29 janeiro 2012

Gente de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe): familia Guerra

 Foto de Claudia Guerra
Para quem ainda se lembra do casal Carlos Guerra e Ilda Guerra, ei-los aqui posando para a posteridade, sentados à sombra das arcadas da Praia das Miragens, com os netos (?, e Claudia Guerra), tendo por detrás o filho Faquica Guerra (então Func. Banco Angola) e à dt. Valentina Madeira.

22 janeiro 2012

1975: FUGA DE MOÇÂMEDES (Namibe) pelo Cunene





Para além da grande evacuação que se processou por via da ponte aérea entre Luanda e Lisboa,  montada por Portugal com a ajuda de potências internacionais, foram várias as saídas de brancos e não só, para fora de Angola, a partir de Moçâmedes, Porto-Alexandre e Sá-da-Bandeira, nesses meses que mediaram  entre Junho de 1975 e Fevereiro de 1976. Uns partiram em traineiras com destino a Luanda e daí para Portugal. Outros,  rumo a Walvis Bay (Namíbia), outros atravessaram o oceano e chegaram ao Rio de Janeiro e mais tarde seguiram para o Algarve, e ainda outros partiram  em caravanas de automóveis pelo deserto fora, até à foz do Cunene, atravessaram o rio numa jangada construida para o efeito,  e prosseguiram para Walvis Bay através da perigosíssima Costa dos Esqueletos, uma das zonas mais inóspitas do globo, tendo-se perdido vários carros e embarcações no decurso dessas  viagens.

A população de Moçâmedes, cidade litorânea do sul de Angola, desde sempre geograficamente afastada de zonas de conflito, viveu em completa calmaria até Julho de 1975,  mas viu a sua situação mudar e deteriorar-se  a partir de momento em que, após a batalha de Luanda e a  expulsão da UNITA e da FNLA pelo MPLA, os confrontos entre os movimentos começaram a  alastrar a todas as cidades de Angola.   Foi a partir de então que as pessoas começaram a tomar consciência da situação, e conforme se avançava para o dia 11 de Novembro, dia da Independência, o pânico começou a alastrar, pois até aí, excepto uns poucos mais temerosos de suas vidas, e mais preocupados em acautelar seus bens, a maioria vivia de de boa fé, e na mais completa ignorância daquilo que realmente se estava a passar,  ia-se deixando estar, embora se mantivesse expectante e receosa ante o desenrolar dos acontecimentos.  Ninguém sabia, por ex. , que a partir de Julho de 1975 os soldados cubanos apoiados por material de guerra russo pesado e sofisticado (tanques e mísseis), tinham começado a entrar em Angola, o que não admira, pois mesmo na então Metrópole se desconhecia-se em absoluto estes factos, porque a Informação (imprensa, rádio e TV) à época considerada "a mais livre do mundo",  simplesmente os ocultava. Aliás, de Julho até à independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, Portugal vivia o período agitado do seu "verão quente",  perpassado de  tensões crescentes entre grupos de esquerda e de direita, que só viria a acalmar com o 25 de Novembro de 1975. Para a maioria do povo portugues da Metrópolem o que se passava nas colónias era secundário.

Através dos  videos acima, Rogério Amorim conta-nos como se processou a fuga a partir  de Moçâmedes, Porto Alexandre e Sá da Bandeira,  de um grupo de familias em pânico, incluindo a sua,  que  resolveram partir rumo a Walys Bay (Namibia), através da foz do Rio Cunene e da já referida Costa dos Esqueletos.  Fizeram-no, integrando uma caravana constituida por 61 veículos automóveis de todo o tipo, carregados com bagagens que não eram mais que o pouco que puderam juntar, tendo que atravessar a fronteira numa jangada feita propositadamente para tal fim, e prosseguir a marcha durante 16 dias  sempre junto ao mar, entre o deserto e o mar, aproveitando-se da maré vazia e da areia molhada.

