20 março 2010

Ponta de Pau do Sul: um miradouro sobre a cidade e a baia. Brito Aranha e a costa maritima de Moçâmedes.

[Eu,+Betinha+e+Gracietinha+no+mirante.jpg]

O MEU OLHAR

O meu olhar é nítido como um Girassol.Tenho o costume de andar pelas estradas, olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes tinha visto. Eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial, que tem uma criança se, ao nascer reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo
Alberto Caeeiro 
(foto: a autora do blog e amigas na Ponta do Pau do Sul , um miradouro sobre a cidade. 1956)
[BAIA.JPG]
 Mossâmedes é já Namibe

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968
Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»
Mossãmedes: centro histórico e Avenida 
Mossâmedes finais dos anos 1930
 
Na falésia da Torre do Tombo com as pescaria e a cidade como pano de fundo. 1955

Pescarias da Torre do Tombo antes da construção da marginal e cais.1950


De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11:

«...Fica a bahia de Mossãmedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha. 

 Ponta do Giraul

«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.
 Pontal a norte do farol do Giraul

«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.
 

«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.

A Fortaleza em finais do século XIX
 O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX

«...Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tombo, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.

Uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo. No vapor Índia chegaram em 1884 os 1ºs colonos madeirenses rumo ao Lubango. No vapor Sado desembarcou aqui uma colónia de alemães e alunos da Casa Pia em 1857.



Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956

 A ponta do Noronha (Pau do Sul) e baía. Anos 1920

«...Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira.

«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.

Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul), vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956

«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.

O  Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955

«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.

«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia

«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.

«...Indo do N. deve-se dar resguardo á ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.

 A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões, barcos de pesca. Início do século XX

«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»

«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»

«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»
 As antigas pescarias em 1950

«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»

A  Praia da Miragens,  a ponte  os carris de ferro, o piquete da guarda fiscal, os barcos no mar e na praia, algumas construções, entre elas o edifício dos Caminhos de Ferro (em fase de construção) e o Observatório Metereológico. O antigo colegio das Madres, as casuarinas, e ao fundo...a foz do Bero




«...No recanto NE. despeja, em tempo de chuvas, o rio Béro ou das Mortes, cujo leito atravessa o sitio das Hortas. Correm com tal velocidade as aguas d'este rio, em algumas occasiões de grande cheia, que se levam para cima de 8 milhas por hora. Do extremo da margem esquerda do rio Bero parte para NO. um baixo com perto de milha de comprido. Tem o rio agua de beber, e sem custo a deixa tomar, quando calema: será, porém, necessario ir recehel-a de manhã cedo, antes de calar a viração, porque mais tarde açoita o mar aquellas paragens e é custoso de voltar ao surgidoiro: devem as embarcações que a empregarem na faina da aguada fundear perto da foz do Béro e da banda do N E. da restinga. Acha-se tambem optima agua abrindo cacimbas no terreno das Hortas.»

http://geologicalintroduction.baffl.co.uk/wp-content/uploads/2009/01/desertcanyon1.jpg
 Mesetas no Deserto do Namibe

«...Nas alturas de Mossamedes se erguem as banquetas chamadas Mesas dos Cavalleiros ou dos Carpinteiros, parecidas com outras que se prolongam desde o parallelo de 14° 30' para S., mas distinctas por serem tres e eguaes. São boas marcas para navio que estiver amarrado.»

«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossamedes.»

A cidade  de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), no início do século XX

«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»

                                                  Palácio, Igreja e Hospital na Avª Felner, Mossâmedes

«...Rapido ha sido o desenvolvimento da villa, o que em grande parte se deve attribuir á bondade do clima, muito parecido com os mais sadios da Europa. Sente-se alli frio, anuvia-se o tempo e são humidas as noites em julho e agosto, mezes em que a altura média barometrica anda por 76O a 765 millimetros. De annos a annos desaba alli fortissimo terral de E., que traz grande copia de po muito incommodo e produz graves doenças.


Uma aldeia indígena

«...Nas suas visinhanças, e especialmente para o lado do NE., se levantam muitas libatas de negros, quasi todas mucubaes, cultivando especialmente o milho, e possuindo grandes manadas de gado vaccum.

