29 maio 2008

Gente de Moçâmedes em dia de festa: 1958


Através da postagem desta foto, tirada no decurso da festa do casamento de Olimpia Aquino, temos a oportunidade de trazer para o blog mais algumas caras conhecidas da nossa terra, para muitos porém já esquecidas nas brumas da memória.
Da esq. para a dt:
Albertino Gomes (o conhecido baterista do animado e inesquecível conjunto musical «Os Diabos do Ritmo»), Tenreiro, António Araújo, Arménio Matos, Olimpia e o irmão, Albino Aquino (o inesquecível Bio, pianista do conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» que tantos bailes animou com o seu génio para a música), Abilio Lopes Braz, José Vicente Arvela (o noivo), Silvestre, João Pinto (o conhecido jogador de futebol do Ginásio da Torre do Tombo e mais tarde também do Atlético e taxista), e finalmente, Carlos Vieira Calão no canto dt., de cigarrilha na boca.

Gente de Moçâmedes nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim (década de 50)



Nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes. Da esquerda para a dt. ?. 
Marizete Romão Veiga, Gina e  Mª Helena Gomes. 1955


Precisamente no mesmo local da foto anterio, o meu irmão Amilcar, em 1956. Repare-se no pormenor da fachada alterada do edifício que fica ao fundo. Ficava alí na época os Armazéns do Minho, loja de modas de que era proprietário Gouveia da Cunha. Mais  tarde  passou   estar  ali a  agência do Banco Pinto e Souto Mayor. Na década de 60 começaram a surgir os Bancos comerciais que retiraram o monopólio ao Banco de Angola.
 
  Trecho da zona  dos jardins da Avenida da Praia do Bonfim onde fica o tanque da água que veio substituir o velho e tradicional Coreto mandado demolir pela Câmara Municipal. Interrogo-me se ao destruir-se o velho e tradicional Coreto não se destruiu parte da História da cidade,  intimamente ligada aos seus primórdios,  para dar  à Avenida um ar mais moderno?. Que o diga a velha Inglaterra que graças à conservação da sua História em termos arquitectónicos, é  hoje considerada uma preciosidade para o turismo mundial. Há que tomar consciência disso!



A mesma zona da foto anterio., onde se pode ver à esq. o prédio de 1º andar de traça portuguesa onde até meados da década de 1960 funcionou o Banco de Angola. À dt. o prédio térreo, tembém de traça portuguesa, actualmente em ruinas,  onde ficada a empresa Duarte d' Almeida que representava a Compª Nacional de Navegação. A Rua perpendicular à Avenida, tinha o nome de Rª Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e terminava na Rua da Fábrica. Sempre me fez confusão sobre qual o critério que teria levado as autoridades da época a darem o nome do chefe da 1ª colónia e fundador de Moçâmedes a um rua de somenos importância como esta, na qual podemos vislumbrar, convergindo para a Rª dos Pescadores,  à esq., a  Casa das Noivas, a Ouriversaria Moreira, e mais adiante, já de esquina, a TAP, e à dt. À dt. o edificio dois andares de João Duarte para onde se mudou o Banco de Angola, etc . Apraz registar aqui que ainda hoje as autoridades da cidade do Namibe mantêm o 4 de Agosto como o dia da fundação de Moçâmedes e continuam com a tradição das Festas do Mar.
  
Meninos e meninas de Moçâmedes, talvez regressadas da Praia das Miragens que ficava ali mesmo ali ao lado, posam junto a um dos tanque de água da Avenida da Praia do Bonfim, situado próximo do edifício dos CTT


Euzinha na plenitude da mina adolescência, nos Jardins da Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes. Trata-se da mesma zona da fo anterior junto do  edifício dos Correios. Na foto , por detrás do tanque de água, podemeos ver o prédio de 1º andar que outrora foi propriedade de Brian Bento. Estava-se em 1955, numa época em que ainda não existiam nesta Avenida as inúmeras palmeiras que que vieram ocupar o lugar de outras árvores, tais como oliveiras, acácias, etc




Não vem a respeito, mas como hoje encontrei na Net este belo, triste, e satírico poema, dedicado à cidade do Namibe, com o qual não me identifico plenamente, vou colocá-lo aqui.






