13 março 2012

A crise do TABACO em Angola





 





«No território do Bumbo 3 ha grande abundância de plantações de tabaco de  que os negros usam para fumar, preparado simplesmente, macerando-o entre duas pedras (!) Esta cultura por meio de uma industria activa é capaz das melhores esperanças.  Usam de en chadas de páu,com que abrem a terra, de uma natureza branda, etc. (Memorias de Gregório José Mendes —1786)





Recuando no tempo, este texto refere o território do Bumbo, zona fértil, a 28 léguas de Moçâmedes, para o interior. Por esta altura olhava-se ainda Angola como entreposto tráfico de escravos para o Brasil e Américas, porém na sua expedição Gregório José Mendes já chamava atenção para outras riquezas existentes no vasto território
 Foi com o fim do tráfico de escravos, após a independência do Brasil (decretado pelo Visconde Sá da Bandeira em 1836, mas apenas no último quartel do século XIX posto em prática), que novas formas de exploração mais
consentâneas com o espirito da época
e mais compensadoras foram levadas a cabo, deixando para trás esse comercio de gen-
te, que então era irresistivelmente sedutor, pela possibilidade que de se enriquecer rapidamente e sem a fadiga do trabalho quotidiano aplicado a qualquer outra industria, que só remunera-
ria num futuro mais distante, e que durante séculos despovoou Angola. Foi pois tardio o desentranhar as mesmas riquezas de produção de que Africa era tanto, ou mais copioso repo-
sitório, o que passou pela transferência desses milhares de homens válidos, que passaram vantajosa-
mente desflorar os imensos jazigos da riqueza agricola africana.  Extincta de facto a exportação de escravos, começaram-se os  ensaios de agricultura colonial, e  entre os produtos locais esco-
Iheram-se principalmente o algodão, o café e a canna sacharina. De tabaco pequenas plantações, que nem tentativas significavam, porque se engeitaram, apesar de se apresentarem prometedo-
ras. Toda a attenção passou a recair sobre estes produtos, sobretudo ao
café e cana, pois que foi-se abandonando, á excepção de no dis-
trito de Moçâmedes, a cultura do algodão, depois que as baixas
nos mercados, produzidas pela competência do da America, e outros acidentes que o fizeram reputar mais utilmente .