«...Ha bom desembocadoiro no areial fronteiro á povoação baixa, e ao abrigo da ponta Negra: deve-se, porém, fugir de uma lagoa que fica ao lume d'agua e pela parte de dentro d'aquella ponta.»

by Brito Aranha.

Archivo pittoresco, Volume 10 Redigir



* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por alí passavam e alí vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil,  em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratoria que se estendeu por todo o sáculo XX .


16 março 2010

Junto do Farol da Ponta de Pau do Sul em Moçâmedes, Namibe, Angola, 1954

[AIA640.jpg]


 

1ª foto. A ponta do Pau do Sul, ou Noronha.

2ª foto. Grupo de jovens de entao (1954), junto da "casa do farol" da Ponta do Pau do Sul ou Ponta do Noronha,  no topo da falesia  que circunda a baia, na Torre do Tombo. 

3ª foto. Nesta figura podemos ver melhor como era este farol e a "casa" que o suportava. O actual farol possui características completamente diferentes, para além de ser mais alto, encontra-se colocado no chão, ao lado da casa e não  por cima dela, e tanto a casa como o farol encontram-se rodeados por uma cerca.

Deste grupo de mocamedenses, cinco das quais  eram na epoca basquetebolistas do Ginasio Clube da Torre do Tombo,
reconheço, de cima para baixo e da esq. para a dt:
1. Francelina Gomes (Ginásio) e Olímpia Aquino
2. Violete Velhinho, Lurdes Infante da Câmara e Paula Ferreira (Ginásio)
3. M. Nídia Almeida(Ginásio), Celísia Calão(Ginásio) e Helena Gomes (Ginásio)
4. Georgete
Foto gentilmente cedida por Olímpia Aquino
Informações sobre este farol  AQUI

Farol atraves do Google via satelite AQUI

A Escala Vai Começar 

(dedicado ao  Sr. Domingos , um pescador de eleição)


Foi assim que, de repente, hoje acordei
e surpreendido senti, como quem sonha,
que era lá que me encontrava, e não aqui
- surpresas do mundo da poesia, bem sei –
mas estava lá, bem na Ponta do Noronha.

Aos meus pés, a penedia, o Mar e a baía.
Acredita. Não pode haver mais feliz despertar.
A manhã clara, o mar calmo e transparente
mostravam a vida que nele vivia febrilmente
e, à tona, estrelas corriam no espelho cristalino,
revelando, a cada instante, imensos cardumes
a perseguirem-se, levantando brilhos e lumes.
Nas ricas águas, sob um céu azul ultramarino.

No ar, passam alegres bandos de gaivinas,
Gaivotas e garajaus que não cessam de grasnar
e, depois de quase parar, num constante vaivém,
a pique mergulham, perseguem o peixe e vêm
com o fruto do seu lidar, nos bicos a agitar.
Ajeitam e engolem-no. É o seu melhor manjar.

De repente noto movimentos e gritaria nas pontes
Que ao longo da beira-mar se espalham, em profusão.
Negros, Mulatos. Brancos, na maioria contratados,
Falam alto, fazem apostas e com os braços apontados
Vão dizendo os nomes dos mestres ou da embarcação
Que mais se destacada vem, ou de todos juntos, aos montes.

São os pescadores que regressam de uma noite de labor,
Que agora ali vêm, felizes, trazendo o fruto do seu suor
e, ansiosos de primeiro chegar, e sua mulher e filhos beijar
pela vitória da canoa ou traineira, acabadinha de comprar.
Nas pontes alinham-se homens e bancos: a escala vai começar.

Nesse momento alguém me chama, no meio daquela agitação,
- Hoje é dia de trabalho. Toca a levantar! – São seis horas João!
E pronto! Lá se foi a minha alegria, todo o encanto e satisfação.



