27 maio 2011

Juventude moçamedense no início dos anos 1971. Moçâmedes, Namibe, Angola

Vera Freitas, Paula e Anabela, Ondina Sancadas de Sousa e Marília Faustino, no salão nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Moçâmedes, quando da recepção oferecida a Riquita Bauleth, no regresso  à sua terra, após ter vencido, na Metrópole, o título de  "Miss" Portugal 1971. Foto da Ondina.

23 maio 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mucuio


João Thomás da Fonseca, o fundador do Mocuio, junta da esposa, 
Celeste e da filha Celeste, por volta de 1914


João Thomás da Fonseca, o proprietário da pescaria do Mucuio, ao centro, rodeado de amigos (1920), entre eles, Manuel Vaz Pereira (de branco)
João Thomás da Fonseca chegou ao Mocuio em finais do século XIX, e ali, naquela pequena praia deserta perdida nas escarpas do deserto montou a sua pescaria, que foi evoluindo ao longo do tempo, e mandou construir o seu bonito chalet onde nada faltava, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água, um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra e Gabão,  levando dalí ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.

O Mocuio não possuía água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões. Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos áureos possuía salinas, fábrica de farinha de peixe e conservas, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuía também mais de 20 embarcações pequenas.


 


Na continuidade do Mocuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os portugueses foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, alí  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI.
A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos


Entre outros, João Thomás da Fonseca II (filho) e o gerente da pescaria, Faria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.
Trata-se das instalações da pescaria do Mocuio. Em 1º plano tarimbas ou giráus para peixe seco.


 
Foto tirada por volta de 1914, onde se pode ver João Thomás da Fonseca, o patriarca desta família, rodeado de amigos e de algumas personalidades da Marinha portuguesa quando daziam uma paragem para descanso, no decurso de uma visita ao Mucuio. Não sei se terá alguma relação, mas foi em Moçâmedes que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte dos efectivos militares portugueses cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Repare-se que as senhoras  estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira devidamente rotulados. Naquele tempo e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas nesses caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietário dos escassos transportes automóveis existentes em Moçâmedes, nas suas deslocações, tinham que levar consigo alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito esgotava. Aliás, as bombas existentes nas principais cidades de Angola e em certas povoações do mato, com um pouco de sorte, eram nesse tempo bombas manuais que eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que transportavam um tambor de 200 litros de gasolina, e tinham uma "torre" de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ... África eram assim!


Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos antigas publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

19 maio 2011

Grupo de alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, em Moçâmedes, Namibe, Angola


Eis o edifício da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de planta rectangular, com três pisos e cerca de 135 metros de comprimento. Coberturas de telha sobre estrutura de madeira. Seguindo o modelo comum nas escolas projectadas pelo Gabinete de Urbanização Colonial neste período, procurou-se dar à entrada central um certo toque de monumentalidade com a execução de um grande pórtico, ao centro e erguendo-se à altura do segundo piso, sobre o qual existe uma varanda de grandes dimensões. A existência deste pórtico, que se desenvolve através de uma colunata de quatro colunas em pedra, permite acentuar o carácter de simetria do edifício. Ao contrário do comum nas construções escolares projectadas pelo Gabinete de Urbanização do Ultramar, não existem galerias exteriores a todo o comprimento do edifício, tendo sido estas substituídas por elementos em betão que as simulam. Ao nível da cobertura possui uma platibanda de betão que acompanha a totalidade do comprimento da fachada.

O edifício não foi executado para o terreno inicialmente previsto, cuja parcela acabou  reduzida para dar lugar a lotes habitacionais, tendo o remanescente sido ocupado pelo Liceu Almirante Américo Tomás. Construído cerca de 500 metros a Oeste do referido terreno, o edifício surge amputado do segundo corpo inicialmente previsto, que deveria acolher a biblioteca, o ginásio e as oficinas, bem como o corpo dos ginásios e auditório, comuns na tipologia de escolas projectadas pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização do Ultramar.

