23 fevereiro 2012

Recordando alguns Carnavais em Moçâmedes ( hoje cidade do Namibe) até 1975



Através desta foto, tirada talvez no início do século XX na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, podemos ver alguns africanos mascarados (kimbares), participantes de uma "dança de rua", fazendo a sua exibição para alguns moradores que se encontram às janelas de suas casas, a observar o desfile, munidos de guarda-sóis ( sombrinhas), enquanto um relativamente intenso grupo de africanos da região (kimbares), ocupam toda a rua e passeios laterais. 



Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocarmos aqui  algo que nos remete para o modo como os Carnavais foram acontecendo em Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), ao longo dos tempos.

O CARNAVAL sob a forma de Entrudo desembarcou em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, levado pelos colonos luso-brasileiros idos de Pernambuco (Brasil), que se fizeram acompanhar de alguns serviçais afro-brasileiros, livres ou escravos, e já detentores de uma cultura própria, ainda africana mas já cristianizada,  eivada de usos e costumes  que haviam adquirido nas relações de trabalho.  Dançavam o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.



Foto: aqui podemos ver um grupo de "kimbares" num outro Carnaval em Moçâmedes, creio que nas primeiras décadas do século XX. Este grupo, apenas composto por elementos  masculinos, exibe indumentárias muito europeias, algumas das quais ligadas à Marinha como se pode  ver. Repare-se nos instrumentos musicais, onde a harmónica ou concertina convivem lado a lado com o reco-reco, o tambor e a pandeireta ... Se Gilberto Freyre, o sociólogo brasileiro assistisse a isto logo nos remeteria para a sua tese do "lusotropicalismo"!


Aos africanos cristianizados vindos do Brasil para Moçâmedes vieram juntar-se, por força da implantação da agricultura de exploração e do sector das pescas em Moçâmedes, escravos libertados de navios negreiros apresados, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino de escravos para o Brasil e Américas, e de grande carência de mão de obra. Vinham  na condição de libertos (semi-escravos), enviados de Luanda para prestarem serviço nas diversas actividades económicas que se iam constituindo no quadro de um novo paradigma colonial de povoamento e desenvolvimento do território.  

Estava assim criado o grupo social africano que iria designar-se por povo "quimbar", resultado da fusão entre indivíduos oriundos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus. Quimbares podiam ser encontrados espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas do distrito, entre Benguela e a Baía dos Tigres, e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia. Nada tinham a ver com os povos nómades ou semi-nómades  que os recém chegados foram encontrar vivendo nas margens do rios Bero, Giraúl, Curoca ou deambulando pelo Deserto do Namibe, povos que levavam uma vida nómada ou semi-nómada, Cuisses, Curocas, Hereros (Cuvales, Dimbas, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos), que viviam da caça  e do pastoreio do gado, andavam nús e semi-nús, e nunca se deixaram assimilar por outra cultura diferente, apesar da proximidade.  As mulheres kimbares vestiam panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o  busto, e os homens vestiam calças e camisas, andavam descalços; sabiam dançar o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.  

Sabe-se que com o desenrolar da colonização alguns desses povos e mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W) (estes não tanto),  ao se aproximarem dos locais onde trabalhavam "quimbares", acabaram por sofrer um certo grau de aculturação e adoptar a cultura  "quimbar".  Mas  muito poucos.

Quanto aos primórdios das festividades carnavalescas de cariz europeu. por terras de Moçâmedes, sabe-se que, com o avanço da povoação, e com a chegada lenta mas progressiva dos algarvios, a partir de 1862, o Carnaval começou a ser festejado com várias diversões que incluiam os tradicionais combates de carro para carro (de início entre carroças de tracção animal), numa verdadeira luta em que as armas eram os ovos, cocotes de farinha ou fuba, água de chafariz, água de cheiro, etc. etc. Mas também com desfiles de trajes carnavalescos, festas em casas particulares, e, à noite, depois do jantar, como era costume entre algarvios, com a saída à rua das "mascarinhas" que saiam à rua, em grupos que integravam pessoas de várias idades, disfarçadas com trajes improvisados que podiam ir do simples lençol com dois buracos redondos a simular fantasmas,  cajado na mão, e assim calcorreavam as ruas, batiam de porta em porta, entravam e saiam, disfarçavam a voz, gesticulavam ou simulavam um qualquer defeito físico, tendo a brincadeira por objectivo o desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer. Num tempo em que não havia à venda as requintadas máscaras dos dias de hoje, a improvisação era a saída. Eram paródias carnavalescas nocturnas que se foram perdendo conforme se avançava para meados do século XX. 

