24 novembro 2009

Jovens estudantes de Porto Alexandre (actual Tombwa)



in Mazungue foto de KadyPress 

INFÂNCIA PERDIDA
(para o Miau)

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varre das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,
Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...

Ernesto Lara Filho
(O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)
1964, Lisboa

Grupo de alunas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim




































Mais um elenco de jovens moçamedenses que na época (1956/7), frequentavam a  Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes.

Reconheço, da esq. para a dt.
Em cima: Maria João, Professora ? e  Rosália Bento
Embaixo, mais recuadas: ?, ?, Claudia Guedes, Teresinha Freitas e Laurinda Pereira
Embaixo, mais à frente: Maria José Gastão, ?, Maria Helena Braz de Sousa, Piedade, Leonilde (Nide),  ?Peixinho; Emilia Coelho de Oliveira (Mila) e Antonieta (Boneca)


Em cima, uma bela perspectiva da  Avenida da Praia do Bonfim, que se desenrola sob o «olhar» imponente de uma das duas gazelas que circundam a fonte luminosa, um dos ex-libris da cidade de Moçâmedes.

22 novembro 2009

Recordando gente da nossa terra, Moçâmedes: O Dr. Júlio Mac-Mahon Vitória Pereira



O Dr. Júlio de Mac-Mahon Vitória Pereira, analista, proprietário de um Laboratório de Análises Clinicas  e  professor de Fisico-Quimicas e Mercadorias, primeiro, no edifício antigo Escola Comercial e Industrial  de Moçâmedes e em seguida na Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, com a extinção daquela,  foi uma das figuras mais carismáticas que Moçâmedes conheceu ao longo das duas últimas décadas da colonização portuguesa, quer como pessoa, quer como professor, tendo, neste aspecto, para o bem e para o mal,  marcado a vida de muitos estudantes.

«Anjo e demónio», Júlio Victoria Pereira ou  Mac-Mahon, como era conhecido,  tanto era capaz de dar uma classicação de 19 valores a um aluno, como de dar um «zero». E tanto era capaz de «dar a camisa» a qualquer aluno que necessitasse de ajuda, como de  mandar umas «galhetas» àquele outro que passasse das «marcas», que ele próprio estabelecia.

Dele, é com um misto de reprovação e de carinho, que assim falam, ainda hoje, alguns dos seus ex-alunos:

«... Só havia um professor por quem esperávamos depois do 2º toque - o Mac Mahon - se fossemos embora ele virava bicho e não se ensaiava nada em distribuir umas galhetas pelos alunos. Também não marcava falta a quem chegasse tarde. Entrávamos na sala só não podíamos dizer nem Bom Dia nem Boa Tarde - estávamos proibidos para não interromper a aula. O Mac era um homem tão bruto como bom. Tinha um coração de pomba. Se via um aluno com os sapatos rotos tirava dinheiro do bolso e mandava-o comprar uns sapatos apresentáveis. Gozava com os contínuos quando eles iam lá ler os comunicados da MP porque exprimiam-se mal. Dizia , lá vem um Kaitô ler uma folha de papel. Quando faltávamos às aulas dele ia-nos buscar de Mini Moke à praia - e ai de quem ousasse em recusar a boleia forçada!!! ....»

«....O "Mac" era um professor fantástico- um touro com coração de pardal - pagava-nos bilhetes para o cinema e vinha buscar-nos de Mini Moke à praia quando faltávamos às aulas...» By Kady Press in Mazungue

«O Dr. Vitória Pereira, de seu nome Júlio Mac Mahon Vitória Pereira foi o professor mais "sui generis" que eu tive. Quando qualquer aluno chegava tarde às aulas só tinha uma coisa a fazer:entrava na sala, não podia dizer nada e sentava-se no seu lugar. Nada de justificações, pois o Mac sabia ler as nossas mentiras. Não se podia era interromper a aula com palavras. De resto, o aluno atrasado não tinha qualquer problema. O Dr. Vitória Pereira tinha um laboratório de análises clínicas perto do antigo campo de futebol.» 
From:   Carlos Pereira in Sanzalangola

Ficou célebre um exame da cadeira de «MERCADORIAS»,  do Curso Geral de Comércio, na Escola Comercial e Induatrial de Moçâmedes, decorrido no início dos anos 1960, em que um aluno de nome Faroleiro foi «espremido até ao tutano» no decurso do mesmo  e no final mandado sentar. A seguir Mac-Mahon chamou a aluna  Manuela Faustino, e na primeira pergunta mandou-lhe descrever o «encadeamento das indústrias». Tomada pelo nervosismo e pela emoção Manuela começou a gaguejar, então o Mac-Mahon virou-se de novo para o  Faroleiro, que já tinha obviamente terminado o seu exame, e mandou-lhe descrever também o mesmo «encadeamento das indústrias». Assustado, o Faroleiro disse: - ó sôtor, eu já fiz o meu exame! Responde o Mac-Mahon:  olha que está a contar!... está a contar...  O que se passou a seguir, já seria de esperar, foi a debandada geral de todos os alunos que já tinham terminado os seus exames e que se encontravam na sala apenas a assistir aos restantes exames.

Mas ainda há mais...

