22 fevereiro 2010

Gente de Moçâmedes: Aníbal Martins Bagarrão




Tributo a Anibal Martins Bagarrão

Se houve pessoas que deixam saudades quando partiram deste mundo, uma delas foi Aníbal  Martins Bagarrão. Nascido a 30 de Maio de 1911, em Olhão (Algarve), um ano após a implantação da República Portuguesa, se estivesse vivo estaria a fazer 99 anos. 

Filho de Maria Inácia Libório, natural de Albufeira e de António  Bagarrão,  natural de Olhão,  tinha como irmãos António (o primogénito),  Arnaldo, Noémia e Otília Martins Bagarrão. 

O pai, António Bagarrão era um insatisfeito   do ponto de vista profissional,  não que estivesse mal em Portugal,  mas tinha outras ambições para a sí e para os seus, que não cabiam nos horizontes  estreitos que definiam, na época, o modo de vida da maioria dos portugueses.

Assim, numa primeira fase da sua vida de homem casado, partiu de Olhão para Lisboa, onde chegou a viver  10 anos com familia, numa zona da Ribeira frontal ao rio Tejo, onde Anibal cresceu  em meio ao ambiente alfacinha e teve ocasião de ser testemunho de vários acontecimentos  e até  de participar  no delírio da partida de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 30 de Março 1922, da Torre de Belem, para  a 1ª travessia do Atlântico Sul, começada com o hidroavião “Lusitânia”, e concluída com êxito com o “Santa Cruz”, amarando na Baia do Rio de Janeiro, no dia 17 Junho.
 
Em Olhão, Aníbal frequentou a escola primária até à 3ª classe, e teve por companheiros, entre outros, o Zé Guelas, o Eurico das bicicletas (filho do Zé Pirolito), o Chico Paulo ou o Zé Vieira, seus  indefectiveis amigos de brincadeira e cabulice, não obstante a sua inclinação inata já evidente para os números e para as letras.

Mas a ida para América roía o íntimo do pai António Bagarrão que um dia resolveu vender alguns dos seus bens, despediu-se da familia, amigos e  colegas de trabalho, e partiu com lágrimas nos olhos  munido de uma «carta de chamada» e de um endereço: Broocklyn, que não era mais do que um dos piores bairros onde poderia cair.  Não aguentou mais que seis meses naquele bairro miserável, prometeu a si mesmo voltar e jurou não mais se apartar da  família.

De novo em Portugal, retornou ao antigo  trabalho em Lisboa, onde era mestre de redes. Em Lisboa, Anibal, então com 14 anos,  resolveu matricular-se  na 4ª classe, na Escola Poço dos Negros, para concluir o Primário. Mais tarde, o pai António e a família voltaram de novo a Olhão, mas a partir de então, era a África que o seduzia. Eram encorajadoras as notícias que de lá chegavam. Afinal, a população de Moçâmedes, a cidade mais ao sul de Angola, era maioritariamente povoada por olhanenses que desde 1861 para alí haviam começado a emigrar em números crescentes. Os pioneiros, os fundadores da cidade de Moçâmedes, tinham  para ali partido, idos do Brasil (Pernambuco)  na barca «Tentativa Feliz», em 04 de Agosto de 1849. E o governo português  estava aliciando à fixação de novos colonizadores.

Uma carta do cunhado, Manuel Eugénio levou António Bagarrão de novo a deixar Olhão,  mas desta vez acompanhado pelos seus filhos varões,  António (o primogénito), Anibal e Arnaldo,  que então já contavam 19, 15 e 13 anos, respectivamente. As mulheres  ficaram a ver como as coisas em África iriam correr.

No dia 21 de Fevereiro de 1925 a bordo do navio «Moçambique»,  António Bagarrão acompanhado pelos filhos, embarcava  na sua última viagem pelo vasto mundo, agora sem regresso, tendo chegado a Moçâmedes no dia 24 de Março do mesmo ano, ao fim de  32 longos dias. Logo no dia  a seguir à chegada começaram a trabalhar. O Aníbal,  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, a cerca de 40 km a norte de Moçâmedes. Depois, foi o calcorrear por quase todas as praias do distrito,  pai e filhos,  num afã imparável, montando redes de armações, aparelhando cercos e sacadas, fazendo um pouco de tudo. 

Em Moçâmedes,  cidade encravada entre o mar e o deserto, Aníbal teve a oportunidade de desenvolver todas as suas potencialidades inatas, toda a sua inteligência e capacidade inventiva.  Cresceu e fez-se homem. Começou a frequentar os bailes do Ginásio Clube da Torre do Tombo,  o clube pioneiro da terra, fundado em 1919, e mesmo alí,  enquanto dedilhava a guitarra, conheceu a jovem Antionieta (Loló, para a família e amigos), uma adolescente de 14 anos bem desenvolvidos, rosto bonito e envergonhado, filha de D. Rosário e de José dos Reis Almeida, ambos nascidos a bordo de um barco, em Angola. D. Rosário, à chegada a Benguela, e José, com Porto Alexandre à vista.