 
 Foto gentilmente cedida por Maria Etelvina Ferreira de Almeida datada de 1938, numa festa realizada no Ginásio em Moçâmedes.


Com o decorrer do tempo, o Carnaval passou a insinuar-se também, no interior dos salões dos clubes desportivos que iam surgindo, tais como o Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro, onde a partir dos anos 1920 passaram a ocorrer animados bailes de máscaras, que canalizavam para aquele bairro, gente de todos os cantos da cidade. Os primeiros bailes de Carnaval alí organizados, aconteceram numa época em que o ritmo da dança passara a ser ditado pelas valsas, os tangos, o charleston, essa dança vigorosa em que as mulheres agitam os vestidos, balançando os longos colares e ondulando as plumas e os leques, cruzando e descruzando as mãos sobre os joelhos... mas também as marchinhas inspiradas pela cadência rítmica dos ranchos populares... Mas aconteciam também no salão daquele Clube da Torre do Tombo concursos de máscaras carnavalescas infantis e juvenis,  recitais, momentos de teatro, etc, que decorriam no pequeno palco da sala anexa ao salão de baile.

 
 Foto: tudo servia de indumentária nesses três dias de paródia...
Foto gentilmente cedida pelo Dr. Farrica. Anos 1940.
Durante os três dias de Carnaval tudo servia de paródia em Moçâmedes, inclusive imitar A ou B, imitar a silhueta de alguém, demasiado gordo ou demasiado magro, capaz de desencadear o riso que a quadra suscitava. Na foto, a moçamedense Regina Peixoto (proprietária da Papelaria Regina, na Rua da Praia do Bonfim) num Carnaval algures na década de 1940, vestida com o fato do Dr. Novais que há época era o director do Hospital de Moçâmedes. A seu lado, a esposa do Dr Farrica.



Foto: As danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Fot do meu album




 
 

Fotos: "Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes. Foto do meu album

 


Foto: As danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Concentração no velho campo de futebol que ficava ao fundo da Avenida da Repúbica, junto da Estação dos CFM. Fotos do meu album



Foto: Quimbares na década de 1950, com seus reis e suas rainhas, e damas de honor, festejando o Carnaval em Moçâmedes. Foto do meu album 



Dois povos, duas culturas! Avançemos até aos anos 1950, e voltemos ao Carnaval festejado pelos africanos...

Por essa altura eram quatro as chamadas "danças de rua indígenas"* em Moçâmedes: a do plateau da Torre do Tombo, a do Forte de Santa Rita, a do Benfica e a da Aguada. A concentração das danças dos bairros periféricos mais próximos do centro da cidade começava cedo, e fazia-se no interior dos muros do antigo campo de futebol de terra batida, situado ao lado da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. Era dali que as danças partiam, desfilando pelas ruas de Moçâmedes durante os três dias em que decorria o Carnaval, lideradas pelos seus reis e pelas suas rainhas, que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não faltavam as respectivas corôas e os ceptros reais. Corôas que eram colocadas sobre véus que caiam até aos pés fazendo lembrar imagens de santas nos altares de Igrejas católicas.   Imediatamente atrás vinham os tocadores que utilizavam músicas compostas especialmente para os desfiles e vários instrumentos de percussão para marcar a cadência rítmica que se fundia com as passadas inimitáveis da dança. Eram tambores, bombos, cornetas, reco-recos, marimbas, quissanges, apitos, etc, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, ferrinhos, etc. Mais atrás seguiam os bailarinos, dançando, cantando, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes, comandados pelo apito do mestre que comandava o ritmo da dança. Rostos pintados, panos garridos, lenços coloridos, capas, colares, soutiens, pulseiras, brincos, óculos, chapéus de abas largas, bonés, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, etc., tudo servia. Outros exibiam-se semi-nús, com saia curta de sarapilheira, rostos pintalgados, penas na cabeça, simulando índios em suas lutas e rituais, azagaias, máscaras rudimentares de papelão, etc... 