Do livro de Rogério Amorim  "Costa dos Esqueletos"  seguem algumas fotos desta fuga, e da travessia do rio Cunene através de Jangada:





A travessia





 
 
 







Ver também: FUGA DA CIDADE DO NAMIBE NO SILVER SKY: 10.01.1976
Grande parte destas fotos foram retiradas do livro de Rogério Amorim  "Costa dos Esqueletos"
Ver também:

18 janeiro 2012

Poetas moçamedenses: Fernando Moraes



LAMENTO DE MENINO GRANDE

Sim, eu choro…
… choro por estar longe da minha Angola querida,
distante do meu saudoso chão.



… choro porque já não vejo o voar do “rabo-de-jun-
co”, nem a garotada jogar à bola no terreno do
subúrbio.


… choro porque já não vejo o azulinho do “papo-ce-
leste”, o vermelhão de uma queimada surgida ao
longe, nem o sol a esconder-se por de trás do Pon-
ta-do-Pau-do-Sul.





… choro porque já não vejo a imensidão das praias
do Chiloango e do Arimo, nem a grandeza do meu de-
serto de Moçâmedes.


… choro porque não descubro o fim de uma picada,
nem saboreio o pirão, o musonguê, a manga e a bu-
lunga.


… choro porque já não vejo o sorriso aberto do ne-
grinho humilde, nem sinto a amizade do mulato pim-
pão.


… choro porque já não vejo a elegância da gazela, a
curiosidade da “suricata”, nem a secura da lendária
Welwitschia mirabilis.


… choro porque já não vejo a beleza das garotas
praieiras, nem leio os poemas que elas inspiraram.

… choro porque já não vejo uma rebita bem puxada,
nem oiço o barulho de um batuque, nem gozo o calor
de uma fogueira numa anhara.


… choro porque já não passeio na marginal da minha
baía, nem percorro o caminho das palmeiras até às
furnas.

… choro porque já não vejo o Castelinho de S. Fernando,
nem sinto o silêncio de uma madrugada quente, nem
oiço as histórias do velho boiadeiro da lagoa.


… choro porque já não vejo o túmulo dos meus antepas-
sados e tudo que eles criaram.

… choro porque só vejo o luto em Angola, a traição
e o lamento.


Sim, eu choro…
… choro de saudade!

Fernando Moraes

(ex-bancário do ex-Banco de Angola)

09 janeiro 2012

RECORDAÇÕES DO LICEU DIOGO CÃO, DO REINO DE MACONGE E DAS TROPELIAS DA NOSSA JUVENTUDE !


Por incluir mocamedenses, GENTE DO MEU TEMPO tomou a liberdade de colocar aqui esta foto e tópicos de texto retirado do site "Reino de Maconge". Para os consultar na íntegra  bastará CLICAR AQUI

RECORDAÇÕES DO LICEU DIOGO CÃO, DO REINO DE MACONGE E DAS  TROPELIAS DA NOSSA JUVENTUDE !

Histórias inesquecíveis do Internato dos Maristas
by Joaquim Seabra Marques Pires


".O Hugo das Mulas – Da fuga do Tchivinguiro montado numa
mula, às fugas do Internato dos Maristas, passando pela viagem de
borla no comboio para Moçâmedes…
 Dele existem recordações e episódios suficientes para serem contados durante 248 horas sem
se parar e sem repetição.
Nesse célebre acampamento da MP em Moçamedes , momentos antes da partida do comboio
apareceu o Hugo . Não se tinha inscrito mas estava estranhamente muito bem fardado e a
rigor, com as meias da ordem e tudo. O propósito e objectivo da sua missão - ir a Moçamedes
e não pagar bilhete.
O revisor por norma passava inspecção antes de Vila Arriaga e do Giraul. O seu dever
profissional era contar contra o bilhete colectivo todos os piolhos verdes que viajavam no
comboio....
CONTINUA...


