20 outubro 2011

M.A. Manuel Augusto de Pimentel Teixeira: palestra "Mossâmedes e o seu Feriado" radiodifundida pela Emissora Nacional, em 4 de Agosto de 1939

Manuel Augusto de Pimentel Teixeira

“Mossâmedes e o seu Feriado”
(palestra radiodifundida pela Emissora Nacional em 4 de Agosto de 1939)
por
M.A. de Pimentel Teixeira


Completam-se hoje 90 anos que um punhado de esforçados portugueses aportou a Mossâmedes, risonha cidade do Sul de Angola, que escolheu êste dia para o seu feriado nacional, em justiceira homenagem áquele minguado grupo de seus autênticos fundadores.


É hoje ali o dia da FESTA DA CIDADE à qual a Emissora Nacional gostosamente se associa, começando por lembrar as palavras do falecido Governador daquele distrito, sr. José Pereira Sabrosa, que assim escrevia em Janeiro de 1934:

“As colónias representam a continuação da Pátria, a projecção dos factos nacionais, o prolongamento da acção cultural, cívica e económica, e são difusão das instituïções, dos costumes, das idéias, da língua e do sangue da Nação.

Mossâmedes é verdadeiramente uma Colónia, onde o poder de reprodução e multiplicação do nosso povo e a sua fôrça de expansão se manifestam como triunfo assinalado das nossas qualidades colonizadoras e supremo e eficaz argumento contra monstruosos e insolentes detractores que desconhecem que só os povos espiritualmente grandes, são aptos para efectivar missão civilizadora como a realizada neste querido pedaço de Portugal.

O esplendor inescurecível de que se reveste a obra civilizadora realizada neste distrito, provém de que nela germina e floresce aquêle préstimo positivo que fêz Chailley-Bert chamar às colónias “escolas de heroïsmo” em que os caracteres se retemperam, em que o espírito de iniciativa se aviventa e onde cada indivíduo pode mostrar o que vale.

Fêz-se aqui uma fixação definitiva e exclusiva da nossa raça; plantou-se neste distrito há quási um século – e é já definitivamente consolidado – o mais essencial elemento de soberania, a comprovar a nossa admirável adaptabilidade e a desafiar aspirações e perigos de absorção, por mais poderosos que sejam êsses perigos, por mais insaciáveis que se mostrem tais aspirações!

Centro de almas retinta e insofismàvelmente patriotas, população que na terra e no tempo criou raízes fortes, projecção longínqua da Pátria e continuação dos seus lares, fonte de energia lusíada, o maior e o melhor centro de colonização fixa do Império, o distrito de Mossâmedes, é bem um natural prolongamento do território nacional, a garantir a possibilidade da nossa expansão, a afirmar que Angola é verdadeiramente fonte de prestígio e do poder da Nação”.

Prestada assim, também, uma justa homenagem à memória de José Pereira Sabrosa, distinto funcionário que à obra do Estado Novo, à Colónia de Angola e ao Distrito de Mossâmedes dedicou o melhor dos seus proficientes esforços, vamos apresentar aos nossos prezados ouvintes uma evocação do passado sôbre a acção dêsse minguado número de portugueses que a 4 de Agosto de 1849 ali desembarcou da barca “Tentativa Feliz” que viera comboiada pelo brigue “Douro” da Armada Portuguesa.

O Brasil emancipara-se, proclamara a sua independência que, a breve trecho, o próprio Portugal reconhecia.

Nação pujante que nascia para o Mundo, almas sedentas de liberdade, território imenso em que cada estado abarcava uma área superior à das grandes nações da Europa, cada um dêles chegou a querer para si uma independência absoluta.

Idealistas e visionários, como autênticos descendentes dum país de sonhadores, aqui com um caudilho, ali com outro, depressa surgiram sedições e revoltas a que o Poder Central mal podia acudir, assim se enlutando por largos anos o território brasileiro.

Nem todos os portugueses ali residentes simpatizaram com a nova nacionalidade e até qualquer fútil pretexto lhes servia para, de armas na mão, protestarem contra essa independência em que êles veriam uma diminuïção do prestígio pátrio, um cerceamento de território ao domínio de Portugal, que o seu esfôrço e o de seus maiores tinha desbravado e povoado.

Envolvidos, decerto, nessas lutas fratricidas, logo que sufocada, em 1848, a última revolta em Pernambuco que tinha em mira proclamar a independência da Federação do Equador, é natural que sôbre os portugueses se desencandeassem os maiores ódios e malquerenças!

Tornou-se-lhes, portanto, necessário abandonar o Brasil, onde eram olhados como elementos de desordem, como inimigos, como estrangeiros, senão como traidores!

E visionaram então noutro ponto do Globo um novo Brasil em que mais uma vez demonstrassem ao Mundo que, para o ânimo português, não há desalentos que lhe amorteçam a energia, nem sonhos que o seu esfôrço não saiba e posso converter em realidades!

Se os seus maiores se tinham ontem aventurado “por mares nunca dantes navegados”, porque não iriam êles desbravar terras nunca dantes conhecidas?

E olhando o mapa de Angola, abandonando a terra que entenderam madrasta e lhe pretendia roubar a nacionalidade de que tanto se orgulhavam, aportaram a 4 de Agôsto de 1949 à então chamada Angra do Negro.

Seduziu-os – quem sabe? – a sua vasta baía, as suas águas calmas espraiando-se dolentes em ligeiras ondulações.

Não lhes quebrantou o ânimo a imensidade do areal onde se não descortinava a mais insignificante mancha de verdura!

Mar deserto como a terra, terra deserta como o mar, que importava isso à sua Fé!

E sonham, talvez, melancólicos pinhais, laranjeiras em flôr cobrindo as areias sem fim, a cujas sombras virão um dia cantar suas alegrias ou carpir suas mágoas em versos saüdosos da Pátria distante!