 
Segue um texto a este respeito esclarecedor






 
"...A industria do tabaco foi a primeira de todas as industrias regulares de Angola.
Desembarca em Luanda José Jacinto Ferreira da Cruz , que já tinha enriquecido no Brasil na industria tabaqueira, tendo investido na primeira fábrica de tabacos de Angola, importando máquinas de Inglaterra, algum picado de Havana, e instalando-se numa casa alugada perto da Igreja dos Remédios.
Paralelamente a tudo isto, José Cruz, sabendo que na região de Golungo Alto havia uma excelente qualidade de Nicociana, planta do tabaco que se dá bem em todo o País, decidiu fazer aí uma plantação e simultaneamente estabelecer contactos com “fornecedores” locais, que consumiam um charuto artesanal de excelente qualidade, segundo relatos da época.
Consta-se também que no Bumbo, a 28 léguas do Namibe, para o interior havia uma extraordinária qualidade de tabaco, o que terá levado Henk Rink, mais tarde a fundar a Empresa de Tabacos da Huíla de efémera existência, por problemas com as autoridades coloniais.
Ainda sobre a qualidade do tabaco do Golungo Alto, há uma antiga referencia a uma “fábrica” em 1833, propriedade do soba local, Bango Aquitamba.
Um pouco lateralmente ao que aqui tem sido dito, o tabaco foi provavelmente dos mais cobiçados produtos ao longo de séculos, e causas de disputas acesas pelo seu fabrico e comercialização, tendo em conta que desde que passou a ser comercializado na Europa, qualquer poder político viu nele uma excelente forma de conseguir recursos financeiros regulares, à custa de impostos e resultados de concessões por períodos de tempo determinados.
Foi motivo de discussão na Revolução Francesa e levou à queda de alguns governos, pois a solução de “régie” que se impôs, era permeável a muitas influencias e subornos. Foi assim um pouco por toda a Europa e foi também de grande importância na queda da 1ª Republica portuguesa, já que Alfredo da Silva, dono da imperial CUF, tinha então sido preterido num contrato de concessão, tendo-lhe a ditadura atribuído a concessão, pelos serviços prestados a favor do golpe militar de 28 de Maio de 1926, nascendo então a “Tabaqueira”, depois ligada à SUT.
Voltando a Angola, assistimos em 1884 à compra por José Jacinto Cruz de um prédio virado para a Baía, actualmente em degradação acentuada, onde se instala uma fábrica a sério, onde trabalhavam trinta pessoas, com máquinas inovadoras de pique do tabaco, embaladoras, prensas, estufas e até uma tipografia para confeccionar as suas próprias embalagens.
Na enfadonha e provinciana Luanda desse tempo, este activo industrial não deixou de impressionar os comerciantes da urbe, que o destacaram para Presidente da Câmara, tendo sido ele a figurar no acto da inauguração dos trabalhos do Caminho de Ferro de Luanda e Ambaca (31 de Outubro de 1886), de que foi um dos promotores e entusiastas.
“Flor do Dande”, Picado “Holandez”, “Meio Forte”, “Repicado”, os charutos “Jacinto”, e uns cigarros sem nome vendidos em maços de 600g. Mais tarde apareceram o “Francês nº1”, “Estrella”, “São Rafael” e os “Hermínios” de boa memória.
A sua morte levou a uma situação de instabilidade, e o BNU exerceu uma hipoteca na fábrica, que depois de reaberta nas mãos de empresários da então Metrópole, deu origem à Sociedade Colonial de Tabacos (16 de Maio de 1916) e depois à FTU, que virou SUT até hoje, embora a “tabaquear “já noutro lugar.
Para além da FTU e da efémera empresa da Huíla, constituíram-se e continuaram a laborar a fábrica SITAL em Benguela, dos famosos Java, Baía e SL, e a ETA, empresa do industrial Ricardo Pires, conhecida pelo Coimbra e Senador.
A FTU, tinha o Swing, o universal AC, o Luanda e o Belmar, entre os famosos Francesinhos.
Para finalizar há uma história interessantemente do BELMAR, que quando apareceu, nos fins dos anos 60, foi-lhe logo colado a uma frase: Bairros Em Lisboa Mostram Angola Roubada!



Fernando Pereira
18/01/09 in Recordações da Casa Amarela


A propósito,  um poema do moçamedense
José Trindade

Não há tabaco!

(Referência alegre à cruciante tragédia tabaqueira ocorrida há dias)

As armas e os barões assinalados
que os tempos vão maus, muito envinagrados!
Não há tabaco e estamos desgraçadoa!
A seca foi atroz e foi completa
de deixar um parceiro mui pateta!

Desta vez não houve contemplações:
não fumaram pobres, ricos e ladrões!

Conheço fumadores consagrados
que agora apenas ... chucham rebuçados!
Conheço até uma Domingas ,
que é munha lavadeira e confidente.
Sei que adora o tabaco e as boas pingas.

E, como continua sorridente,
indaguei da maneira que ela usava
pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara
disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha
fui comprar umas doses de cangonha!...

A situação tristonha e angustiosa
veio pôr a cidade em polvorosa.
Os cigarros de filtro e os tais sem ponta
são luxo com que a gente já não conta:

Não há Deltas, Marinas, Francesinhos
e até Negritos já não têm os barzinhos!
Fumar é vício lindo que morreu
e, p´ra vida ser feita de veludo,
vamos fumar p´la ponta de um canudo,
recordando a beata que já ardeu!

E como um bom charuto custa caro,
Não fumes disso, ó meu judeu avaro!
Retirado DAQUI



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