1956 - data do projecto da autoria dos arquitectos Fernando Schiappa de Campos, Lucínio Cruz e Luiz Possolo, técnicos do Gabinete de Urbanização do Ultramar).











Na década de 1960,  princípios da década de 1970, grupo de docentes e de alunos da Escola Industrial e Comercial Infante S. Henrique, de Moçâmedes nas  escadarias do edifício daquela Escola. Seguem várias fotos de alunos que a frequentaram neste período.

























 





Um pouco da História do ensino secundário em Moçâmedes
 



Naquele tempo havia a ideia retrógada de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole,  uma vez que a Universidade de Luanda só veio a ser criada em 1969,  ideia que não apenas veio prejudicar os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas familias, e  em muitos casos com os maiores sacrifícios.


Recuando no tempo, abordaremos a seguir um pouco daquilo que foi a evolução histórica do "Ensino Secundário" em Moçâmedes:

- Foi em 1918 que surgiu pela primeira vez uma fugaz tentativa de criação de uma escola para o Ensino Secundário em Moçâmedes, a "Escola Marítima de Moçâmedes", prevendo-se para a mesma um curso preparatório com a duração de dois anos, um  ensino primário complementar, o que só podia conceber-se se soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas.  Estava previsto que, além da parte literária propriamente dita, aprendessem outras coisas, como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Moçâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc.. Eram ainda ministradas aos alunos noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc. Contudo esta ideia não chegou a ser levada à prática.

No ano seguinte, em 1919, Filomeno da Câmara ousou criar, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes. Era um novo tipo
de Escola que seria regulamentada, três anos depois, por Norton de Matos. De facto a "Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes" foi posta a funcionar em 1925. Não obstante, houve ainda uma tentativa de se se criar em Moçâmedes essa outra Escola agora com a designação de Escola Industrial Marítima de Moçâmedes.  

A Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes embora ostentasse a designação depreciativa de Escola Primária Superior, possuia um currículo de cariz literário que a demarcava de um ensino meramente profissional e primário, e a colocava a par de um ensino secundário. Em 1927, esta Escola, que de início era administrada pela Câmara Municipal, passou a sê-lo pelo Estado, e a partir de 1930, passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, mantendo embora não o currículo distinto do liceal, apesar dos  sonhos, que já nesta altura, acalentavam professores, educandos e população, da sua elevação a categoria superior na escala da classificação. Contudo em 1936, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes foi extinta para dar  lugar à Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, de cariz tecnico-profissional, que não dava a equivalência ao Curso Geral dos Liceus, e que em 1952 foi extinta para dar lugar à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes que continuou a funcionar nas mesmas instalações, no cimo da Rua das Hortas. E assim se manteve o ensino secundário  até 1961, submetido às directrizes de Lisboa. Existia em Moçâmedes apenas uma Escola de nível geral  secundário, até ao 5º ano. Em 1960,  por evolução natural,  essa é substituida pela actual Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, que passou a funcionar em novas e modernas instalações apropriadas para o efeito. O Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, foi o seu Patrono.   

Moçâmedes  não tinha um Liceu  onde os alunos pudessem no máximo avançar até ao 5º ano. Mas o ensino daquela escola era um ensino rigoroso e exigente, um diploma do 5º ano, por exemplo, era uma garantia para um emprego.

Quanto ao Liceu de  Moçâmedes, este só viria a ser fundado, com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961, nesse ano fatídico, como atrás referi em que em Angola tudo começou a mudar, com os movimentos independentistas a começarem a movimentar-se como foram o assalto do MPLA às cadeias de Luanda e  os massacres da UPA levados a cabo contra populações trabalhadoras e indefesas, europeus e africanos, nas fazendas do norte de Angola.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita a Moçâmedes, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Conclusão óbvia: quando a manifestação foi preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.

Apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses, muito poucos, conseguiram ingressar no ensino superior, ou seja, uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Estes tiveram que se matricular no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, onde podia prosseguir até ao 7º ano liceal. Em Moçâmedes as raparigas que frequentavam o Colégio das Irmãs Doroteias podia completar ali o equivalente ao 5º ano  liceal, mas após ai chegadas tinham que se deslocar para o Diogo Cão na cidade planáltica a expensas da familia, se quisessem prosseguir até ao 7º ano e posterior entrada numa Universidade Metropolitana.
 Um ou dois fizeram exposições a Salazar e lá conseguiam a bolsa de estudo, outros tiraram os seus cursos a expensas das respectivas famílias, com grandes sacrifícios financeiros, outros tiraram os seus cursos numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhe dificultava a caminhada, obrigando-os a autênticos malabarismos.

Foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligentes e capaz,  que por via dos seus cursos, gerais, médios ou superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora,  também os que regressavam e aqueles que nunca partiram, ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, ou entre os que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros filhos da terra  ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários.


A partir da década de 60,  e a par de uma situação de guerra de guerrilha contra os movimentos independentista, depressa reduzida a zonas frontreiriças do norte e do leste de Angola,  houve uma verdadeira  explosão do ensino, e Angola ficou "semeada" de escolas comerciais e industriais onde se leccionavam cursos técnicos médios (contabilistas, electricistas, serralheiros, carpinteiros, construção civil etc). Repare-se, preferencialmente cursos de cariz tecnológico, o que explica que durante muito tempo ainda os estudos universitérios em Angola não passavam de uma miragem.  Dizia-se que no Terreiro do Paço não "queria doutores angolanos", o que até tinha certa lógica, pois que as massas cultivadas sempre estavam ligadas à ideia de independência, o que era mais do que inevitável. E a verdade é que os poucos estudantes que iam de Angola para Universidades metropolitanas, brancos, negros e mestiços, passaram a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, que se revelou um alfobre de contestatários contra o regime de Salazar e defensores da independência das colónias.

Tudo isto explica porque eram os cursos médios, modernos , os preferidos, que aliás foram de grande utilidade, e representaram uma mais valia para  a Angola independente , quando foi esvaziada de quadros. Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar foi o "pai"deste modelo de ensino, de inegável valor para o futuro da terra. Estrangeiros que visitavam Angola  ficavam espantados com o bom nível destas escolas aparelhadas com o que de melhor havia no mundo, todas elas instaladas em edifícios imponentes, eram motivo de orgulho de professores e alunos.







MariaNJardim

TEXTO :
Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio.
Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente.
A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português.
Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador.
Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique».
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves.

Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves.






1. Ver também aqui: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.htmlhttps://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.html
2. E Aqui a anterior Escola comercial e Industrial na Rua das Hortas:  https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2009/03/escola-comercial-e-industrial-de.html

Jovens estudantes de Moçâmedes, Namibe, Angola nos anos 1960/70 (início)

Dina Gaspar, Zito Ferreira, PP Teles, Ana Maria Almeida, Odete, Balula, Bitacaia, Formosinho, Romão Justo  Gaspar...


Jacó,  Rui Torres, Bitacaia, Zico Ferreira, Carlos Matias, Rui Formosinho, Rui, Walter Serqueira, Odete, Ana Maria...

11 maio 2011

Estudantes de Moçâmedes (Namibe) em finais da década de 1960

Tiago Costa, Raúl, Zé Camudo, Neto, Matos, Júlio Almeida (Juleco), Gois, Zé da Fisga,  Anatálio, Ernesto Dionísio  António Soares, Luís Nóbrega, Neto, Nélito Nóbrega, Nanda Matos Silva

 Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
 Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
 Estudantes de Moçâmedes (Namibe) 
Estudantes de Moçâmedes (Namibe). Excursao finalistas decada 1970

  Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
  Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
  Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
  Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
  Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
 Estudantes de Moçâmedes (Namibe)

Familias de Moçâmedes: Familias Ferreira, Almeida, Sousa e Alcario. Rodrigo, o poeta alentejano que versejou Moçâmedes...


