26 fevereiro 2010

Equipa de Basquetebol Feminino do Sport Moçâmedes e Benfica: 1964

















Da esq. para a dt.
Em cima: Elizabete Ilha Bagarrão (Betinha), a veterana Minelvina Cruz, Amélia Castro, Costa Santos, ?,
Embaixo: Graciete Ilha Bagarrão. ?, Elsa Bernardino e?

Há inúmeras fotos sobre Desporto em Moçâmedes que podem ser vistas clicando AQUI

22 fevereiro 2010

Gente de Moçâmedes: Aníbal Martins Bagarrão




Tributo a Aníbal Martins Bagarrão

Se houve pessoas que deixam saudades quando partiram deste mundo, uma delas foi Aníbal  Martins Bagarrão. Nascido a 30 de Maio de 1911, em Olhão (Algarve), um ano após a implantação da República Portuguesa, se estivesse vivo estaria a fazer 99 anos. 

Filho de Maria Inácia Libório, natural de Albufeira e de António  Bagarrão,  natural de Olhão,  tinha como irmãos António (o primogénito),  Arnaldo, Noémia e Otilia Martins Bagarrão. 

O pai, António Bagarrão era um insatisfeito   do ponto de vista profissional,  não que estivesse mal em Portugal,  mas tinha outras ambições para a sí e para os seus, que não cabiam nos horizontes  estreitos que definiam, na época, o modo de vida da maioria dos portugueses.

Assim, numa primeira fase da sua vida de homem casado, partiu de Olhão para Lisboa, onde chegou a viver  10 anos com família, numa zona da Ribeira frontal ao rio Tejo, onde Aníbal cresceu  em meio ao ambiente alfacinha e teve ocasião de ser testemunho de vários acontecimentos  e até  de participar  no delírio da partida de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 30 de Março 1922, da Torre de Belem, para  a 1ª travessia do Atlântico Sul, começada com o hidroavião “Lusitânia”, e concluída com êxito com o “Santa Cruz”, amarando na Baia do Rio de Janeiro, no dia 17 Junho.
 
Em Olhão, Aníbal frequentou a escola primária até à 3ª classe, e teve por companheiros, entre outros, o Zé Guelas, o Eurico das bicicletas (filho do Zé Pirolito), o Chico Paulo ou o Zé Vieira, seus  indefectíveis amigos de brincadeira e cabulice, não obstante a sua inclinação inata já evidente para os números e para as letras.

Mas a ida para América roía o íntimo do pai António Bagarrão que um dia resolveu vender alguns dos seus bens, despediu-se da família, amigos e  colegas de trabalho, e partiu com lágrimas nos olhos  munido de uma «carta de chamada» e de um endereço: Broocklyn, que não era mais do que um dos piores bairros onde poderia cair.  Não aguentou mais que seis meses naquele bairro miserável, prometeu a si mesmo voltar e jurou não mais se apartar da  família.

De novo em Portugal, retornou ao antigo  trabalho em Lisboa, onde era mestre de redes. Em Lisboa, Anibal, então com 14 anos,  resolveu matricular-se  na 4ª classe, na Escola Poço dos Negros, para concluir o Primário. Mais tarde, o pai Antonio e a família voltaram de novo a Olhão, mas a partir de então, era a África que o seduzia. Eram encorajadoras as notícias que de lá chegavam. Afinal, a população de Moçâmedes, a cidade mais ao sul de Angola, era maioritariamente povoada por olhanenses que desde 1861 para alí haviam começado a emigrar em números crescentes. Os pioneiros, os fundadores da cidade de Moçâmedes, tinham  para ali partido, idos do Brasil (Pernambuco)  na barca «Tentativa Feliz», em 04 de Agosto de 1849. E o governo português  estava aliciando à fixação de novos colonizadores.

Uma carta do cunhado, Manuel Eugénio levou António Bagarrão de novo a deixar Olhão,  mas desta vez acompanhado pelos seus filhos varões,  António (o primogénito), Anibal e Arnaldo,  que então já contavam 19, 15 e 13 anos, respectivamente. As mulheres  ficaram a ver como as coisas em África iriam correr.

