18 outubro 2010

O «dia de S. Vapor»: em Moçâmedes...



Até meados dos anos 1950, os navios ficavam fundeados, ao largo, na baía de Moçâmedes...





Até à inauguração do 1º troço das obras do cais comercial, em 14 de Maio de 1957, os navios que chegavam a Moçâmedes ficavam ancorados a meio da baía, e o transporte das pessoas e das mercadorias, da ponte para os navios e dos navios para a ponte, era efectuado através de "gasolinas" e de "batelões" ou em "escaleres motorizados". Mais para trás no tempo o transporte era efectuado em barcos à vela. Existem fotografias que conformam que no ano de 1938, quando da visita do Presidente Carmona a Moçâmedes ainda estávamos nos tempos dos barcos à vela. No entanto, em 1948, quando da peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria, por terras de África, já havia em Moçâmedes traineiras a motor. Foi aliás no pós guerra que foi possível  a Angola avançar com obras de fomento que se encontravam bloqueadas, uma vez que nem a colónia nem Portugal possuíam uma industria à altura nas necessidades, e as fábricas europeias fornecedoras do material necessário se encontravam ao serviço da guerra. O início das obras do cais acostável de Moçâmedes aconteceu em 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes, e a inauguração do 1º troço do cais comercial aconteceu em  24 de Maio de 1957, com a presença do Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo o então Governador Geral de Angola.


No título desta postagem fizemos referência ao «Dia de S. Vapôr»? Mas do que se tratava então?

Até pelo menos aos meados dos anos 1950, entre a população de Moçâmedes, cultivou-se o gosto pela visita aos navios de passageiros que escalavam a cidade, no decurso da suas viagens de Lisboa até Lourenço Marques, e vice-versa, passado pela cidade do Cabo, na África do Sul. A razão,  é que as deslocações a bordo não se reduziam apenas a recepções ou a despedidas a familiares e amigos, elas eram motivo de satisfação porque os navios traziam novidades, coisas bonitas e baratas que naquele tempo não se encontravam  à venda no reduzido número de lojas da cidade. Escusado será dizer que os grandes clientes desse mercado paralelo  eram as senhoras, por um lado, porque elas eram à época, na sua maior parte, donas de casa, e podiam mais facilmente dispôr do seu tempo, por outro, porque o sector feminino da população era o mais apegado a este tipo de coisas, sempre à espera das últimas novidades trazidas da Metrópole, da África do Sul e de outros lugares.

Os navios chegavam normalmente pela manhã e partiam ao fim do dia, deixando aos visitantes tempo suficiente para uma  ida a bordo.Como atrás referimos esta prática vinha acontecendo  desde os tempos em que não havia cais acostável, e os navios ficavam fundeados ao largo, sendo a deslocação de passageiros, funcionários e visitantes, assegurada por «gasolinas».

Fosse o navio Pátria, o Império, ou os mais recentes Uije, Príncípe Perfeito e Infante D. Henrique, fosse o velho Quanza ou o velhinho e pioneiro João Belo, fossem navios da CNN/Companhia Nacional de Navegação, (agenciada pela Duarte de Almeida, Lda.), ou da CCN/Companhia Colonial de Navegação, (agenciada pela Sotrage) ou ainda da CUF, (agenciada por Pereira Simões e Cª.Lda.), a verdade é que a possibilidade de se fazer compras nunca falhava, estas eram efectuadas em alguns pontos estratégicos dos  navios, geralmente nos camarotes do pessoal que trabalhava nos navios,  camareiros e camareiras, já conhecidos de longa data pelas  habituais clientes, que vendiam toda a variedade de artigos: peças de lingerie em nylon e renda,  roupas diversas, meias de vidro, camisas, gravatas, carteiras, malas de senhora, bonecas e perfumes de Las Palmas (Tabú, Maderas do Oriente e outros), bibelots do Oriente, fios de ouro, botões de punho, anéis, pulseiras, pregadeiras, colares, bebidas, charutos, tabaco, pastas de chocolate, caramelos, rebuçados, etc, etc, e até caixas de uvas de Metrópole e da África do Sul.  Era um vê se te avias, havendo ocasiões em que os ditos camarotes ficavam a abarrotar, fazendo-se fila no corredor a aguardar a vez.Na barbearia do navio e no bar, comprava-se tabaco, cigarrilhas, whisky escocês, balas para caça, óculos, pastas de chocolate e toda uma série de guloseimas, livros, revistas, e pouco mais.  E porque em Moçâmedes não havia piscinas (a única «piscina» era o tanque de água para regas que ficava no epicentro das Hortas da família Torres), alguns visitantes mais jovens, do sexo masculino, aproveitavam a  ocasião para  uns mergulhos na piscina do navio, e faziam-no,  é claro, ante o olhar condescendente do Comandante.