NAMIBE

Cidade pequena
de gente que vai, de gente que fica ,
de gente que vem .

NAMIBE
deserto
tem pedra bonita , planta famosa ,
tem cabra de leque e triste muceque .

E tem...
pescador lutando ,
em barco de bimba ,
subindo , descendo ,
remando ,
morrendo no mar.

E tem...
loja cheiinha
de coisa bonita ,
gente comprando ,
vendendo , trocando ,
roubando ...

que fala , critica ,
gosta não gosta ,
da MISS bonita .

E tem...
igreja vazia ,
de portas abertas ,
igreja refúgio de mulher sozinha
que vive chorando a morte do filho,
que um dia ,
coitado ,
foi morto no mato .

Cidade tem gente ,
gente com santa ,
SANTA qu ' IRRITA ,
que deixa viver
miúdo no chão ,
dormindo à chuva
e chorando por pão .

E tem...

Turismo café
que serve jantar .
Cidade não tem mais nada que ver ,
Cidade não tem mais nada que dar .
Mas tem !

E tem...

Carro que anda
depressa de mais,
apanha miúdo,
miúdo gozão ,
que sai da escola
levando sacola ,
cai no asfalto ,
d' olhos abertos ,
bata rasgada ,
rosto sangrando ,
e livro na mão !


Sérgio de Oliveira
1973
.................
Nota: Será que este poema foi mesmo escrito em 1973?

Jovens de Moçâmedes dourando ao sol da Praia das Miragens



A Praia das Miragens,  as pessoas, as arcadas e o Casino  numa manhã de domingo algures num verão nos anos 1960
 
Praia das Miragens... alguém resolveu um dia dar o nome a esta praia, inspirando-se para nas miragens características do Deserto do Namibe... Nada mais natural!  Esta praia, verdadeiro "ex-libris" da cidade, ficou para sempre ligada à vida de quantas crianças, adolescentes e adultos nasceram, cresceram e viveram em Moçâmedes. De fácil acesso (mesmo junto do centro), para os mais afastados moradores bastava andar uns quantos quarteirões, atravessar o vasto do jardim da Avenida da Praia do Bonfim (anterior Av^ª da República) e as antigas instalações dos bombeiros, perto do coreto, onde mais tarde foi construída a fonte luminosa, para entrar numa rua que terminava na praia, tendo do seu lado direito um aglomerado de casuarinas que, no tempo quente, ofereciam uma agradável sombra e do esquerdo o Clube Náutico (Casino), onde alguns "maduros" do pequeno burgo se dedicavam à "batota".

Outro trajecto era através da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, contornando um armazém onde se depositavam as mercadorias que chegavam e partiam de e para os mais variados destinos, atravessando uma espécie de portão para se alcançar outro lado, passando com todo o cuidado e atenção por sobre as linhas do caminho de ferro, ao lado de locomotivas, carruagens, etc, não fosse o diabo tecê-las e acontecer algum atropelamento.




Jovens de Moçâmedes dourando descontraidamente ao sol da Praia das Miragens. Da esq. para a dt, na 1ª foto  junto às arcadas: Vina Almeida, Teresa Ferreira, Tó Zé e João Thomás da Fonseca. Ao fundo podemos ver, para além das arcadas da praia, as cazuarinas e o Clube Nautico (vulgo Casino)
 


Nesta foto, os moçamedenses Vina, Lula e Vanda Ferreira. Ao fundo, a velha ponte.


Nesse tempo eram comuns os toldos coloridos individuais, bastante fechados onde se podia trocar facilmente de indumentária sem o perigo dos "mirones", para além, é claro, de outros, mais simples que se reduziam a um rectangulo de lona, geralmente de riscas azuis escuras e brancas, preso por grossos fios a duas traves de madeira enterradas na areia para as suportar. Mais tarde vieram as enormes e coloridas sombrinhas de abrir e fechar. 