No dia 21 de Fevereiro de 1925 a bordo do navio «Moçambique»,  António Bagarrão acompanhado pelos filhos, embarcava  na sua última viagem pelo vasto mundo, agora sem regresso, tendo chegado a Moçâmedes no dia 24 de Março do mesmo ano, ao fim de  32 longos dias. Logo no dia  a seguir à chegada começaram a trabalhar. O Aníbal,  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, a cerca de 40 km a norte de Moçâmedes. Depois, foi o calcorrear por quase todas as praias do distrito,  pai e filhos,  num afã imparável, montando redes de armações, aparelhando cercos e sacadas, fazendo um pouco de tudo. 

Em Moçâmedes,  cidade encravada entre o mar e o deserto, Aníbal teve a oportunidade de desenvolver todas as suas potencialidades inatas, toda a sua inteligência e capacidade inventiva.  Cresceu e fez-se homem. Começou a frequentar os bailes do Ginásio Clube da Torre do Tombo,  o clube pioneiro da terra, fundado em 1919, e mesmo ali,  enquanto dedilhava a guitarra, conheceu a jovem Antonieta (Loló, para a família e amigos), uma adolescente de 14 anos bem desenvolvidos, rosto bonito e envergonhado, filha de D. Rosário e de José dos Reis Almeida, ambos nascidos a bordo de um barco, em Angola. D. Rosário, à chegada a Benguela, e José, com Porto Alexandre à vista.

Farei aqui um parêntesis para descrever as circunstâncias em que José dos Reis Almeida,  o futuro sogro de Aníbal Martins Bagarrão nasceu. No final de 1894, partira de Olhão uma nova leva de emigrantes rumo a Moçâmedes, ou mais propriamente, rumo a Porto Alexandre, levados pelo sonho de uma vida melhor  que a propaganda da época lhes inculcara. (1) Viajavam num caíque Maria de Jesus Frota (filha de José Martins Gaivota e de Ana da Piedade Frota) e  António dos Santos Almeida, seu marido, com as duas filhas de tenra idade, Leontina e Isaura. O caíque integrava um comboio de barcos com o mesmo destino. Maria de Jesus Frota  ia grávida de quase 7 meses. A viagem que fora serena até ao Equador e deveria levar pouco mais de 30 dias para chegar ao destino, acabou por durar dois longos meses, devido ao mau tempo, frio, nevoeiro, temporal e ventos invulgares, que obrigaram a várias paragens em certos pontos da costa africana. Foi assim que, quase à chegada a Porto Alexandre, com as dores de parto a apertarem cada vez mais, Maria de Jesus, com a ajuda de Deus e dos homens, neste caso das mulheres à sua volta reunidas, deu ao mundo  no dia 6 de Janeiro  do ano da graça de  de 1895, o seu primeiro filho varão, José dos Reis Almeida, assim chamado (Reis), por ter nascido no Dia de Reis.

Voltemos de novo a Aníbal Bagarrão. Logo ali, no salão do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Aníbal pensou ter encontrado a mulher dos seus sonhos e não tardou muito em pedí-la em namoro e, em seguida , em pedir o consentimento de D. Rosário, que foi concedido com alguma relutância dada a  sua fama de galanteador, pesando contudo o facto  de ter também fama de boa pessoa, honesta, trabalhadora e de boas famílias, o que o recomendava. Porém, sem papas na língua, logo ali  D. Rosário deixara dito: nada de casamento antes dos 18 anos. Casaram no dia  31 de Julho de 1937, na  Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes, perante o padre Correia que, poucos anos após haveria também ele próprio de seguir o exemplo, renunciando aos votos feitos a Cristo, ao sacerdócio e à Igreja. Fora a terceira cerimónia daquele dia, naquela Igreja, caso raro na terra, porque no dia a seguir já era Agosto e, dizia-se, Agosto era mês azarado para casamentos... O casal foi morar para o Bairro da Torre do Tombo, assim chamado porque ficava próximo do local onde em 1785 o comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, Pinheiro Furtado registou a presença de «inscrições» impressas na rocha branda  por mareantes e corsários que por ali passavam e ali faziam «aguada», quando fazia uma visita à «Angra do Negro». Pensa-se que tenha sido este oficial português o primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.



 Antonieta, Ildete e Luisa

Aníbal era então mecânico na fábrica de conservas de peixe da firma Pestana & Costa Lda.,  em Moçâmedes. Entretanto,  foram nascendo as suas três filhas,  foi sofrendo desgostos com a perda  da mãe  D. Maria Inácia, em 1949,  aos 65 anos, e 10 anos depois, com a morte do pai Antonio, aos 81 anos.