Mas havia um problema com que as visitantes-compradoras tinham  que se confrontar. Como passar a mercadoria, ante o olhar vigilante da Guarda-Fiscal que ficava à saida do portaló que dava acesso a uma estreita, longa  e íngreme escadaria, por onde  se descia para os «gasolinas» que levavam as visitantes de regresso à ponte, no regresso às suas casas?  A estratégia era mostrar descontração para que algum guarda-fiscal mais desconfiado, não desconfiasse... Geralmente as senhoras ao regressarem a casa iam um pouco mais cheinhas, uma vez que vestiam as roupas que compravam, sobre as roupas que vestiam...


O romântico Piquete da Guarda Fiscal de Moçâmedes, vendo-se ao fundo a entrada para o edifício da Alfândega, do lado de lá da Avenida


Este era o trajecto  que unia a Ponte ao Piquete da Guarda Fiscal, obrigatoriamente percorrido por passageiros, a pé, e por mercadorias levadas sobre vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro...
Governador Ramada Curto e comitiva passando pelo Piquete no início do Século XX




A cidade era pequena, praticamente toda a gente se conhecia, osgua rda-fiscais sabiam bem distinguir aqueles que iam comprar perfumes, bibelots, bijiteria, etc, para si próprios,  daqueles que iam a bordo os navios comprar artigos para revenda, como balas para caça, etc.  Por isso, já em terra, o visitante, que ainda tinha que passar pelo romântico e bonito Piquete da Guarda Fiscal, podia estar sujeito à intervenção de "apalpadeiros" e  "apalpadeiras" em busca de eventual contrabando.

Porquê esta sede por compras a bordo?

A explicação para este fenómeno eram as carências do mercado moçamedense da época, que gerava por isso mesmo estes facilitismos, que se reduziam, bem vistas as coisas a inocentes compras, e a nada mais.

Como ficou atrás referido, no tempo em que os navios ficavam fundeados ao largo, na baía,  por não existir cais acostável, a deslocação de passageiros, dos funcionários e dos visitantes era assegurada por "gasolinas", um tipo de barco pequeno, movido a motor, com um bonito design, pintado de branco, com uma parte coberta com toldo, janelas e bancos corridos à volta, e outra parte ao ar livre, que permitia transportar cerca de 40 pessoas, sentadas e de pé, perante a cobrança de um bilhete. No início da década de 1950, eram proprietários dos gasolinas, Raúl de Sousa Jr. e  António Bauleth/José Pedro Bauleth (este gasolina havia sido adquirido  a Mário de Almeida, um familiar, e era o que possuia um design mais atraente). Neste "gasolina" era Orlando Gomes quem cobrava os bilhetes, e que, tal como José Pedro Bauleth, ajudava as senhoras e as crianças no embarque e no desembarque, dando-lhes a mão para que não caíssem à água, nesse vai vem entre os navios e a ponte.

Nos dias de mar encapelado, era problemático subir e descer as escadas dos navios, porque estas balançavam, e as pessoas tinham que se agarrar às cordas laterais para não caírem ao mar.  Já nas manhãs de cacimbo cerrado, em que nem a água se via,  para se chegar junto dos navios de carga e de passageiros a orientação era feita pelos toques das buzinas dos gasolinas e pelos apitos dos mesmos navios.  Quando as idas a bordo aconteciam no Verão,  a velha ponte de embarque e desembarque  ganhava movimento e animação, e quem por ali passasse podia ver jovens exibindo sinuosos mergulhos do alto do guindaste, para em seguida  irem a nado para a praia. Outros atiravam-se das escadarias da ponte e iam a nado até à praia da Capitania, essa mesma praia onde um dia um polémico capitão do porto resolveu abater a tiro a Boni-Bonita, uma inofenciva foca que se encontrava no tanque da  Avenida.




