Eis o edifício da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de planta rectangular, com três pisos e cerca de 135
metros de comprimento. Coberturas de telha sobre estrutura de madeira.
Seguindo o modelo comum nas escolas projectadas pelo Gabinete de
Urbanização Colonial neste período, procurou-se dar à entrada central um
certo toque de monumentalidade com a execução de um grande pórtico, ao
centro e erguendo-se à altura do segundo piso, sobre o qual existe uma
varanda de grandes dimensões. A existência deste pórtico, que se
desenvolve através de uma colunata de quatro colunas em pedra, permite
acentuar o carácter de simetria do edifício. Ao contrário do comum nas
construções escolares projectadas pelo Gabinete de Urbanização do
Ultramar, não existem galerias exteriores a todo o comprimento do
edifício, tendo sido estas substituídas por elementos em betão que as
simulam. Ao nível da cobertura possui uma platibanda de betão que
acompanha a totalidade do comprimento da fachada.
O edifício não foi executado para o terreno inicialmente previsto, cuja parcela acabou reduzida para dar lugar a lotes habitacionais, tendo o remanescente sido ocupado pelo Liceu Almirante Américo Tomás. Construído cerca de 500 metros a Oeste do referido terreno, o edifício surge amputado do segundo corpo inicialmente previsto, que deveria acolher a biblioteca, o ginásio e as oficinas, bem como o corpo dos ginásios e auditório, comuns na tipologia de escolas projectadas pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização do Ultramar.
1956 - data do projecto da autoria dos arquitectos Fernando Schiappa de Campos, Lucínio Cruz e Luiz Possolo, técnicos do Gabinete de Urbanização do Ultramar).
Na década de 1960, princípios da década de 1970, grupo de docentes e de alunos da Escola Industrial e Comercial Infante S. Henrique, de Moçâmedes nas escadarias do edifício daquela Escola. Seguem várias fotos de alunos que a frequentaram neste período.
Naquele tempo havia a ideia retrógada de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.
Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a Universidade de Luanda só veio a ser criada em 1969, ideia que não apenas veio prejudicar os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas familias, e em muitos casos com os maiores sacrifícios.
Recuando no tempo, abordaremos a seguir um pouco daquilo que foi a evolução histórica do "Ensino Secundário" em Moçâmedes:
- Foi em 1918 que surgiu pela primeira vez uma fugaz tentativa de criação de uma escola para o Ensino Secundário em Moçâmedes, a "Escola Marítima de Moçâmedes", prevendo-se para a mesma um curso preparatório com a duração de dois anos, um ensino primário complementar, o que só podia conceber-se se soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas. Estava previsto que, além da parte literária propriamente dita, aprendessem outras coisas, como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Moçâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc.. Eram ainda ministradas aos alunos noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc. Contudo esta ideia não chegou a ser levada à prática.
No ano seguinte, em 1919, Filomeno da Câmara ousou criar, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes. Era um novo tipo
de Escola que seria regulamentada, três anos depois, por Norton de Matos. De facto a "Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes" foi posta a funcionar em 1925. Não obstante, houve ainda uma tentativa de se se criar em Moçâmedes essa outra Escola agora com a designação de Escola Industrial Marítima de Moçâmedes.
A Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes embora ostentasse a designação depreciativa de Escola Primária Superior, possuia um currículo de cariz literário que a demarcava de um ensino meramente profissional e primário, e a colocava a par de um ensino secundário. Em 1927, esta Escola, que de início era administrada pela Câmara Municipal, passou a sê-lo pelo Estado, e a partir de 1930, passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, mantendo embora não o currículo distinto do liceal, apesar dos sonhos, que já nesta altura, acalentavam professores, educandos e população, da sua elevação a categoria superior na escala da classificação. Contudo em 1936, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes foi extinta para dar lugar à Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, de cariz tecnico-profissional, que não dava a equivalência ao Curso Geral dos Liceus, e que em 1952 foi extinta para dar lugar à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes que continuou a funcionar nas mesmas instalações, no cimo da Rua das Hortas. E assim se manteve o ensino secundário até 1961, submetido às directrizes de Lisboa. Existia em Moçâmedes apenas uma Escola de nível geral secundário, até ao 5º ano. Em 1960, por evolução natural, essa é substituida pela actual Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, que passou a funcionar em novas e modernas instalações apropriadas para o efeito. O Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, foi o seu Patrono.
Moçâmedes não tinha um Liceu onde os alunos pudessem no máximo avançar até ao 5º ano. Mas o ensino daquela escola era um ensino rigoroso e exigente, um diploma do 5º ano, por exemplo, era uma garantia para um emprego.
Quanto ao Liceu de Moçâmedes, este só viria a ser fundado, com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961, nesse ano fatídico, como atrás referi em que em Angola tudo começou a mudar, com os movimentos independentistas a começarem a movimentar-se como foram o assalto do MPLA às cadeias de Luanda e os massacres da UPA levados a cabo contra populações trabalhadoras e indefesas, europeus e africanos, nas fazendas do norte de Angola.
Lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita a Moçâmedes, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Conclusão óbvia: quando a manifestação foi preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.
Um ou dois
fizeram exposições a Salazar e lá conseguiam a bolsa de estudo, outros
tiraram os seus cursos a expensas das respectivas famílias, com grandes
sacrifícios financeiros, outros tiraram os seus cursos numa luta
titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por
exemplo o caso das equivalências, que lhe dificultava a caminhada,
obrigando-os a autênticos malabarismos.
Foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligentes e capaz, que por via dos seus cursos, gerais, médios ou superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora, também os que regressavam e aqueles que nunca partiram, ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, ou entre os que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros filhos da terra ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários.
A partir da década de 60, e a par de uma situação de guerra de guerrilha contra os movimentos independentista, depressa reduzida a zonas frontreiriças do norte e do leste de Angola, houve uma verdadeira explosão do ensino, e Angola ficou "semeada" de escolas comerciais e industriais onde se leccionavam cursos técnicos médios (contabilistas, electricistas, serralheiros, carpinteiros, construção civil etc). Repare-se, preferencialmente cursos de cariz tecnológico, o que explica que durante muito tempo ainda os estudos universitérios em Angola não passavam de uma miragem. Dizia-se que no Terreiro do Paço não "queria doutores angolanos", o que até tinha certa lógica, pois que as massas cultivadas sempre estavam ligadas à ideia de independência, o que era mais do que inevitável. E a verdade é que os poucos estudantes que iam de Angola para Universidades metropolitanas, brancos, negros e mestiços, passaram a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, que se revelou um alfobre de contestatários contra o regime de Salazar e defensores da independência das colónias.
Tudo isto explica porque eram os cursos médios, modernos , os preferidos, que aliás foram de grande utilidade, e representaram uma mais valia para a Angola independente , quando foi esvaziada de quadros. Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar foi o "pai"deste modelo de ensino, de inegável valor para o futuro da terra. Estrangeiros que visitavam Angola ficavam espantados com o bom nível destas escolas aparelhadas com o que de melhor havia no mundo, todas elas instaladas em edifícios imponentes, eram motivo de orgulho de professores e alunos.
MariaNJardim
Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio.
Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente.
A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português.
Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador.
Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique».
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves.
Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves.
1. Ver também aqui: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.htmlhttps://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.html
2. E Aqui a anterior Escola comercial e Industrial na Rua das Hortas: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2009/03/escola-comercial-e-industrial-de.html




























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