Nota: Este texto, de há 17 anos atrás,  foi retirado do caderno «O Lado Escuro da Lua» de Mário Augusto da Silva Lopes. Dada a sua amplitude, foi por mim resumido na sua primeira metade. A segunda metade do texto, segue,  respeitando integralmente o autor.   MariaNJardim
                                                            




Foto: 5 gerações, 4 das quais nascidas em Moçâmedes. Foto tirada já em Lisboa (pos 1975) Joana e o pequenito João Pedro, à esq., com D. Rosária (trisavó), D. Antonieta/Loló (bisavó), Antonieta/Dédé (avó),


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A seguir transcrevo  na íntegra, o texto de Mário Augusto da Silva Lopes, retirado do caderno «O Lado Escuro da Lua», onde brilhantemente e em determinadas passagens até com certa piada, descreve a vida e a personalidade do seu sogro,  Aníbal Martins Bagarrão:


«...Homem de sete oficios e pouco dinheiro, durante a sua longa vivência de meio século em África, foi motorista e mestre de costa, respectivamente, nos palhabotes  «Continente» e «Angola», fazendo serviços de cabotagem de Cabinda à foz do Cunene, subindo e descendo vezes sem conta o rio Zaire, ludibriando navios alemães que durante a Segunda Grande Guerra o tentaram aliciar para os perigosos caminhos da espionagem, que consistia em levar e trazer correio, prestando informações sobre o tráfego marimo  naquela costa de África.

Foi mestre de traineira quando foi necessário fazer vingar a sua tese de que os aladores e a sondas magnéticas, por ele montadas a bordo, implicavam a inerente redução da companha. Montou na Praia Amélia a 1ª fábrica automatizada de farinação de peixe e decantação de óleo importada da Alemanha.  Foi condutor de camiões, levando e trazendo pessoal contratado dos planaltos da Huila e Huambo, por trilhos e picadas que só Deus sabe.  Foi ainda co-proprietário de uma oficina, com tanto movimento como os devedores relapsos, a quem tinha vergonha de exigir o que lhe deviam.  Pilotou avionetes pelo puro prazer de voa, ou pela sedução de superação das suas capacidades. Era teimoso no saber e no querer,  quase sempre com razão.

Mas talvez a faceta mais nobre que ressalta da sua personalidade e do seu posicionamento na vida, seja o enorme amor que irradia pelo próximo e o profundo culto que devota à Família. Incapaz de injustiças e de violentação, fosse para  quem fosse, também o era na educação das suas meninas.  Da única vez que perdeu o controlo emocional e deu duas palmadas à filha mais velha (Dédé) foi uma canseira da D. Loló para calar a filha e confortar o inconsolável pai, que, deixando jorrar o saco lacrimal, mais parecia uma Maria Madalena arrependida.  E por tudo quanto era lado, na oficina ou na fábrica, no mar ou em terra, nos prazeres lúdicos das caçadas ou no quotidiano de uma vida sempre cheia, patrão ou empregado, emergia sempre o Homem, o Amigo do seu amigo com um Coração do tamanho do mundo.

Percorreu e conhecia o Deserto do Namibe como poucos, guiando o seu «Ford de pontapé»,  ou mais recentemente o jeep «Land Rover» da «Projeque», devidamente preparado por ele para as caçadas, com tanques de água, suportes em verguinha de ferro para arrumar a tenda , caixas debaixo dos assentos para acondicionar a carne a coberto dos olhares dos fiscais.  Era um exímio atirador, podendo-se dizer, como nos filmes americanos do «far west», que onde punha o olho, punha a bala. Mas previdente como todos os homens do mar, o  rancho preparado só para ele pela D. Lóló para a caçada de fim de semana, era tão profuso que dava seguramente para alimentar a população inteira de Liechenstein, durante igual período de tempo.

A par disso, era uma pessoa insinuante, alegre, sempre com uma piada ou anedota instintivas, apropriadas para cada ocasião, com talento especial para a cozinha, onde os seus temperos e refogados eram apreciados em qualquer comemoração.  E que tanto se comemorava, meu Deus, por aquela bendita terra, naquela altura! Talvez por isso tenha um apetite insaciável e um estomago que parecia não ter fundo. Ainda hoje se comentam os 49 ovos estrelados com chouriço que comeu de uma assentada, a meia tina de carapaus assados na Praia Amélia, os 94 pãezinhos destinados ao mata-bicho de todos os hóspedes do Hotel Poças, em Nova Lisboa,  os 18 repolhos recheados com carne numa Pensão da Ponta Negra, no Congo, e as 72 sardinhas assadas comidas... depois do jantar. 