.."....O meu sonho utópico era apanhar todos um a um, mas eles eram muitos, unidos e fortes eu
era miúdo magro e solitário.
Entre todos alguns eram os Nono Bauleth (Namibe), Trindade (Namibe), Traguedo mais velho
(Quipungo), Ascenso (Namibe) , Castro Alves mais velho (Namibe) Torrinha mais, velho
(Chibia) , Alvito do Rosário (Goa), Sacramento (Benguela) e o Picadas (Silva Porto) um
privilegiado que não ficava na camarata
Paradoxalmente no refeitório fiquei com os médios, na minha mesa o Matos (Americano) , o
Domingos (Namibe), O Júlio (Caluquembe), o António (Missão do Balombo) e excepcionalmente
o referido Picadas(Silva Porto), bem mais velho que nós, que chegara tardiamente ao internato
sem lugar em nenhuma outra mesa foi colocado na nossa .
CONTINUA...

"...Meu velho e bom amigo Castro Alves
Não sei se sabes ou te lembras que quando eu tinha 15 (Internato dos maristas, ao lado do
nosso liceu) escrevi uma declaração de amor que na minha timidez de criança guardei na
gaveta da minha mesa do estudo... talvez com receio de entregar...
Ou foste tu, ou foi o teu irmão mais velho ou o Ascenso quem descobriu a carta , leu e resolveu
entregar sem meu conhecimento.
O resultado foi inesperado...a mocinha à saída do liceu totalmente de surpresa disse-me com
um sorriso: aceito!!!...
Nem imaginava que a carta havia sido entregue...
A moça casou mais tarde com o meu primo Rui Seabra...
Foi uma atracção inocente e platónica, mas no fim nada se perdeu e tudo ficou na família....
CONTINUA...


"....Diz a lenda Macongina ter sido esse outro quarto guarda da PSP a quem o famigerado Cabéças
roubou o cassetete e a quem numa noite de colégio das madres depois duma tentativa lograda
de interpelar a malta agarrou e fez beber uns bons 5 litros de Palhete, dos quais parte ficaram
7
bem visíveis a encarnado escuro escorridamente pelo seu dólmen de caqui amarelo abaixo.
CONTINUA...


"...Depois da farra cansados mas felizes dirigimo-nos para a Pensão Angola. Eis que nos aparece o
famigerado Zé dos Calos a pedir guarida. De acordo com a nossa tradição e espírito de então,
guarida não se negaria nunca a um colega, nem mesmo a dez , mesmo se por acaso
aparecessem todos ao mesmo tempo .
O Zé dos Calos era do Namibe, famoso e carismático, um ex-Marista também, tinha talvez 2
metros ou mais, era magro, usava óculos grossos de aros negros e grandes, quando andava
parecia cambalear do alto das suas pernas longas, arqueadas e finas. Tudo quanto dizia era de
voz pausada e grave, com aspecto senhoril, intelectual e cariz político.
Juntamos as camas de metal, a minha e a do Hugo, para o Zé dos Calos dormir no meio. O Zé
dos Calos agora deitado tinha as longas pernas, com os seus longos grandes pés, sem os seus
famosos sapatos mas ainda com as suas famosas meias tudo caricatamente no ar, cerca de 60
cm fora dos pés de ferro da cama.
CONTINUA...

"...O Zé dos Calos foi para o estrangeiro, ouvi referências às suas actividades e discursos na rádio
estrangeira e soube que mais tarde voltara para Angola.
CONTINUA...


"...A Turma A – 3º Ano – 1958/59
CONTINUA...


"....Lista dos Cábulas de 1958/60 , 4. ano turma A - a turma das colegas mais
famosas de todos os tempos - esta lista é especialmente para ti.
CONTINUA...


"...Turma B – 3º ano – 1958/59
Esta era o 3 B a minha (nossa) turma em 1958/59 -
Reler estes nomes traz-me grandes recordações e tremendas saudades e, muitas lembranças
de momentos e de pessoas fantásticas e inesquecíveis, de verdadeiras amizades que
perduraram ate hoje e vão perdurar para sempre.
CONTINUA...


"...Relação completa de todo o corpo docente e de funcionários do
Liceu “Diogo Cão” no ano lectivo 1958/1959
CONTINUA...


"...Mais turmas do ano de 1958/59 - 4º B
CONTINUA...

