22 abril 2011

Visita do Presidente da República, General Francisco Higínio Craveiro Lopes a Moçâmedes, em 1954








O Presidente Craveiro Lopes, em 1954, deu início a uma visita prolongada a Angola, no decurso da qual percorreu cidades, vilas, aldeias, e os sítios mais recônditos do imenso território, ao longo de trinta e seis dias, onde teve vários e breves encontros com as populações nativas, servindo-se de intérpretes de várias origens (funcionários administrativos, comerciantes da zona, autóctones, missionários, etc).

Fazendo um levantamento breve do que se passava em Angola, em Portugal, e pelo Mundo nesta época, diremos que esta visita aconteceu nove anos após a II Grande Guerra Mundial (1939-1945), numa altura em que,  com a Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, tinha começado a onda das independências das colónias em África,  sob a égide da França e da Inglaterra, e estavam criadas as condições que a médio prazo levariam ao desfecho do sistema colonial português, visto pelas grandes potências como um entrave.  



A VISITA DO PRESIDENTE CRAVEIRO LOPES A MOÇÂMEDES


Ao longo dessa prolongada visita a Angola e S. Tomé, Moçâmedes foi também visitada pelo Presidente da República, General Francisco Egíno Craveiro Lopes, que, vindo de Sá da Bandeira (Lubango) com a respectiva comitiva, desceu a serra da Chela de comboio,  tendo na sua passagem por Vila Arriaga, por volta das 10.30 da manhã, feito uma paragem, para presidir à cerimónia da inauguração da nova linha alargada dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, num troço de 90km, que veio proporcionar um melhor escoamento de produtos e ajudar a incrementar a economia do Distrito.



 
O  momento  simbólico da assinatura do auto e queima da fita que ficou a marcar 1ª fase dos trabalhos de transformação do CFM.


No acto da inauguração, o Presidente da República envergando camisa e calça de caqui, tipo militar, e capacete colonial, assinou o auto e queimou, como era costume em actos do género,  a simbólica fita  (como a foto acima documenta) com o fogo da fornalha da locomotiva. 

Esta obra, enquadrada no Plano de Fomento Nacional, tinha em vista o povoamento do vale do Cunene e de outras regiões, bem como o desenvolvimento económico e de colonização em zonas menos povoadas do território, porém esteve por muito tempo paralisada, por falta de materiais, no periodo da II Grande Guerra (1939-1945), em que as fábricas  europeias se encontravam ao serviço da indústria do armamento.

Com esta inauguração, o Caminho de Ferro de Moçâmedes passou a dispor de potentes locomotivas que aumentaram a capacidade transporte de carga e de passageiros,  e passaram  a proporcionar uma maior rapidez no escoamento da produção, uma vez que passaram a rebocar comboios da ordem das 800 a 1000 toneladas, quando as anteriores rebocavam composições da ordem das 120 toneladas apenas.

No decurso da cerimónia de inauguração, falaram o Eng. Vasco Outeiro, o então director da 
Exploração do Porto e Caminhos de Ferro de Moçâmedes, o Presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial da Huila, Nuno Pedrosa, e o Engº Melo Vieira, Vice-Presidente da Comissão Administrativa do Fundo de Fomento de Angola. A fechar a sessão, falou o Chefe Estado General Craveiro Lopes. 

Através dos sucessivos discursos foi feito um breve historial do CFM, desde os primeiros estudos, em 1888, iniciado com fins militares,  até à abertura em 1907 do 1º troço até ao km 67,  que prometia vir a ser um dos melhores de Angola. Falou-se  da importância dos vários Planos de Fomento quinquenais postos em acção desde 1938, da autoria do Dr Vieira Machado, Ministro das Colónias (1938-45), da suspensão dos trabalhos por falta de apetrechamento, devido à guerra, do alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes, ao Km 173 e do Km 205 a Sá da Bandeira.  Foram tecidos elogios ao Plano que veio proporcionar importantes melhoramentos ao nível dos CFM. Falou-se ainda da construção do Porto de cais de Moçâmedes, e da promoção do povoamento do vale do Cunene em prol do desenvolvimento económico da região. 
Os discursos terminaram com os tradicionais "vivas" a Portugal e a Salazar, e elogios à governação pelos vertiginosos progressos que estavam a ser levados a cabo em Angola. 

