17 janeiro 2010

Famílias de Moçâmedes


 

As minhas primas e amigas Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé), Ildete Almeida Bagarrão e Luisa Almeida Bagarrão, enquanto ainda meninas nos tempos em que se usavam grandes laços no cabelo. Foto tirada por volta de 1949, em Moçâmedes.
 

Nesta foto de colegiais em Moçâmedes a Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé) é a que está embaixo, precisamente no meio

Na segunda foto, já casadas e com os respectivos maridos.
Da esq. para a dt.: Ildete e Mário Augusto da Silva Lopes, Luísa e Pedro Rolão (casamento), Antonieta e Carlos Manuel Guedes Lisboa  (Lolita). Década de 1960, em Moçâmedes
 
A Antonieta (Dédé) e marido,  Carlos Manuel Guedes Lisboa  (Lolita), familiares e amigos
 O pai, Anibal Martins Bagarrão e um leão no Deserto do Namibe.
Aníbal percorria e conhecia o Deserto do Namibe como poucos, guiando o seu «Ford de pontapé»,  ou mais recentemente o jeep «Land Rover» da «Projeque», devidamente preparado por ele para as caçadas, com tanques de água, suportes em verguinha de ferro para arrumar a tenda , caixas debaixo dos assentos para acondicionar a carne a coberto dos olhares dos fiscais.  Era um exímio atirador, podendo-se dizer, como nos filmes americanos do «far west», que onde punha o olho, punha a bala. Mas previdente como todos os homens do mar, o  rancho preparado só para ele pela D. Lóló para a caçada de fim de semana, era tão profuso que dava seguramente para alimentar a população inteira de Liechenstein, durante igual período de tempo.
 Anibal Martins Bagarrão adorava o deserto do Namibe
Anibal enquanto em Moçâmedes com a profissão de mecânico  trabalhou  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, na fábrica de conservas de peixe da firma Pestana & Costa Lda, mais tarde na Praia Amélia para Venâncio Guimarães. Era um grande profissional e um homem bem disposto e adorável. Nasceu no dia 30 de Maio de 1911, em Olhão (Algarve), um ano após a implantação da República Portuguesa.  Era filho de Maria Inácia Libório, natural de Albufeira e de António  Bagarrão,  natural de Olhão,  tinha como irmãos António (o primogénito),  Arnaldo, Noémia e Otília Martins Bagarrão.

 Partiu para Angola rumo a Moçâmedes no dia 21 de Fevereiro de 1925 a bordo do navio «Moçambique», na companhia de seu pai, António Bagarrão, e de seus irmãos. Embarcaram  numa viagem sem regresso, e chegaram a Moçâmedes no dia 24 de Março do mesmo ano, ao fim de  32 longos dias de viagem. Logo no dia  a seguir à chegada começaram a trabalhar. O Aníbal,  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, a cerca de 40 km a norte de Moçâmedes. Depois pai e filhos calcorrearam por quase todas as praias do distrito,  num afã imparável, montando redes de armações, aparelhando cercos e sacadas, fazendo um pouco de tudo. 
Foi mestre de traineira quando foi necessário fazer vingar a sua tese de que os aladores e a sondas magnéticas por ele montadas a bordo, implicavam a inerente redução da companha. Montou na Praia Amélia a 1ª fábrica automatizada de farinação de peixe e decantação de óleo importada da Alemanha.  Foi condutor de camiões, levando e trazendo pessoal contratado dos planaltos da Huila e Huambo, por trilhos e picadas que só Deus sabe.  Foi ainda co-proprietário de uma oficina, com tanto movimento como os devedores relapsos, a quem tinha vergonha de exigir o que lhe deviam.  Pilotou avionetes pelo puro prazer de voa, ou pela sedução de superação das suas capacidades. Era teimoso no saber e no querer,  quase sempre com razão.

Homem de sete oficios e pouco dinheiro, durante a sua longa vivência de meio século em África, foi também motorista e mestre de costa incluso em palhabotes m tenho feito serviço de cabotagem no   «Continente» e «Angola», de Cabinda à foz do Cunene; subiu e desceu vezes sem conta o rio Zaire, ludibriando navios alemães que durante a Segunda Grande Guerra o tentaram aliciar para os perigosos caminhos da espionagem, que consistia em levar e trazer correio, prestando informações sobre o tráfego marítimo  naquela costa de África.

Foi num baile no Ginásio Clube da Torre do Tombo,  que um dia, enquanto dedilhava a guitarra, conheceu a jovem Antionieta (Loló, para a família e amigos), uma adolescente de 14 anos bem desenvolvidos, rosto bonito e envergonhado, filha de D. Rosário e de José dos Reis Almeida. Não tardou muito em pedi-la em namoro e, em seguida em casamento. Mas D. Rosário não permitiu que a sua filha casasse antes dos 18 anos, E foi no  31 de Julho de 1937, na  Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes, que o padre Correia os casou. O casal foi morar para o Bairro da Torre do Tombo, assim chamado porque ficava próximo do local onde em 1785 o comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, Pinheiro Furtado registou a presença de «inscrições» impressas na rocha branda  por mareantes e corsários que por alí passavam e ali faziam «aguada», quando fazia uma visita à «Angra do Negro». Contava-se que ambos  os pais da D. Lóló haviam nascido a bordo de um barco, em Angola. D. Rosário, à chegada a Benguela, e José, com Porto Alexandre à vista. José, sogro do Anibal, marido de D. Rosário, pai de D. Lóló e avô das minhas primas nasceu no final de 1894, a bordo de um caíque, quando este se aproximava de Porto Alexandre, oriundo de Lisboa.  Maria de Jesus Frota (filha de José Martins Gaivota e de Ana da Piedade Frota, os meus bisavós maternos) e mãe do José, ia acompanhada por  António dos Santos Almeida, o marido, e por duas filhas de tenra idade, a Leontina e a Isaura. Ia grávida de 7 meses.  O caíque integrava um combóio de barcos com o mesmo destino. A viagem  até Moçâmedes deveria levar pouco mais de 30 dias mas o caíque em que viajavam teve várias paragens em certos pontos da costa africana, devido a tempestades e a viagem acabou por durar 2 meses. Foi assim que quando o barco chegava a Porto Alexandre, a Maria de Jesus viu-se acometida pelas dores de parto, e rodeada pelas suas companheiras de viagem deu ao mundo  no dia 6 de Janeiro de1895, o seu primeiro filho varão, José dos Reis Almeida, assim chamado (Reis), por ter nascido no Dia de Reis.

