20 outubro 2011

Talentos do Namibe (ex Moçâmedes) : a poetisa Vera Lúcia Carmona Antunes




Foto de http://infinitokalahari.blogspot.com/


Vera Lúcia Carmona Antunes (Vera Lúcia Kalahari),  natural de Moçâmedes, actual cidade do Namibe, filha e neta de mãe e avó moçamedenses,  bisneta de Manuel Augusto Pimentel Teixeira,  o velho  jornalista moçamedense (já falecido), o maçon  natural de Alvaiázere, Maçãs de D. Maria,  Manuel Augusto Pimentel Teixeira  que se radicou em Moçâmedes, onde exerceu funções de farmacêutico, e onde em 1913  foi proprietário do Jornal "A Pátria",  Jornal literário e político, orgão do Partido Republicano Português que defendia "que tínhamos (nós, os brancos) de arranjar em cada "gentio" um amigo se quiséssemos ter uma Angola para todos...».(1)

Vera Lúcia teria herdado deste seu bisavô a veia jornalistica, uma vez que  desde muito cedo começou a dedicar-se à escrita e tornando-se mais tarde jornalista profissional, tendo trabalhado para os jornais “O País”, “O Dia” e “Diário de Notícias”, e para as revistas “África Hoje”, “Família Cristã”, “Gazeta das Aldeias” e “País Agrícola”. Foi também copywriter no Departamento Comercial da Rádio Renascença (Intervoz). 

Hoje, no seu “refúgio” na aldeia de Sortelha, conselho de Sabugal, Vera Lúcia dedica-se à poesia e à literatura, sobretudo à literatura juvenil, onde, em ambiente pleno de serenidade e misticismo se inspirou para escrever o romance A Casa do Vento que Soa que concluiu recentemente. Terminou também a série juvenil Os Primos (O Diamante Real, O Incendiário Tenebroso, O Quadro Misterioso e O Enigma da Aldeia das Broas). O "O homem que falava de paz" foi o seu primeiro livro

(1) CLICAR AQUI
 1913/14, conf. Jornal literário e político – Órgão do Partido Republicano Portuguêz

Ano de início da publicação: 15/11/1913 Local: Mossamedes Diretor, proprietário e editor: M. A. De Pimentel Teixeira. Observações: tablóide, papel jornal, 4 páginas. Há poucos exemplares arquivado


Seguem alguns poemas de Vera Lúcia. São poemas que falam de ideais e de sonhos destroçados, cujas raízes se afundam em Angola. 



 


ORIGENS

 

Eu vim da terra dos traídos
Vim dum monte de sonhos destroçados
Vim de cidades em ruinas
Dum bando de famintos revoltados.
Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.
Fui choro, fui pranto de muitos lares,
Fui o ro�ar de facas, de chibatadas.
Entrei nos templos, p'ra achar pureza,
Desci às ruas, p'ra conhecer tristeza.
Fui bandeira branca, desfraldada,
Fui lágrima de noiva abandonada.
Fui grito de dor, brado de morte,
Fui brinquedo morrendo com um menino.
Fui solidão e fui miséria
Fui flor de sangue derramado.
Eu vim da terra dos traídos...
Da terra sem lares, ou maternas mãos...
Sem portos, sem ruas, sem amores,
Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas...
Vim dum bando de crianças inocentes
Que esperavam com fé pela madrugada,
Que não conheciam ódios raciais
E tinham direito à sua sobrevivência.
Eu sou a que está convosco, incompreendidos,
Que não querem curvar-se ao cativeiro,
Que querem ser livres, encontrarem-se,
E acreditam que num futuro aurifulgente,
Num mundo sem ódios, nem concessões,
Tudo será melhor, será diferente.

Vera Lúcia




A VISÃO


Eu vi,
Corpos negros dançando
Num bailado sem fim…
Vi corpos requebrando ao vento
Como coqueiros  arqueados.
Era algo de profundo e magnífico…
Vi panos coloridos
Desnudando corpos,
Esvoaçando e brilhando,
Azuis, roxos, negros…
Vi  risos e cantos e tambores
Ressoando ao sol
Numa sinfonia sem fim…
Ran…Tan…Tan…
E vi a minha terra toda,
Meus avós, num bater frágil de asas,
Num canto inesquecível, superior à poesia,
Surgindo, surgindo,
De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…
Deus… Que futuro imenso para esta terra,
Onde o lodo se tornará cristal,
E onde a liberdade há-de chegar…
Glória a todos os que morreram por ti,
Orgulhosos do seu fim,
Acreditando num mundo melhor…
Quem somos nós para duvidar
Que esse tempo tem que chegar?

Vera Lúcia




O MEU CREDO


Creio
No cristal límpido
Em que se hão de transformar
Os pensamentos lodosos.
No sorriso iluminando rostos
Nos trajes luminosos que hão-de cobrir os homens:
Os trajes da liberdade.
No vinho doce que há-de embriagar
Mentes enlouquecidas…
No tropel de gente esperançada
Que há-de correr, chorando,
Para o Bom Deus, temendo chegar atrasada.
E vós
Que olhais sem verdes nada
Que fechais a alma à esperança,
Que tiritais ao frio da nortada
Esperai, por favor, pelo sol ardente
Que vos virá aquecer…
Porque, crede: O tempo sem violência de que vos falo,
Virá…Terá que vir…Acreditai.

Vera Lúcia


***


CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Queria ter confiança na eternidade
E na terra da verdade…
Queria nunca m’esquecer
Que volta sempre a primavera
Qu’entre pedras faz nascer rosas…

Queria deixar de ser este mar morto
Mar sem ondas e sem portos…
Queria deixar de mendigar
No silêncio das noites escuras
Caminhando por ermas estradas
Sem saber p’ra onde vou.

Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha
Quem pisou minhas ilusões desfolhadas…
Queria ser a manhã qu’apaga estrelas
E encontrar amor em todas elas…

Queria ser a perdida, a que não s’encontra
Aquela que ninguém conhece,
A rutilante luz dum impossível…

Queria deixar de segurar nas mãos
O bem que nunca é meu
E encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…

Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta
Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…
Nos que choram em insanas guerras…
Nos que mentiram e nos que mentem…
Não ter pena dos que em má hora nasceram…

Queria ter asas para voar e ser na fé
Na agonia dum moribundo…

Queria ser tudo…e não sou nada.

Vera Lucia
***



AMOR SACRÍLEGO

No meu negro pretérito já passado
Há a sombra triste dum amor imenso.
Imenso mas cruel por ter deixado
O perfume doce do seu incenso.

Amei-o, sim, em doce chama
Meu coração de menina lhe concedi.
Perdi a fé, a paz, perdi a alma,
E era um sacrilégio amar assim.

Era um sacrilégio, mas no seu todo,
Nosso amor era um raro sortilégio…
Criamo-lo neve e era lodo,
Criamo-lo santo e era sacrilégio.

Esse amor, esse amor, foi todo meu.
Em mim, seus laços ficaram impressos.
Nosso amor era luz e era sombra
E eram prantos e risos os nossos beijos.

E foi um sacrilégio e foi loucura
Foi loucura de amor, foi um lamento,
Como um hino imenso de amargura 
Como um imenso, lento tormento.

Vera Lúcia

 ***



SONHO PAGÃO

De noite, 
Nessas noites mornas e lentas, 
Iluminadas pela lua sensual, 
Quando as flores se abrem languescentes, 
De corolas abertas, carnais,
 Como corpos que se entregam 
Vou, como uma deusa pagã em desvario, 
De narinas dilatadas,
 Procurar o excitante odor da tua pele. 
A boca sedenta, quer beber-te no ar em brasa… 
Ávido o olhar, busco encontrar-te  
Nas trevas que m’envolvem… 
Vejo-te em cada sombra que se adensa… 
Ouço no canto das fontes, 
A tua voz, que desconheço… 
Tem o langor deste desejo que voa até ti…
 Quebro de raiva os ramos que me ferem, 
sôfrega dos teus beijos…

Piso…Mastigo as folhas secas que m’acolhem 
Com a ilusão de morder-te a carne ardente… 
Depois, caída na realidade da minha solidão,
 Clamo por ti…
 Berro na noite teu nome d’amor… 
Aperto em meus braços a forma do teu corpo
 E mergulho meus lábios nessa imagem, 
Soltando uivos de prazer e desespero…

Vera Lucia
***


Disseste que voltavas
E eu esperei…
Mandei que as acácias rubras
Florissem só para ti.
Que as casuarinas desgrenhadas
Se vestissem com mantos de nívea espuma.
Mandei que as rosas
Se abrissem só para ti…
Que juncassem de flores
As pedras de cada rua…
Que tocassem batucadas
Na noite luarenta…
Qu’acendessem fogueiras
Em todas as esquinas…
Tu não voltaste.
Murcharam as acácias
A florirem numa ansiedade vã…
Curvaram-se as casuarinas
Com lágrimas d’espuma
Caindo na praia escura…
Calaram-se os cantos nos beirais.
Parados quedávamos
Tentando o som dos teus passos escutar…
Calou-se o menino de barriguinha inchada
Qu’esperava por ti para o salvares…
Que fazias que não voltavas?
Que fizemos p´ra não voltares?
Tu que trouxeras a fé e a crença
A este povo descrente
Eras agora uma voz …
Uma voz…nada mais.

Vera Lúcia


DESEJO FINAL

Quando eu morrer
Não quero rosas,
Não quero prantos.
Quero flores de buganvílias rubras,
De ouro e sangue…
Quero ventos…
Os que mordem as areias do deserto…
Os que curvam os corpos dos coqueiros desgrenhados,
Arrojados para o azul,
Sim…
Quando eu morrer,
Não quero rosas,
Não quero prantos.
Quero o ressoar dos tambores
Atroando os ares…
Ran-tan-tan-tan-ran …
Quero o óleo doce do denden…
Quero tudo …tudo da terra…
Que m’importam rosas?
Que m’importam cantos?
Quero beber as ondas do mar…
O marufo ardente…
Quero sentir o tumulto da terra
A alegria do Povo…
Por isso tragam-me tudo…
Para ter a ilusão,
De ainda viver.

Vera Lúcia 


Ainda sobre Vera Lúcia:
A sua vivência perto da guerra (em Angola naturalmente), deu-lhe a conhecer os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais, um mundo desconhecido da maioria público que envolve comércio de armamento e outros flagelos, operações financeiras por agências especializadas, Companhias de Seguros, etc, etc., em negócios que rendem milhões e milhões e milhões de dólares.

Humanista e livre pensadora, Vera Lúcia ousou trazer a público um assunto que tem vindo a ser, intencionalmente ou não, silenciado pelos fazedores de opinião,  rotulado de "teoria da conspiração", e que a ser verdade já está afectando, e mais  ainda afectará a vida de todos nós.  Trata-se do Clube de Bilderberg, algo que se assemelha a um filme de ficção científica e que, como refere Vera Lúcia, "analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida: Globalização! A autora vai mais longe, aponta para a  "Nova Era", a era da "Escravidão Total" que envolverá as futuras gerações... 

Clicar AQUI se estiver interessado em ler o artigo de Vera Lúcia a este respeito, cujos detalhes são sem dúvida esclarecedores.

Para conhecer melhor seus trabalhos, clicar AQUI

GENEALOGIA 



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