Em pleno período posterior ao 25 de Abril de 1974, não suportou mais os desmandos e atropelos que se praticavam em Angola, terra  que tanto ama e que tinha já como sua. Depois de ter mandado a mulher para a Metrópole, saudoso da família, tomou um dos últimos aviões da «ponte aérea» montada por Portugal, com a ajuda dos EUA e outros países, e chegou a Portugal no dia 26 de Outubro de 1975, 50 anos, 7 meses e 2 dias após ter pisado pela primeira vez solo angolano.

Hoje com 82 anos de idade, para além da artrite que  lhe tolhe os movimentos, e da dietas que lhe corrigem os excessos do passado, mantém a mesma clarividência e o mesmo discernimento, o mesmo perfeccionismo e a mesma competência que sempre lhe conheci. Os neurónios nele recusam envelhecer, estão-se nas  tintas para o reumatismo, níveis de colesterol , ácido úrico e cirrose hepática.

Pode-se transmitir o conhecimento, mas não a sabedoria. Esta, infelizmente não se perpetua através de genes ou cromossomas. Dava-nos tanto jeito que assim fosse.

Este prolongar da prosa justifica-se, por ser da inteira justiça realçar os seus méritos, homenageando simultaneamente o Homem, o Familiar e o Amigo que há 30 anos conheci e me habituei a admirar.

Ah!!! E sinto-me muito lisongeado por ele ser o Pai da minha mulher, o Avô dos meus filhos, o Bisavô da recém nascida Mariana.»

FIM DE TEXTO


Como ficou dito atrás, Aníbal Bagarrão era um amante do Deserto do Namibe que frequentou uma imensidão de vezes e conhecia-lhe os cantos como aos seus dedos. Composto por um amigo alentejano de Moura, casado com uma prima de D. Lóló, segue um poema que ficará para sempre a marcar um desses muitos momentos que para o poeta culminaram com a triste morte de uma Gazela:





  A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo»
 

Tudo «malta» conhecida
 E por isso eu aceitei 
No outro dia à partida 
 No grupo me incorporei.
 
Era o Virgílio e era eu 
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz. 

Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina. 

A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor 

Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão. 

Quando o sol já descaía
Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente. 

Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas. 

O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão. 

Todos nos precipitamos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificamos
  Que ela ainda tinha vida. 
Com certeza nunca viste, 
E eu não mais desejo ver  
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer  

S. João do Estoril, 16/10/96 ROBAIAL

*    *    *
..........................
A descendência de Aníbal Marins Bagarrão e Maria Antonieta Almeida Bagarrão : AQUI
(1)
UM PROJECTO DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA NOS …

12 fevereiro 2010

Recordando o último Carnaval em Moçâmedes (actual Namibe - Angola): 1974









Em Moçâmedes, o Carnaval sob a forma de Entrudo foi introduzido pelos portugueses em meados do século XIX, e passou a ser festejado pelos africanos, que lhe emprestaram o seu cunho próprio, com danças de rua e máscaras, acompanhadas de batuques, cuja acção rítmica fazia lembrar as danças de recreação espiríta, que em dias de óbito era comum acontecerem no seio das populações autóctones, que desse modo se exibiam em gesto de solidariedade fraterna.

Presume-se  que os povos africanos que na qualidade de serviçais tenha sido transferido dos mais diversos pontos e tribos do interior na qualidade de semi-escravos nessa quadra de festa carnavalesca tenham recebido a influência de escravos afro-brasileiros que para ali se haviam deslocado acompanhando seus «patrões» que se estabeleceram em Moçâmedes e nas margens dos rios Bero, e Giraúl, onde ergueram os seus «engenhos» e as suas plantações, começando por explorar a produção da cana de açúcar, do algodão e da urzela.

Mas a festa do Carnaval era levada pelos portugueses pata terras de África era por eles festejada às vésperas da Quaresma, com festejos, danças, folguedos, representações teatrais, e até as tradicionais touradas a portuguesa. Muitas dessas diversões possuíam, de início, reminiscências das características agressivas do Entrudo, possivelmente herdadas dos chavarís medievais que incluíam zombarias, pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas ruas das cidades.