Em 1953 no Luau, Angola


Os casais Arnaldo Nunes de Almeida/Maria Etelvina Ferreira de Almeida, à esq.,  e Rodrigo Baião Alcario /Lídia Rosa de Sousa Alcario, à dt., no Luau (Angola), em 1953.  Arnaldo, Etelvina e Lídia  nasceram em Moçâmedes, Angola nos finais das décadas de 1910 e 1920 e são descendentes de "colonos" algarvios alí chegados nos finais do século XIX. Rodrigo Baião Alcario é o único dos quatro que não nasceu em Angola, mas que nem por isso amou menos aquela terra, tendo eternizado em verso o carinho especial que nutria por Moçâmedes (hoje Namibe):

 
MOÇÂMEDES – ANGOLA

Moçâmedes, cidade bela
Duma beleza sem par
És qual princesa à janela
Olhando as ondas do mar

Moçâmedes terra querida,
Meu jardim de lindas flores
Moçâmedes das moças lindas
Moçâmedes dos meus amores


Torre do Tombo
adorada,
Saudoso Pau do Sul,
Lembro o Bairro da Aguada
E as hortas do Giraúl.

Lembro a Praia das Miragens
E o Deserto do Namibe
Onde a Welwitscia Mirabilis
E a gazela nasce e vive.

Tudo o que tenho te devo
Minha Moçâmedes querida

Tu és todo o meu enlevo
Por ti eu daria a vida

Senti grande desconforto
Quando um dia te deixei
Ao sair desse teu porto
Olhei para trás e chorei

Já vinha longe o navio
Inda olhei mais uma vez
Essa terra de algarvios
Um milagre que Deus fêz

Para sempre, terra amada
Os meus olhos te perderam
Mas sempre serás lembrada
Por todos que em ti viveram.

São João do Estoril, 4/8/992.
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario
(aos 85 anos de idade)

Moçâmedes esteve presente, eternamente presente nos poemas Rodrigo Baião Alcario: na Igrejinha de Santo Adrião, no Deserto do Namibe, no Pico do Azevedo, na Pedra da Delfina, na "Torre do Tombo" querida, nas "moças lindas" que o poeta não se cansava de lembrar, e acima de tudo, na mais bela delas todas, Lídia, a sua esposa e a musa inspiradora da sua vocação poética.

Falemos então um pouco deste alentejano de Moura, que resolveu emigrar um dia, ainda jovem, nesses atribulados anos dos finais da  década de 1920, após terminado o serviço militar, para fugir ao cruel destino que na época estava reservado aos jovens da sua terra - o trabalho braçal, mal pago em herdades de latinfundiários do Baixo Alentejo. Para concretizar esse desejo, Rodrigo dirigiu-se à Junta de Freguesia/Câmara Municipal, a fim de solicitar um certificado de residência para se candidatar ao quadro da Guarda-fiscal  no Ultramar (Angola e Moçambique), e ingressar na categoria de soldado, tendo o mesmo lhe sido negado. Era a estratégia então utilizada para impedir a saída de mão de obra disponível no Alentejo por ocasião das colheitas, contou-nos  Rodrigo, revelando-nos em seguida como nesse tempo  eram escolhidos os trabalhadores  para serem distribuidos pelas herdades do Alentejo: "juntavam centenas de jovens adultos em plena Praça Pública para em seguida estes serem objecto de minuciosa escolha que recaía sobre os mais fortes, tal como faziam com os escravos no antigamente...".  Rodrigo resolveu então deslocar-se a Beja para expôr as suas razões ao Comandante daquela Região Militar que logo se prontificou a entregar-lhe uma carta de recomendação para que  não houvesse qualquer impedimento à sua partida para África. E como não tinha dinheiro para pagar a dormida numa qualquer humilde pensão de Beja, até ousou pedir ao Comandante que o deixasse pernoitar numa das casernas, o que veio a acontecer.

