09 fevereiro 2011

Padre Luís Carlos, Fundador da Comunidade Shalom. Tudo começou em Moçâmedes. Namibe, Angola, nos anos 1950...





Para os moçamedenses e para todos quantos privaram com o Luís Carlos, aquele jovem bom, inteligente, trabalhador e sonhador,  que viveu entre nós nos anos 1950,  que em Moçâmedes foi crismado  por D. Daniel Gomes Junqueira, que vimos trabalhar na Casa Inglesa, ajudar a dizer missa, organizar encontros de juventude, e que a determinada altura se afastou da cidade para  prosseguir o seu sonho...  


 



O desejo de ser padre existia em Luis Carlos desde criança e, em 1958, entrou no Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola.  No dia 6 de julho de 1968, foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e onde transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude. 



 O amor me chamou e eu vim

Deixei minha casa e meu trabalho
Por um chamado maior
Estou aqui para te seguir até ao infinito
Jesus libertador
Na partilha da minha vida, até me perder
Para ser livre na liberdade do amor
Meu pensamento está na justiça e na verdade
E meu coração ama a bondade com ternura
O meu desejo não pára na beleza das coisas
Eu te desejo meu Deus, bondade, beleza e verdade sem fim
Para os jovens doarei minha vida
Na aliança da transformação do Reino
Sou feliz porque vim e estou aqui
E na aventura de um amor maior
Minha liberdade se faz no desafio
Quero responder para te seguir
Minha vida quer ser livre como o vento
E minha ação saborosa como o pão
O vinho da alegria eu hei-de beber no calor da luta
O Reino é mais importante que tudo
E eu vou te seguir generosamente
Eu te agradeço, meu Deus
Porque me amas na minha fragilidade
E me transcendo no caminho que tu me dás
Tu és meu caminho, Senhor, minha verdade e minha vida
Eu te amo e confio no amor e na confiança
Que teu amor me dá
Com a Humanidade eu caminho
Clamando por vida em abundância
Como uma pequena semente da libertação
Que o teu amor sustenta

Pe. José Luís, Comunidade Shalom



Recordemos, pois, o Luís Carlos que conhecemos, ou melhor, o Padre Luís Carlos,  através do video acima colocado e concebido em sua homenagem pela Comunidade Shalom, e destas fotos que ousei retirar do mesmo...
 


Fotos de missas juvenis na Laje, em Sá da Bandeira (Lubango-Angola)






Enquadramento


O  Papa João XXIII e o Concílio VATICANO ll

Foi com grande surpresa para a Igreja que o Papa João XXIII (1886-1963) anunciou a 25 de Janeiro de 1959 a sua intenção de realizar um Concilio Ecuménico. Muitos achavam não haver motivo para tal…e que este Papa seria era um Papa de transição, que breve seria o seu pontificado… Eleito em 1958, faleceu em 1963! Mas convocou o Concilio e deixou uma grande herança. Por isso não foi um Papa de transição, como muitos pensavam…

O Concilio teve inicio a 11 de Outubro de 1962 e foi encerrado pelo Papa Paulo VI a 8 de Dezembro de 1965, no dia de Nossa Senhora da Conceição. Foi este Concilio que abriu a Bíblia aos católicos; reformou toda a liturgia; deu valor ao Povo de Deus, ao possibilitar que os leigos uma missão definida; abriu a Igreja ao diálogo com o Mundo; deu atenção aos meios de comunicação social para anunciar o Evangelho; a tónica Missionária “ad gentes”; abriu para o Ecumenismo; declarou a Liberdade religiosa e manifestou os valores das outras religiões não cristãs. Eis a riqueza do vaticano II:



MENSAGEM DO CONCÍLIO VATICANO II  (1965)


Aos jovens


É finalmente a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem - pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela.

A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E no termo desta importante «revisão de vida», volta-se para vós. É para vós, os jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro.

A Igreja deseja que esta sociedade que vós ides constituir respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. Deseja em especial que esta sociedade deixe espalhar-se o seu tesoiro sempre antigo e sempre novo: a fé, e que as vossas almas possam banhar-se livremente nos seus clarões benéficos. Tem confiança que vós encontrareis uma força e uma alegria tais que não chegareis a ser tentados, como alguns dos vossos antepassados, a ceder à sedução das filosofias do egoísmo e do prazer, ou às do desespero e do nada, e que perante o ateísmo, fenómeno de cansaço e de velhice, vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus justo e bom.

É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo, a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr corajosamente ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados.

