08 fevereiro 2010

Baile de Carnaval em Moçâmedes, abrilhantado pelo conjunto musical «Os Diabos do Ritmo»












Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocar aqui  algumas fotos que  nos façam recordar os  bailes de Carnaval  como eram festejados  em Moçâmedes, nas últimas décadas da colonização portuguesa, nestes casos, nos anos 1954 e 1955.


Na 1ª foto estávamos em 1955, no  salão do Atlético Clube de Moçâmedes, na Rua Governador Calheiros. Acabavam de ser coroados o Rei e a Rainha do baile de Carnaval,  geralmente escolhidos entre os mais divertidos da festa. Um baile de Carnaval na década de 1950,  em Moçâmedes, fosse efectuado no salão de festas do Atlético ou do Clube Nautico (Casino), desde que abrilhantado pelo famoso conjunto musical «Os Diabos do Ritmo», era sempre uma festa animada que se prolongava até ao amanhercer, porque ninguém arredava pé, tivessem a idade que tivessem. Sim, porque nesta altura, nada de sociabilidades separadas, todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios e primos, e até avós. E quando alvorecia o dia, era comum os mais jovens sairem do baile directamente para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens.


Vivia-se  uma década  imediatamente anterior à do surgimento das discotecas, em que as várias gerações  ainda  se divertiam em conjunto, até porque as filhas casadoiras eram  resguardadas  e participavam destes eventos socias sob a alçada das mães e de familares, ou então de amigas de mais idade.  Era no entanto já uma época de transição para um outro tipo de mentalidade, mais solta e mais leve para as raparigas, que se divisava no horizonte. Afinal, e embora estivéssemos a viver naquele cantinho longínquo de África,  nao deixavamos de ser influenciados pelos ventos de mudança que sopravam do Ocidente....


Falemos, pois, um pouco mais, deste tempo de transicao, em que não obstante  dançar-se  ainda, e  muito, os classicos tangos e  valsas (como  «Comparcita», «Caminito», Danubio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.) já  tinham entrado em cena entre nos o rock-and-roll e o twist, ainda  que nos Carnavais predominassem as marchinhas brasileiras, os baioes, os passodobles, as rumbas, etc. etc. Desse tempo em que a Comparcita de Carlos Gardel, era o tango eleito pelos jovens enamorados, pela proximidade física, por instantes tolerada que proporcionava. Desse tempo  em que os bailes eram de lotação esgotada, que as mesas em volta dos salões  do Atlético e do Clube Náutico não chegavam para todos, e só as raparigas e os casais mais idosos ficavam sentados, ficando os adultos jovens de pé junto ao átrio de entrada. Enfim, todo um ambiente de animação que deve ser visto na óptica de uma cidade, não de gente fútil, à qual o dia a dia não pesa -como alguma literatura mal intencionada por aí costuma proclamar quando refere o tempo colonial, escrita por quem não sabe, provavelmente com intenções dúbias -,  mas de gente pacata, trabalhadora e ordeira.

   
Quanto às fotos expostas:


Na 1ª foto podemos ver o momento da eleição dos reis de Carnaval desse ano, Maria Júlia Maló de Abreu (Pitula) e ????. A entrevistá-los, a grande figura da rádio, chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho. À esq., Lalai Jardim,  Oliveira (Maboque), e à dt., por detrás de Pitula, Silvestre, seguindo-se Arnaldo Matos (Quinito), Renato Velin, Mário de Sousa. e um pouco mais abaixo, Simão.


Na 2ª foto, tirada num baile de Carnaval, em 1954,  decorrido no salão do Clube Nautico (Casino),  podemos ver entre outros, da esq. para a dt, em primeiro plano, Rui Bauleth de Almeida e Octávia de Matos, Nídia (eu) e Arménio Jardim, Antunes Salvador e Justina Salvador. Mais atrás, Monteiro, Cristão (Quitólas), e mais ao fundo, Artur Homem da Trindade.


Antunes Salvador (no canto dt., de óculos), era o fotógrafo radicado há mais tempo na cidade de Moçâmedes, que, por via disso, acabaria por guardar e trazer consigo para Portugal, todo o seu arquivo fotográfico que tem sido uma mais valia para todos nós, uma vez que muitas dessas fotos têm vindo a ser publicadas em livro, pelo seu neto, não deixando deste modo, morrer memórias que são património de todos nós, angolanos e portugueses. Acresce ainda que a maioria de nós, nem sequer trouxe consigo, de África, essas gratas recordações que de outro modo perder-se-iam para sempre. O objectivo deste blog é também esse, o de proporcionar a muitos moçamedenses a recuperação de fotos por desde o início nos vêm sendo cedidas.


Fica mais esta recordação.
MariaNJardim
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SAUDADES DE UM VALDEVINOS


Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...

Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...

Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...

Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...

NECO (Mangericão)

19.05.2009

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