E assim Rodrigo Baião Alcario desembarcou em Luanda numa quente manhã de Verão, algures em finais da década de 1920, sem saber bem para onde ia, nem onde ficava Angola, e muito menos sobre a sorte que o aguardava naquela terra que era na altura não mais que uma aldeia, onde a maioria da população era masculina, onde campeavam ainda toda a sorte de doenças tropicais como o paludismo, a febre amarela, biliosas, perniciosas, etc., e onde a vida era difícil de suportar para um jovem só, sem casa, sem familia, sem ninguém que lhe dispensasse um pouco de atenção e  de carinho.  
 Rodrigo não podia casar porque mal ganhava para pagar a Pensão onde se alojou. E mais tarde quando colocado no Lobito, continuou alojado com outros colegas solteirões em humildes pensões, porque o dinheiro mal dava para viver. Dessa época é este soneto que revela o nível alcançado por Rodrigo naquela fase, a fase da maturidade poética.

Exasperado
(Soneto)

Fugi cidade perante o meu olhar
Deixai-me ver apenas a campina,
Esta obra feita pela mão Divina
Onde o cinismo nunca pôde entrar.

Em ti, cidade, nunca eu pude entrar,
O teu cinismo a mim me contamina,
A vaidade, o vício, a podridão que mina
O teu seio me faz exasperar.

O campo... Oh! ... sim, ameno, esplendoroso:
Onde as flores crescem ébrias de gozo
E as aves trinam e se amam docemente!...

Quem dera, ó campo, sempre te habitar
Uma linda herdade ou um fresco pomar
Onde esquecido eu fosse eternamente.

Lobito (Angola) entrada da Catumbela, em 12/07/1934
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario


A vida de Rodrigo começou a mudar e a fazer algum sentido quando, nos finais dos anos 1930, foi transferido para a  Moçâmedes,  onde conheceu uma jovem moçamedense de 19 anos  de idade,  com quem casou no dia 01 de Novembro de 1940.

 
Lidia Rosa de Sousa e o sobrinho e meu irmão Amilcar, na Torre do Tombo, em 1939

Lidia Rosa de Sousa não era apenas bonita, era alegre, jovial e meiga, e emanava ar  de candura  que deixou Rodrigo perdido de amores. Mas Rodrigo também viu o seu amor correspondido.  Era inteligente, simpático, tinha boa figura, era alto, moreno, de cabelos negros  e ondulados, olhos brilhantes e pestanudos, tinha todos os predicados que Lídia gostava. E além disso a farda (da Guarda Fiscal) assentava-lhe bem, imprimia um ar respeitável aos seus fogosos 30 anos.

 Casaram na Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes,  tendo presidido ao acto, o popular Padre Guilhermino Galhano. Vestida de branco, com véu corrido até  aos pés e um ramo de lírios entre as mãos, Lídia mais parecia uma Santa pronta a ser colocada num altar.

O poema que 
segue é uma evocação desse grande dia, e foi escrito
aos 90 anos de idade, já em S. João do Estoril. Não admira, pois, a sua devoção a Moçâmedes,  cidade onde constituiu família e onde finalmente pode realizar o seu grande sonho:


O DIA MAIS FELIZ

Eu tenho gravada no meu pensamento

Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.

Rompia na cidade, alegre e risonho,

O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.

Quatro horas da tarde desse lindo dia

Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.

Mas eis que um carro à igreja chegou

E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.

Minha noiva intranquila seguia nervosa

De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.

Pelo braço do pai, que feliz sorria,

Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.

Celebrado o acto com solenidade,

Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.

Nunca em minha vida tive um dia igual

Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.

Porque nos queremos, porque nos amamos

Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.

escrito em S.João do Estoril, 30/09/97 (aos 90 anos de idade)

Robaial / R. Baião Alcario (1907-2005 ) 

*********

Segue outro poema deste Rodrigo, este, escrito aos 69 ano de idade, em Moura:


À MINHA MULHER

Eu passei toda a minha mocidade 
À procura da mulher com que sonhei 
Corri vilas, aldeias e cidades
Até que finalmente a encontrei.

Vivia numa terra bem distante, 
Cidade das mais belas e formosas 
Onde há mar e sol e amor constante 
E parques e jardins cheios de rosas.

