
Assim descreveu Ricardo Duarte (Kady) esse dia:
«FUGA PARA A "SELVA" EUROPEIA (com breve passagem pelo apartheid)
- Janeiro de 1976, já quase não haviam amigos em Palex - todos se tinham ido embora, de carro, de barco ou de avião. As ruas de Palex, pejadas de mortos. O meu pai tinha que ziguezaguear para não os pisar. Era a caça ao homem. Nós que sempre acreditámos que ficaríamos, escorados nos dizeres do Saidi Mingas (assassinado pelo golpe nitista). O Saidi Mingas e o Kundi Paihama (que vivia em Palex e que era meu amigo) disseram ao meu pai - Sr Duarte, fique porque aqueles que sairem vão ter dificuldades
Cronologia da "Fuga" de traineira e repatriamento de comboio, autocarro e avião - Janeiro de 1976 » Palex (dia 10) , Saco da Baleia (dia 11), Baía doa Tigres (dia 12), Cunene (dia 13), Walvis Bay (dias
PS1: ficam por contar os episódios inanarráveis da "Selva" e as catanas que tive de afiar para desbravar mato e sobreviver aqui no Puto, como se fosse um dos exploradores Serpa Pinto, Brito Capelo ou Robert Ivens quando se aventuraram no mato verdadeiro.
PS2: oportunamente ilustrarei alguns destes episódios angolanos neste blog .»
Esperemos que Ricardo continua a contar-nos as suas memórias...
Nota da autora do blog:
10 de Janeiro de 1976. Cidade Namibe. Na previsão dos graves combates de se avizinhavam entre guerrilheiros da UNITA e da FNLA (vingança da UNITA face a anterior matança de seus guerrilheiros), abandonaram a cidade nesse dia 1600 pessoas no tristemente célebre «Silver Sky», navio de cargueiro (cereais) que se encontrava na baía e, que após ter recebido os fugitivos, rumou para Welvis Bay, de onde estes foram encaminhados para Portugal. De Porto Alexandre a fuga foi em traineiras. E assim chegara ao aquilo que se pode muito bem denominar uma autêntica «limpeza étnica».
Encontra-se em preparação um texto ilustrado sobre a fuga dos moçamedenses no «Silver Sky». Se alguém quiser colaborar com relatos e fotos, é este o contacto: jardim.n@gmail.com
MariaNJardim