João M. Mangericão
( Neco )
Barreiro, 9.08.2005





25.Nov.1913 Da Revista Colonial encontramos sobre faróis:
"Por Mossamedes . -Novo PHAROL : Inaugurou-se em 5 de Outubro o pharol da Bahia dos Tigres, cujas
características são : Luz branca, alcançando l2 milhas ; está assente sobre uma torre quadrada, de ferro, da altura de 20 metros acima cio nivel do mar. As coordenadas approximadas são : Latitude
16 .30.20 Sul ; Longitude 11 .42.50 Leste (Green .). SERVIÇO HELIOGRAPHICO. Vão brevemente ensaiar- se estas" communicacões entre a Ponta Albina (Porto Alexandre) e Baleia dos Tigres, que,
apesar da sua importancia política e estrategica, ainda não tem communicacões telegraphicas, nem seabe, sem embargo de tantos e forros empregados, quando as virá a ter. Para estragar, para destruir temos uma habilidade ultra rara ; para construir, é que se vé ! Havemos de arranjar alguns votos hala o caciquismo dominante, a ver se os governantoelshamm para isto com alais carinho . . .»

03 março 2010

O 8 de Dezembro e as Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Moçâmedes (actual Namibe)


Eis uma das mais antigas fotos conseguidas sobre as festividades anuais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em Moçâmedes, (Namibe/Angola), que nos  mostra a velha Capela e o recinto destinado ao arraial, devidamente enfeitado e embandeirado. Encostadas às paredes laterais da Capela umas quantas «charretes», um dos meios que nos tempo mais recuados, quando não havia automóveis, serviam para transportar pessoas, a par das tipóias, do boi-cavalo, e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas em Angola pelos boers nos anos 80 do século XIX.
Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma ou encontrava-se projectada, ou até mesmo em construção, em 1884, tendo decorrido na altura, na vila, uma subscrição entre moradores para o efeito:

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.   Além das provas do ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia o exame de Francês, e era exactamente a filha do Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. O prémio referido, de noventa mil réis foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno. A filha do Governador também foi premiada. O Coronel Sebastião da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. "

1884, enquanto em Moçâmedes, no hemisfério sul, a filha do Governador Sebastião da Mata, em Moçâmedes oferecia a importância em dinheiro de um prémio que recebera à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, lá longe, no hemisfério norte decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que reuniu as potências europeias interessadas na "Partilha de África", e foi o ano em que desembarcou em terras do Namibe, rumo às terras altas da Huila, o primeiro contingente de madeirenses que ia dar início à colonização.

"Quipola", era o nome de um dos sobas da região de Moçâmedes, que juntamente com o soba Giraulo habitavam as zonas junto aos rios Bero e Giraul, onde tinham as suas cubatas e as suas lavras, e de onde partiam para o pastoreio do seu gado, a sua maior riqueza.

Foto do livro "Recordar Angola", de Paulo Salvador


Esta foto, que penso seja datada dos anos 1920/30,  foi tirada em Moçâmedes,  por ocasião de uma  dessas romarias à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, como sempre realizadas no dia 8 de Dezembro de cada ano, e deixa pressupor, pela indumentária, tratar-se de um grupo pertencente a uma classe média da Moçâmedes de então.


Elegantes de Moçâmedes passeando na Avenida da República, o belo Jardim Público com que Moçâmedes foi dotada, através do projecto feliz do jovem e dinâmico Governador Fernando da Costa Leal projectada pelo.  em finais do século XIX, início do século XX. Este postal talvez faça parte do conjunto de postais editados por ocasião da visita a Moçâmedes do Principe real D. Luiz Fillipe, em 1907, por ocasião da subida de então "villa de Mossâmedes", a "real cidade de Mossâmedes".

A respeito de "elegantes", uma curiosidade, temos conhecimento que por volta dos anos 1920/30/, existia em Moçâmedes o "Armazém Primavera", no rés do chão do edifício de 1º andar da Rua dos Pescadores, pertença da Família Mendonça Torres,  onde as pessoas de maior poder aquisitivo, do ciclo do poder administrativo da cidade, do meio agrícola, pecuário e industrial pesqueiro,  podiam adquirir as suas toilettes para dias especiais, através  encomendas aos famosos Armazéns "Printemps" de Paris.  Por esta época a moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram mais compridos até aos pés, mas sim a meia perna ou pelo tornozelo, as senhoras usavam chapéus de vários feitios, quer de a abas largas, quer de abas estreitas, para se protegerem do sol, mas também por uma questão estética. Aliás o tempo tinha passado, e o chapéu, que de inicio se fizera para cobrir a cabeça, passara a servir  de distinção de classe e de função social. Os homens usavam colarinho branco,  gravata e chapéu que não podia faltar,  fosse de "chapéu de côco", de feltro castanho ou cinzento, chapéu de palha branco.   Eram muitas vezes os produtos que se exportava de Moçâmedes para o exterior que serviam de moeda de troca, havendo indicações que na década de 1920 e 1930 se exportava  para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês, e ainda para o Gabão, conservas de alta qualidade, que competiam com as de outras origens, por serem mais   baratos, e que em troca, nessa década de crise, em vez de dinheiro, chegavam  a Moçâmedes produtos de de variados géneros. Aliás vem expresso no primeiro relatório de serviço (Dr Carlos Carneiro, 1931) , que a primeira fabrica iniciada em 1915, a Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda, destinada a legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e do “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), e também a carne de vaca ou de porco, peixe em salmouras e escabeche,  ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, além de óleos de pescado, tinham colocação fácil nos mercados britânicos, e ainda que as exportações entrassem em crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923, com a preparação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também aos Congos-Belga e Francês e o Gabão.