É ela a minha doce companheira, 
O sol que ilumina a minha vida, 
O anjo que não sai da minha beira; 
A jóia mais amada e mais querida.

É ela a minha estrela do norte 
Que me guia por caminhos sem escolhos, 
É ela que em chegando a minha morte
Piedosa virá cerrar os meus olhos.

Moura, Outubro de 1976.
(Aos 69 anos de idade, em Moura)
Robaial R. Baião Alcario



Rodrigo compunha e Lídia, declamava como só ela tão sabia fazer. Este poema "À MINHA MULHER"  era o seu preferido, aquele que era lido vezes sem conta.  Rodrigo apenas frequentou a escola durante 15 dias. Era um autodidacta, e a sua poesia  simples e singela, é bem o reflexo da sua alma, do quanto amou, do quanto viveu, do quanto sofreu, do quanto observou.  São pedaços de si e do seu modo de ser e de estar no mundo, por vezes polémico e controvérso.

Nunca tiveram filhos (por opção), dada a ingrata profissão que obrigava o casal a viver em Angola, tanto em cidades como no "mato". Dedicaram  um ao outro, inteiramente, as suas vidas. Aliás a diferença de idades, cerca  de 12 anos, levava de Rodrigo a tomar não apenas atitude marido também a de um pai. Após a fase inicial, a de Rodrigo solteiro em Luanda e no Lobito, o casal percorreu, lado a lado, Angola de lés a lés. Esteve em Moçâmedes, em Porto Alexandre, em Porto Amboim, em Vila Teixeira de Sousa, no Luau e em  zonas fronteiriças e isoladas do norte  e  do leste de Angola Rodrigo chegou a Chefe da Guarda Fiscal.  Reformou-se por "doença" em 1958, aos 51 anos de idade.  Inteligentemente! O tempo de serviço no "mato" contou-lhe a dobrar. Esclarecido  e atento,  tinha-se apercebido de certas movimentações e  ajuntamentos duvidosos de africanos em zonas fronteiriças por onde passou, e concluiu atempadamente que havia escolhido a profissão errada.  Quando alguns anos depois, em 1961, reagindo aos trágicos acontecimentos perpretados pela UPA, movimento pró-independência de raiz tribal, constituído por uma maioria bakongo, contra as populações trabalhadoras e indefesas das fazendas do norte de Angola, Portugal daria início à luta armada contra os movimentos de libertação, Rodrigo já lá não se encontrava. Havia regressado a Portugal, onde fora viver para a  sua terra natal, Moura, onde na situação de 
reformado, ainda viveu mais 47 anos, e onde adquiriu  moradia própria, no Largo José Maria dos Santos. 

Em Moura, seu habitat natural, Rodrigo Baião Alcario passou um tempo feliz e, apesar da sua pequena reforma, viveu uma vida despreocupada, ora pescando no rio, ora caçando perdizes,  fazendo-se  transportar na  sua moto, sempre acompanhado da cadela Diana, que nunca o largava. Ou ainda dormitando a sesta na cadeira de encosto, de lona, na garagem da casa, lendo o jornal da terra, propriedade do amigo Cunha, frequentando a casa dos amigos do casal, os bailes  do Recreativo, os jantares e festas  para as quais eram convidados,  o Cinema, os Cafés da terra, o Jardim da Salúquia, etc, etc... Tinha chegado de África, era considerado e estimado. Era um senhor!

Durante a sua permanência em Moura, Rodrigo viveu os momentos quentes do PREC, após a revolução dos cravos, em 25 de Abril de 1975. Homem de convicções fortes e inabaláveis, direitista e conservador em terra de comunistas, chegou a temer a ocupação da sua moradia por outras famílias, e chegou mesmo a pegar na caçadeira com que matava perdizes para mostrar àqueles que o provocavam qual seria a sua sorte, caso ousassem fazê-lo. 

