18 novembro 2008

Desporto escolar em Moçâmedes (Namibe, Angola) no âmbito da Mocidade Portuguesa Feminina: entre fins 1969 e meados 1970



Cecílio Moreira (de gravata) rodeado por um grupo de alunos da Escola Prática de Pesca e Comércio 
de Moçâmedes, em finais dos anos 1940.  Reconheço, entre outros, Tito Gouveia (filho), em cima, à esq. Bento
?, Mário Rocha?, ?, e Amadeu Pereira?


A Mocidade Portuguesa e o Desporto em Moçâmedes

1. A Mocidade Portuguesa Masculina

Foi nos finais da década de 40 que tiveram inicio as aulas de Educação Física na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no âmbito da Mocidade Portuguesa, tendo como professor Emídio Cecílio Moreira.

Cecílio Moreira era ainda um jovem de faces rosadas quando, na década de 40 chegou a Moçâmedes ido da Metrópole, integrado na Marinha portuguesa e vinculado à Capitania do Porto Moçâmedes, tendo em seguida enveredado pela carreira docente como professor de Ginástica  e de Trabalhos Manuais da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 
Cecílio Moreira, na Metrópole, fora campeão nacional de box de peso médio, talvez este facto tivesse influenciado a  sua carreira profissional e ao mesmo tempo contribuido para a grande colaboração que prestou à cidade na expansão das actividades desportivas nos clubes locais. Foi o caso do Sport Moçâmedes e Benfica, que viria a criar as suas primeiras equipas de basquetebol nas classes masculina e feminina, na sequência de aulas de Ginástica por si ministradas aos atletas do clube.
 

 Uma equipa de voleibol da Escola Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes
no início dos anos 1950. Em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, ? José Manuel Frota e Soares. Embaixo: Caetano, Fernando Morais e ?



Uma equipa representativa da MP nos campeonatos distritais, com elementos
recrutados das equipas daquela modalidade do Benfica e do Atlético de Moçâmedes

Mas as actividades da MPM,  primeiro na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, mais tarde da Escola Comercial e Industrial de Moçâmede, e ainda mais tarde na Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, não se limitaram à Educação Física (os tradicionais exercícios ginásticos). Elas também se estenderam a outras modalidades desportivas, como futebol, voleibol, basquetebol, o hóquei em patins, ainda que estas não passassem de experiências de curta duração, dado o grande número de clubes existentes em Moçâmedes que as praticavam. Levados a sério, sim, nesta época, e em épocas anteriores, e quase até aos momentos finais da colonização portuguesa, foram os desportos náuticos que tiveram o seu início na década de 40 (finais), primeiro na classe de «Sharpie e mais tarde, na década de 50 e 60, na classe de «Snipes», e cujos velejadores-estudantes pertenciam ao «Centro Nautico» da Mocidade Portuguesa. O instrutor desta modalidade, como não podia deixar de ser, era o professor Emídio Cecílio Moreira.



  Vela «sharps», em 1950.
A velejar Mário Guedes e António Martins Nunes (Cowboy).

 
  Perspectiva da Praia das Miragens com «snypes» e velejadores da Mocidade portuguesa. 
Finais da década de 50.


A vela foi outra das modalidades desportivas, esta sim, grandemente beneficianda com o concurso da Mocidade Portuguesa.
A baía de Moçâmedes tinha óptimas condições para a prática da vela devido aos ventos não muito fortes que facilitavam os treinamentos dos jovens estudantes, e pelas «regatas» que alí por vezes ocorriam, por ocasião das Festas anuais da Cidade, a «4 de Agosto», e mais tarde durante «as Festas do Mar», «regatas» que eram entusiasticamente acompanhadas pela população que se concentrava na Praia das Miragens. Aliás foi para Moçâmedes que veio o título mais honroso alcançado em 1956, em Luanda, em «snipes» por Fausto Ferreira Gomes, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos da Mocidade Portuguesa: Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes. 

