, que um pouco mais adiante sempre se faziam sentir, enquanto outros ficavam espalhados por aqui e por ali, deitados na areia da praia a tomar banhos de sol, ou conversando, todos a aguardando a hora do saboroso «repasto» e da confraternização geral.

Recordo que uma das caldeiradas preferidas na época em Moçâmedes era a de corvina , peixe que se prestava muito a este tipo de refeição, que muitas vezes levava, em vez de azeite, o óleo de palma, para além do imprescinsível piri-piri... O acompanhamento era à boa maneira africana, uma «piroada» de farinha de milho amarelo. Era de comer e chorar por mais! E se a caldeirada em vez de corvina, fosse de barbelas de corvina, tanto melhor. A variedade de peixes também era uma opção.

A partir da década de 60, a prática das almoçaradas na Praia Amélia caiu em desuso, ficando delas a grata recordação de insquecíveis momentos de convívio que mobilizaram durante décadas, gente todas as idades, familiares e amigos. Não obstante esta praia continuou a receber como sempre os veraneantes e os amantes da pesca desportiva e submarina, que não se cansavam de se dirigirem para ali, ou para outras praias da zona, tais como a Praia das Barreiras e a Praia Azul.

04 outubro 2008

Escola particular do Cabo Almeida na Torre do Tombo: década de 40















Havia na Torre do Tombo um Cabo da Guarda Fiscal (reformado), pessoa culta para a época, que dava explicações a crianças pequenas até à 4ª classe, na sua casa no bairro conhecido por «Bairro Feio», na rua onde ficavam as últimas casas, já de costas para o deserto (Rua Ponce Leão). Chamava-se Caetano José de Almeida, mais conhecido pelo Cabo Almeida da Guarda Fiscal, que fez parte da Comissão Organizadora para a criação do Sport Lisboa e Moçâmedes (1ª denominação do Sport Moçâmedes e Benfica), juntamente com Armando Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva, Júlio Andrade e João de Almeida, todos dissidentes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e todos residentes na Torre do Tombo, bairro onde o Benfica teve a sua primeira sede em 10 de Setembro de 1936. Mais tarde José Caetano de Almeida acabaria por ser excluído da referida lista, por motivos que não vou aqui referir.

Esta foto foi tirada por volta de 1947 e reconheço algumas das crianças que aqui estão, entre elas, em cima, à dt. o irmãos Lopes?, ao centro o Zé Duarte e irmão(ambos de boné ao centrio) tendo ao lado o Carlos Lisboa, e um pouco atrás e à dt. os irmãos Esteves, o Pedro Eusébio (atrás) o Manuel Cambuta (o 1º sentado à esq.), e as meninas ao centro parecem-me as primas Ildete Bagarrão, Antonieta Bagarrão, Claudete Bagarrão e Eduarda Vicente.

03 outubro 2008

Era assim a estrada antiga, através da Serra da Chela, de Moçâmedes para o Lubango: anos 50




Estas fotos mostram-nos bem como era a  estrada que ligava, através da Serra da Chela, as cidades de Moçâmedes e Sá-da-Bandeira, com o pormenor curioso de ter sido tirada por alguém que nesse dia (década de 50 do século passado) tivera alí um acidente com a sua carrinha, como se pode verificar. Trata-se de José Vicente Arvela, residente na cidade de Moçâmedes.

Sem dúvidas, se através da Leba, o trajecto é de suspender a respiração, o que seria nestes tempos em que as estradas apresentavam o aspecto que aqui vemos? O casal proprietário desta carrinha, como se pode ver clicando na 2ª foto para ampliar, naquele tempo em que não existiam telemóveis, nada mais pôde fazer senão ficar ali parado à espera de alguém de passagem que os pudesse socorrer, enquanto tentavam evitar, através de cordas amarradas a àrvores e às rochas, que a mesma se despenhasse precipicio abaixo.

Esta foto também permite imaginar  a odisseia dos primeiros grupos de povoadores portugueses, que, saídos do Funchal (Ilha da Madeira), no navio  India, em Outubro de 1884, desembarcaram em Moçâmedes após mês e meio de penosa viagem, para em seguida, e mais penosamente ainda,  fazerem a travessia do deserto e escalarem a Chela a pé,  em tipoias, ou em carros puxados por bois, animados apenas pela esperança de encontrar nas terras altas da Huila  (planalto de Mossãmedes) um futuro melhor que a pátria-mãe lhes negava.

Até à inauguração da estrada através da Leba, no início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro e que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais…

Sem dúvidas, esta estrada que aqui vemos foi até ao início da década de 70 uma autêntica barreiras ao progresso da região de Moçâmedes (Namibe) que ficava bloqueada numa periferia, entalada entre o deserto e o mar, prejudicada na colocação nos mercados de produtos derivados da pesca, no incremento do turismo, nas relações comerciais, etc. etc. Após a conclusão da estrada através da Leba passou a verificar-se uma maior rentabilidade na colocação de peixe congelado em Sá-da-Bandeira (Lubango), uma vez que os carros saiam de Moçâmedes, às 7 manhã e às 9,3o o pescado já se encontrava à venda nas bancas das peixarias daquela cidade, passou a haver um muito menor desgaste ao nível dos camiões e carros ligeiros (pneus, suspensão, etc.) e um maior intercâmbio turístico entre as duas cidades, sobretudo na época balnear, e por ocasião das Festas do Mar, etc. etc.