A  última fase da sua vida foi passada na residência do Estoril para onde se transferiu em 1990, numa altura em que Lídia fora submetida a uma operação cirúrgica em Lisboa. Homem previdente, procurou fixar-se mais próximo da capital, onde o casal tinha acesso, em caso de necessidade, a recursos assistenciais na doença, que em Moura não dispunha, para além de que, alí, estaria próximo de alguns familiares seus e de Lídia. 

 No Estoril esperava Rodrigo um tipo de vida que já nada tinha a ver com os momentos passados no seu dolente  e calmoroso Alentejo. Já  não podia ir ao rio pescar, nem calcorrear pelos montes e pelas vastas planícies de searas louras ondulando ao vento. Desfizera-se definitivamente da sua "burra", a motorizada que durante décadas a fio o transportara às margens do Guadiana, a Brinches, a Serpa, a Beja e a tantos recantos mais que conhecia como a palma das suas maõs.  Já não fazia o pino como tantas vezes o vi fazer, aos 70 anos de idade, na garagem da moradia de Moura, mas ainda continuava, apesar dos 90 anos, a deixar-nos a todos estupefactos quando  trepava, de dois em dois, em grande velocidade, os  vários lances de degraus  das escadas que o conduziam ao seu apartamento, no 2º andar de um ediício em S. João do Estoril, que não possuia elevador. 

A doença começou a apoderar-se de Rodrigo Baião Alcario aos 95 anos de idade, ainda que no seu corpo musculoso e esguio continuasse  a pulsar um saudável coração e não se verificasse  presença de malignidade. Rodrigo era de uma cepa de alentejanos centenários. O mal que o roía eram  as tonturas, a  insegurança e a ansiedade, era a sensação de falta de ar, e... o medo de morrer.

Numa das crises, após ter saido do Hospital (Cuf), em Alcântara, Rodrigo teve que recuperar num Lar de Cascais. Acompanhou-o Lídia, a eterna companheira, que já não tinha idade para dele cuidar. O intuito de ambos, e sobretudo o de Lídia, era o de uma estadia temporária alí. Nunca se conformou com o facto ter deixado abruptamente a sua casa.  Recordo o dia em que Lídia, a  minha querida tia,
sempre viva e alegre apesar dos seus 84 anos, entrou naquele Lar. Ia como sempre gostava de andar,   cabelo  arranjado, mãos cuidadas, unhas pintadas, salto alto, brincos, colar, e envergava o seu  melhor vestido de seda. Ia fazer companhia ao marido, mas sempre com o espírito de quem ia passar umas repousantes e reparadoras férias num qualquer Hotel de 5 estrelas em Cascais, com varandas debruçadas sobre o mar...
  
Rodrigo Baião Alcario, o alentejano de Moura faleceu aos 98 anos no citado Lar, apenas uma semana a seguir à morte de Lidia, falecida aos 85 anos de idade no mesmo Lar. 

Não chegaram a estar alí um ano. Nada fazia prever que Lídia fosse a primeira a partir.  Soube que  uns tempos após terem alí  ingressado, Lídia passou a receber tratamento para o mal de Alzheimer, e pude verificar como em cada dia que passava ela ia perdendo a alegria de viver e toda a anterior vivacidade, para se tornar parada, taciturna e  entristecida. Deixara também completamente de ouvir. O aparelho que durante alguns anos utilizara para os ouvidos já não servia para nada. 