Farei aqui um parêntesis para descrever as circunstâncias em que José dos Reis Almeida,  o futuro sogro de Aníbal Martins Bagarrão nasceu. No final de 1894, partira de Olhão uma nova leva de emigrantes rumo a Moçâmedes, ou mais propriamente, a Porto Alexandre, levados pelo sonho de uma vida melhor  que a propaganda da época lhes inculcara. (1) Viajava num caíque Maria de Jesus Frota (filha de José Martins Gaivota e de Ana da Piedade Frota) e  António dos Santos Almeida, seu marido, com as duas filhas de tenra idade, Leontina e Isaura. O caíque integrava um combóio de barcos com o mesmo destino. Maria de Jesus Frota  ia grávida de quase 7 meses. A viagem que fora serena até ao Equador e deveria levar pouco mais de 30 dias para chegar ao destino, acabou por durar dois longos meses, devido ao mau tempo, frio, nevoeiro, temporal e ventos invulgares, obrigando a várias paragens em certos pontos da costa africana. Foi assim que, quase à chegada a Porto Alexandre, com as dores de parto a apertarem cada vez mais, Maria de Jesus, com a ajuda de Deus e dos homens, neste caso das mulheres à sua volta reunidas, deu ao mundo  no dia 6 de Janeiro  do ano da graça de  de 1895, o seu primeiro filho varão, José dos Reis Almeida, assim chamado (Reis), por ter nascido no Dia de Reis.

Voltemos de novo a Aníbal Bagarrão. Logo ali, no salão do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Aníbal pensou ter encontrado a mulher dos seus sonhos e não tardou muito em pedí-la em namoro e, em seguida , em pedir o consentimento de D. Rosário, que foi concedido com alguma relutância dada a  sua fama de galanteador, pesando contudo o facto  de ter também fama de boa pessoa, honesta, trabalhadora e de boas familias, o que o recomendava. Porém, sem papas na língua, logo ali  D. Rosário deixara dito: nada de casamento antes dos 18 anos. Casaram no dia  31 de Julho de 1937, na  Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes, perante o padre Correia que, poucos anos após haveria também ele próprio de seguir o exemplo, renunciando aos votos feitos a Cristo, ao sacerdócio e à Igreja. Fora a terceira cerimónia daquele dia, naquela Igreja, caso raro na terra, porque no dia a seguir já era Agosto e, dizia-se, Agosto era mês azarado para casamentos... O casal foi morar para o Bairro da Torre do Tombo, assim chamado porque ficava próximo do local onde em 1785 o comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, Pinheiro Furtado registou a presença de «inscrições» impressas na rocha branda  por mareantes e corsários que por alí passavam e ali faziam «aguada», quando fazia uma visita à «Angra do Negro». Pensa-se que tenha sido este oficial português o primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.



 Antonieta, Ildete e Luisa

Anibal era então mecânico na fábrica de conservas de peixe da firma Pestana & Costa Lda.,  em Moçâmedes. Entretanto,  foram nascendo as suas três filhas,  foi sofrendo desgostos com a perda  da mãe  D. Maria Inácia, em 1949,  aos 65 anos, e 10 anos depois, com a morte do pai António, aos 81 anos.


Nota: Este texto, de há 17 anos atrás,  foi retirado do caderno «O Lado Escuro da Lua» de Mário Augusto da Silva Lopes. Dada a sua amplitude, foi por mim resumido na sua primeira metade. A segunda metade do texto, segue,  respeitando integralmente o autor.   MariaNJardim
                                                             




Foto: 5 gerações, 4 das quais nascidas em Moçâmedes. Foto tirada já em Lisboa (pos 1975) Joana e o pequenito João Pedro, à esq., com D. Rosária (trisavó), D. Antonieta/Loló (bisavó), Antonieta/Dédé (avó),


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A seguir transcrevo  na íntegra, o texto de Mário Augusto da Silva Lopes, retirado do caderno «O Lado Escuro da Lua», onde brilhantemente e em determinadas passagens até com certa piada, descreve a vida e a personalidade do seu sogro,  Aníbal Martins Bagarrão:


«...Homem de sete oficios e pouco dinheiro, durante a sua longa vivência de meio século em África, foi motorista e mestre de costa, respectivamente, nos palhabotes  «Continente» e «Angola», fazendo serviços de cabotagem de Cabinda à foz do Cunene, subindo e descendo vezes sem conta o rio Zaire, ludibriando navios alemães que durante a Segunda Grande Guerra o tentaram aliciar para os perigosos caminhos da espionagem, que consistia em levar e trazer correio, prestando informações sobre o tráfego marimo  naquela costa de África.

Foi mestre de traineira quando foi necessário fazer vingar a sua tese de que os aladores e a sondas magnéticas, por ele montadas a bordo, implicavam a inerente redução da companha. Montou na Praia Amélia a 1ª fábrica automatizada de farinação de peixe e decantação de óleo importada da Alemanha.  Foi condutor de camiões, levando e trazendo pessoal contratado dos planaltos da Huila e Huambo, por trilhos e picadas que só Deus sabe.  Foi ainda co-proprietário de uma oficina, com tanto movimento como os devedores relapsos, a quem tinha vergonha de exigir o que lhe deviam.  Pilotou avionetes pelo puro prazer de voa, ou pela sedução de superação das suas capacidades. Era teimoso no saber e no querer,  quase sempre com razão.