O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado em Moçâmedes, que aos sábados percorria a cidade de ponta a ponta em busca de angolares, era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita. 

O cozinheiro do Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres mais calorosas, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente, era tema para canções. 

As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «matabicho», ou seja, uma gratificação em dinheiro ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar... 

E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decursos das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal de luta corpo a corpo, que obrigava à intervenção da polícia.





 


Na foto: Esta era a chamada "juventude rebelde" de Moçâmedes por volta de finais dos anos 1940, início de 1950, cumprindo «rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Eram destemidos, provocadores, irrequietos, mas cujo comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes no Aéro Clube, no Atlético Clube de Moçâmedes, mais tarde no Clube Náutico), sabendo ser romântica, quando as circunstâncias convidavam a tal...Entre outros, à esq. para a dt: José Adriano Borges, Amadeu Pereira, Norberto Gouveia (Patalim), Caála, ??, Mário Bagarrão, Helder Cabordé, Renato Sousa Veli, Artur Paulo Carvalho (Turra), ?? . Foto do livro de Paulo Salvador

 



Foto tirada em 1955 nos jardins da Avenida da República, alí bem juntinho ao "Quiosque do Faustino"
 
Foto:  Desfile de carros alegóricos. "Os Tragateiros" empurrando  um veículo transformado numa enorme pipa de vinho.. Foto do meu album.

Foto:  Carnaval de 1955 em Moçâmedes. "Bilibaus" e Tragateiros" antes das "batalhas de cocotes" . Da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário de Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Embaixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges, João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa Veli, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio Peyroteu...Foto do livro de Paulo Salvador



Foto: outro grupo de intervenientes na "batalha de cocotes", este do bairro da Torre do Tombo.Foto do meu album . 1955.No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.


Era assim que o Carnaval, na sua forma semi-entrudesca, que atingia o seu clímax em Moçâmedes, com as fustigantes "batalhas de cocotes" entre grupos "rivais".  Estas "batalhas" tanto se desenrolavam no terreno, corpo a corpo, como a partir do cimo de camionetas de caixa aberta alugadas para o efeito e enfeitadas com folhas de bananeira, que se deslocavam ao longo da Avenida, e que ao se cruzarem davam origem a violentos e cruzados "bombardeamentos" de cocotes. Para que pudessem produzir tais efeitos, cada grupo de véspera começava a confeccionar os ditos «cocotes» colocando pequenas porções de farinha de trigo dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, e atando-os com linha de forma a produzirem pequenas bolas, prática possivelmente herdada dos chavaris medievais que incluiam zombarias, pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas ruas das cidades. 

Na verdade nestes dias sair à rua, na direcção da Avenida da República, era correr o risco de uma ou mais enfarinhadelas, que obrigavam a correrias estrada fora em busca de uma qualquer porta aberta para a "vitima" se esconder. 

Esta a memória de um tempo que nos apraz aqui registar, um tempo que não volta mais, o tempo da nossa adolescência, da nossa juventude descontraída, despretensiosa e alegre, em que as ditas "batalhas", enfrainhadelas, etc, deixavam durante três dias a cidade irreconhecível, tendo a Câmara Municipal de Moçâmedes que, logo pela manhã, mandar proceder à limpesa daquele local, que era o epicentro da cidade.

A evolução do Carnaval permitiu um novo tipo de exibição: o desfile de carros alegóricos que em Moçâmedes foi inaugurado nesse fabuloso ano de 1955, e que decorreu, como não podia deixar de ser, ao longo da longa Avenida da República. No corso de 1955 participaram mais de uma dezena de carros. Do cimo dos "carros", grupos de foliões, rapazes e raparigas, em brincadeira animada, trocavam confetis, serpentinas, flores, etc, com aqueles que os observavam a partir da Avenida, ou com os que acompanhavam a pé o cortejo



Desfile de carros alegóricos em 1955.  Esta foto mostra-nos o carro representativo do Bairro da Torre do Tombo passando junto do edifício dos Correios. Integravam o desfile, neste carro: Osvaldo Correia, Óscar, José Duarte, Eurico, Nidia Almeida, Eduarda Bauleth Almeida, Celisia Calão, Ricardina Lisboa, Manuela Bodião, Salete Braz e Francelina Gomes (quase todas as componentes femininas faziam parte da equipa de basquetebol do Ginásio Clube da Torre do Tombo). Foto do meu album.