Quanto à modalidade de «REMO» esta coneçou por ser praticada em Moçâmedes, nos velhos tempos da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e foi perdendo o entusiasmo dos jovens uma vez que existiam somente dois barcos, para além da «guiga», um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, um «Yolle» do Centro Nautico da Mocidade Portuguesa.
O desporto era fundamental para a Mocidade Portuguesa devido à disciplina que esta actividade implica. A Mocidade Portuguesa, criada em 19 de Maio de 1936 era uma organização juvenil que procurava enraizar uma nova mentalidade ao serviço do Estado Novo que defendesse a trilogia «Deus, Pátria e Família». Para isso era necessário estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física da juventude, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever cumprido. A ela deveriam pertencer, obrigatoriamente, os jovens dos sete aos catorze anos. A MPM encontrava-se dividida por quatro escalões etários: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14 anos), os vanguardistas (dos 14 aos 17 anos) e os cadetes (dos 17 aos 25 anos).É evidente que a Mocidade Portuguesa não era inocente. Eram estruturas que de inicio serviam o sistema educativo e divulgavam doutrinas e princípios cujos objectivos eram o de formar consciências de acordo com ideologia do regime, identificada com a tradição, a obediência, o respeito pela autoridade, o patriotismo e a aversão à modernidade estrangeira, etc., etc.
De início a Organização abrangia toda a juventude escolar ou não, contudo acabou por recrutar quase exclusivamente os alunos dos ensinos primários e secundário, e com o pós Guerra (1939-1945)  foi perdendo o caracter  para-militar que detinha desde o seu início  sendo extinta após o 25 de Abril de 1974.

Na década de 1950  ainda que a juventude continuasse a ser  de certo modo politica e ideológicamente  manipulada, era-o subrepticiamente, e não tinha disso a consciência. O que  contava para a juventude, na Mocidade Portuguesa, era a parte lúdica, e nada mais. Através da MPM tinham acesso a muitas coisas gratuitas que os jovens de agora para as terem tem que as pagar a bom preço, e nesse aspecto a Mocidade Portuguesa era camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. Através da MP ganhavam amigos, passavam momentos agradáveis, nos acampamentos, nos passeios, no desporto, ou seja, em actividades que as posses da maioria não permitiriam penetrar. E não creio que os objectivos de inculcação ideológico-políticos da MP tenham tido algum sucesso entre os jovens da minha terra. Em termos factuais, o que sei é que eles souberam aproveitar aquilo que era bom na MP, ou seja os já citados aspectos lúdicos; e que houve alguns que nos anos 60 se tornaram mesmo activistas contra o regime de Salazar e do Estado Novo quando tiveram que partir para a Metrópole para prosseguirem os estudos para níveis superiores, uma vez que na altura Angola não possuía uma Universidade. Curiosamente, todos eles faziam parte de uma segunda geração de brancos nascidos em Angola, todos eles , portanto, rotulados à nascença como euro-africanos ou «brancos de 2ª». Curiosamente também muitos deles estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Perduraram até à década de 60, normas que visavam distinguir os filhos de portugueses originários de Portugal (reinóis), dos brancos nascidos em Angola para lhes limitar os direitos civis, reflexo da desconfiança e suspeição em relação aos naturais das colónias. Estes não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia a nível superior na administração pública colonial, etc., etc. O próprio facto de não haver em Angola uma Universidade era significativo...  







Equipa de basquetebol feminino da Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu 
de Moçâmedes
Anos 60.


 Equipas de Badmington.Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu de Moçâmedes
 
Excursão à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina. ECIIDH

  
A Mocidade Portuguesa Feminina foi Criada em Portugal, em 1937 com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã, sempre pronta a contribuir para o bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens, ou seja, como veículos de transmissão dos valores e comportamentos ditados pelo regime de Salazar de acordo com os ditames da trilogia "Deus, Pátria e Familia". Assim descreve esta organização estudantil do Estado Novo a historiadora Irene Flunser Pimentel, que acrescenta, ser a MPF uma organização que dava indicações inclusivamente sobre o fato de banho oficial com decote pouco generoso e saia não muito curta, sobre a atitude a ter em casa com o marido, conselhos sobre livros fundamentais e outros proibidos aos olhos das jovens, e a aprendizagem das virtudes dos grandes heróis nacionais como D. Filipa, etc.

 
Naquele tempo os ideólogos do regime como veículo indispensável à prossecução do programa do Estado Novo. Aliás, no ano a seguir ao golpe do 28 de Maio de 1926 e à «ditadura militar», logo o Estado Novo se apressou a estabelecer através do regime jurídico algumas das obrigações em relação à mulher, tais como regime de separação de sexos nas escolas, a introdução da disciplina de Economia Doméstica incidindo nas tarefas de "coser, bordar, cozinhar, olhar pelo asseio da casa, talhar, cozer e conservar as peças de vestuário da sua família, considerar o valor da higiene, etc. E em 1931 se é reconhecido o direito de voto foi apenas àquelas que possuíam cursos superiores ou secundários, enquanto aos homens bastaria saber ler e escrever. Também o Código do Processo Civil de 1939 veio submeter ainda mais a mulher à tutela do marido, interditando-lhes o poder de afiançar, exercer comércio, viajar para fora do país, celebrar contratos e administrar bens sem a autorização escrita do marido.

