05 novembro 2011

O passeio domingueiro às "Hortas" em Moçâmedes (actual Namibe). A "Horta" do Torres. A romaria anual à Capela do Quipola.



 
Começo por colocar em 1º lugar as fotos mais antigas a que tive acesso sobre o  assunto em questão na Mossâmedes (depois Moçâmedes) daquele tempo (esta, de principios do século XX, cedida a LaySilva, por Antunes da Cunha). Trata-se, na maioria,  de um grupo crianças e jovens de origem europeia, cerimoniosamente vestidos, preparando-se para serem levadas, no interior de uma carroça de tipo boer, para uma qualquer  festa, talvez mesmo para um passeio às Hortas, ou em romaria à capela de Nossa Senhora do Quipola, como acontecia no dia 8 de Dezembro de cada ano.  Tirada por volta de 1910/20 (?)

Elementos da mesma família, numa das Hortas de Moçâmedes, uma familia bem posicionada socialmente. Mas quero lembrar que naquele tempo, até mesmo para as caçadas no deserto do Namibe, as pessoas de uma pequena burguesia que ali se desenvolveu, vestiam-se como mandava o figurino metroplitano a época. 
  Foto de Antunes da Cunha por via de Lay Silva (Sanzalangola).

 
Hortas de Moçâmedes



"...A 3 kilometros ao norte da villa de Mossâmedes encontra-se a povoação das Hortas, dilicioso oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação, cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes som-bras e parques de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de villegiatura com bellos chales e óptimas casas de campo, banhadas pelas frescas brisas do  mar e onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.

Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do rio Bero, cujo fértil solo se acha occupado por 40 propriedades agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças. Os terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa Vista, e Bemfica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras. As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente, o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão, muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras, macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.

A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas. A distancia de 8 kilometros do rio Bero, caminhando para o norte, encontra-se o valle do rio Giraul, cavado em terreno accidentado por montanhas de grés e gneiss e profundas ravinas escalvadas. Nelle estão estabelecidas 6 propriedades agricolas que produzem : algodão, cana, cará, hortaliças, cereaes e fructas. Estas propriedades luctam com grandes difficuldades por falta d'agua para a irrigação das culturas, sendo necessário nos annos seccos extrahil-a de poços por meio de
bombas centrífugas e estanca-rios movidos a vapor á pro-fundidade de 20 e 31 metros. Produzem annualmente 410 pipas de aguardente."


Outro texto interessante sobre esse Oásis, da obra "Distrito de Mossamedes", 1892, Pereira do Nascimento, J. (Jose), 1861-1913:
 






A "ida às Hortas" começou na Europa como um hábito burguês cultivado nos finais do século XIX, que, com o decorrer do tempo se foi democratizando, e que, como tantos outros, penetrou em Portugal e foi levado para África, neste caso para Moçâmedes, em Angola, através dos colonos que vindos da Metrópole, iam chegando. Imaginemos as primeiras famílias que o cultivaram em Moçâmedes, deslocando-se em carroças puxadas por manadas de bois, de estilo boer, munidas dos seus "comes-e-bebes" destinados aos piqueniques...

Não sou deste tempo, mas recordo que esses piqueniques e essas romarias ainda aconteciam em meados da década de 1950. Era aos domingos, preferencialmente no verão, pois naquele tempo o dia de sábado era dia de trabalho, pelo menos da parte da manhã. Ideologicamente o Estado Novo cultivou 
 

Jovens moçamedenses refrescando-se e divertindo-se no tanque de água da Horta do Torres, no início dos anos 1950. De frente para trás: Mavilde, Fernando Andrade Vieira (com a bola),  Dudu Carvalho, Costinha, Calila, ?, Mário Bagarrão, Maria Augusta Esteves, Carvalho (Caparula), Orlando Salvador (junto do muro),?,?, Na parte exterior do tanque, de frente para trás: ???, Celeste Barbosa, Fernanda Pólvora Dias, Carolina Mangericão, ?, ?, e Luzete Sousa. Foto Salvador

O tanque de água da Horta do Torres, era para os mais jovens um grande atractivo. Destinado ao represamento de água doce para rega das plantações, que era efectuada através de um sistema de valas, etc, este tanque, com a sua forma rectangular, situado ao ar livre, convidava a malta feliz e contente, a umas banhocas e a uns mergulhos, qual piscina olímpica de tratasse.