Esta foto representa uma familia de Moçâmedes, foi tirada a bordo do paquete "Império".


Não eram numeroso o número de residentes que ia de férias à Metrópole. A maior parte das familias de Moçâmedes, descendentes de algarvios, radicava-se na cidade, e nunca mais voltava à sua terra. isto pelo menos até meados do século XX.  Por isso, excepto aqueles que beneficiavam de Licença Graciosa por serem funcionários do Estado, bancários, e um ou outro residente mais desafogado financeiramente, ou um ou outro estudante deslocado para continuar seus estudos na Metróple, ou na África do Sul, não era muito comum, até meados da década de 1950, os moçamedenses viajarem para a Metrópole, de férias. Eram viagens muito dispendiosas a que a maioria da população, remediada, não tinha acesso.   A"Graciosa" era uma licença para férias na Metrópole  que se instalou entre os funcionários publicos dada a ideia de falta de salubridade nas colónias (Africa foi durante muito tempo considerada  um cemitério para os europeus e durante muito tempo foi problemático conseguir-se, na Metrópole, quem se dispusesse a  avançar para as terras de Africa). Assim, os funcionários públicos passaram a ter esse incentivo, trabalhando para o efeito mais 1 hora por dia que o funcionário metropolitano para que, ao fim de 5 anos, pudessem retemperar-se na Metrópole, e por África continuar. E porque não eram muito comuns, na época, essas deslocações, sempre que alguém saia, quando regressava, sobretudo entre os  homens contavam-se histórias  da vida nocturna em Lisboa, falava-se das prostitutas da Avenida da Liberdade, da polícia dos costumes que as levava  a enfiavam o braço no primeiro homem que aparecesse para que não fossem presas, etc etc. Havia miséria na Metrópole,  reduzida que estava a coutadas de umas quantas familias, enquanto as províncias Ultramarinas ate 1950 pouco progrediam.  Ainda em meados dos anos 1950, as gentes de Angola eram olhadas na Metrópole com certa curiosidade, como se fossem todos ricos, como se houvessem África uma árvore das patacas que bastava abanar para se enriquecer. Os baixos salários da classe trabalhadora na Metrópole, e a ideia de que as pessoas que vinham do Ultramar eram ricas, gerou uma exploração tal, que os recém desembarcados no cais da Rocha, em Lisboa,  para levantarem as suas bagagens, tinham que o fazer à custa de gorgetas e mais gorgetas aos carregadores, para além das exorbitantes taxas  de  desalfandegamento que tinham que pagar.

 


                      Na foto, algumas visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira




O mais emblemático dos navios da frota da C.N.N. era o paquete "Príncipe Perfeito", ao serviço entre 1961 e 1976, concorrendo nas linhas de África com o "Infante D. Henrique" da C.C.N. DAQUI
  

A verdade é que para aqueles que tinham o privilégio de fazer estas viagens, que duravam regra geral cerca de 12 dias pelo mar fora, era como se estivessem a fazer um Cruzeiro, em que as férias começavam logo alí à saída da baía de Moçâmedes. Pelo menos para aqueles que viajavam em 1ª classe.

Estas são algumas das memórias daquele tempo, que foi o meu tempo de criança e de jovem adolescente,  nascida em Moçâmedes em 1940, em pleno periodo da 2ª Grande Guerra, pleno de privações para quem então vivesse nas colónias de África,  um período longo de quase estagnação, findo o qual a colónia começou finalmente  a despontar para uma nova fase, e para um novo estilo de vida, em que grande parte destas situações aqui descritas, deixaram de ter lugar e de fazer sentido.


(ass)MariaNJardim

Ver também: O piquete da Guarda Fiscal
                     Inauguração do cais acostável