Por baixo dos toldos reuniam-se adultos e crianças, meninas que jogavam ao "prego" com uma habilidade fora de comum, senhoras que faziam croché e, conversando umas com as outras, iam pondo a conversa em dia, gente que lia ou que simplesmente observava o ambiente à sua volta, não perdendo "pitada" do que se estava a passar, fosse em terra fosse no mar... A correr pela praia era comum nos anos 1950 verem-se rapazinhos segurando "papagaios" e "joeiras" dos mais variados tamanhos, feitos em casa com tiras de bordão e papel de seda das mais variadas cores, que exibiam um longo "rabo" composto de pequenas tiras de pano amarradas umas às outras. "Papagaios" e "joeiras" que subiam e desciam, davam voltas e piruetas lá em cima, no ar, tudo dependendo da habilidade do manipulador.

Escusado será dizer que era na areia, à torreira do sol, que a malta mais nova gostava de ficar... e o mais perto possível da água... Era de facto um local de grande sociabilidade a Praia das Miragens de Moçâmedes, ponto de encontro nas manhãs de sábado e domingo de grande parte da população que para alí ia descarregar as energias acumuladas no viver quotidiano, fosse nas actividades escolares, fosse no trabalho.

A Praia das Miragens, naturalmente frequentada na sua maioria por moçamedenses, recebia no verão a visita de muitos habitantes do Lubango e de outras terras do planalto, mais propriamente da vizinha Sá-da-Bandeira (Lubango) e Vila Arriaga (Bibala). Era a praia mais próxima que por vezes era também frequentada por toninhas, parentes dos golfinhos, animais marinhos extremamente sociais que faziam o encanto mas também o temor de quantos de mais longe ou de mais perto os observavam. 

A jangada (um estrado quadrado, de uns 3 x 3 m, que flutuava graças a tambores de ferro vazios, presos à sua parte inferior, que eram periodicamente substituídos) era o grande atractivo da rapaziada. Espécie de baliza para pequenas corridas de natação, local de exibicionismos para quantos jovens dali mergulhavam  para o mar. Mas também era na jangada, ou junto dela, sobretudo na parte traseira, a mais escondida e protegida dos olhares curiosos, que muitos namoricos acontecerem, que muitos encontros se  deram, que muitas carícias se trocaram, nesse tempo em que as raparigas eram persistentemente vigiadas e que o mais leve deslize punha em causa a sua reputação...

Finalmente resta referir o quanto esta praia e esta bela e singular cidade onde tive o previlégio de nascer, filha de pais já ali nascidos, de crescer, casar, ter filhos... e que nais parece uma estância balnear,  tem sido objecto de inspiração poética na pena de alguns admiradores:

Ai MOÇÂMEDES

Moçâmedes quer dizer infância plena 
Tempo de férias que não tem idade
Amigos de sorriso em pele morena
Alegria salgada na igualdade

Azul de mar ouro quente de areia
Toninhas assustando alegremente
Calema sai do mar à minha mente
Deserto a prender-me em sua teia

Deserto nunca só; tão habitado!
O vento morno conversa pela noite
Prolonga o tempo num gesto apaixonado

Sabor de manga nas bocas salgadas
Se bate lua no mar há quem se afoite
Ninguém no paraíso teme as vagas

(Jovita Carolina *Março2006)

Atletas e simpatizantes do Atlético Clube de Moçâmedes em dia de festa

Nesta foto, tirada nos finais da década de 50 na festa do casamento da basquetebolista do Atlético Clube de Moçâmedes, Júlia Jardim com Fernando Vilaça (que viera a ser presidente deste clube), reconheço entre outros, da esq. para a dt.:
Emilio teixeira (3º), Nunes de Andrade ( 5º), Carlos Jardim (6º), António Joaquim (7º), Arménio Jardim
(8º) e Salavessa (â dt., com as mãos na boca.