1951. Euzinha, quando tinha 11 anos e a minha tia Lídia Rosa de Sousa Alcario, posando para a posteridade na Horta do Torres. A tia Lidia vivia em Porto Alexandre onde o marido, poeta alentejano de Moura, Rodrigo Baião Alcario, era chefe da Guarda Fiscal.Foto do meu album. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos.
Uma familia num desses passeios. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos.


Piquenique típico que juntou alguns elementos das familias Mascarenhas, Ferreira e Almeida  À entrada da Horta existia uma grande mesa que ficava a meio de uma rua ladeada por arvores de fruto. Cedida por Margarida Mascarenhas. . Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos

Passeio à Hortas do Torres em meados de 1950. Eu estou nesta foto. Tinha 15 anos. Sou a que estou de pé em cina do banco, ao lado do meu irmão. A familia inteira juntamente com alguns amigos e vizinhos, foi fazer um piquenique para a Horta do Torres como era usual no Verão: Familias Almeida, Ferreira, Matos, Seixal, Ilha, Santos e Bagarrão
 Foto do meu album. Interditas para reprodução em obras e para fins lucrativos
Passeio à Hortas do Torres em meados de 1950. Eu estou nesta foto, à esq. Tinha 15 anos. Ao meu lado a minha avó Maria da Conceição, e Eduarda Vicente, o Guilherme Jardim , a Claudete Bagarrão. À minha frente, a tia Maria do Carmo  (Carminha), e marido, António Gonçalves de Matos. A seguir o João Ilha (Oculos escuros) o Vicente, o Edmundo Seixal ...Foto do meu album. Interditas para reprodução em obras e para fins lucrativos


Passeio à Hortas do Torres em meados de 1950. Eu estou  a meio da foto, à esq. Ao meu lado está o Alberto Miranda que era casado com Lizete Ferreira, e mais próximos, o tio Arnaldo Almeida e Arnaldo Bagarrão, de braço no ar. À dt as irmãs Claudete e Elizabete Bagarrão. Em cima da mesa o pormenor das espigardas (para caçar pássaros?). Foto do meu album. Interditas para reprodução em obras e para fins lucrativos.


Tal como uma romaria ao Quipola, os passeios às Hortas proporcionavam momentos de lazer inesquecíveis que ficaram para sempre gravados nas memórias das gentes de Moçâmedes. Na ida às "Hortas" passeava-se, dançava-se, conversava-se, namorava-se, cantava-se, tocavam-se vários instrumentos (guitarra, bandolim, acordeão, etc. (se houvesse no grupo alguém vocacionado para tal), jogava-se às cartas, descansava-se e até se dormia a sesta (os homens mais velhos...), tudo isto à sombra de grandes àrvores carregadas de saborosas mangas, goiabas, uvas e de outros saborosos frutos de que o solo do Namibe era pródigo em oferecer.

Pormenorizando, diremos que a hora da refeição representava um momento essencial que reunia toda a família e amigos em volta da longa mesa onde eram estendidas várias toalhas e onde cada família colocava o seu «farnel», cada um melhor que o outro, onde nada faltava: croquetes, rissóis, panados, pastéis de massa tenra, frangos corados, sandwiches variadas, queijo, fiambre, paio, bolos, pudins, queques, grades de refrigerantes da fábrica do Pereira Simões (gasosas), e mais adiante no tempo, as deliciosas carbo-cidrais e coca-pinhas, para além das cerveja, vinhos, etc. Um nunca mais acabar de pequenas gulodices que faziam as delícias da garotada.
Abro aqui um parentesis para fazer um elogio às mães de família da minha terra, naquele tempo. Eram senhoras muito prendadas, que sabiam fazer de tudo um pouco, com organização e método, e faziam o dinheiro esticar como boas gestoras que eram do orçamento familiar. Estou a falar desse tempo em que as nossas mães eram donas de casa, inteiramente dedicadas à familia e ao lar.

Quanto à confecção das refeições,  por vezes estas eram levadas de casa já preparadas, outras vezes as famílias levavam consigo um pequeno fogão alimentado a petróleo e os ingredientes necessários, e era alí mesmo, a um cantinho, que se cozinhava algo delicioso que podia bem ser uma caldeirada de peixe fresquinho acabado de pescar do rico mar de Moçâmedes, ou uma outra de cabrito, encomendado de véspera para tal, num dos talhos da cidade, fornecidos por criadores do distrito. Terminada a boa e bem "regada" almoçarada, enquanto as mulheres mais velhas do grupo iam tratando da louça e da arrumação dos cestos, sem pararem por um momento de conversar,  as crianças  divertiam-se à brava, corriam, saltavam, trepavam às àrvores, colhiam frutos com os quais se deliciavam, investigavam todos os recantos das hortas com a curiosidade natural e própria de uma idade que nada deixa escapar, davam os restos da comida aos animais do pequeno zoo, e desfrutavam a valer daqueles momentos de verdadeira «rédea solta».