"...O pobre do Caneco… aturar personagens como Sanona,
Castilho, Timóteo, manos Pimentel Teixeira, Sabrosa...
 O padre Orlando, tão bem recordado pelo mano Seabra, traz-me à memória o seu
equivalente fraseológico e comportamental, o inesquecível Caneco, cujo nome verdadeiro não
me ocorre. O Seabra já aqui contou o episódio do tubarão, ocorrido em Moçâmedes, no célebre
acampamento da Mocidade e eu nunca mais esquecerei as tribulações do Caneco com o 5º B,
turma a que tive a honra de pertencer. Basta referir alguns dos personagens que integraram tal
turma, para se avaliar a dimensão dos trabalhos do pobre professor. Sanona, Castilho, Timóteo,
manos Pimentel Teixeira, Sabrosa...
 CONTINUA...

" Breve relatarei uma dele (Não, não do Macaco... do professor) sobre pontos de exame (Com perguntas dirigidas à inteligência) e sobre o Hotel Metrópole onde tu viveste.
Historia essa passada numa turma em que fui colega dentre outros muitos do Traguedo,
Bacalhau, Luís Manuel, Avelino, Peixoto, Parente Ramos, Saraiva e Castro Alves mais novo, etc.
CONTINUA...


" O medo vocês sabem que não preciso justificar, mas a curiosidade e afabilidade devia-se a ter
eu ouvido muito do Mendonça dos meus Pais e tios todos Maconginos no Diogo Cão.
No lado direito da aula junto à parede (Longe dos "DKW" mas no lado do "SAAB"...), na carteira
da frente junto ao quadro preto sentava-se o Faria, depois o Seca e de seguida eu.
O Couceiro da Costa (João Cláudio) meu grande amigo já de berço e de gerações posteriores,
sentava-se ao meu lado esquerdo. (Ele vai sorrir ao lembrar-se disto)..
CONTINUA...


"...O 5. Ano Turma A 1958/59
CONTINUA... 
"... E para continuar a matar saudades e a lembrar velhos amigos o
6.Ano Turma B 1958/59


"...Histórias inesquecíveis do Internato dos Maristas. O arremesso
do pão no escuro, a expulsão e a vida solidária nas caves do Liceu…
O meu sonho utópico era apanhar todos um a um, mas eles eram muitos, unidos e fortes eu
era miúdo magro e solitário.
Entre todos alguns eram os Nono Bauleth (Namibe), Trindade (Namibe), Traguedo mais velho
(Quipungo), Ascenso (Namibe) , Castro Alves mais velho (Namibe) Torrinha mais, velho
(Chibia) , Alvito do Rosário (Goa), Sacramento (Benguela) e o Picadas (Silva Porto) um
privilegiado que não ficava na camarata Paradoxalmente no refeitório fiquei com os médios, na minha mesa o Matos (Americano) , o
Domingos (Namibe), O Júlio (Caluquembe), o António (Missão do Balombo) e excepcionalmente
o referido Picadas(Silva Porto), bem mais velho que nós, que chegara tardiamente ao internato
sem lugar em nenhuma outra mesa foi colocado na nossa .
O Picadas fazia muito "Charles Atlas",por isso, usava T Shirts de manga curta para mostrar os
bíceps. Cabelo à Cliff Richard, pente no bolso de trás, calças à Elvis, óculos escuros à Marino
Marini, em suma o mais pipi lá do sitio. Ele simbolizava o meu ressentimento inicial aos mais
velhos, adicionado por "Roncos e Bafos" recebidos do tipo "Estás aqui estás a levar no focinho".Etc.
O Júlio (DKW) alegre, brincalhão, era a maior vítima do Picadas que o ameaçava muito de
"Porrada".
Eu antagonizava-o em tudo quase em silêncio.
No ano escolar seguinte fiquei noutra mesa com o Fernando Sabrosa (Luanda), o Tita Pimentel
Teixeira, (Namibe), o Rato (Lobito) e o Godinho (Lobito), éramos um time bastante fixe e forte
CONTINUA...