Mas talvez a faceta mais nobre que ressalta da sua personalidade e do seu posicionamento na vida, seja o enorme amor que irradia pelo próximo e o profundo culto que devota à Família. Incapaz de injustiças e de violentação, fosse para  quem fosse, também o era na educação das suas meninas.  Da única vez que perdeu o controlo emocional e deu duas palmadas à filha mais velha (Dédé) foi uma canseira da D. Loló para calar a filha e confortar o inconsolável pai, que, deixando jorrar o saco lacrimal, mais parecia uma Maria Madalena arrependida.  E por tudo quanto era lado, na oficina ou na fábrica, no mar ou em terra, nos prazeres lúdicos das caçadas ou no quotidiano de uma vida sempre cheia, patrão ou empregado, emergia sempre o Homem, o Amigo do seu amigo com um Coração do tamanho do mundo.

Percorreu e conhecia o Deserto do Namibe como poucos, guiando o seu «Ford de pontapé»,  ou mais recentemente o jeep «Land Rover» da «Projeque», devidamente preparado por ele para as caçadas, com tanques de água, suportes em verguinha de ferro para arrumar a tenda , caixas debaixo dos assentos para acondicionar a carne a coberto dos olhares dos fiscais.  Era um exímio atirador, podendo-se dizer, como nos filmes americanos do «far west», que onde punha o olho, punha a bala. Mas previdente como todos os homens do mar, o  rancho preparado só para ele pela D. Lóló para a caçada de fim de semana, era tão profuso que dava seguramente para alimentar a população inteira de Liechenstein, durante igual período de tempo.

A par disso, era uma pessoa insinuante, alegre, sempre com uma piada ou anedota instintivas, apropriadas para cada ocasião, com talento especial para a cozinha, onde os seus temperos e refogados eram apreciados em qualquer comemoração.  E que tanto se comemorava, meu Deus, por aquela bendita terra, naquela altura! Talvez por isso tenha um apetite insaciável e um estomago que parecia não ter fundo. Ainda hoje se comentam os 49 ovos estrelados com chouriço que comeu de uma assentada, a meia tina de carapaus assados na Praia Amélia, os 94 pãezinhos destinados ao mata-bicho de todos os hóspedes do Hotel Poças, em Nova Lisboa,  os 18 repolhos recheados com carne numa Pensão da Ponta Negra, no Congo, e as 72 sardinhas assadas comidas... depois do jantar. 

Em pleno período posterior ao 25 de Abril de 1974, não suportou mais os desmandos e atropelos que se praticavam em Angola, terra  que tanto ama e que tinha já como sua. Depois de ter mandado a mulher para a Metrópole, saudoso da família, tomou um dos últimos aviões da «ponte aérea» montada por Portugal, com a ajuda dos EUA e outros países, e chegou a Portugal no dia 26 de Outubro de 1975, 50 anos, 7 meses e 2 dias após ter pisado pela primeira vez solo angolano.

Hoje com 82 anos de idade, para além da artrite que  lhe tolhe os movimentos, e da dietas que lhe corrigem os excessos do passado, mantém a mesma clarividência e o mesmo discernimento, o mesmo perfeccionismo e a mesma competência que sempre lhe conheci. Os neurónios nele recusam envelhecer, estão-se nas  tintas para o reumatismo, níveis de colesterol , ácido úrico e cirrose hepática.

Pode-se transmitir o conhecimento, mas não a sabedoria. Esta, infelizmente não se perpetua através de genes ou cromossomas. Dava-nos tanto jeito que assim fosse.

Este prolongar da prosa justifica-se, por ser da inteira justiça realçar os seus méritos, homenageando simultaneamente o Homem, o Familiar e o Amigo que há 30 anos conheci e me habituei a admirar.

Ah!!! E sinto-me muito lisongeado por ele ser o Pai da minha mulher, o Avô dos meus filhos, o Bisavô da recém nascida Mariana.»

FIM DE TEXTO


Como ficou dito atrás, Aníbal Bagarrão era um amante do Deserto do Namibe que frequentou uma imensidão de vezes e conhecia-lhe os cantos como aos seus dedos. Composto por um amigo alentejano de Moura, casado com uma prima de D. Lóló, segue um poema que ficará para sempre a marcar um desses muitos momentos que para o poeta culminaram com a triste morte de uma Gazela:





  A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo»
 

Tudo «malta» conhecida
 E por isso eu aceitei 
No outro dia à partida 
 No grupo me incorporei.
 
Era o Virgílio e era eu 
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz. 

Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina. 

A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor 

Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão. 

Quando o sol já descaía
Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente. 

Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas. 

O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão. 

Todos nos precipitamos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificamos
  Que ela ainda tinha vida. 
Com certeza nunca viste, 
E eu não mais desejo ver  
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer  

S. João do Estoril, 16/10/96 ROBAIAL

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