Passeio à Hortas do Torres em meados de 1950. Também estou nesta foto, juntamente com a Eduarda Vicente e as manas Claudete e Elizabete Bagarrão.. Tinha 15 anos. Tirada nas escadarias do Chalé da Horta do Torres. Do meu album. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos
Gente de Moçâmedes num passeio à Horta do Torres, em meados de 1950. Em cima, da esq para a dt: Etelvina Ferreira, Graciana Martins Nunes, Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Lizete Ferreira. Embaixo; Raquel Nunes, Violete Velhinho e Fernando Miranda. Foto do album de Olimpia Aquino Arvela.  Do meu album. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos


Inicio da década de 1950. Alguns elementos da minha familia. Do meu album. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos
 António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Maria do Carmo Paulo Matos (Carminha), junto de Maria da Purificação Vicente (Jiji) . À dt. Manuela Seixal (Nélita). Embaixo: Alberto Miranda e Maria Lizete Ferreira. 1955.


Horta do Torres vista de fora

A minha "Horta" preferida era a "Horta do Torres" . Ficava na margem esquerda do rio Bero, antes da passagem da ponte sobre o mesmo rio. Eis comonum registo jornalístico, efectuado por ocasião da visita a Moçâmedes, em 1938, do Presidente Carmona, tão fielmente a descreve:
 
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e  mão do homem a orientar e  trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»  Boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162

Mas havia outras "Hortas" nas margens direita e esquerda do Bero, também agradáveis de se visitar, como as do Venâncio Guimarães (Benfica e Boavista, esta no Quipola), a do Costa Santos (Macala), a do Vaz Pereira (um pouco antes do Quipola), a do Martins Pereira (na margem direita do rio), etc.  Mais recente era a Horta de Prazeres Madeira que integrava um palacete que seguindo informação pertencera ao 1º médico de Moçâmedes, o Dr. Lapa e Faro.

As "Hortas" situadas na margem esquerda do Bero tinham a vantagem de facilitar os transportes, sobretudo em épocas  de cheias, antes da construção da ponte, devido às enxurradas que por vezes aconteciam, vindas do planalto, que tornavam problemática a travessia do rio. 
 
Lá para finais dos anos 50 em diante, as "Hortas" passaram a ser um lugar de atracção para grupos de jovens, rapazes e/ou raparigas, que para ali se deslocavam de bicicleta já sem a presença das familias, à guisa de exercício físico ou até mesmo para fazerem um pequeno piquenique.

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Grupo de jovens estudantes, nos finais da década de 60 divertindo-se numa tarde de domingo nas Hortas. Entre eles, reconheço, à esq. Cidália Calão (1ª à esq.) e Miguel (Miguelito, o 4º à esq.. falecido ainda jovem), irmão de Fernanda Barata (Porto Alexandre/Moçâmedes). Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos


 


Reconheço nesta foto, da esq. para a dt, de pé: Lalai Jardim, Nide e Claudete Figueiredo? Sentada reconheço Júlia Castro (a 3ª à dt). Tudo gente do Atlético Clube de Moçâmedes, basquetebolistas ou adeptas do clube. Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos


Quanto aos meios de transporte utilizados, se de início as pessoas eram transportadas para as "Hortas" em carroças puxadas por bois, ou até mesmo em tipoias, lá para finais dos anos 1940, quando os veículos automóveis em Moçâmedes já eram uma realidade, mas ainda não abundavam,  juntavam-se grupos de familiares e  de amigos, quotizavam-se, e faziam-se transportar em carrinhas ou em camionetas de aluguer, de caixa aberta. Acontecia porém, que o trajecto para as Hortas era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das tais carrinhas e camionetas. Ver as 2 fotos a seguir.

 
Familias em camião alugado a caminho das Hortas...Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos

  Eis uma "Camioneta"! Era assim que entre nós era conhecido este tipo de veículo automóvel, de caixa aberta, destinado a transporte de mercadorias,  que nestas ocasiões servia para transportar pessoas, uma vez que nesse tempo não eram muitas as familias  que dispunham de transporte automóvel próprio. Nesta foto encontra-se muita gente conhecida de Moçâmedes e de Sá da Bandeira. Estão aqui elementos das famílias Teixeira, Castro, Sousa, Ferreira e Jardim




 

Familias em camião alugado a caminho das Hortas...
 
