29 outubro 2008

O complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica: uma obra arrancada a ferros...




































































1ª foto: O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de construção.

2ª foto: Mário António Guedes da Silva (Tesoureiro) e Lourdino F. Tendinha (Presidente da Assembleia geral) expõem ao Presidente do Conselho Provincial de Educação Física, major Fausto Simões, o plano de obras para o novo complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica. Foto tirada em 08.11.1959.


3ª foto: Os abnegados dirigentes do Sport Moçâmedes e Benfica, Luís de Sousa Simão, João Maurício, João R. Trindade e Mário António Guedes da Silva - que convictamente procuraram levar para a frente o projecto da construção do seu Complexo Desportivo - cumprimentam o então Governador Geral de Angola, Horácio de Sá Viana Rebelo que no decurso de uma visita ao Distrito aproveitara para se inteirar do andamento das obras. (foto tirada em 13.03.1959).

4ª foto: O campo de jogos do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).


5ª foto: o aspecto exterior do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).


O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de constução, uma construção «arrancada a ferros» por falta de disponibilidade financeira. Em consequência, o ambicionado projecto de um punhado de benfiquistas «ferrenhos» ficou por terminar, incluindo a parte que iria constituir a sede directiva e administrativa do clube. Estas tiverem que passar a funcionar, provisoriamente e à espera de melhores dias, nos espaços inferiores das bancadas que foi aproveitado para o efeito.

Apesar da riqueza de Angola, e do mito da «árvore das patacas», só com muito esforço, muita luta e muita dedicação por parte de dirigentes e atletas, os Clubes desportivos conseguiam subsistir. Sem quaisquer subsídios por parte do Estado nem das Câmaras Municipais, os Clubes mantinham-se financeiramente através das pequenas quotizações dos seus associados, do precário produto dos jogos, e pouco mais. Neste contexto, era sempre uma aventura, para os dirigentes dos clubes, enveredarem por quaisquer melhoramentos que os viesse a beneficiar, bem como ao Desporto e à Cidade em geral, uma vez que não possuíam uma base financeira estável.

Foi por uma destas aventuras que enveredou a Direcção do Sport Moçâmedes e Benfica, quando,
no ano de 1957, a 11 de Março, após várias reuniões levadas a cabo para o efeito, a sua Direcção resolveu empossar uma «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» constituída pelos seguintes elementos: Intendente José da Silva Vigário (Presidente), Gaspar Gonçalo Madeira (Vice-Presidente), Mário António Gomes Guedes da Silva (Secretário), João Soares (Vogal), Arménio Joaquim Lemos (Vogal), Ernesto do Oliveira (Vogal), José Alberto Pereira Monteiro (Vogal) e Pedro Lopes da Silva (Vogal). O Benfica não possuía nem uma sede nem um campo de jogos com as condições minimamente aceitáveis e muito menos de acordo com a excelência dos seus atletas, como ficara comprovado no ano de 1956, com as vitórias alcançadas nas modalidades de basquetebol feminino e masculino

Criada a Comissão, em seguida, e por deliberação de 22 de Março de 1957, são iniciadas diversas campanhas tendo em vista a angariação de fundos entre a população, industriais e comerciantes. Outras resoluções se seguiram quanto à aquisição do terreno, projectos, cálculos de betão, exposição ao Governador Geral de Angola solicitando a comparticipação no investimento, etc., etc.. Foi assim que começaram a surgir os primeiros fundos e foi possível arrematar o terreno com cerca de 4900 mts 2 por 16.802$10 à Câmara Municipal de Moçâmedes e partir para a elaboração do projecto que incluía o parque de jogos e o edifício-sede, da autoria do desenhador-técnico, António Coelho. A Câmara Municipal da cidade apenas ofereceu as primeiras carradas de areia, e Gaspar Gonçalo Madeira, membro da «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» prontificou-se a assegurar a cobertura dos camarotes e a fornecer todo o ferro necessário para a respectiva construção a preço do custo. O produto das subsequentes angariações de fundos permitiu erguer as paredes de todo esse complexo. O sonho dos benfiquistas de um estádio completamente circundado de bancadas e camarotes com a capacidade de cerca de 4 mil pessoas sentadas, estava finalmente em marcha... Faltava, porém, para que a obra pudesse avançar o subsídio do Governo Geral, e foi perante essa necessidade que Mário António Guedes da Silva foi levado a deslocar-se a Luanda para angariar também alí donativos, tendo regressado com a quantia de 20 mil escudos que foi imediatamente aplicada.

Esgotados todos os recursos, e com a obra em risco de parar,
em 19.11.1957 foi apresentada uma 2ª exposição ao Governo Geral de Angola, desta vez despachada favoravelmente, tendo sido atribuído um subsídio de 150 mil escudos. Como refere Mário Guedes no seu livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola»: «trilhava-se diariamente os caminhos da fé para se chegar à ilha dos sonhos»...

No ano de 1958, perante o reconhecimento dos esforços efectuados, o Governo Geral de Angola acabaria por reforçar a verba inicial com mais 1o0 contos, perfazendo um total de 250 mil escudos. Contudo esta verba era ainda insuficiente e não permitia avançar para a conclusão do empreendimento, e no ano de 1959,
no decurso da visita do Governador Geral de Angola a Moçâmedes e ao complexo desportivo a 13.03.1959, uma 3ª e última verba foi concedida, no valor de 150 mil escudos, face ao reconhecimento dos trabalhos já executados.
Esta verba permitiu a conclusão do campo de jogos, porém não permitiu a total concretização do sonho:
a construção da Sede, integrada no complexo. Faltava ainda uma nova etapa bem como verbas mais elevados, situação que daí para a frente se tornara ainda mais difícil para o Benfica. Era com estas mentalidades que se vivia na época. Se alguma coisa era feita, era, como neste caso, graças ao esforço de um punhado de abnegados dirigentes que conseguiram o complexo, inacabado embora, mas funcional e mais de acordo com as aspirações dos seus atletas, afinal os grandes inspiradores deste projecto!

Entretanto
os tempos mudaram...
Ficam mais estas memórias para a história da nossa cidade!

(texto elaborado a partir da leitura do livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes», de Mário Guedes da Silva. Imagens do mesmo livro (as 3 últimas)

Para ver mais sobre Desporto em Moçâmedes, até 1975:
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Créditos de imagem: As três primeiras fotos: livro
«Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola» de Mário António Guedes da Silva
As 4ª e 5ª fotos foram gentilmente cedidas por Telmo Ascenso.

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