O Entrudo era o símbolo da festa desregrada e perigosa, que viria a ser criticada, combatida e proibida em Portugal e no Brasil com o avançar para o século XX, para se transformar num Carnaval menos agressivo, uma mistura entre Entrudo e Carnaval, que passou a caracterizar o modo de viver a festa nos nossos dias. Este seria, pois, o substrato básico da cultura carnavalesca das danças de rua africanas que se formaram no decurso da colonização portuguesa, durante o qual se assistiu  a uma contaminação de culturas, entre africanos  e europeus, especialmente portugueses, e  pela  cultura afro-brasileira. 

Sem luxo nem pompa, as danças indígenas carnavalescas  que estiveram activas em Moçâmedes até 1961 eram constituídas por grupos de autóctones sem quaisquer subsídios da parte do Municipio,  de modo próprio se juntavam de acordo com os bairros onde moravam, e se enfeitavam, recorrendo para tal aos mais variados objectos e vestimentas ao seu alcance. Uns exibiam panos garridos, soutiens, chapéus de abas largas, óculos máscaras de papelão, lenços, colares, brincos, pulseiras,  leques, sombrinhas, sapatos de salto alto, etc. Outros, troncos nus ou semi-nus,  com saias curtas de sarapilheira, apitos na boca, rostos pintalgados, paus na mão, penas na cabeça, simulando  índios, lutas e rituais. Outros ainda, ostentando casacas ornamentadas com adornos representando postos do exército, galões nos ombros, bonés e óculos escuros. Cada grupo surgia orgulhoso dos seus estandartes e da sua corte liderada pelos seus Reis e pela suas Rainhas, Principes, Princesa, Guarda, carnavalescamente trajados à guisa das monarquias europeias, ceptros reais e as respectivas corôas, que nas rainhas, eram colocadas em cima de véus que desciam até ao chão fazendo lembrar as santas dos altares das igrejas católicas, apostólicas, romanas.  Atrás iam os tocadores com diversos instrumentos para marcar o ritmo que se fundia com as passadas inimitáveis da dança, ao som do batuque, dos tambores, bombos, cornetas, apitos, reco-reco, marimbas, quissanges, para além de outros objectos julgados necessários para dar o tom, tais como latas, garrafas, ferrinhos, etc., etc.

Estes grupos desfilavam pelas ruas da cidade, sambando, batucando, cantando  e apitando, paravam às portas das casas, onde faziam a sua exibição que  terminava  com uma vénia cortês do  líder, e recebiam um «matabicho», gratificação em dinheiro, ou uma garrafa de vinho e algo para comer, que ajudava, dir-se-ia, a matar-o-bicho-da-fome e-da-sede que, entretanto, começava a apertar...

Regra geral, eram três as «danças» indígenas carnavalescas que desfilavam nesses dias em Moçâmedes,  a da Aguada, a do «plateau» da Torre do Tombo,e a do Forte de Santa Rita, cada uma delas com os seus  reis, com as suas rainhas,  os seus músicos, os seus poetas e os seus compositores.

O Dominguinhos ceguinho, pobre pedinte muito conhecido na cidade, era quem compunha a letra e a música da «dança» do Forte de Santa Rita. Ficou conhecida a letra de um Carnaval  nos finais dos anos 50 , que rezava assim: «eu não sabia  mana Canana era galinha... eu não, eu não sabia, mana Canana tá fazê vida c`os cachorrinho...». Trata-se  de uma critica ao comportamento de uma mulher. As letras  das músicas constituiam-se quase sempre numa crítica geralmente dirigida ao grupo rival, ou ao comportamento de algum dos seus integrantes, fossem homens ou mulheres (*).

O cozinheiro do  Ti Óscar de Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. O pior era quando, ao fim do dia, já com os seus componentes bem bebidos, no regresso a casa, as danças se encontravam numa mesma rua da cidade, frente a frente, chegando o despique a redundar em luta corpo a corpo. Aí tinha mesmo a autoridade que intervir para evitar o pior.

Tudo acabou um dia, abruptamente, tudo se esfumou com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras de Carnaval,  a partir das sublevações e dos acontecimentos trágicos de 1961, no norte de Angola, que deram início à luta armada  do exército português contra os movimentos de libertação.