A última vez que em estado ainda lúcido falou comigo, algumas semanas antes de falecer, foi para me segredar ao ouvido que  já não podia  mais regressar para casa, porque já não tinha casa. Esta havia sido, entretanto, vendida. Este o seu desgosto maior.  15 dias depois, quando os visitei pela última vez, encontrei Lídia como sempre sentada num dos sofás do salão do Lar, estava de cabeça caida,  olhos sem expressão, já não falava, apenas balbuciava algo que eu não consegui perceber, e  sequer conseguia andar. Num sofá, ao lado, estava Rodrigo, recostado para trás, de olhos fechados, rosto endurecido e triste. Negava-se a falar. E já não se fazia acompanhar, como sempre acontecia,  do bloco de apontamentos e da canet que nunca abandonava.  Soube que na minha ausência Lídia tivera um acidente, que havia adormecido, caido do sofá e batido fortemente com a cabeça no chão. Um impressionante hematoma sobressaía-lhe a meio da testa.  Pouco tempo demorou esta minha derradeira visita. No escasso tempo que estive alí, Lídia  foi levada para o quarto por duas empregadas que faziam um esforço para a manter erguida, segurando-a por baixo dos braços,  enquanto arrastava os pés, parecendo ter perdido completamente a força nas pernas.  Ia descansar... fora-me dio. No salão, Rodrigo continuou de cabeça inclinada para trás, olhos fechados, taciturno, mudo. Despedi-me de ambos com um beijo, e pude ver duas grossas lágrimas correrem pelo rosto de Rodrigo.  Saí daquele Lar de Cascais com varanda sobre a baía, completamente arrasada, com o coração desfeito,  a tentar pôr em ordem o turbilhão de ideias que me iam passando, velozmente, pela cabeça. Dois dias depois  recebi a notícia que Lídia estava a morrer. Morreu no dia seguinte. Rodrigo Baião Alcario faleceu uma semana depois, de paragem cárdio-respiratória. Tudo aconteceu como Rodrigo, nos últimos anos da sua vida, sempre desejara, ela primeiro, ele a seguir! Ambos quase ao mesmo tempo. Havia cumprido a sua missão, a missão de a acompanhar, de a  proteger, e, de dela cuidar até ao fim.

Para além de poesia,  Rodrigo Baião Alcario fez crítica literária (ainda por publicar) e, desde os seus tempos de Guarda Fiscal pelas matas de Angola,  pude constatar que, apesar de politicamente conservador e de salazarista convicto, não se coibiu  de deixar expresso em seus escritos a sua reprovação a  certos e determinados actos da governação que iam ocorrendo naquela colónia. Guardo comigo dois poemas escritos por Rodrigo ainda em Angola, sem data, um deles intitulado "Agapiteida", o outro intitulado "O Mano" (Confidencial). Já em Portugal Rodrigo escreveu também dois poemas dedicados  ao período da governação socialista de António Guterres.  Irónicamente seria na vigência de Guterres que Rodrigo viria a beneficiar de uma substancial melhoria na sua degradada pensão de reforma, tal como outros militares.

Se deixou no seu espólio, registado em prosa ou em verso, pedaços dos últimos momentos passados da sua vida enquanto naquele Lar de Cascais com vista sobre a baía, desconhecemos. Sei que até morrer nunca deixou de escrever. Todo o seu espólio ficou na posse de um sobrinho que, a poucos meses da sua morte cuidou da venda da casa do Estoril e do destino das suas economias bancárias. Rodrigo e Lídia quando faleceram, em termos materiais, encontravam-se tão leves quanto haviam nascido. Já nada possuiam de seu. Foram a enterrar, com uma semana de diferença, e repousam ambos, lado a lado, no Cemitério de Moura.

Termino com mais um dos poemas escritos por Rodrigo, este dedicado ao Deserto do Namibe, às caçadas em que participou, aos amigos que o acompanharam, ao Virgílio, ao Aníbal, ao Zeca Assis..., a lugares que visitou e que nunca esqueceu, o  Pico do Azevedo, a Pedra da Delfina, etc. etc.  Foi escrito  aos 90 anos de idade, no apartamento de S. João do Estoril:



A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo».

Tudo «malta» conhecida
E por isso eu aceitei
No outro dia à partida
No grupo me incorporei.

Era o Virgílio e era eu
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz.

Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E  aí todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina.

A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor.

Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão.

Quando o sol já descaía

Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente.

Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas.

O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão.

Todos nos precipitámos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificámos
Que ela ainda tinha vida.

Com certeza nunca viste,
E eu não mais desejo ver,
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer.

S. João do Estoril, 16/10/96.
ROBAIAL – Rodrigo Baião Alcario

FIM