"...PARA MATAR OU PARA FAZER AINDA MAIS SAUDADES
ABAIXO OS ALUNOS DO LNDC PRIMEIRO ANO 1958/59



PARA ACESSAR AO TEXTO INTEGRAL CLICAR AQUI

http://reinodemaconge.com.sapo.pt/historia.html

Ver também MENINOS DO NAMIBE

08 janeiro 2012

Ensino e religião em Moçâmedes: a "Casa Santa Filomena", onde D. Aline ensinava o catecismo. 1949/1953.





Clicar sobre a foto que é enorme. Grupo de alunas, mães, senhoras da JIC e da Liga Católica Feminina,  catequistas, e irmãs do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da "Casa Santa Filomena" com D. Aline . Data: 1953. Cedida por Néné Trindade.  Mon. D. Daniel Gomes Junqueira tinha sido nomeado bispo da Diocese de Nova Lisboa, criada nos termos do Acordo Missionário de 1940, em simultâneo com a Arquidiocese de Luanda e a Diocese de Silva Porto, para as quais foram nomeados D. Moisés Alves de Pinho para Arcebispo de Luanda, e D. Ildefonso dos Santos, para Bispo de Silva Porto.




A caridosa professora D. Aline de Campos, e a "Casa Santa Filomena"

Era assim a "Casa Santa Filomena" na cidade de Moçâmedes, em Angola, por volta dos anos 1950. Uma grande casa em madeira, estilo colonial, com varanda a toda a volta, por onde pendiam trepadeiras que imprimiam um ar refrescante ao conjunto, situada por detrás do antigo campo de futebol, ao fundo da Avenida da República, de costas voltadas para  o edifício do Matadouro Municipal, construção pioneira da fundação (1). Segundo informações a "Casa Santa Filomena" teve como proprietários os ingleses do Cabo Submarino, e mais tarde, nos anos 40,  passou a ser a morada de D. Aline Marques de Campos, a veneranda professora primária da Escola Nr.55, de Fernando Leal ou "Escola Portugal" que alí passou a habitar, juntamente com a sua mãe e irmã, D. Olimpia e D. Amélia.
Profundamente religiosa, D. Aline dava aulas de manhã e da parte da tarde ministrava às crianças o catecismo. Era também ali  na "Casa Santa Filomena" que D. Aline, gratuitamente, dava aulas de todo o tipo, sobretudo aos alunos mais necessitados da terra que frequentavam o primário, formando-os para a vida, e chegando inclusive a alimentar alguns, tendo conseguido para o efeito um subsídio da Câmara Municipal, e a ajuda de muitos amigos, como testemunham os que viveram aquela época.  Também era comum aos domingos, na Casa de Santa Filomena servir-se um lanche à garotada, e de vez em quando organizar-se até passeios em camioneta de caixa aberta, mas em caso algum descurando o catecismo. A cidade como prova de gratidão deu o seu nome ao Parque Infantil, num gesto de reconhecimento pelos serviços prestados, e concedeu-lhe a medalha de honra da Cidade. 
A denominação "Santa Filomena" ficou a dever-se ao facto de ser D. Aline devota desta Santa, que, para grande desgosto seu seria desclassificada pelo Concílio do Vaticano. D. Aline era natural de Cabanas,Viseu, onde nasceu em 13 de Novembro de 1891, e foi em Coimbra que prosseguiu os estudos, tendo concluido o Curso do Magistério Primário na Escola Normal com a alta classificação final de dezassete valores. No ano de 1918, ainda na Metrópole, foi nomeada para o professorado do Ensino Primário em Moçâmedes, tendo começado a leccionar a 1 de Maio a 2 de Abril desse mesmo ano. D. Aline enviuvou enquanto esteve a exercer funções do magistério em Moçâmedes, e se já era católica ainda mais se agarrou à Igreja e à religião.