Neste Corso participaram mais de uma dezena de carros, que poderão ser vistos, mais pormenorizadamente, clicando Aqui .Foi o Corso possível, nesses tempos em que só o engenho e a arte podiam suprir a carência de materiais disponíveis no mercado moçamedense, fruto da reprovável política de import/export então prosseguida pela Metrópole em relação a Angola que durante muito tempo impedira a colónia de progredir. A verdade é que este Corso ficou para sempre na memória daqueles que na época viviam em Moçâmedes, nesses tempos anteriores a 1960 e à explosão populacional que a partir daí se verificou em toda a Angola, quando ainda todos nos conheciamos e "todos éramos primos e primas".

O carro alegórico representativo do Banco de Angola, passando junto da sede do referido Banco

O carro alegórico representativo do Banco de Angola passando junto do edifício onde ficava a Papelaria Regina...
O carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola foi o mais requintado e por via disso, o vencedor!


Este carro alegórico representava a firma João Pereira Correia, Lda. (de João Pereira Correia e José Duarte), representantes em Moçâmedes das máquinas de costura Oliva.


Foto: Momento da eleição dos reis de Carnaval num baile realizado em Moçâmedes em 1955, no salão do Atlético Clube de Moçâmedes em 1955. A Rainha eleita tinha sido a Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), filha de Moçâmedes, à época basquetebolista no Sporting Clube de Moçâmedes. O Rei, escapa-me o nome, sei que trabalhou na Casa das Noivas, que corria na maratona de fim de ano em Moçâmedes, e nada mais. A entrevistar os eleitos, o chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho, tendo a seu lado Oliveira (Maboque). À esq. Lalai Jardim, por detrás da "Rainha", Silvestre, e mais à dt, Arnaldo Matos?, Renato Veli, Mário de Sousa; um pouco baixo, Simão. Ao fundo, elementos do animado conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", que na foto a seguir surge em pleno, e do qual fizeram parte, nesta noite, o pianista e acordeonista Albino Aquino (Bio), Albertino Gomes, Frederico Costa e Marçal. Faltava aqui o Lico Baía (acordeonista).


Um dos pontos altos do Carnaval tal como era festelado pela comunidade europeia, eram os bailes e as matinées dançantes. Recordá-los é reviver momentos inesquecíveis de grande animação passados, numa primeira fase, nos salões do Ginásio Clube da Torre do Tombo ou do Aéro Clube (até finais de 1940), em seguida, e após 1950, nos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino). E alguns até no velho Ferrovia.  Um dos momentos culminantes destes bailes era da eleição do Rei e a da Rainha da festa, recaindo a escolha, infalivelmente, nos mais divertidos da noite.


Eram bailes que arrastavam familias inteiras, em que todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios, primos, e até avós.  A década de 1950 foi uma década de transição.  Não obstante se dançasse ainda, e muito, os clássicos e  os muito solicitados tangos e valsas (como «Comparcita», «Caminito», Danúbio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.), também se dançavam baiões, marchas, passodobles, rumbas, slows, boleros, etc, e até já tinham entrado em cena  terem entrado em cena o  rock-and-roll e o twist, pronúncio de uma ruptura que se avizinhava ao nível das mentalidades.  Mas eram as marchinhas brasileiras, os animados baiões, os passodobles e as rumbas que nos Carnavais  predominavam. Uma marcha que não podia faltar quando  actuavam os "Diabos do Ritmo", era a marcha brasileira "Você pensa que cachaça é água...". Era com ela que os bailes de Carnaval encerravam. E também passodobles... A «Comparcita» de Carlos Gardel era tango dos namorados, pelo prazer da proximidade física por instantes socialmente tolerado, e pelo romantismo que os tangos acarretam. "Por instantes socialmente tolerado". Sim, porque nos anos 1950 ainda as raparigas eram alvo fácil para críticas muitas vezes demolidoras que punham em causa a sua reputação. Moçâmedes afinal era um meio pequeno onde a cuscuvelhive imperava! A verdade é que ninguém parava até ao raiar do dia, e quando o baile chegava ao fim, toda a gente pedia mais uma musiquinha... E ninguém saia dos bailes cansado! Terminado o baile, era comum os rapazes sairem dali, directamente, para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens.  E se o baile acontecesse no Clube Nautico, alí mesmo em frente, tanto melhor. E a partir das 17hs do novo dia, lá estavam todos de novo caidinhos para a matinée dançante...