Seu ânimo é arrojado, sua Fé é grande, e bem poderão, pelo seu trabalho, transformar montes em planícies, derrubar milenárias florestas lá para o interior, para delas surgirem vergeis floridos, profundar a terra virgem para nela lançarem as sementes de longe trazidas como tesoiros!

Transformar o humus em pão e com êle criar energias que os conduzam à vitória, tal seria o sonho dêsse punhado de obscuros heróis cujos nomes e esfôrço a Pátria mal relembra!

Tarefa grandiosa que levaria anos, iniciada por êles cheios de ardor e entusiasmo, seguros de que à sua geração outras se haviam de suceder, encontrando no seu exemplo fonte perene de sãs energias que lhes dariam o alento necessário para mais alongarem as fronteiras da Pátria estremecida.

E, semelhando fugitivas caravanas diante do invasor triunfante, êles aí vão, areais em fora, caminhando, caminhando sempre, em procura duma veiga de terra onde possam construir uma choupana e lá, no mais alto do cêrro, firmar tôsco mastro onde hastear a bandeira bi-color com suas quinas e castelos.

Pegureiros do Progresso, missionários da Paz, arautos do Trabalho, olhos incendidos em Fé, corações trasbordando esperanças, ei-los se fixam nos vales dos rios Bero e Giraúl, seguindo os mais audazes em busca doutros oásis que finalmente encontram nas margens do Munhino.

Por ali se espalham êsses paladinos do Trabalho, pois que para além o horizonte se cerra com os contrafortes inacessíveis da Chela, ciclópica muralha natural com suas cristas emergindo das núvens!

Por ali se ficam, êsses modestos colonizadores, sob um calor esbrazeante de 40º à sombra, tão insensíveis às catadupas que dos céus se despenham, como ao rugir das feras que da selva os ameaçam!

Fortes na sua missão, não se acovardam perante o rigor dos elementos nem perante o incógnito que por tôda a parte os rodeia e breve surge a cabana coberta de colmo, a geira de terra desbravada onde começam a verdejar os legumes e os cereais!

Dois..., três anos de labor e luta, e a geira desdobra-se em longas campinas onde a cana sacarina ondeia ao vento os seus longos penachos, ou em várzeas sem fim, em que os casulos de algodão branquejam quais flocos de neve em tapetes de verdura!

Depois, desaparece a cabana e surge o amplo casario de paredes fortes como muralhas, porque era necessário estarem preparados para resistir aos ataques do gentio tantas e tantas vezes repetidos com sucessivos insucessos!

Fortalezas, talvez, mas retintamente casas de aldeia portuguesa, milagrosamente transportadas para terras de degrêdo, com sua pequena loja para o negócio, celeiros e arribana, e lá mais ao longe a eira lageada com longa alpendurada, onde, nas horas cálidas, se acolhem os gados e cães de guarda, tal como em Portugal!

Em baixo, a casa do trapiche, as cubas de fermentação, o alambique e até rudimentar aparelhagem por êles feita, para o fabrico do açúcar!

Longas coberturas de telha mourisca, amplos portados de bom granito ou de tijolo vermelho destacando-se no alvadio das paredes, tudo surgira do seu porfiante trabalho!

De vez em quando, lá descem à vila, atravessando areais sem água, carreando o que a enxada e o arado tinham arrancado à terra e que eles enviam para Lisboa em troca de produtos que as suas geiras lhes não podiam fornecer.

Foi assim que por volta de 1875, Mossâmedes chegou a exportar anualmente 800 toneladas de algodão, ao passo que em 1932 – 57 anos depois – a exportação de tôda Angola apenas atingiu 585 toneladas!

Cheios de Fé, lá regressavam aos seus novos lares, às suas terras, sempre na esperança dum ano mais fértil, “a-pesar-do último não ter sido mau”, como êles uns aos outros diziam para mutuamente se animarem.

Mas, que haveria por detrás daquela gigantesca muralha que ainda hoje se chama a Serra da Chela?
Pimentel Teixeira




Do site de Aida Saiago


About Manuel Augusto de Pimentel Teixeira

Tendo frequentado o liceu de Santarém (1888 a 1895) e encalhado no latim e nas “cachopas”, enveredei para o curso de farmácia que vim a completar em 25 de Junho de 1898, na Escola Médico-Cirurgica do Porto com a classificação de 13 valores. Em 18 de Junho de 1898 fui para Vilar de Paraíso como Director Técnico da Farmácia Moura, mas como tinha um especial azar á “arte de farmácia” vim para Mossâmedes, (Angola) tendo embarcado no vapor ZAIRE, chegando aqui a 19 de Maio de 1902, trazendo no bolso a importante quantia de 3810 reis, 55 quilos de peso e ... esperançosos sonhos. Afinal, protegido por meu primo Serafim Simões de Figueiredo, UM GRANDE AMIGO, tive que montar a Pharmácia Moderna que abri aos 12 de Junho de 1903, a qual por questões políticas locais fui forçado a vender em 1913. Do que se seguiu e está seguindo falarão a ... histórias. Casei com ... minha mulher, D. Berta Pinto Coelho, senhora da minha grande consideração e amizade, que me presenteou com seis filhos, isto é, três filhas e três filhos, um dos quais (Manuel , 1º de nome) veio a falecer em 2 de Maio de 1912 com 14 meses incompletos. (auto-biografia escrita em 1923). In GeneallNet



Acrecento ainda a página que segue de "Publicações Periódicas Portuguesas" existentes na Biblioteca Geral,Universidade de Coimbra:




Pode consultar também:
http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2011/10/gente-de-mocamedes-vera-lucia-pimentel.html


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