O Presidente da República continuou o percurso partindo de Vila Arriaga rumo a Moçâmedes, tendo feito uma paragem no Posto Experimental do Caraculo, onde percorreu diversas secções e procurou  informar-se de todos os pormenores de  funcionamento, mostrando-se bastante impressionado. Esta visita terminou com um almoço volante, e a marcha prosseguiu rumo a Moçâmedes, tendo o comboio ao entrar na Estação apitado 3 vezes, ao mesmo tempo que estalaram 30 morteiros lançados, e os clarins executaram a marcha de continência, sendo o Presidente à chegada à Estação, delirantemente ovacionado. 


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A Guarda de honra ao Presidente foi constituída por um batalhão da marinha desembarcado de três navios de guerra da escolta presidencial, e por um pelotão de caçadores comandado por José Relvas, comandante do destacamento militar de Moçâmedes, e ainda por uma "bandeira" da Mocidade Portuguesa, comandada por Raúl Trindade Abreu (Nito), e um contingente dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes. 
 Seguiu-se o desfile no qual se incorporaram o batalhão da Marinha, o pelotão de caçadores, alunas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes uniformizadas de branco, e o contingente dos Bombeiros Voluntários. 



 



O Presidente da República e comitiva passando por entre basquetebolistas dos clubes locais, em representação do Ginásio Clube da Torre do Tombo, do Atlético Clube de Moçâmedes, do Sporting Clube de Moçâmedes, e do Sport Moçâmedes e Benfica. (1)




 

 Na tribuna erguida para o efeito,  no terreno defronte à Estação do Caminho de Ferro, o Presidente Craveiro Lopes e comitiva assistiram ao desfile, vendo-se na foto, à esquerda, representantes das forças vivas da cidade, entre os quais o Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, Dr Mário Moreira de Almeida (Médico), os vereadores Raul Radich Júnior, Rui Torres, Virgilio Carvalho e Gomes da Silva, e o Secretário da Câmara Municipal, Artur Trindade que, empunhando o estandarte, fez a entrega das chaves da cidade ao Presidente. Encontrava-se também junto à Tribuna, um grupo de senhoras da JIC (Juventude Independente Católica), constituido pelas moçamedenses, descendentes de antigos colonos, Salomé Inácio, Teresa Van der Kellen e Carolina Mangericão, que à passagem do Presidente lancaram para o ar pétalas de flores que transportavam em pequenos cestinhos.

Terminada a cerimónia, o Presidente seguiu em cortejo automóvel até ao salão Nobre da Câmara Municipal, para a sessão de boas vindas, tendo sentados à sua direita, o Ministro do Ultramar r  o Governador da Huila, Engenheiro Raimundo Serrão, e à sua esquerda, o Governador Geral, Comodoro Sousa Uva e o Engenheiro Melo Vieira.
No decurso da cerimónia tomou a palavra, em primeiro lugar, o Presidente da Edilidade que apresentou cumprimentos em nome da população, e fez um resumo da Historia do Distrito, deste Diogo Cão, passando pela época em que a velha Angra do Negro era visitada por mareantes que deixaram impressas no Morro da Torre do Tombo, centenas de inscrições, que a mão do homem foi apagando, uma das quais rezava assim:

 " Aos seis dias do mês de Fevereiro saltou o sargento Domingos Morais nesta baía, que é formosa, em campanhia do seu capitão José Rosa, em 1665".  Gente que não chegara ali para caçar nem para comprar escravos, mas que tripulava o patacho " Senhora da Nazaré", e que a mando do Governador Vidal de Negreiros vinham em reconhecimento da costa, e certamente em missão de soberania. 