Lamentavelmente, o potencialmente rico território de Angola só começou verdadeiramente a desenvolver-se após os trágicos acontecimentos perpretados pela UPA, nas fazendas do norte de Angola em 1961, quando Salazar, optando pela guerra, lançou o grito de alarme «Para Angola, rapidamente e em força...». Portanto em condições que não deixavam antever nada de bom no futuro para as populações brancas, na sua maioria gente pacifica que ali trabalhava e por amor à terra, ali enterrava o fruto do seu trabalho.

Foi a partir daí que a par de uma situação de guerra que durou 13 longos anos, e que poderia ter sido evitada, ao mesmo tempo que Portugal procurava consolidar a sua presença em Angola e cativar as populações indígenas, se assistiu a um autêntico «boom» na economia do território, com a abertura a capitais estrangeiros, o alargamento e integração do mercado interno, a valorização dos recursos naturais, o desenvolvimento da produção industrial e agrícola, a implementação de obras públicas e de fomento, a multiplicação de vias de comunicação, estradas, pontes, linhas férreas, etc. etc. Durante este período assistiu-se também a um esforço  enorme para levar a escola a todos os cantos de Angola, beneficiando, finalmente, neste campo, as populações indígenas. Mas era tarde demais!

Foi nesse contexto de mudança que em meados da década de 60 tiveram inicio os estudos para a construção da estrada que ficou conhecida por estrada da Leba, essa obra colossal da autoria do engenheiro Edgar Cardoso que concebeu o percurso da extraordinária estrada projectada no serpentear duma altitude colossal e que nos leva da cidade do Lubango através do deserto do Namibe, a Moçâmedes e ao mar, e cuja inauguração viria a acontecer já nas vésperas da independência de Angola, em 1974, sendo considerada uma das realizações mais emblemáticas de Angola.
Outro filme sobre os ataques da UPA/1961



 PLANANDO VOU...


QUANDO VOLTAR AO ALTO DA CHELA,BEM DE CIMA DO MAIS ALTO MIRADOURO,
VOU LANÇAR.ME, ASSIM, E VOU À VELA,POR AQUELE COLOSSAL SORVEDOURO

POR CIMA DA BIBALA, TODO ESTICADO,A PLANAR, SEMPRE EM FRENTE, PASSAREI O MUNHINO, A PEDRA GRANDE E EMBALADO,O AR QUENTE DO DESERTO SOBREVOAREI

JÁ DISTINGO LÁ EM BAIXO TERRAS DO GIRAUL, AQUELE PEQUENO OÁSIS SEMPRE ESVERDEADO,

DEPOIS O AZUL DO MAR, A PONTA DO PAU DO SUL, A FORTALEZA, A BAIA, E O PORTO DO SACO AO LADO

RODEEI A CIDADE, RUAS, LARGOS E TRAVESSAS, A CADA

HÁ GENTE, EM MULTIDÃO, NA PRAIA SE ACUMULANDO
OUTRO TANTO SEGUE PRÓ AEROPORTO, ÀS AVESSAS.

ESCOLHO, PARA AMARAR, A PRAIA DA MIRAGEM. NO SILÊNCIO, LÁ EM BAIXO, POSSO OUVIR O MARULHAR

E DESFAZER DAS ONDAS NO SEU CONSTANTE VAI-VEME, NUM POENTE DE FOGO, CAIO DE PARAQUEDA NO MAR...

NECO
....................




Colégio Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes
















Grupo de alunas, com os respectivos professores e familiares, do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes (Colégio das Madres), 1ªs. classes do Primário - 1966 /67??

Reconhece-se: Padre Dinis
, ?; ?; Priscila; Mena Bajouca; Filomena Simões; Isabel Gomes;. Neves; Anabela Pedrinho;Isabel Jorge/Belucha; ?; ?;Niki Jorge; Isaura;Nanda Ferreira; Joana Lisboa; Edna Branca ;Rosário Ilha ; Ani Figueiredo;
Mães ou familiares: Antonieta Bagarrão Lisboa (Dédé); Edite Gomes; Aida Ferreira; Gertrudes Gomes; Lurdes Ilha Madres: Moita ; Correia; ??
Foto gentilmente cedida por Pedro Ilha.



https://www.youtube.com/watch?v=zO9auW89AXM

01 outubro 2008

Finalistas da Escola Comercial Bartolomeu Dias em Porto Alexandre : ano lectivo 1973/1974
























































Finalistas da ECBD ano lectivo 1973/1974.
in MAZUNGUE
Clicar aqui para ver mais fotos e Relatório da Excursão a Luanda e outras paragens de Angola de finalistas dos Cursos Comercial e Formação Feminina do ano Lectivo 1973/1974, excursão essa feita num autocarro de carreira da EVA (Empresa de Viação de Angola) alugado pelos alunos.
Fical aqui alguns nomes e algumas das alunas destas fotos: Arlete Trocado (Leta Xanduca), Rosita, Nandita Cardoso, Zery Prazeres...
Quanto aos restantes alunos e alunas, espero a vossa colaboração em comentários, OK?