Vamos então ao assunto que nos trás aqui:








 Romagem anual à capelinha da Senhora do Quipola, no dia 8 de Dezembro,  em Moçâmedes, actual cidade do Namibe


 


Foto: Grupo de peregrinos, esrudantes e familiares,  junto do combóio que os transportara à Capelinha do Quipola. (1949/50). Destacam-se alguns alunos Mocidade Portuguesa e respectivos familiares. Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida,  Alice de Freitas, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas.  E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).


A romagem anual à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, festa popular por excelência, cuja tradição se manteve forte ainda em meados da década de 1950, reunia um grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição dos interessados um comboio que assegurava as idas e vindas,  ajudando assim o Caminho de Ferro de Moçâmedes a impulsionar as festividades, uma vez que à época não eram muitos os habitantes da cidade que possuíam meio de transporte automóvel  próprio.





Foto: Tirada em finais dos anos 40, mostra-nos o momento  da chegada do comboio (o «Camacove») ao sitio do Quipola e o desembarque de peregrinos, que, vestindo o fato novo, apresentavam no entanto já, uma indumentária bem mais prática que apresentavam os da 2ª foto, mais  acima. "Quipola" era o nome do soba que existia neste sitio quando os portugueses ali chegaram e desde logo reataram relações amistosas com o dito soba, que até assistiu à 1ª missa , ainda no lugar onde estavam a construir a Fortaleza. Foto Salvador


Ao comboio chamavam-lhe o «Camacouve», devido à morosidade dos percursos, dada a pouca velocidade com que caminhava, uma vez que demorava o dia inteiro para completar os 250 Km do arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Inaugurado em 1905, já há muito se encontrava ultrapassado, sim, mas inda assim era acarinhado pela população, porque era  através dele que se ia tendo acesso a distâncias mais e menos longas, e até a este tipo de romaria onde a população extravasava a sua fé e ao mesmo tempo se divertia à boa maneira portuguesa, numa mistura de "sagrado e do profano". Ou seja, chegados ao Quipola, começava a «missa campal» seguida de procissão, e a festa continuava com um animado arraial em recinto de terra batida, enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras,  etc, onde se erguiam barracas que vendiam estatuetas, rifas, gulodices, bebidas, cigarros, etc, etc, e pavilhões onde se comia, bebia, e confraternizava.




Foto: A procissão e a missa campal que se seguiu, ministrada pelo popular padre Guilhermino Galhano, tinham a participação de europeus e africanos, sendo no entanto a maioria dos participantes do sexo feminino





Foto: A Capela do Quipola e o ajuntamento dos peregrinos em fila para receberem a comunhão. Mais uma vez são mulheres, ficando os homens a observar...
.
Foto: Outra perspectiva da procissão guiada pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão, o estrado para dança e as barracas


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, de forma arredondada, enfeitado com folhas de bananeira e devidamente enbandeirado, onde novos e velhos gente se divertiam ao som da concertina ou do gramofone que altifalantes pendurados numa ou noutra árvore lançavam para o ar.  Contava-se em Moçâmedes que numa dessas romarias uma conhecida figura da terra, Manuel de Faro, subiu o estrado com uma mucubal, e com ela exibiu uma das danças daquela tribo. Contava-se, esse momento não me foi dado assistir e considero inédito ou mesmo estranho, por se tratar  de um elemento pertencente a um grupo étnico ainda hoje resistente à integração. Se fosse um elemento da étnia cuanhama, acreditava.