Na foto: D. Aline cumprimentando e D. Berta Craveiro Lopes em 24.06.1954, quando da visita do Presidente da República Portuguesa, Craveiro Lopes, a Moçâmedes. Cedida por um amigo

Ainda sobre D. Aline, conta-se que  a gentil e caridosa senhora não escapou à maldade e à intolerância de homens, que não raro existiam no nosso burgo, e abundavam por toda a parte, a par, felizmente, de muita gente boa. Aconteceu que por volta de 1922, lhe foi instaurado um processo disciplinar, com base em declarações suas publicadas num jornal de Moçâmedes. Mas em 23 de Janeiro de 1923, o chefe da Repartição Superior da Instrução, José Falcão Ribeiro informava que o processo tinha demonstrado da parte de quem o ordenou e elaborou, autoritarismo e defeitos de organização, que implicavam a sua nulidade. E, ao mesmo tempo afirmava que esta professora era cumpridora do seu dever e desamparada de todo o auxílio. Talvez essa circunstância explique que, pouco depois, em Dezembro de 1926, D. Alina pensasse seriamente na sua aposentação. (letras5ac).

D. Aline desligou-se do serviço em 23 de Fevereiro de 1957 e teria deixado Moçâmedes em 1958.  Acabou os seus dias em Luanda, em 5 de Julho de 1971, onde residia com o seu filho, o Engº Augusto Carlos Rodrigues dos Santos, então director da Junta Provincial de Electrificação de Angola. Tinha quase oitenta anos de idade, Moçâmedes deve ter sido o único local em que leccionou.

D. Aline no dia da inauguração do Parque Infantil  de Moçâmedes, 
entre os vereadores da CMM, Rodolfo Ascenso e Rui Torres. Cedida por um amigo.


A acção de D. Aline de Campos, formativa e caritativa, viria a merecer no inicio dos anos sessenta  honrosos elogios por parte da Edilidade, tendo-lhe sido oferecida uma medalha de honra da Cidade, e nessa celebração foi  baptizado o novel Parque Infantil com o seu nome: «PARQUE INFANTIL ALINE MARQUES DE CAMPOS R. SANTOS».



De baixo para cima: 1ª fila. ? M Pacheco I, Mª Inácio Tavares, Elga Weishmaster, Amélia Brás de Sousa, Manuela e Mimi Carvalho, M.PachecoII,  Mitsi Aboim e ?  2 ª fila. ?,?,?, Zézinha Grade, ?,?, Fernanda Braz de Sousa, Fernandina Peyroteu, ?, Antonieta Bagarrão (Dédé), ? e Zélia Calão. 3ª fila. Gabriela Figueira Fernandes, Calila, ?, Constantina, Carolina Mangericão, Maria Augusta Esteves, ?,?,?,?, e Susete Freitas. 4ª fila. ?;?;?; Lena Freitas, Fernanda Pólvora Dias,?, Fátima Cunha, Lizete Ferreira, Celeste Matos, ?,?,Gabriela Miranda,?, ?, Madalena Trindade; Melanie Sacramento, ?, e
 Odete Maló.  5ª fila. ????, Osvalda Sacramento, Júlia Jardim, ???? 
6 ªfila.?,?,Hélia Paulo, Lucia Gavino, ?, Lucia Reis,?,?,?. Data: 1949
 
Idêntico grupo de alunas e de catequistas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da "Casa Santa Filomena". 1949. Fotos de Antonieta Bagarrão

1ª fila: :Geninha Amado, Henriqueta Barbosa (Miqueta), Fátima Santos, Celeste Matos, Mimi Carvalho, Luisa Trigo,??,Maria Amália Duarte de Almeida, Mitsi Aboim, ??, Ribeiro (filha), irmã da caridade, Maria Inácio Tavares, ?, Dilia Martins Nunes, ???, Maximina e irmã , ?. 2ª fila: Lizete Ferreira, Lúcia Reis, irmã da caridade, Maria Idália Patrício, Noemia Van der Keller, Sra. Aboim, irmã da caridade, prof. D Aline, Felicidade Tendinha Trindade, Beatriz Caléres Radich, Alice Castro, Teresa Ressurreição, ?, Luzete Sousa, ???. 3ª fila: Bia Mangericão, Julia Jardim, ?, Fernanda Braz de Sousa, Carolina Mangericão, Raquel Martins Nunes, ??, Sra. Pires Correia Ribeiro, ???, prof. Lucilia Campos Rocha, Sra.Trindade, Ana Júlia Maló de Abreu, Cordália Gavino Dias, ?, Salomé Inácio, Suzete Freitas, Melanie Sacramento, ?. 4ª fila: ?, Aninhas Sousa (mãe), Berta prof?, Raquel Piedade, Beatriz Radich, ????, Julia Almeida, Odete Maló Almeida, Rita Seixal, Odete Sousa, ???. 5ª fila: ?????, Sra Erverdosa?, Sra. Nunes, ???, Sra.Duarte,??. 6ª fila: ?????? 