«...lembro-me do Dr. Vitória Pereira ir connosco apanhar umas pedras ao deserto para fazermos os centros de mesa.Belos tempos! que saudades eu tenho de Moçamedes de Angola... (Bálita, Sanzalangola)

«... O Dr. Vitória Pereira, de seu nome Júlio Mac Mahon Vitória Pereira -não sei se está bem escrito - foi o professor mais "sui generis" que eu tive.Quando qualquer aluno chegava tarde às aulas só tinha uma coisa a fazer:entrava na sala, não podia dizer nada e sentava-se no seu lugar.Nada de justificações, pois o Mac sabia ler as nossas mentiras.Não se podia era interromper a aula com palavras.De resto, o aluno atrasado não tinha qualquer problema. O Dr. Vitória Pereira tinha um laboratório de análises clínicas perto do campo de futebol.
Carlos Pereira in Sanzalangola


 «...São ai nas dez da noite. Que estamos sentados no Café Avenida, não na esplanada porque está frio. Devem estar só uns 20 graus e um gajo num pode se constipar. Estamos disse eu porque como evidente não estou sozinho, senão dizia estou. Alem de eu mesmo está o Beto Amorim, filho do Sr. Alberto do Liceu, o Manel Vitoria Pereira e o Ferrão mais velho. 'Que fazem estes putos aqui no Avenida a esta hora?' Perguntou alguém que num sei quem foi. Estamos a aviar garrafas de Dão. O Radio Clube pagou o ordenado, eu invento que faço anos e vamos fazer festa. Duas garrafas chegou para ver que estavam oito na mesa. Mas tem giro é que tinha mesmo dois Betos, dois Ferrão e dois Manel. Como já éramos muitos fomos mesmo até no parque infantil. Eu agarrei uma palmeira e pedi namoro e ainda hoje num sei que foi que me respondeu ela. Melhor mesmo é irmos para casa. Vamos todos levar o Beto. Assim se houver maka somos muitos e vamos estudar. Se entra sem fazer barulho. Entrou todos os oito. Beto directo para o quarto. Entra mãe dele e pergunta:'que estás a fazer?' 'quero beber água fresca' responde ele enquanto tenta chegar ao puxador do guarda-fatos. Foi corrida em nós seis da casa para fora. E agora quem vai levar quem. Manel que é mais novo tem de ser levado a seguir. Passamos na Minhota e como estávamos com sede bebemos uma Nocal preta cada um. Transbordou. Quem aparece quando estamos sentados na avenida, debaixo do carramachão éramos seis ou se éramos mais? O Dr. Júlio Vitoria Pereira no MiniMoke. 'Entrem já todos para aí!' Nenhum dos seis hesitou. Maneles entraram na frente, eu e Ferrões no banco de trás. Direcção: Torre do Tombo. 'Vão apanhar ar nessas trombas'. Que sim. Ninguém mesmo podia dizer outra coisa, pois as palavras ficavam enroladas na boca e num queriam sair. 'Onde ficas?' 'Dr. fico aqui? O miniCaté amanhã e obrigado' mas depois é que vimos que estávamos atrás do campo de futebol, na rotunda. Nós os quatro, eu e Ferrões temos que ir a pé até em casa. Quem vai levar quem? Tá combinado. Vamos pelo Atlético, viramos na esquina do Dentista Francês, e seguimos até à casa do Ferrão. Ficou combinado. Ferrões agora têm de me levar a mim. 'E depois quem me trás a mim?' arrastou a s palavras um dos Ferrões. a ver se ainda parou eu sai por um lado e Ferrão por outro. '
Ainda hoje não sei como acordei em minha casa e na minha cama.
O que valeu mesmo foi que não estava a chover. »
Sanzalando, por JotaCê Carranca in RECORDAR (30)

Ficam mais estas recordações!

MariaNJardim

04 novembro 2009

Desporto em Moçâmedes, Angola: Quadrangular de Basquetebol feminino e de Hóquei em patins: 1956/7?



Francelina Gomes, Capitã da Selecção de Moçâmedes, dá os habituais «vivas», após ter recebido das mãos da esposa do Governador Vasco Nunes da Ponte,  Maria Carolina Nunes da Ponte a taça brilhantemente consquistada. Na pequena tribuna de honra do campo do Sporting Clube de Moçâmedes podemos ver, entre outros, o Capitão do Porto de Moçâmedes, o Governador de Sá da Bandeira, o Presidente da Associação dos Bombeiros de Moçâmedes, Sacadura  Bretes, e a esposa do Governador Vasco Nunes da Ponte.

Também nesta foto podemos ver algumas figuras conhecidas, tais como José Pedro Bauleth, o treinador da equipa do Ginásio da Torre do Tombo (embaixo, junto a Francelina Gomes), e mais à dt, embaixo, Júlia Castro, basquetebolista do Sporting Clube de Moçâmedes. De chapéu, à dt., e um pouco mais acima, Cabral Vieira, tendo por detrás Zeca Pestana.

Selecção de Moçâmedes
Em cima, da esq. para a dt.:Helena Gomes, Celisia Calão, Fátima Abrantes, Bernardete Tavares, Marlene Oliveira e Eduarda Bauleth. Embaixo: Francelina Gomes e Clarabela Trindade.





Arménio Jardim, capitão da selecção Moçâmedes, a equipa vencedora do Quadrangular da Huila de Hóquei em patins, recebe das mãos da esposa do Governador do Distrito, Maria Carolina Nunes da Ponte, a taça brihantemente conquistada. À esq, o Governador da Huila, à dt. o Governador de Moçâmedes, Nunes da Ponte.

Neste VIDEO que começa com a 1ª equipa de basquetebol feminino de Moçâmedes, a equipa do Sport Lisboa e Benfica, surgida no ano de 1949, podemos ver as diversas equipas de basquetebol feminino de Moçâmedes na década de 1950, a grande década desta modalidade desportiva em terras do Namibe. Os clubes eram então: o Ginásio Clube da Torre do Tombo, o Sport Moçâmedes e Benfica, o Sporting Clube de Moçâmedes, o Atlético Clube de Moçâmedes, mas também e embora por muito pouco tempo, surgiu a equipa do Clube Ferroviário de Moçâmedes. Saiba

AQUI pormenores.

Para ver mais: Moçâmedes Memórias Desportivas