Outras vezes organizavam-se passeios à "Praia das Conchas" como foi o caso. Familias Matias, Paulo, Marques, Salvador. Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos
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 Várias famílias (Nascimento, Custódio, Gastão, Passos Marques, Salvador)  num passeio à Hortas em finais de 1950. Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos

Também faziam-se destes encontros em praias como "Praia Amélia" a 5 km do centro da cidade. 



  Várias famílias (Almeida, Mascarenhas, Carequeja, Teixeira...)  num passeio à Hortas em finais de 1950.Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos



Mas havia pessoas que optavam, na sua ida às "Hortas", pelos piqueniques tradicionais, feitos no chão, onde estendiam uma toalha, sobre a qual depositavam os comes e bebes, as guloseimas, etc, e à roda da qual  ficavam sentadas, e ali se mantinham, conversando e divertindo-se, com pausas para pequenos passeios e caminhadas, e assim perfaziam o tempo até que chegasse a hora de regressar a casa. Foto cedida por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos.

 

A entrada das Hortas do Torres, vista do interior, onde podemos ver uma elegante gazela e um guelengue que por ali andava e alguns dos muitos visitantes costumeiros embevecidos com os animais. À esq. vê-se uma parte do chalé do proprietário (foto Salvador). A Horta do Torres foi a que melhor conheci. É pois natural que em relação a ela possua memórias mais vivificadas. Foto cedida por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos.




A ida às"Hortas" constituiu-se, pois, num verdadeiro culto  que perdurou forte, entre nós, pelo menos até finais dos anos 1950. Moçâmedes foi fundada em 1849, e presume-se que este culto foi muito forte desde a fundação até meados do século XX,  altura em que começou a declinar, devido a vários factores que tiveram a sua influência, um dos quais relacionado com a  afirmação do modelo de família nuclear, mais autónoma e individualista, restringida praticamente ao pai, à mãe e a não mais que dois ou três filhos, pois  já nada tinha a ver com a família extensa dos tempos que ficaram para trás, constituída por um grande número de filhos, onde coexistiam 3 gerações, chegando a juntar-se à volta de uma  mesma mesa, em amena confraternização, avós, pais, filhos, netos, bisnetos,  até tios, primos, sobrinhos, e mesmo compadres e amigos...   Contribuíram também para o recuo dessas grandes reuniões familiares que animaram os velhos tempos,  as novas e diversificadas formas de lazer e de  entretenimento que foram penetrando no nosso pequeno burgo, com as inovações surgidas no pós II Grande Guerra (1939-45), que vieram  alterar  usos e costumes antigos, como este, que em breve não passariam de gratas recordações em velhos albúns e retratos de família.  

Quanto às novas formas de lazer que tiveram lugar, estou a lembrar-me dessa famosa década de 1950 em que num repente a pacata cidade de Moçâmedes (que desde há uns anos tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube e do seu Cine Teatro), passou a contar com um grande número de pessoas,  homens e mulheres, jovens e adultos,  intensamente envolvidos em eventos sociais de toda a ordem: programas radiofónicos de variedades organizados pelo mesmo RCM,  "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho), momentos de prazer que cativaram gente de todas as idades.  Até os passeios na Avenida, que não se sabe desde quando, mas que até bem dentro dos anos 1950 se encontrava transformada numa espécie de "picadeiro", sobretudo após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, não resistiu à viragem do tempo num mundo em mudança. Como eram doces esses tempos em que altifalantes pendurados em frondosas árvores na Avenida da República, transmitiam para quem quisesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido, entrevistas ocasionais que eram feitas às pessoas,  e se realizavam concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar...

Um tempo em mudança...