E enquanto uns dançavam e rodopiavam ao som de modinhas portuguesas, outros divertiam-se com o tiro ao alvo, o jogo das argolas, dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc, e ainda outros,  no largo em frente  à Capela,  disputavam a subida ao  "pau ensebado»,  um altíssimo mastro ou poste de madeira, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida que desafiava  quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre vencido por africanos kimbares (1), cuja estratégia era, para não escorregar e poder trepar, levar areia nos bolsos das calças, de forma a que, de quando em quando. a pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o troféu.

Estas festividades, como tudo na vida  tiveram a sua época, e foram aos poucos perdendo o brilho,  até que na década de 1960 deixamos de ouvir falar delas. Mas sem dúvida, durante o tempo que duraram, elas foram sempre bem vindas a uma população crente ou não crente, mas sempre carente de festas, porque essa era a forma de quebrarem a monotonia do quotidiano rotineiro, para muitos matar saudades de costumes da sua longínqua terra natal, tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos  que estamos a falar de usos e costumes que se estabeleceram após a construção da Capela no Quipola e que ainda nos finais dos anos 1940 muitas casas de Moçâmedes ainda eram  iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio daqueles que a eles tinham acesso eram alimentados a bateria, e às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?


 
Foto: Criança africana junto ao nicho de pedra que guarda a imagem de Nossa Senhora da Conceição do Quipola onde se pode ler duas quadras escritas sobre a pedra caiada dedicadas à Santa. Foto cedida por Marizete Veiga.



Depois chegou  luz eléctrica, surgiu o Cine Teatro de Moçâmedes -que veio tomar o lugar o velho Cinema Garret, onde se realizavan diversos saraus e sessões cinematográficas, a preto e branco, muitas das quais ainda em cinema mudo.  Com o Cine Moçâmedes multiplicaram-se as sessões cinematográficas, os saraus, as peças de teatro, de dança, etc, e já na década de 1950 surgiram os muito concorridos e apreciados "programas da simpatia", que esgotava plateias. Os bailes que de início animavam o salão do Ginásio Clube da Torre, e passaram também a realizar-se no Aero Clube de Moçâmedes, passaram a animar outros clubes da terra, o Ferrovia, o Atlético, o Nautico, que se enchiam de gente de todas as idades e de ambos os sexos.  No início da década de 1950, novos ventos começaram a soprar... A II Grande Guerra (1839-45) tinha acabado na Europa, as importações e exportações restabeleceram-se, a população europeia alargou-se, e em Moçâmedes assistiu-se a um  verdadeiro "boom" nas práticas desportivas, reduzidas praticamente ao futebol, que se expandiram em novas modalidades com especial realce para o hóquei em patins e basquetebol masculino e feminino, que arrastavam aos fins de semanas inúmeros expectadores para os campos desportivos do Benfica, do Atlético, do Sporting.  Novos usos e costumes fizeram-se substituir aos antigos. Por sua vez acabaram os passeios na Avenida que no decorrer do anos 1950 tinham atingido e começaram a declinar. Surgiram as "Festas do Mar". E no campo religioso, que nos traz aqui, o declinio das romarias que se realizavam anualmente, à Capela de Nossa Senhora do Quipola.


Ficam estas recordações de momentos felizes de uma realidade vivida, algures num recanto do litoral ocidental sul de África, na bela cidade de Moçâmedes, erguida por um punhado de portugueses, entre o deserto e o mar, e que a ela ficaram vinculados para sempre!


MariaNJardim



Ainda sobre esta peregrinação, tomo a liberdade de colocar aqui alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:


«...Senhora do Quipola

Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...

(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujoin Mazungue




 
***


Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)


Aileda
  (in Sanzalangola)
 

À  Sr.ª da Quipola


Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.       
Manuela Lopes


Nota: Há pessoas que dizem "Capela da Sra do Quipola", outras dizem Capela da Sra da Quipola". Pessoalmente penso que o correcto é o 1º caso. Mendonça Torres nos seus livros sobre Moçâmedes refere-se ao Quipola, mas não é consensual, tenho notado que outros escritores utilizam o "da".