Acabaram as danças de rua, acabou a grande festa do povo que anualmente juntava toda a gente da terra na extensa Avenida da Praia do Bonfim, local que durante mais de um século da presença portuguesa em terras do Namibe, foi testemunho destas e de outras manifestações.  Acabaram também os desfiles de automóveis, com carrinhas e camionetas profusamente enfeitadas com flores e serpentinas, que conduziam famílias ou grupos de foliões fantasiados, e que durante as tardes dos três dias de Carnaval percorriam as ruas da cidade. Acabaram as tradicionais batalhas de «cocotes», as «enfarinhadelas»,   que deixavam a Avenida da Praia do Bonfim toda desarrumada e coberta de farinha. E até deixámos de ver desfilar os corsos de carros alegóricos, uma prática recente, patrocinada pelos clubes e pelos jornais da cidade que, dando a oportunidade para competições e fazendo jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, imprimia  à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu, como havia acontecido, pelo menos, por duas vezes, ao longo da década de 1950.  

As tardes de Carnaval perderam a graça e a alegria que haviam proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e de todos quantos na festa se queriam incorporar. A cidade e as suas gentes, todas sem excepção, perderam o ânimo e tornaram-se mais tristes. 

A partir de 1961 e durante anos a fio, apenas uma ou outra criança era vista mascarada, a atravessar pela mão da mãe uma qualquer rua da cidade, ou a longa Avenida da Praia do Bonfim, talvez na direcção dos salões dos Clubes da terra, Clube Nautico ou do Atlético de Moçâmedes, talvez do Cine Impala ou do Cine Moçâmedes, para participarem em algum inofensivo concurso  infantil de trajes de Carnaval. O que nunca parou foram os bailes e as matinées dançantes que até meados dos anos 40 se faziam no mais concorrido salão de festas da cidade, o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o Clube pioneiro de Moçâmedes, depois no Aero Clube, e a partir dos anos 50, ora no salão do Atlético ora no Clube Náutico.  A festa recolheu e da rua passou para o interior das casas e dos salões, onde passava a estar tudo mais controlado. Voltaram os velhos «assaltos» de Carnaval, que não eram mais que bailes de mascarados ou não, realizados em casas particulares, em que grupos de amigos se juntavam e apareciam de surpresa  levando consigo bebidas e guloseimas. Isto no centro da cidade, mas  lá para os lados da Aguada,  Forte de Santa Rita e do Plateau da Torre do Tombo, durante o arrastado interregno imposto pelo regime as dancas do Carnaval de rua,  era comum ouvirem-se  no decurso desses três dias, soando de entre-muros, o som dos cânticos, das danças e das das batucada como que a clamar o retorno  da festa do povo.

Entretanto mais para diante, o Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA) criou regulamentos, e junto das Câmaras Municipais passou a dinamizar um Carnaval mais organizado,  proibindo a utilização de máscaras, incrementando o desfile de corsos que passaram  a decorrer, bem como as danças de rua, em  locais pré-determinados, enquanto cada vez mais foram  incentivadas as festas de salão, entre outras acções. Nesse período, depois de Luanda, só o Carnaval de Lobito, na província de Benguela, se destacou, chegando a ser considerado o mais animado e mais organizado Carnaval de Angola, passando a constituir um cartaz turístico para a cidade.

Em Moçâmedes, não sei bem porquê, o Carnaval de rua extinguiu-se em 1961 e assim se manteve sem reanimação por arrastados anos, talvez porque o interesse se tenha voltado para as «Festas do Mar» realizadas em data aproximada. 


De 1974 temos estas fotos que nos mostram como foi festejado um dos últimos Carnavais da cidade. Por esta altura ninguém imaginava ainda que se estava a viver os últimos dias do Império... No dia 25 de Abril dar-se-ia  o golpe militar que depôs o regime e instaurou a democracia em Portugal. Um dia vivido cheio de esperança num mundo, alguém mais tarde diria: "penhor seguro do quanto os portugueses andavam enganados".

Eis pois, como decorreu em Moçâmedes este último Carnaval  de que a Avenida  da Praia do Bonfim foi mais uma vez testemunha silenciosa. Desta vez sem as tradicionais "batalhas de cocotes" que enchiam a as ruas cheia de farinha. 

