19 maio 2011

Grupo de alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, em Moçâmedes, Namibe, Angola


Eis o edifício da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de planta rectangular, com três pisos e cerca de 135 metros de comprimento. Coberturas de telha sobre estrutura de madeira. Seguindo o modelo comum nas escolas projectadas pelo Gabinete de Urbanização Colonial neste período, procurou-se dar à entrada central um certo toque de monumentalidade com a execução de um grande pórtico, ao centro e erguendo-se à altura do segundo piso, sobre o qual existe uma varanda de grandes dimensões. A existência deste pórtico, que se desenvolve através de uma colunata de quatro colunas em pedra, permite acentuar o carácter de simetria do edifício. Ao contrário do comum nas construções escolares projectadas pelo Gabinete de Urbanização do Ultramar, não existem galerias exteriores a todo o comprimento do edifício, tendo sido estas substituídas por elementos em betão que as simulam. Ao nível da cobertura possui uma platibanda de betão que acompanha a totalidade do comprimento da fachada.


O edifício não foi executado para o terreno inicialmente previsto, cuja parcela de terreno acabou  reduzida para dar lugar a lotes habitacionais, tendo o remanescente sido ocupado pelo Liceu Almirante Américo Tomás. Construído cerca de 500 metros a Oeste do referido terreno, o edifício surge amputado do segundo corpo inicialmente previsto, que deveria acolher a biblioteca, o ginásio e as oficinas, bem como o corpo dos ginásios e auditório, comuns na tipologia de escolas projectadas pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização do Ultramar.

1956 - data do projecto da autoria dos arquitectos Fernando Schiappa de Campos, Lucínio Cruz e Luiz Possolo, técnicos do Gabinete de Urbanização do Ultramar).











Na década de 1960 4 princípios da década de 1970, grupo de docentes e de alunos da Escola Industrial e Comercial Infânte S. Henrique, de Moçâmedes nas  escadarias do edifício daquela Escola. Seguem várias fotos de alunos que a frequentaram neste periodo.

























 


A partir da década de 60 houve uma verdadeira  explosão do ensino, e Angola ficou "semeada" de escolas comerciais e industriais onde se leccionavam cursos técnicos médios (contabilistas, electricistas, serralheiros, carpinteiros, construção civil etc).

Dizia-se que Lisboa não "queria doutores angolanos", o que até tinha certa lógica, pois que as massas cultivadas sempre estavam ligadas à ideia de independência, o que era mais do que inevitável. Eram  cursos médios, modernos e de grande utilidade, que representaram uma mais valia para  a Angola independente , quando foi esvaziada de quadros.

Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar foi o "pai"deste modelo de ensino, de inegável valor para o futuro da terra. Estrangeiros que visitavam Angola  ficavam espantados com o bom nível destas escolas aparelhadas com o que de melhor havia no mundo, todas elas instaladas em edifícios imponentes, eram motivo de orgulho de professores e alunos.



Um pouco da História do ensino secundário em Moçâmedes


Naquele tempo havia a ideia retrógada de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole,  uma vez que a Universidade de Luanda só veio a ser criada em 1969,  ideia que não apenas veio prejudicar os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas familias, e  em muitos casos com os maiores sacrifícios.


Recuando no tempo, abordaremos a seguir um pouco daquilo que foi a evolução histórica do "Ensino Secundário" em Moçâmedes:

- Foi em 1918 que surgiu pela primeira vez uma fugaz tentativa de criação de uma escola para o Ensino Secundário em Moçâmedes, a "Escola Marítima de Moçâmedes", prevendo-se para a mesma um curso preparatório com a duração de dois anos, um  ensino primário complementar, o que só podia conceber-se se soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas.  Estava previsto que, além da parte literária propriamente dita, aprendessem outras coisas, como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Moçâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc.. Eram ainda ministradas aos alunos noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc. Contudo esta ideia não chegou a ser levada à prática.

No ano seguinte, em 1919, Filomeno da Câmara ousou criar, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes. Era um novo tipo
de Escola que seria regulamentada, três anos depois, por Norton de Matos. De facto a "Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes" foi posta a funcionar em 1925. Não obstante, houve ainda uma tentativa de se se criar em Moçâmedes essa outra Escola agora com a designação de Escola Industrial Marítima de Moçâmedes.  

A Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes embora ostentasse a designação depreciativa de Escola Primária Superior, possuia um currículo de cariz literário que a demarcava de um ensino meramente profissional e primário, e a colocava a par de um ensino secundário. Em 1927, esta Escola, que de início era administrada pela Câmara Municipal, passou a sê-lo pelo Estado, e a partir de 1930, passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, mantendo embora não o currículo distinto do liceal, apesar dos  sonhos, que já nesta altura, acalentavam professores, educandos e população, da sua elevação a categoria superior na escala da classificação. Contudo em 1936, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes foi extinta para dar  lugar à Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, de cariz tecnico-profissional, que não dava a equivalência ao Curso Geral dos Liceus, e que em 1952 foi extinta para dar lugar à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes que continuou a funcionar nas mesmas instalações, no cimo da Rua das Hortas. E assim se manteve o ensino secundário  até 1961, submetido às directrizes de Lisboa. Existia em Moçâmedes apenas uma Escola de nível geral  secundário, até ao 5º ano. Em 1960,  por evolução natural,  essa é substituida pela actual Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, que passou a funcionar em novas e modernas instalações apropriadas para o efeito. O Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, foi o seu Patrono.   
Moçâmedes  não tinha um Liceu  onde os alunos pudessem no máximo avançar até ao 5º ano. Mas o ensino daquela escola era um ensino rigoroso e exigente, um diploma do 5º ano, por exemplo, era uma garantia para um emprego.

Quanto ao Liceu de  Moçâmedes, este só viria a ser fundado, com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961, nesse ano fatídico, como atrás referi em que em Angola tudo começou a mudar, com os movimentos independentistas a começarem a movimentar-se como foram o assalto do MPLA às cadeias de Luanda e  os massacres da UPA levados a cabo contra populações trabalhadoras e indefesas, europeus e africanos, nas fazendas do norte de Angola.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita a Moçâmedes, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Conclusão óbvia: quando a manifestação foi preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.

Apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses, muito poucos, conseguiram ingressar no ensino superior, ou seja, uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Estes tiveram que se matricular no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, onde podia prosseguir até ao 7º ano liceal. Em Moçâmedes as raparigas que frequentavam o Colégio das Irmãs Doroteias podia completar ali o equivalente ao 5º ano  liceal, mas após ai chegadas tinham que se deslocar para o Diogo Cão na cidade planáltica a expensas da familia, se quisessem prosseguir até ao 7º ano e posterior entrada numa Universidade Metropolitana.
 Um ou dois fizeram exposições a Salazar e lá conseguiam a bolsa de estudo, outros tiraram os seus cursos a expensas das respectivas famílias, com grandes sacrifícios financeiros, outros tiraram os seus cursos numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhe dificultava a caminhada, obrigando-os a autênticos malabarismos.

Foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligentes e capaz,  que por via dos seus cursos, gerais, médios ou superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora,  também os que regressavam e aqueles que nunca partiram, ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, ou entre os que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros filhos da terra  ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários.


MariaNJardim

TEXTO :
Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio.
Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente.
A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português.
Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador.
Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique».
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves.

Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves.






1. Ver também aqui: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.htmlhttps://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.html
2. E Aqui a anterior Escola comercial e Industrial na Rua das Hortas:  https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2009/03/escola-comercial-e-industrial-de.html

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