03 outubro 2008

Era assim a estrada antiga, através da Serra da Chela, de Moçâmedes para o Lubango: anos 50




Estas fotos mostram-nos bem como era a  estrada que ligava, através da Serra da Chela, as cidades de Moçâmedes e Sá-da-Bandeira, com o pormenor curioso de ter sido tirada por alguém que nesse dia (década de 50 do século passado) tivera alí um acidente com a sua carrinha, como se pode verificar. Trata-se de José Vicente Arvela, residente na cidade de Moçâmedes.

Sem dúvidas, se através da Leba, o trajecto é de suspender a respiração, o que seria nestes tempos em que as estradas apresentavam o aspecto que aqui vemos? O casal proprietário desta carrinha, como se pode ver clicando na 2ª foto para ampliar, naquele tempo em que não existiam telemóveis, nada mais pôde fazer senão ficar ali parado à espera de alguém de passagem que os pudesse socorrer, enquanto tentavam evitar, através de cordas amarradas a àrvores e às rochas, que a mesma se despenhasse precipicio abaixo.

Esta foto também permite imaginar  a odisseia dos primeiros grupos de povoadores portugueses, que, saídos do Funchal (Ilha da Madeira), no navio  India, em Outubro de 1884, desembarcaram em Moçâmedes após mês e meio de penosa viagem, para em seguida, e mais penosamente ainda,  fazerem a travessia do deserto e escalarem a Chela a pé,  em tipoias, ou em carros puxados por bois, animados apenas pela esperança de encontrar nas terras altas da Huila  (planalto de Mossãmedes) um futuro melhor que a pátria-mãe lhes negava.

Até à inauguração da estrada através da Leba, no início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro e que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais…

Sem dúvidas, esta estrada que aqui vemos foi até ao início da década de 70 uma autêntica barreiras ao progresso da região de Moçâmedes (Namibe) que ficava bloqueada numa periferia, entalada entre o deserto e o mar, prejudicada na colocação nos mercados de produtos derivados da pesca, no incremento do turismo, nas relações comerciais, etc. etc. Após a conclusão da estrada através da Leba passou a verificar-se uma maior rentabilidade na colocação de peixe congelado em Sá-da-Bandeira (Lubango), uma vez que os carros saiam de Moçâmedes, às 7 manhã e às 9,3o o pescado já se encontrava à venda nas bancas das peixarias daquela cidade, passou a haver um muito menor desgaste ao nível dos camiões e carros ligeiros (pneus, suspensão, etc.) e um maior intercâmbio turístico entre as duas cidades, sobretudo na época balnear, e por ocasião das Festas do Mar, etc. etc.

Lamentavelmente, o potencialmente rico território de Angola só começou verdadeiramente a desenvolver-se após os trágicos acontecimentos perpretados pela UPA, nas fazendas do norte de Angola em 1961, quando Salazar, optando pela guerra, lançou o grito de alarme «Para Angola, rapidamente e em força...». Portanto em condições que não deixavam antever nada de bom no futuro para as populações brancas, na sua maioria gente pacifica que ali trabalhava e por amor à terra, ali enterrava o fruto do seu trabalho.

Foi a partir daí que a par de uma situação de guerra que durou 13 longos anos, e que poderia ter sido evitada, ao mesmo tempo que Portugal procurava consolidar a sua presença em Angola e cativar as populações indígenas, se assistiu a um autêntico «boom» na economia do território, com a abertura a capitais estrangeiros, o alargamento e integração do mercado interno, a valorização dos recursos naturais, o desenvolvimento da produção industrial e agrícola, a implementação de obras públicas e de fomento, a multiplicação de vias de comunicação, estradas, pontes, linhas férreas, etc. etc. Durante este período assistiu-se também a um esforço  enorme para levar a escola a todos os cantos de Angola, beneficiando, finalmente, neste campo, as populações indígenas. Mas era tarde demais!

Foi nesse contexto de mudança que em meados da década de 60 tiveram inicio os estudos para a construção da estrada que ficou conhecida por estrada da Leba, essa obra colossal da autoria do engenheiro Edgar Cardoso que concebeu o percurso da extraordinária estrada projectada no serpentear duma altitude colossal e que nos leva da cidade do Lubango através do deserto do Namibe, a Moçâmedes e ao mar, e cuja inauguração viria a acontecer já nas vésperas da independência de Angola, em 1974, sendo considerada uma das realizações mais emblemáticas de Angola.
Outro filme sobre os ataques da UPA/1961



 PLANANDO VOU...


QUANDO VOLTAR AO ALTO DA CHELA,BEM DE CIMA DO MAIS ALTO MIRADOURO,
VOU LANÇAR.ME, ASSIM, E VOU À VELA,POR AQUELE COLOSSAL SORVEDOURO

POR CIMA DA BIBALA, TODO ESTICADO,A PLANAR, SEMPRE EM FRENTE, PASSAREI O MUNHINO, A PEDRA GRANDE E EMBALADO,O AR QUENTE DO DESERTO SOBREVOAREI

JÁ DISTINGO LÁ EM BAIXO TERRAS DO GIRAUL, AQUELE PEQUENO OÁSIS SEMPRE ESVERDEADO,

DEPOIS O AZUL DO MAR, A PONTA DO PAU DO SUL, A FORTALEZA, A BAIA, E O PORTO DO SACO AO LADO

RODEEI A CIDADE, RUAS, LARGOS E TRAVESSAS, A CADA

HÁ GENTE, EM MULTIDÃO, NA PRAIA SE ACUMULANDO
OUTRO TANTO SEGUE PRÓ AEROPORTO, ÀS AVESSAS.

ESCOLHO, PARA AMARAR, A PRAIA DA MIRAGEM. NO SILÊNCIO, LÁ EM BAIXO, POSSO OUVIR O MARULHAR

E DESFAZER DAS ONDAS NO SEU CONSTANTE VAI-VEME, NUM POENTE DE FOGO, CAIO DE PARAQUEDA NO MAR...

NECO
....................




1 comentário:

Anónimo disse...

Era uma epopeia subir ou descer a Chela. Fi-lo ainda menina. A Leba foi um avanço considerável!
De facto, o maior desenvolvimento de Angola ocorreu a partir de 1961. No entanto, também Portugal estava atrasado. Em 1983, a estrada do Marão (Amarante-Vila Real) era pouco melhor que a Chela e o tráfego bastante superior.

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