O Presidente da Edilidade recordou ainda a chegada, em 1785, de Pinheiro Furtado, na fragata "Loanda" tendo, tendo este proposto ao Governador Geral o nome Mossâmedes, em substituição de Angra Negro. Recordou acontecimentos como o assassinato, no "Rio das Mortes" (Rio Bero), do oficial José Sepúlveda, do cirurgião Francisco Bernardes, e mais dois marinheiros caídos em embuscadas levadas a cabo pelos indígenas, e a expedição de Pedro Alexandrino e de Francisco Garcia, por mar e por terra, em reconhecimento da costa e do interior, na 4ª década do século XIX. Recordou também as instruções do General Sá da Bandeira ao Governador António Noronha, e os resultados daquelas duas expedições que levaram à criação, em 1840, do Presidio e Estabelecimento, sob a condução do Tenente Garcia, que por terra havia penetrado até aos sertões de Caconda. Salientou o carácter militar da primeira ocupação regular da futura Mossâmedes, que definhara por sete e oito anos após estabelecimento de algumas feitorias, recordou a guarnição do Presidio com quatro centenas de degredados, sendo na altura a população europeia compreendida por alguns comerciantes e seus familiares, e chamou atenção para o facto de que já por esse tempo tivera início a pequena indústria de pesca, bem como a agricultura no fértil vale do Bero, sendo com a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, que se entrou na fase em que finalmente algo começava a mudar em Angola, até então abandonada e esquecida, transformada desde há muito em entreposto de trafico escravos para o Brasil e Américas.

Em seguida tomou a palavra  o Presidente Craveiro Lopes para manifestar o seu entusiasmo pelo que lhe fora dado assistir no decurso da sua viagem por parte do povo de Angola, que tão carinhosamente o  recebeu, manifestando o seu patriotismo por uma "tria exovalhada pelo mundo", ao que naturalmente se seguiram calorosos aplausos. Finda a sessão, a multidão que se aglomerava no exterior e aguardava o General Craveiro Lopes, convergiu para o Palácio-residência do governador, onde se seguiu uma recepção pública.

Às 15 horas do dia 23 foi a vez da inauguração dos trabalhos do cais acostável, a cuja cerimónia acorreu uma grande multidão, salientando-se as camadas estudantis, como as fotos a seguir deixam ver.
Alunas e alunos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes preparando-se para  marcar a sua presença na inauguração ...

 

Um grupo de estudantes filiados da Mocidade Portuguesa dirigindo-se para o local.  Nesta foto podemos ver também alguns africanos preparados para seguir o mesmo trajecto. À esquerda moradores da zona nossos conhecidos, entre os quais Rita Seixal, Paula Ferreira, Conceição Gois (Lili) e Guilhermina Góis Jardim assistem ao desenrolar dos acontecimentos.

O Chefe do Estado, acompanhado do Ministro Ultramar,  do Governador da Huila, e das Senhoras que integravam a Comitiva, chegou ao local dos estaleiros das obras  do porto de cais, na base da falésia da Torre do Tombo, onde era aguardado pelo Engº Melo Vieira, do Fundo de Fomento,  por Rocha de Carvalho, da Fiscalização de Obras, por Raimundo Serrão e por Vasco Outeiro, dos Portos Caminhos Ferro, além de entidades de locais. Falou em seguida o Presidente da Associação Comercial de Moçâmedes que fez um historial da cidade desde os tempos da sua formação. Os discursos empolgaram os assistentes, e as últimas palavras proferidas, por fim, pelo Presidente Craveiro Lopes, foram objecto de salvas de palmas vivas e calorosos.

 

O momento em que tomou a palavra  Raúl Radich Jr.

 


Seguiu-se o momento solene da inauguração dos trabalhos do novo porto de Moçâmedes. Na foto acima podemos ver o momento em que o Presidente Craveiro Lopes carrega no botão que irá fazer explodir uma parte da falésia, como documenta a foto a seguir.
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Era grande a multidão concentrada no topo da falésia da Torre do Tombo, próximo da ponta do Pau do Sul ,que dalí ia observando a cerimónia da inauguração das obras do porto de cais. Mais perto,  bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.







Chegada a cerimónia ao fim, é o regresso a casa. Esta foto, tirada no Bairro da Torre do Tombo, na zona que dá acesso à Praia Amélia, permite ver,  à dt., a casa de traça portuguesa do industrial e comerciante da Praça, João Duarte, e à esq. a casa de madeira sobre pilares onde viveu José Rodrigues Trindade, e ficava junto das instalações do Sindicato da Pesca. Ao fundo, a padaria da família Esteves e a sede do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Também ao fundo, e à dt.,  vê-se o edifício onde até 1950 funcionou  a  primitiva Escola 56, de Pinheiro Furtado, construida em madeira, sobre pilares de cimento, em estilo colonial. Já bastante apagado, vê-se um velho chafariz que ali existia, e o  chamado "Bairro Feio".





