23 maio 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mucuio


João Thomás da Fonseca, o fundador do Mocuio, junta da esposa, 
Celeste e da filha Celeste, por volta de 1914


João Thomás da Fonseca, o proprietário da pescaria do Mucuio, ao centro, rodeado de amigos (1920), entre eles, Manuel Vaz Pereira (de branco)
João Thomás da Fonseca chegou ao Mocuio em finais do século XIX, e ali, naquela pequena praia deserta perdida nas escarpas do deserto montou a sua pescaria, que foi evoluindo ao longo do tempo, e mandou construir o seu bonito chalet onde nada faltava, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água, um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra e Gabão,  levando dalí ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.

O Mocuio não possuía água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões. Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos áureos possuía salinas, fábrica de farinha de peixe e conservas, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuía também mais de 20 embarcações pequenas.


 


Na continuidade do Mocuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os portugueses foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, alí  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI.
A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos


Entre outros, João Thomás da Fonseca II (filho) e o gerente da pescaria, Faria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.
Trata-se das instalações da pescaria do Mocuio. Em 1º plano tarimbas ou giráus para peixe seco.


 
Foto tirada por volta de 1914, onde se pode ver João Thomás da Fonseca, o patriarca desta família, rodeado de amigos e de algumas personalidades da Marinha portuguesa quando daziam uma paragem para descanso, no decurso de uma visita ao Mucuio. Não sei se terá alguma relação, mas foi em Moçâmedes que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte dos efectivos militares portugueses cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Repare-se que as senhoras  estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira devidamente rotulados. Naquele tempo e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas nesses caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietário dos escassos transportes automóveis existentes em Moçâmedes, nas suas deslocações, tinham que levar consigo alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito esgotava. Aliás, as bombas existentes nas principais cidades de Angola e em certas povoações do mato, com um pouco de sorte, eram nesse tempo bombas manuais que eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que transportavam um tambor de 200 litros de gasolina, e tinham uma "torre" de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ... África eram assim!


Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos antigas publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

2 comentários:

Gonçalo Afonso Dias disse...

Caros amigos,
Sou angolano e português. Arquitecto e fotógrafo, entre outras coisas...) a trabalhar actualmente exclusivamente para Angola, em colaboração com o BESA.
Tenho visitado, nos últimos 8 anos, nesse âmbito, quase todas as províncias angolanas. Infelizmente ainda não tive a felicidade de estar no Namibe.
Paralelamente tenho vindo a dedicar-me à divulgação da tão desconhecida e publicada Arquitectura Modernista em Angola, no meu blogue: Gonçalo Afonso Dias - Artes e Ofícios.

Um engenheiro amigo de Angola enviou-me recentemente uma fotografia de uma obra inacabada fantástica "Cine-teatro Chapéu" nessa cidade.
Muito gostaria de saber mais sobre essa jóia da arquitectura - autor, engenheiro, datas, etc.
Peço-vos,antecipadamente agradecido, quaisquer informações sobre ela.
Grande abraço,
Gonçalo Afonso Dias

MariaNJardim disse...

Caro Sr, peço desculpa por só agora ter visto a sua mensagem. Imagino que esse Cine ao qual atribui o nome de "Cine-teatro Chapéu" seja o inacabado em forma de disco voador Sendo esse envio este link para que possa se inteirar do pouco que a seu respeito sei. Cumprimentos.
http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2011/10/casas-de-espectaculo-em-mocamedes.html

Enviar um comentário