Inserida neste contexto, a
Mocidade Portuguesa Feminina o objectivo prioritário de estimular nas jovens portuguesas a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social no amor de Deus, da Pátria e da Família, tendo a biologia vinda em socorro da ideologia através da apresentação desse argumento infalível que é a capacidade da mulher gerar mais «filhos da Nação", de os educar assimilando para tal o programa instituído e dispensando toda e quaisquer pretensões de autonomia, fazendo lembrar o que passava noutros regimes ditatoriais europeus tais como a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco.

Já na década de 1960, houve como que  um reoganizar da MP masculina e feminina. Existem fotos dos alunos do secundário de Moçâmedes e de Porto-Alexandre, tiradas na década de 60 e na década de 70,  que nos motram  como a MP see encontrava activa, mesmo mais activa que nunca, com especial empenho ao nível do desporto.

Quanto à Mocidade Portuguesa Feminina esta foi uma organização serôdia entre nós raparigas moçamedenses daquele tempo, veriicando-se como atrás foi dito uma grande actividade  nas décadas de 1060 e 1970.  Eu própria frequentei em Moçâmedes o secundário na segunda metade da década de 1950 e ao nível da Escola que frequentava, a Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, nunca me dei conta da existência de qualquer actividade feminina levada a cabo por aquela organização. Nunca vesti nem vi colegas minhas envergarem fardas, não obstante  tive acesso a fotos de finais dos anos 1940 que mostravam desfiles da MP feminina, em saudação olímpica, desfilando pelas ruas da vizinha de Sá da Bandeira. 

E em relação a actividades desportivas escolares, na segunda metade da década de 1940  chegaram a ter a disciplina de Educação Física, prática que  quando muito perdurou pelo menos até 1950, pois já não existia esta disciplina quando frequentei a Escola Comercial de Moçâmedes que veio substituir a Escola de Pesca.

Concluo que entre nós a MPF, excepto talvez nas décadas de 1940 e inicios de 1950, a MP masculina que frequentava o secundário, não demonstra objectivos de inculcação ideológica de que Irene Flunser Pimentel nos fala quanto à MP metropolitana, e que até aos finais do Império,  se encontrava reduzida à actividades desportivas e lúdidas. Aliás, segundo a própria história da MP, a partir de meados da década de 50, na Metróple, já a organização havia começado a perder o seu anterior carácter de obrigatoriedade e de otganização para-militar. Não obstante, o Curso de Formação Feminina, Disciplina de Lavores no Ciclo Preparatório, foi uma realidade defebdida peka MPF, veiculava pois a ideologia  do Estado Novo em relação à mulher.

Quanto ao resto,
imposição de
decote pouco generoso, saia não muito curta, etc. etc., só posso dizer que as jovens da minha geração não deram por isso. Seguiamos a moda que chegava a nós atravé da Revista BURDA. Praticavamos a modalidade de basquetebol com curtos calções e treinavamos nos nossos clubes jogando contra equipas constituídas por rapazes sem quaisquer dessas inibições de que nos fala a referida historiadora. Aliás, a década de 1950 foi entre nós de grande actividade  desportiv promovida pelos vários clubes da cidade, altamente ouganizadosm que pouco espaço deixavam à MP. 






Como referi nas décadas de 1960 até 1975, a MPF teve realmente um grande incremento entre os jovens estudantes de Moçâmedes, de ambos os sexos, tendo  chegado a organizarem-se torneios provinciais em algumas modalidades como basquetebol, badmington, e outros, realizados fora de portas, excursões incluso à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina, tal como as fotos  testemunham. 

De qualquer modo, a verdade é que os jovens gostavam da MPM e da MPF pela camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. que naquela organização encontravam. Quanto ao resto as mudanças que, entretanto, se foram verificando no  seio da Familia, a instituição basilar da sociedade portuguesa, tal como fora concebida por Salazar e pelo Estado Novo exigiam, nestas décadas já não tanto uma educação que formasse jovens apegadas ao ideal doméstico e ao futuro papel de boas esposas e boas mães capazes de transmitirem aos filhos os princípios ideológicos e os valores morais do Estado Novo, mas também jovens preparadas para se confrontarem com as mudanças que estavam surgindo em toda a parte, saudáveis e fortes para os embates e capazes de manterem uma prole sem degeneração. As décadas de 1950 e 1960, foram aquelas em que se verificou entre nós, a saída em massa das mulheres para o mundo do trabalho remunerador.

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