O Presidente Craveiro Lopes partiu em seguida para a  Baía dos Tigres, acompanhado da comitiva antes de partir para Porto Alexandre, onde terminou a sua visita ao Distrito de Moçâmedes.

Era sempre assim quando um alto dignitário do Governo de Portugal ou de Angola visitava Moçâmedes. Muita gente na rua, colchas às janelas, gente de todas as  tonalidades de  pele acenando bandeirinhas portuguesas, barcos de pesca embandeirados na baía, iluminação especial na cidade, foguetes, etc.


Eram  manifestações, para uns patrióticas, para outros, não totalmente espontâneas, uma vez que ninguém ignorava o quanto as autoridades da terra pressionavam os industriais que possuíam transporte automóvel para os disponibilizarem, sobretudo camionetes de caixa aberta, para que fosse transportado o pessoal contratado que trabalhava nas suas pescarias para fazerem parte destas manifestações.

Também os estudantes eram convocados pelas respectivas escolas. E os desportistas eram exortados a estarem presentes,  pelos dirigentes dos clubes.  As bendeirinhas distribuidas pelos indígenas das pescarias e pelas crianças das escolas, etc., visavam  dar maior brilho à manifestação. Aliás, não é assim que ainda hoje acontece em Portugal por ocasião dos comícios eleitorais?

A curiosidade arrastava muita gente a estas manifestações,  numa terra onde quase nada de novo acontecia. As maioria das pessoas eram despolitizadas, estavam voltadas para a labuta do seu dia a dia, na luta pela sobrevivência,  e  excepto uns poucos ligados à União Nacional, o partido do Governo, a maioria era apolítica. Vivia-se em regime de ditadura. 



 Durante a visita do Presidente, a reverenda professora primária, D. Alina de Campos, cumprimenta D. Berta Craveiro Lopes

 


Espontânea foi a recepção feita por um grupo de senhorinhas da JIC (Juventude Independente Católica) de Moçâmedes, a D. Berta Craveiro Lopes.  Entre outras:  Lizete Ferreira,  Isabel Castro, Carolina Mangericão, Fernanda Braz de Sousa,  Salomé Inácio, Edith Gomes, Arminda Alves de Oliveira, Teresa Van der Keller, Luzete Sousa, Maria Lidia, Edith Frota


Soube-se mais tarde que as relações entre o Presidente da República Craveiro Lopes e Salazar, sempre foram frias e formais. Com o Presidente Craveiro Lopes foi nascendo a esperança de mudança para Portugal. Por meio de cartas, pedidos de reuniões, audiências, as populações  davam ao Presidente conta do que se passava no país, a questão da censura, a falta de liberdade de reunião, a questão do sufrágio, etc. O Presidente acabou por ser conectado com a oposição ao regime,  como um homem disposto a substituir Salazar. O ano de 1958 chegou. As eleições presidenciais também, tal como estava previsto na Constituição. O Presidente Craveiro Lopes ambicionava um segundo mandato mas a União Nacional escolheu outro candidato, o Almirante Américo de Deus Thomás.

MariaNJardim 


(1) Reconhece-se, entre outros/as, Esmeralda Freitas e Leonilde Oliveira (Nide) do Atlético Clube de Moçâmedes, Helena Santos, Celísia Calão e América Pisoeiro, do Ginásio Clube da Torre do Tombo, José Imácio dos Santos (treinador do Ginásio), e, vários alunos das escolas, filiados na Mocidade Portuguesa, como era obrigatório,  entre os quais o chefe de quina, Pieter Van der Kellen (na foto, entre as basquetebolistas, empunhando a bandeira da MP), e um pouco atrás, Pinto (ciclista), o Dr Domingos da Ressurreição Borges (à época Director Escola da Comercial de Moçâmedes), Ângelo Nunes de Almeida e Odete Maló de Almeida, etc etc. Clicar sobre as fotos para ampliar.


Ver tb aqui: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1954/N1597/N1597_master/GazetaCFN1597.pdf



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