Desta vez eram três grupos carnavalescos representativos de três formas diferentes mas não antagónicas de viver aquela festa, ali a desfilaram pelas vasta Avenida e pela Marginal, mas como se tratasse de um derradeiro encontro de culturas.  Um deles genuinamente europeu, mais requintado e organizado, evocando com a presença de um coche, símbolo do poder real do início do Século XVII, e da cultura europeia de raiz greco-romana, outros tempos e outras gentes, na foto, desfilando junto  do belo edifício da Agência da CNN. de Duarte de Almeida. Outro, uma versão mais abrasileirada, onde  o brilho das sedas e dos setins,  onde as sainhas de folhos e corpetes cingindo os corpos semi-nús  das jovens africanas,  apontava  já para o Carnaval angolano do futuro, saído da fusão  da cultura euro-africana.  O carro da Câmara Municipal de Moçâmedes era um castelo, e nesse castelo podíamos ver algumas funcionarias, entre elas a Ondina Sancadas de Sousa, vestida de "Miss Mar  1973". Os subsídios foram concedidos pela Câmara, Serviço de Turismo, aos diversos grupos.

Ficam mais estas recordações.
NJ
Veja aqui:

Carnaval de rua em Porto Alexandre (Tombwa)















































































Foliões divertem-se num animado Carnaval de rua muito espontâneo, «muito africano», nos finais da década de 50, princípios de 60 em Porto Alexandre (actualmente, Tombwa).
1ª foto:  Igreja
de Porto Alexandre
2ª e 3ª  fotos: Reconheço entre outros, da dt. para a esq.: Albertino Gomes (acordeon), Eduardo, Luisa (turbante), Silvério (a meio, de óculos), Claudete ( colar), John Tavares e Antonieta (pintados de preto).
Em baixo:  Helder e Àlvaro
4ª foto: os irmãos Àlvaro e Eduardo Faustino, Rosa Gancho (2ª à esq.), ? Carvalho e ?
5ª e 6ª fotos: O mesmo Carnaval de rua em Porto Alexandre (Tombwa)

Fotos gentilmente cedidas por Álvaro e Elizabete Faustino 
Para ver mais clicar
AQUI 

08 fevereiro 2010

Baile de Carnaval em Moçâmedes, abrilhantado pelo conjunto musical «Os Diabos do Ritmo»












Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocar aqui  algumas fotos que  nos façam recordar os  bailes de Carnaval  como eram festejados  em Moçâmedes, nas últimas décadas da colonização portuguesa, nestes casos, nos anos 1954 e 1955.


Na 1ª foto estávamos em 1955, no  salão do Atlético Clube de Moçâmedes, na Rua Governador Calheiros. Acabavam de ser coroados o Rei e a Rainha do baile de Carnaval,  geralmente escolhidos entre os mais divertidos da festa. Um baile de Carnaval na década de 1950,  em Moçâmedes, fosse efectuado no salão de festas do Atlético ou do Clube Nautico (Casino), desde que abrilhantado pelo famoso conjunto musical «Os Diabos do Ritmo», era sempre uma festa animada que se prolongava até ao amanhercer, porque ninguém arredava pé, tivessem a idade que tivessem. Sim, porque nesta altura, nada de sociabilidades separadas, todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios e primos, e até avós. E quando alvorecia o dia, era comum os mais jovens sairem do baile directamente para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens.


Vivia-se  uma década  imediatamente anterior à do surgimento das discotecas, em que as várias gerações  ainda  se divertiam em conjunto, até porque as filhas casadoiras eram  resguardadas  e participavam destes eventos socias sob a alçada das mães e de familares, ou então de amigas de mais idade.  Era no entanto já uma época de transição para um outro tipo de mentalidade, mais solta e mais leve para as raparigas, que se divisava no horizonte. Afinal, e embora estivéssemos a viver naquele cantinho longínquo de África,  nao deixavamos de ser influenciados pelos ventos de mudança que sopravam do Ocidente....


Falemos, pois, um pouco mais, deste tempo de transicao, em que não obstante  dançar-se  ainda, e  muito, os classicos tangos e  valsas (como  «Comparcita», «Caminito», Danubio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.) já  tinham entrado em cena entre nos o rock-and-roll e o twist, ainda  que nos Carnavais predominassem as marchinhas brasileiras, os baioes, os passodobles, as rumbas, etc. etc. Desse tempo em que a Comparcita de Carlos Gardel, era o tango eleito pelos jovens enamorados, pela proximidade física, por instantes tolerada que proporcionava. Desse tempo  em que os bailes eram de lotação esgotada, que as mesas em volta dos salões  do Atlético e do Clube Náutico não chegavam para todos, e só as raparigas e os casais mais idosos ficavam sentados, ficando os adultos jovens de pé junto ao átrio de entrada. Enfim, todo um ambiente de animação que deve ser visto na óptica de uma cidade, não de gente fútil, à qual o dia a dia não pesa -como alguma literatura mal intencionada por aí costuma proclamar quando refere o tempo colonial, escrita por quem não sabe, provavelmente com intenções dúbias -,  mas de gente pacata, trabalhadora e ordeira.