Acontecessem no Casino ou no Atlético, fossem bailes de Carnaval ou Reveillons, a lotação das mesas sempre esgotava, restando aos rapazes ficarem de pé junto ao átrio da entrada do salão, enquanto as raparigas e os casais mais idosos ocupavam o conjunto de mesas que rodeavam os salões.




O conjunto musical os «Diabos do Ritmo» era nesta década e início dos anos 1960, o grande animador das festas da cidade de Moçâmedes, pelos animados bailes que proporcionou, que se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e pelas matinées dançantes, aos domingos à tarde, que acabavam impreterivelmente às 20 horas.


Foto: muita gente conhecida nesta foto, para além de Maria Lidia e Arlindo Cunha (pequeno comerciante pa praça), os reis do Carnaval 1954, no Atlético. Entre outros, da esq. para a dt, por detrás dos eleitos: Renato de Sousa Veli, ?, Tó Zé Carvalho Minas, Carlos Moutinho (chefe de produção do RCM), Jesuina Almeida Carvalho, Carla Almeida Frota, Beatriz Almeida Frota, Alvaro dos Santos Frota e José Adriano Borges (o popular tio Alegria dos programas infantis das manhãs de domingo no RCM, e treinador, fundador e jogador de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes) .


Foto do meu album pessoal


Esta foto foi tirada nesse mesmo baile de Carnaval de 1954, no Clube Nautico (Casino). Foi o meu primeiro baile! Entre outros, da esq. para a dt, Rui Bauleth de Almeida (RCM) e a inesquecível e irrequieta Octávia de Matos, Nídia e Arménio Jardim (hoquista do Atlético), Marta e Gabriela, Antunes Salvador (fotógrafo) e Justina Salvador, à esq. Um pouco atrás, à esq., Monteiro, Cristão (Quitólas) e Artur Homem da Trindade (desenhou as vivendas e os edifícios mais bonitos de Moçâmedes).



Havia ainda os "Assaltos de Carnaval" levados a cabo no Hotel Central, ou em casas particulares, por grupinhos organizados e devidamente mascarados, que combinavam entre si fazer a festa em uma garagem ou casa particular.


Carnaval em Porto Alexandre (Tombwa). Fotos cedidas por Álvaro Faustino

Por esta altura (anos 50/60), na vizinha Porto Alexandre (actual Tombwa), a juventude não deixava em mãos alheias as festividades do Carnaval. Para além dos animados bailes de salão, como podemos ver aqui, no seio comunidade alexandrense, à semelhança das "danças indígenas", aconteciam também danças de rua. Era como que uma interpenetração de culturas que estava em marcha, fenómeno novo e aliás deveras interessante.


Carnaval de rua em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Em Porto Alexandre, Carnaval sem Gigantones e cabeçudos não era Carnaval...Foto cedidas por Álvaro Faustino
 
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino

Divertidos como era os alexandrenses, também os bailes do Recreativo (anos 50, 60, 70...) eram inigualáveis, pela alegria e pela camaradagem com que se desenrolavam. Aliás o que se poderia esperar de uma festa onde o casal Álvaro Faustino e Elizabete Pessanha estavam presentes? Paródia, paródia e mais paródia!



No Clube Nautico em 1960, crianças num concurso de máscaras infantis: Fernanda Alves, ?, ?, Graciete Vaz Pereira e Tita Vaz Pereira


Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos, que decorriam quer nos salões do Atlético e do Nautico, quer no Cine Teatro de Moçâmedes ou no Cine Esplanada Impala.



Nesta foto, Bellany Veiga Baptista faz a sua apresentação no Clube Nautico?, vestida de nazarena. À dt. Albertino Gomes (a dt.), o "endiabrado" baterista do conjunto musical "Diabos do Ritmo»


Foto da Leninha Jardim
Leninha Jardim Vilaça, vencedora num dos Concursos Infantis de Carnaval realizado no Impala Cine, no incio dos anos 1970


Outro Concurso Infantil, onde se evidencia, vestida de "boneca" no interior de uma caixa de papelão, a pequenita Carla Branco Câmara (Caly). 1970. Foto da Caly



Voltemos ao Carnaval de rua dos africanos que teve o seu grande "apagão" em 1961, ano do início da luta armada do "exército português" contra os movimentos de libertação, em consequência dos massacres selvaticamente perpretados pela UPA (União dos Povos de Angola, mais tarde FNLA, movimento gerado no norte de Angola com o apoio dos americanos) contra gente trabalhadora e indefesa, europeus e africanos, que ganhavam o seu pão a trabalhar duro nas fazendas do norte de Angola. 