A Igreja olha-vos com confiança e com amor. Rica de um longo passado sempre vivo, e caminhando para a perfeição humana no tempo e para os destinos últimos da história e da vida, ela é a verdadeira juventude do mundo. Possui o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas. Olhai-a, e encontrareis nela o rosto de Cristo, o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens. É em nome de Cristo que nós vos saudamos, que vos exortamos e vos abençoamos.

Papa Paulo VI

(na conclusão do Concílio Vaticano II, 1965).







 O padre Luís Carlos e s Comunidade Shalom



O padre Luís Carlos Contente Garcia de Castro, nasceu em 16 de janeiro de 1938, na cidade de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, Portugal. Orfão de mãe quando tinha 6 anos de idade e, na ausência do pai, foi criado por um tio. Aos 12 anos emigrou para Angola. Desde logo começou a trabalhar para se manter e estudar. 

Em Moçâmedes, nos anos 1950, estudou no nocturno o secundário, enquanto trabalhava na Casa Inglesa. Ajudou a dizer missa, organizou encontros de juventude, e  a determinada altura  afastou-se da cidade para  prosseguir o seu sonho... O  desejo de ser padre  de fazer alguma coisa em seu favor do próximo, existia  nele desde criança, e, em 1958, levou-o a entrar para o Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola, carregando consigo o "sonho de uma Igreja livre e pobre, numa sociedade livre de pessoas livres".

Preocupado com a educação da juventude que sempre lhe causou inquietação, durante as férias de 1966, e em 12 de fevereiro de 1967,  depois de vários encontros em Luanda, Lobito, Moçâmedes, Nova Lisboa, realizou um encontro de jovens no salão paroquial da Sé de Nova Lisboa, considerado o início do Movimento Encontros de Jovens Shalom. O Movimento logo se espalhou por várias cidades de Angola, sendo o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral.

No dia 6 de Julho de 1968 foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.

Em 1972, com outros jovens, continuou a sonhar  na fundação de uma Comunidade que pudesse assessorar a Evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola.

Em 1973, fez uma especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este Movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Nessa altura, Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluindo religioso. O Concilio Vaticano II tinha chegado ao fim (1965).  Falava-se de um histórico encontro do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com os três principais líderes dos Movimentos de libertação das colónias portuguesas: para além de Amílcar Cabral (da Guiné-Bissau e Cabo Verde), Agostinho Neto (de Angola) e Marcelino dos Santos (de Moçambique). A  Encíclica “Populorum Progressio”, acolhera a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento.

Em 7 de dezembro de 1974, chegam ao Lobito e juntam-se ao padre Luís Carlos, o padre Manuel Couto e o diácono José Teixeira,  para formarem Comunidade de missão junto à juventude. D. Américo, bispo de Nova Lisboa, ofereceu uma casa da Diocese onde fizeram morada. Em 1975 a Conferência Episcopal nomeia o padre Luís Carlos Assistente Nacional da Pastoral da Juventude de Angola e os Bispos comprometem-se a dar uma contribuição para o sustento da Comunidade.

Em 1 de agosto de 1975, devido à guerra civil, o padre Luís Carlos deixa Nova Lisboa, e chega ao Brasil, Rio de Janeiro no dia 13, depois de uma viagem atribulada.

Na CNBB, no Rio de Janeiro, conheceu D. Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e D. Paulo Ponte, Bispo de Itapipoca, que o convidou para trabalhar na sua Diocese.

Em 30 de Março de 1976, fixou residência, em Fortaleza, na Rua Olavo Bilac, na capelania de S. Judas Tadeu. A Comunidade Shalom já tinha iniciado e desenvolveu um grande trabalho nas dioceses de Fortaleza e Itapipoca.

Em 1978, o padre Luís Carlos veio para Portugal  para apoiar os jovens do Movimento que tinham vindo de Angola. E em 16 de Março desse ano iniciou a Comunidade em Riachos, na Diocese de Santarém, sendo acolhido na casa paroquial pelo padre Américo.

 Em 15 de Março de 1982, o padre Luís Carlos voltou a Fortaleza, depois de uma ruptura entre os membros da Comunidade. E foi um reinício. Em 5 de junho de 1982, foi instituído pároco da recém-criada Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, Barra do Ceará, onde permaneceu por 10 anos. Em 12 de Janeiro de 1983, D. Aloísio reconheceu a Comunidade e nomeou o padre Luís Carlos seu Coordenador Geral. Em 22 de Abril de 1984, D. Aloísio aprovou as Normas da Comunidade Shalom, como uma Sociedade de Vida Apostólica. Em 15 de agosto de 1997, o padre Luís Carlos deu início à fundação da Comunidade Shalom Feminina.