A década de 1950, a grande década da mudança, foi também aquela em que se assistiu à organização de inúmeros  bailes e matinées dançantes, realizados aos fins de semana quer no salão de festas do Atlético Clube de Moçâmedes, quer no Clube Nautico "Casino", mas também , e embora com menos intensidade no salão do velho Ferrovia. Para trás tinham ficado os salões do Ginásio da Torre do Tombo e do Aero Clube de Moçâmedes, bastante concorridos nos anos 1940.  Também no campo desportivo esta década foi aquela em que se assistiu a uma autêntica  explosão de novas modalidades, com especial ênfase para o hóquei em patins e para o basquetebol feminino, com toda a juventude a participar, e gente de todas as idades e de ambos os sexos a acorrer aos campos de jogos para aplaudir os clubes e os atletas da sua preferência.  Para além destas, outras modalidades se incrementaram, tais como a vela (Sharps e Snypes), a pesca desportiva, a caça submarina, os circuitos automóveis, etc, etc.  A partir dos anos 1960, foi a vez da inauguração das animadas e deveras atractivas "Festas do Mar".  Dir-se-ia que o Verão de Moçâmedes em menos de uma década tornara-se curto para comportar tanta opção ao alcançe de uma pequena população,  como era a daquele tempo. E foi assim que o passeio domingueiro às Hortas foi ficando para trás... E as romarias ao Quipola foram perdendo o brilho.


Uvas de Moçâmedes. Foto da Agência Geral do Ultramar
 

Oliveiras das Hortas


Não deixarei de aqui abrir um parentesis para recordar o quanto a região de Moçâmedes, nas margens férteis dos rios Giraúl e Bero, poderia ter sido altamente rentável em vinha e oliveira, não fosse o proteccionismo exasperado que fazia a Metrópole em relação ao Ultramar, impedido a sua exploração. É que da Metrópole vinha o vinho e o azeite para as colónias, cujo consumo representava uma boa renda em relaçao à qual os interessados não estavam dispostos a abdicar. 
A entrada para a Horta do Torres fazia-se através de um grande portão de ferro, datado do século XIX, que ficava aberto durante todo dia. Deste portão tive recentemente notícia que o mesmo se encontra desaparecido. Passando o portão, o visitante tinha à sua frente uma extensa rua a percorrer ladeada por frondosas árvores que proporcionavam uma sombra refrescante,  a meio da qual ficava uma longa mesa servida de  bancos corridos, preparada para almoços e piqueniques , que comportava  um elevado número de pessoas.   

Ainda tenho presente como ficava deslumbrada com a diversidade de árvores de fruto alo existentes -mangueiras, videiras, goiabeiras, macieiras, bananeiras, larangeiras, tangerineiras, etc. etc. -  que lançavam para o ar o seu agradável e característico odôr. Aliás, como vem descrito no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão :



"O distrito de Moçâmedes possuia uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraul: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esq, que se cultivaram as melhores àrvores de fruto de todo o sul do distrito. Na margem esquerda eram os mamoeiros, os diospirios, as bananeiras ,as nespera-cereja-dendém, o palmeira de óleo palma., et., etc. A razão é que na margem esq., dada a inclinação do terreno e à presença de uma lage cerca 5 km , há curso de àgua permanente e à dt. apenas por infiltração. Na margem esq., o 1º colono aí se instalou foi o bacharel em medicina J. Duarte de Almeida tendo bastado construir uma vala para apoveitamento água do rio ao longo do qual instalou comportas que forneciam água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçãmedes, proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia tendo que a aguardar de novo por infiltração que as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem dt. necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esq. os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes e os da dt. a plumagem era negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto diferente, côr e tamanho. Havia no distrito 8 exemplares de alfarrobeira cidade a dar fruto e decorar rua cidade entre Administração do Concelho Civil do Concelho e a Escola Portugal e também pitangueiras e tamareiras a embelezar as propriedades e os jardins. Também nas ruas, havia a jubea trazida pelos colonos de Pernambuco, a gravílea ,a acácia, o jacarandá, a ravenela ou árvore dos viajantes, a buganvília as euforbiáceas, os hibiscus e tantas outras. Havia a paleira de leque «Ravenala» (urânia-soberba), que crescem margens Cunene, Cuando e Bero, descoberta em Madagáscar no século xvi e trazida para os jardins de várias cidades mundo…"
Voltando à "Horta" do Torres, recordo  o  bonito «chalé» (que se pode ver em parte na foto acima, à dt) e que aos meus olhos de criança, na primeira vez que o vi me parecia um palácio... . Esta Horta possuia ainda um pequeno zoo com alguns animais capturados no Deserto do Namibe (gazelas, olongos, bambis, guelengues, impalas, etc.) para além de macacos, viveiros com passarinhos, etc. E creio que cheguei a ver por alí, algures nos anos 1940, um velho leão enjaulado...