Profundo cultor da devoção à Família, incapaz de injustiças e de violentação, fosse para  quem fosse, também o era na educação das suas meninas às quais dedicou todo o saber, carinho, amor e compreensão.  E por tudo quanto era lado, na oficina ou na fábrica, no mar ou em terra, nos prazeres lúdicos das caçadas ou no quotidiano de uma vida sempre cheia, patrão ou empregado, emergia sempre o Homem, o Amigo do seu amigo com um Coração do tamanho do mundo. A par disso, era uma pessoa insinuante, alegre, sempre com uma piada ou anedota instintivas, apropriadas para cada ocasião, com talento especial para a cozinha, onde os seus temperos e refogados eram apreciados em qualquer comemoração.  E que tanto se comemorava, meu Deus, por aquela bendita terra, naquela altura! Talvez por isso tenha um apetite insaciável e um estomago que parecia não ter fundo. Ainda hoje se comentam os 49 ovos estrelados com chouriço que comeu de uma assentada, a meia tina de carapaus assados na Praia Amélia, os 94 pãezinhos destinados ao mata-bicho de todos os hóspedes do Hotel Poças, em Nova Lisboa,  os 18 repolhos recheados com carne numa Pensão da Ponta Negra, no Congo, e as 72 sardinhas assadas comidas... depois do jantar. 
Em pleno período posterior ao 25 de Abril de 1974, não suportou mais os desmandos e atropelos que se praticavam em Angola, terra  que tanto ama e que tinha já como sua. Depois de ter mandado a mulher para a Metrópole, saudoso da família, tomou um dos últimos aviões da «ponte aérea» montada por Portugal, com a ajuda dos EUA e outros países, e chegou a Portugal no dia 26 de Outubro de 1975, 50 anos, 7 meses e 2 dias após ter pisado pela primeira vez solo angolano.

Na velhice,  para além da artrite que  lhe tolhia os movimentos, e da dietas que lhe corrigem os excessos do passado, manteve a mesma clarividência e o mesmo discernimento, o mesmo perfeccionismo e a mesma competência que sempre teve. Os neurónios nele recusam envelhecer, estão-se nas  tintas para o reumatismo, níveis de colesterol , ácido úrico e cirrose hepática. Pode-se transmitir o conhecimento, mas não a sabedoria. Esta, infelizmente não se perpetua através de genes ou cromossomas. Dava-nos tanto jeito que assim fosse. Este prolongar da prosa justifica-se, por ser da inteira justiça realçar os seus méritos, homenageando simultaneamente o Homem, o Familiar e o Amigo que há 30 anos conheci e me habituei a admirar.Assim se referia Mário Lopes ao seu sogro:
Ah!!! E sinto-me muito lisongeado por ele ser o Pai da minha mulher, o Avô dos meus filhos, o Bisavô da recém nascida Mariana.»


 A Antonieta (Dédé) de pé, à esq. na Praia Amélia, por volta de 1948, na companhia de familiares e amigos: Eduarda Bauleth, Maria Emilia Ramos, Ni, Iolanda, Rui Bauleth e Fernando Pessanha. Embaixo Zeca Carequeja, Elizabete Pessanha e Lala

Belíssima esta foto, onde se juntam 5 gerações de uma mesma familia. D Rosário Almeida, D. Antonieta Almeida Bagarrão (Lóló), a A Antonieta (Dédé), a filha Joana e o netinho
Uma homenagem a esta familia linda à qual estou ligada por laços de família pelo lado materno, uma vez que a D. Rosário, a avó casou com um sobrinho da minha avó, o José dos Reis Almeida que nasceu
                                                             

Foto: 5 gerações, 4 das quais nascidas em Moçâmedes. Foto tirada já em Lisboa (pos 1975) Joana e o pequenito João Pedro, à esq., com D. Rosária (trisavó), D. Antonieta/Loló (bisavó), Antonieta/Dédé (avó), Joana, a mãe da Mariana.
Como ficou dito atrás, Aníbal Bagarrão era um amante do Deserto do Namibe que frequentou uma imensidão de vezes e conhecia-lhe os cantos como aos seus dedos. Composto por um amigo alentejano de Moura, casado com uma prima de D. Lóló, segue um poema que ficará para sempre a marcar um desses muitos momentos que para o poeta culminaram com a triste morte de uma Gazela:


  A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo»
 
Tudo «malta» conhecida
 E por isso eu aceitei 
No outro dia à partida 
 No grupo me incorporei.
 
Era o Virgílio e era eu 
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz. 
Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina. 
A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor 
Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão. 
Quando o sol já descaía
Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente. 
Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas. 
O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão. 
Todos nos precipitamos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificamos
  Que ela ainda tinha vida. 
Com certeza nunca viste, 
E eu não mais desejo ver  
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer  
S. João do Estoril, 16/10/96 ROBAIAL

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