   
Quanto às fotos expostas:


Na 1ª foto podemos ver o momento da eleição dos reis de Carnaval desse ano, Maria Júlia Maló de Abreu (Pitula) e ????. A entrevistá-los, a grande figura da rádio, chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho. À esq., Lalai Jardim,  Oliveira (Maboque), e à dt., por detrás de Pitula, Silvestre, seguindo-se Arnaldo Matos (Quinito), Renato Velin, Mário de Sousa. e um pouco mais abaixo, Simão.


Na 2ª foto, tirada num baile de Carnaval, em 1954,  decorrido no salão do Clube Nautico (Casino),  podemos ver entre outros, da esq. para a dt, em primeiro plano, Rui Bauleth de Almeida e Octávia de Matos, Nídia (eu) e Arménio Jardim, Antunes Salvador e Justina Salvador. Mais atrás, Monteiro, Cristão (Quitólas), e mais ao fundo, Artur Homem da Trindade.


Antunes Salvador (no canto dt., de óculos), era o fotógrafo radicado há mais tempo na cidade de Moçâmedes, que, por via disso, acabaria por guardar e trazer consigo para Portugal, todo o seu arquivo fotográfico que tem sido uma mais valia para todos nós, uma vez que muitas dessas fotos têm vindo a ser publicadas em livro, pelo seu neto, não deixando deste modo, morrer memórias que são património de todos nós, angolanos e portugueses. Acresce ainda que a maioria de nós, nem sequer trouxe consigo, de África, essas gratas recordações que de outro modo perder-se-iam para sempre. O objectivo deste blog é também esse, o de proporcionar a muitos moçamedenses a recuperação de fotos por desde o início nos vêm sendo cedidas.


Fica mais esta recordação.
MariaNJardim
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SAUDADES DE UM VALDEVINOS


Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...

Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...

Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...

Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...

NECO (Mangericão)

19.05.2009

05 fevereiro 2010

Regata de traineiras em Porto Alexandre (actual Tombwa) por ocasião da visita do Governador de Angola, Santos e Castro ao distrito de Moçâmedes, em 1972






 1ª. Espectacular  foto   retirada da Revista   «Notícias»/Angola/1972, representando uma regata de traineiras ocorrida na baía de Porto Alexandre (actual Tombwa), por ocasião da visita do Governador de Angola, Santos e Castro. 

2ª. O momento da chegada a terra, após as regatas na foto anterior.

Longe ia o tempo em que se chegara a duvidar da possibilidade da existência de Porto Alexandre , a «Angra das Aldeias» como fora primeiramente baptizada por mareantes portugueses que ali desembarcaram no ano de 1485, pois não fazia sentido construir algo que fosse, numa terra fustigada constantemente por ventos fortes que soparavam do deserto para o mar, e sobre uma areia que o deserto constantemente revolvia e ameaçava cobrir as habitações. 

Foi a partir da plantação em série de casuarinas (tipo de pinheiro bravo ligeiramente diferente do existente em Portugal), destinada a travar o movimento das dunas, que Porto Alexandre começou a ser possível. Uma odisseia que ficou a dever-se à teimosia heroica de um punhado de olhanenses que alí se fixaram com carácter permanente e alí desenvolveram a indústria de pesca e derivados de peixe. Em seguida criaram-se as hortas nas margens do rio Curoca, (zona do Pinda), e os alexandrenses passaram a colher saborosos melões, figos e até uvas, que passaram a constituir a boa mesa, para além do bom peixe e das saborosas ameijoas...

Porto Alexandre no início da década de 70 era já uma uma cidadezinha próspera exibindo algumas rasgadas avenidas, com elegantes vivendas e jardins, e chegou a ser nos anos 60 o maior centro piscatório da África, com dezenas de fábricas de farinhas e óleos de peixe e um grande centro conserveiro.

Com a modernização das instalações fabris, até as moscas que durante muito tempo  enxamearam as eiras de secagem ao sol da farinha de peixe e invadiam as habitações, acabaram por desaparecer. Sem dúvida, se Porto Alexandre foi possível, tudo é possível, desde que o homem queira e a natureza ajude!