Não admira, pois foi a partir dessa década que nós as raparigas começamos a ter uma maior autonomia  e liberdade de movimentos, década em que explodiu o número daquelas que frequentavam o secundário em Moçâmedes, e, se em algumas vezes estes passeios eram efectuados aos fins de semana, em outras, bem podiam ser  no decurso de um qualquer intervalo mais prolongado das aulas, em dias de semana.

Não posso terminar este texto sem deixar aqui um registo muito especial aos proprietários das "Hortas do Torres" que as disponibilizavam de tal modo que tinham sempre as suas portas totalmente abertas aos visitantes, e a tal ponto que nem havia necessidade de se pedir autorização para lá entrar. E mais, no regresso a casa, geralmente levávamos connosco sacos cheios de fruta que nos era oferecida, e enquanto ali, retirávamos quanta fruta quiséssemos das árvores para comer, sem quaisquer problemas. Não me lembro de ter saboreado tão deliciosas mangas como as pequeninas (manguitos) das Hortas de Moçâmedes!

Sobre as romarias à Capela de Nossa Senhora do Quipola, ver AQUI




Ficam mais estas recordações.

(ass) MariaNJardim



(1) Em Angola como sabemos chove no Verão. Em Moçâmedes, não obstante a baixa pluviosidade (não chovia  durante os 8 meses do ano),  de quando em quando aconteciam grandes enxurradas,  que aconteciam normalmente em Fevereiro ou Março, e prejudicavam o trajecto entre a cidade e as zonas para além rio, nesse tempo em que o leito do rio Bero não estava regulado como viera a acontecer mais tarde, nem havia ainda a ponte sobre o Bero. Quando tal acontecia, os abastecimentos diários de legumes e frutas às «quitandas» da cidade eram transportados, atravessando o rio em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. Também enterravam na lama os pneus dos veículos automóveis que se atreviam à travessia.  Alturas havia em que os próprios comboios que vinham de Sá da Bandeira tinham que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões para a cidade.  Salvava a situação, a escassez de chuvas e o facto do rio só possuir água noVerão, quando chovia.Era o atraso em que, intencionalmente, por esta altura, ainda se encontrava Angola!

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Ainda que se trate de épocas diferentes, vale a pena ler o que sobre vegetais nas Varzeas do Bero, escrevia em 1858 (9 anos após a fundação de Mossâmedes, João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião em Mossâmedes:

"...Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies têem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

"...A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  sólo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.
Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

"....Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas. A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc. É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade. Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas. Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos. Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão, Annais do Conc Ultramarino, Parte não Oficial, série 1 Set.1858


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 O belo casarão de estilo colonial, de inspiração romântica/arte noveau, situado nas Hortas de Moçâmedes, que pertenceu à familia de Eduardo de Mendonça Torres. Foto retirada da Separata Nr.6 da Revista Africana, Universidade Portugalense, Porto, 1990, intitulada " Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola" ,  do autor Cecílio Moreira. Esta Separada foi-me gentilmente oferecida pela sua filha Maria Olimpia, a quem muito agradeço . Lamentavelmente, parece que este edifício que deveria ter sido protegido, por se tratar de património cultural e histórico do Namibe, já não exste!
 Aqui vai o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) que existia em muitas casas de Moçâmedes e nesta também, junto à varanda, para apanhar o fresco da noite.  Encontrei nas páginas de um das separatas do autor Cecílio Moreira, separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola.  A velha "sanga", que ,como dizia Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável... Eram construidas por artistas canteiros de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma de cubo ou de paralelipípedo, que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo Belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.

 MariaNJardim





O Blog "GENTE DO MEU TEMPO" destina-se unicamente a todos aqueles que até 1975 nasceram ou viveram em Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, sendo deles todas estas fotos e recordações, pelo que nada daqui deve ser retirado, por terceiros, a quem o assunto não diga respeito,  sem prévia autorização, sob pela de estar em falta quem assim proceder.






2 comentários:

Kalaari disse...

Gostei muito de matar saudades com esta crónica. Tanto mais, que em miuda, também as minhas visitas de sábado, às Hortas dos Torres, para visitrar minha tia Maria Eduarda Torres Carmona, quando por lá andava pois radicou-se em Cascais e tive o prazer de lhe mostrar estas fotos, que ela adorou ver.
Um abraço
Vera Lucia

MIZÉ disse...

Obrigada por partilhar uma parte da História de Angola. Uma boa investigação aliada à uma boa memória vivencial, devidamente narrada. São as raízes que nos seguram à terra. BEM HAJA Mizé

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