02 junho 2008

Recepção a Riquita, miss Portugal, à chegada a Moçâmedes, Angola (Namibe): Os mucubais. 1972










Celmira Bauleth (Riquita), a jovem moçamedense que aos 18 anos arrebatou em Portugal o título de Miss 1971, ao ser recepcionada  no regresso a Moçâmedes. Se à chegada a Luanda de Riquita tinha sido estrondosa, o regresso a Moçâmedes reservou outro tipo de surpresas. Infelizmente uma só foto pouco diz daquilo que foi a realidade. Riquita desfilou no Ford descapotável de Fernando Cabeça, foi entusiasricamente aplaudida pela população que veio para a rua para a saudar, participou em várias festas, numa delas vestida de mucubal, lado a lado com mucubais, e por eles foi também efusivamente aplaudida.












Riquita tinha desfilado no Casino Estoril com o traje dos mucubais, uma tribo nómada que se concentra sobretudo na zona Capangombe, onde a família tinha uma fazenda. Pela proximidade geográfica, muitos mucubais trabalhavam com os Bauleth e foram eles que forneceram os panos, ensinaram Riquita a envolver o corpo e emprestaram os colares e pulseiras untados com esterco de boi cedidos para o efeito por elementos daquele grupo étnico. Dizia Riquita: «Fiz questão de usar os adereços originais e, de cada vez que punha aquilo, toda a gente fugia com o cheiro nauseabundo. Quando me mudava para o vestido de noite tinha umas toalhas húmidas com que me limpava do cheiro».D e diferente, o soutien, que as mulheres mucubal não usavam. Solteiras, andam nuas das cintura para cima, casadas, amarram os seios com cordas como se pode ver pela foto abaixo.

Não admira, por isso, que os mucubais se tivessem sentido honrados em estarem presentes na noite da sua chegada, a Moçâmedes, na recepção efectuada no pequeno palco, junto das arcadas e do Casino, na Praia das Miragens, como podemos ver. Riquita apresentara-se vestida de «hot pants» e óculos Dior de enormes armações, e com madeixas brancas no longo cabelo.

Mais tarde, recordando estes dias diria: «Eu tive o privilégio de ser amada pelo povo de Angola. Poucas pessoas têm uma sorte semelhante. E referindo-se aos mucubais: «Fizeram 100 quilómetros a pé, com bois, cabritos, galinhas e maçarocas, não exactamente para me oferecerem, porque os mucubais não oferecem nada, só dão coisas em troca de outras. A explicação que encontro é que eles sentiram que eu os dei a conhecer a Portugal inteiro e que os representei. Aquilo que me estavam a entregar era o pagamento».

Durante dois anos, Riquita esteve ao serviço da organização do Miss Angola, ligada à revista «Notícias», a promover os concursos regionais de misses e a frequentar festas.

(partes de texto retirados de Expresso)
Video Deserto do Namibe

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A TUA VOZ ANGOLA

Nos tribos
E assobios
Dos pássaros bravios
Ouço a tua voz Angola.

Dos fios
Esguios
Em arrepios
De mulembas sólidas
Escorre a tua voz Angola.

Nas ondas calemas
Barcos e velas
Dongos traineiras
Âncoras e cordas
Freme a tua voz Angola.

Em rios torrentes
Regatos marulhentos
Lagoas dormentes
Onde morrem poentes
Brilha a tua voz Angola.

No andar da palanca
No chifre do olongo
No mosqueado da onça
No enrolar da serpente
Inscreve-se a tua voz Angola.

No acordar dos quimbos
Nos cúmulos e nimbos
Nos vapores tímidos
Em manhãs de cacimbo
Flutua a tua voz Angola.

Na pedra da encosta
No cristal de rocha
Na montanha inóspita
No miolo e na crosta
Talha-se a tua voz Angola.

Do chiar dos guindastes
Do estalar dos braços
Do esforço e do cansaço
Emerge a tua voz Angola.

No ronco da barragem
No camião da estrada
No comboio malandro
Nos gados transumantes
Ecoa a tua voz Angola.

Dos bongos e cuicas
Concertinas apitos
Que animam rebitas
Farras das antigas
Salta a tua voz Angola.

A flor da buganvilia
A rosa e o lírio
Cachos de gladíolos
O gengibre e a cola
Perfumam a tua voz Angola.

Ouve-se e sente-se e brilha
A tua voz Angola

Inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
A tua voz Angola

Vai com o vento goteja com o suor
A tua voz Angola

Por toda a parte por toda a parte
A tua voz Angola

Que voz é essa tão forte e omnipresente
Angola?

Que voz é essa omnipresente e permanente
Angola?

É a voz dos vivos e dos mortos
De Angola
É a voz das esperanças e malogros
De Angola
é a voz das derrotas e vitórias
De Angola
É a voz do passado do presente e do porvir
De Angola
É a voz do resistir
De Angola
É a voz dum guerrilheiro
De Angola
É a voz dum pioneiro
De Angola.

Antero Abreu




Bailes e festas em Moçamedes: anos 60



free music






























Nota: A música que se ouve quando se abre este blog, através do Mozilla firefox, é cantada pelo moçamedense Reinaldo Bento (foto acima) . Se a não a quiser continuar a ouvir pode parar através de um clic na playlist verde que se encontra abaixo da foto.

1ª foto: Baile no Clube Nautico (Casino). Repare-se pela expressão corporal de alguns dos dançarinos, como já ia longe a época do pasodoble, do tango, do bolero, da rumba ou dos blues, em que se dançava agarradinho e que havia empolgado a minha geração... Embora com certo atraso, a época do rock do e do twist, iniciada naos finais da década de 50 nos EUA, chegara a Moçâmedes. Com a revolução cultural, outros tipos de dança começaram a espalhar-se por toda a parte. A moda passou a ser já não a de dançar agarradinho, mas a de soltar o corpo, dançar separados e com liberdade. Creio que é isso que podemos ver aqui, onde alguns dançarinos parecem dançar o TWIST, (espécie de rock and roll) em que se dança separados e quase parados, com as pernas meio arquedas e apoiadas sobre as pontas dos pés, movimentando o corpo para a frente e para trás de forma alternada e movendo ritmadamente os braços e os quadris. Não é fácil de entender, e muito menos de praticar, muito especialmente para aqueles e aquelas como eu, habituados ao ritmo dos tangos, dos pasodobles, blues, etc....

2ª foto: Reinaldo Bento canta acompanhado pela sua banda musical. À dt., o guitarrista Borda d`Água(?). Estas fotos foram colocadas por Teresa Carneiro in Sanzalangola.

3ª foto: Laurentino Jardim e Reinaldo Bento. Anos 60.

Também pode ouvir cantar e tocar um outro moçamedense, José Manuel Martins, (filho de Teresa Ressurreição e de Carlos Martins). Basta clicar AQUI, onde encontrará canções dedicadas ao Namibe, como
«Kizomba do Deserto», etc.
Aproveito para colocar aqui um video de Luanda acompanhado pela cantora angolana Miná Jardim