A partir de então, com a proibição de ajuntamentos e  manifestações de rua, acabaram-se as "danças indígenas" que durantes três dias desfilavam, cantando e batucando pelas ruas da cidade. Acabaram-se os ajuntamentos. Acabaram-se até as animadas batalhas de «cocotes» que deixavam a Avenida da República e as ruas laterais todas desarrumadas e cobertas de farinha.
O Carnaval, como a grande festa do povo acabou, abruptamente. Por muito tempo deixámos de ver desfilar na Avenida os corsos de carros alegóricos, uma prática recente patrocinada pelos clubes e pelos jornais da terra, que dava oportunidade para competições e fazia jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, que imprimiam à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu. 

A quadra carnavalesca a partir de 1961 perdeu a graça e a alegria que havia proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e a todos quantos na festa se queriam incorporar. Durante o interregno que se seguiu, o qual foi mais prolongado em Moçâmedes, as festividades carnavalescas passaram a ser realizadas no interior dos salões dos Clubes desportivos da cidade e em casas particulares, através de bailes e  dos «assaltos» de Carnaval, ou de um ou outro concurso de máscaras juvenis, e pouco mais. Tenha-se em conta que o início das comemorações das "Festas do Mar" em 1961, muito do brilho do Carnaval foi desviado para as ditas festas, cujas datas eram muito próximas.


A recuperação das festividades do Carnaval em Moçâmedes, em termos de "Carnaval de rua" não aconteceu tão rapidamente nem com o deslumbramento como veio a acontecer alguns anos depois em cidades como Luanda e Lobito, que apresentavam já uma certa organização, regulamentos próprios e um novo tipo de promoção que incluia desfiles cada vez mais grandiosos, transformando-se em cartaz turístico.   

As fotos que seguem testemunham um desfile de Carnaval  acontecido em Moçâmedes em 1974. 






Jovens africanas participaram no desfile que este ano surge mais organizado, mais colorido, vestidas com sedas e setins alaranjados, brincos, colares, turbantes, etc, que remetem para uma cultura carnavalesca de tipo "abrasileirado", uma amostra daquilo que seriam, talvez os Carnavais do futuro... 
Fotos cedidas por um amigo

Participaram no desfile realizado em torno da Avenida da República, jovens europeias como estas duas fotos testemunham, exibindo trajes que evocam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não falta o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.



Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em sí outras mensagens, como o  da JAEA  (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola progressiva e multirracial que se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política  de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo a patir de 1960, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. Mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido em breve  revelar-se-iam tardias demais...


Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo  levada pelos portugueses, que durou alí mais que um século. 

Mas o último Carnaval festejado em Moçâmedes foi mesmo o de 1975, já muito próximo do dia marcado para a independência de Angola.

Alexandrenses parodiando o seu Carnaval. Foto de Alvaro Faustino. 1975


1975, no recinto do Ferrovia. Foto de Alvaro Faustino


Segundo informações recolhidas, estas fotos foram tiradas no  Carnaval de 1975 em Moçâmedes. Estava-se a 8 meses da Independência de Angola. Ainda aqui, a situação mantinha-se aparentemente calma nas cidades  litorâneas do sul de Angola, e nada parecia perturbar ou demover a vontade das gentes de Moçâmedes, de Porto Alexandre, e de todo o Distrito,  de se manterem na nova Angola, e de se divertirem.

Ficam também recordações do retorno  das danças de Carnaval às ruas de Moçâmedes, emendo, às Ruas do Namibe. Este, o 1º Carnaval na cidade do Namibe, quando o fim da guerra que avassalou o novo país no pós independência permitiu às populações festejarem  de novo a grande festa do povo.





Cantando, dançando e batucando, o Carnaval possibilitava  o extravasar de emoções...

CARNAVAL, a catarze redentora!


MariaNjardim

































Sem comentários:

Enviar um comentário