O Padre Luís Carlos foi Coordenador Geral da Comunidade Shalom, até 16 de julho de 2002, quando, a seu pedido, foi eleito um novo Coordenador. Actualmente, o padre Luís Carlos escolheu viver na sua terra natal, Ilha Terceira, Açores, onde desenvolve trabalho pastoral, sobretudo como pároco.

Sobre a Comunidade ver aqui:






Pedagogia

 






MariaNJardim

Partes do texto, retiradas de:
Comunidade Shalom. 
Shalom o que é? 

2 comentários:

Alberto Santos disse...

Conheci muito de perto o Luis Carlos (já era padre, mas era pelo seu nome próprio que todos o conhecíamos) nos primórdios da difusão do movimento Encontros de Jones..
Fiz parte do 1º Encontro de Jovens que se realizou em Luanda - foi esse o primeiro contacto com o Luís Carlos - e pertenci posteriormente ao grupo que passou a dinamizar o Movimento em Luanda, onde realizámos vários outros Encontros de Jovens.
Em Agosto de 1971, na antiga cidade de Silva Porto (hoje Kuito), no Seminário realizou-se o 1º Grande Encontro sobre o Papel da Mulher na Igreja. Lá estava como animador maior o Luís Carlos, acolitado pelo Manuel Coutro e pelo Eduardo Coelho. Ainda tenho o opúsculo com as comunicações que foram apresentadas!...
Em Agosto de 1972 voltei a participar no 2º Grande Encontro de Jovens, em Benguela, sob o tema Justiça e Paz em Angola. Aí voltámos a estar com o Luis Carlos, o Manuel Couto, o Coelho, o diácono Henriques (já me não lembro do apelido, mas sei que estava na Diocese do Uíje), o Eugénio, e o saudoso capuchinho João Carlos Mialich! Infelizmente não possuo o texto da comunicações, que bastante polémica acabaram por suscitar e acabaram até por chamar a atenção da polícia política para o Movimento. Felizmente sem outras consequências que a simples "sinalização para acompanhamento" de alguns dos participantes...
A partir dessa época, o cumprimento do serviço militar e tudo o que se lhe seguiu, afastou-me do convívio com o Movimento e com o Luís Carlos. Ele saíu de Angola, eu fiquei. Até 1985.
Em 1984 re-encontrei-o em Oeiras, sempre com a mesma bonomia das almas grandes e o mesmo ar sonhador de quem não perdeu a esperança de "criar o céu na terra"!...
Nunca mais o voltei a ver, mas guardo dele a imagem de um ser humano de eleição com uma alma do tamanho do mundo!

Alberto Santos disse...

Conheci muito de perto o Luis Carlos (já era padre, mas era pelo seu nome próprio que todos o conhecíamos) nos primórdios da difusão do movimento Encontros de Jones..
Fiz parte do 1º Encontro de Jovens que se realizou em Luanda - foi esse o primeiro contacto com o Luís Carlos - e pertenci posteriormente ao grupo que passou a dinamizar o Movimento em Luanda, onde realizámos vários outros Encontros de Jovens.
Em Agosto de 1971, na antiga cidade de Silva Porto (hoje Kuito), no Seminário realizou-se o 1º Grande Encontro sobre o Papel da Mulher na Igreja. Lá estava como animador maior o Luís Carlos, acolitado pelo Manuel Coutro e pelo Eduardo Coelho. Ainda tenho o opúsculo com as comunicações que foram apresentadas!...
Em Agosto de 1972 voltei a participar no 2º Grande Encontro de Jovens, em Benguela, sob o tema Justiça e Paz em Angola. Aí voltámos a estar com o Luis Carlos, o Manuel Couto, o Coelho, o diácono Henriques (já me não lembro do apelido, mas sei que estava na Diocese do Uíje), o Eugénio, e o saudoso capuchinho João Carlos Mialich! Infelizmente não possuo o texto da comunicações, que bastante polémica acabaram por suscitar e acabaram até por chamar a atenção da polícia política para o Movimento. Felizmente sem outras consequências que a simples "sinalização para acompanhamento" de alguns dos participantes...
A partir dessa época, o cumprimento do serviço militar e tudo o que se lhe seguiu, afastou-me do convívio com o Movimento e com o Luís Carlos. Ele saíu de Angola, eu fiquei. Até 1985.
Em 1984 re-encontrei-o em Oeiras, sempre com a mesma bonomia das almas grandes e o mesmo ar sonhador de quem não perdeu a esperança de "criar o céu na terra"!...
Nunca mais o voltei a ver, mas guardo dele a imagem de um ser humano de eleição com uma alma do tamanho do mundo!

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