[Escola+49.jpg]
                                                                               
 Aqui podemos ver  D. Aline, à dt. ( a mais baixa das três). Encontram-se também a professoras D. Berta (a mais alta) e D.?. Neste dia, o Bispo D. Daniel Gomes Junqueira (*) tinha visitado a  Escola Nr. 49.  À esq. de entre outros professores e padres,  reconheço o prof. Freire, e o prof. Canedo. Estava-se em 1945.  (Clicar sobre a foto para aumentar). De baixo para cima e da esq. para a dt.: 1º fila: Teixeira, Túlio Parreira, Monteiro, Jorge, Beto de Sousa, ?, Orlando Figueira, ?, Dominguinhos (mais tarde trabalhou na CMM).  2ª fila: Serafim, Renato Veli, ?, ?, Manuel Cruz, ?, Celestino,?,?,?. 3ª fila: Alexandrino (Dino), ?, Neco Mangericão, ?,?, Guilherme Jardim, Bispo D. Daniel, (*), José Manuel Frota ?, ??? e mais à dt. Sarmento 4ª fila: professor Canedo, Padre ?, professor Vieira, Padre?, Costa, Julia Jardim, ?.Esmeralda Freitas, ?, D. Alina (a 3ª das Sras de preto, a contar da dt.), as professoras Berta e ? 5ª fila: ????? Gomes. Data provável: 1941.
Passaram mais de 60 anos sobre estas fotos, e ainda hoje muitos daqueles e daquelas que foram alunos e alunas de D. Aline, falam com carinho e com admiração da velha professora, referindo-se tanto à sua competência como à sua bondade e à sua acção como formadora que fora de sucessivas gerações de moçamedenses a quem ensinou a lêr, escrever, contar, os sãos principios da moral cristã e, como não podia deixar de ser... a orar.


MariaNJardim


(*) D. Daniel tinha sido nomeado bispo da Diocese de Nova Lisboa, criada nos termos do Acordo Missionário de 1940, em simultâneo com a Arquidiocese de Luanda e a Diocese de Silva Porto, para as quais foram nomeados D. Moisés Alves de Pinho para Arcebispo de Luanda, e D. Ildefonso dos Santos, para Bispo de Silva Porto.



(1) Sobre o Matadouro Municipal importa referir que se trata do edifício mais antigo de Moçâmedes que tem resistido até aos nossos dias graças á robustez da sua constituição.  Com um desenho original, munido de uma  parte ao ar livre, onde se metiam os bois destinados ao abate, este Maradouro vem referido em livros bastante antigos, e existem  relatos de  um tempo em que iam ali hienas durante a noite em busca de vísceras de bois. Antes da sua construção as reses eram abatidas numa  casa da vila afastada do centro, o primitivo Matadouro, sem as minimas condições de higiene conforme é revelado no seu livro de Mendonça Torres, "O Distrito de Moçâmedes", de 1849-1860, pg 276. e num outro intitulado "45 Dias em Angola" publicado por autor anónimo em 1862. No relatório de 19 de Junho de 1877, Costa Cabral refere que nessa data já se achava em avançado estado de construção um novo Matadouro "começado a expensas do Municipio, tinha as paredes levantadas de excelente alvenaria, estava porém a obra parada por falta de meios. http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/11/o-parque-infantil-de-mocamedes-parque.html