23 abril 2012

Talentos do Namibe: João Luís Maló de Abreu


No auge da sua carreira desportiva, na
 Associação Académica de Coimbra


Onde  tudo começou...


Em Moçâmedes ( actual Namibe)

 
Esta é a foto mais antiga que conseguimos obter sobre o início da actividade desportiva de João Luís Maló de Abreu, em Moçâmedes, sua terra natal. Trata-se de uma foto tirada antes de um encontro de futebol realizado em Porto Alexandre, em 1951, entre as equipas juniores do Sporting Clube de Moçâmedes e do Independente Sport Clube daquela então vila,  tendo como pano de fundo as casuarinas.1

Já aqui Maló de Abreu  (de escuro, em cima., à dt.) mostrava a sua inclinação para a baliza, talvez por predisposição natural,  talvez por influência do tio Angelo de Almeida  que nos anos 40 fora um  talentoso  guarda-redes, e que não faltava a um jogo do seu jovem ídolo, posicionando-se por detrás da baliza, de máquina fotográfica em punho, para não perder qualquer defesa digna de registo.

Esta é outra foto do início da actividade futebolística de João Luís Maló de Abreu, no Sporting Clube de Moçâmedes (1952), cujo treinador era então Adriano Nascimento (em cima, à esq.). Da esq. para a dt. reconhecemos, em cima: Adriano Nascimento (treinador), André, Zeca Matos, Adriano Cruz (Cucas Abelgas), Helder Paulo (Délinho), Amilcar Almeida, Bétinho (Pré-histórico/Rodados), Piriquito e Silva.  Embaixo: Novo, Abilinho, ? , Arménio Jardim,  Maló de Abreu (guarda-redes), Carlos Jardim, António Araújo e Quim Guedes. Nesta foto, as camisolas não respeitam o riscado verde e branco definitivo do Sporting. Eram camisolas verdes e calções pretos (equipamento  "stromp"),  que por vezes ainda hoje são utilizadas pelo Sporting. Desta equipa  sairam desde logo três excelentes jogadores: o Maló de Abreu,  o Carlos Jardim e o  Abilinho, porém, seria o  Maló o único a ter projecção nacional, quando, terminado o curso liceal no Liceu Diogo Cão, em Sá da Bandeira (Lubango), a fim de prosseguir os estudos, seguiu para Lisboa onde passou a  alinhar pelo Sport Lisboa e Benfica, trensferindo-se posteriormente para  Académica de Coimbra, conciliando o estudo e o desporto. 
Maló, em cima à esq. alinhando pela Academica da Huila contra o Atlético de Moçâmedes


Como desportista completo que era, desde muito cedo Maló abarcou com grande performance várias modalidades na classe de juniores, e começou a praticar, em simultâneo, futebol, basquetebol, voleibol e  hóquei em patins, modalidade de que foi pioneiro, como avançado, na fase da formação da equipa do Atlético Clube de Moçâmedes. Desta fase ficou-nos a foto a seguir, datada de 1951, que, apesar do mau estado de conservação, nos dá uma ideia dos primórdios da modalidade de hóquei em patins, em Moçâmedes, por iniciativa de José Adriano Borges.

Os pioneiros juvenis, entre os quais Maló de Abreu, no decurso de um treino realizado no campo do Atlético, então ainda sem tabelas a demarcá-lo. Á dt., o treinador José Adriano Borges


José Adriano tinha chegado a Moçâmedes, transferido do Lobito, e,  sem perder tempo,  procurou constituir uma equipa de hóquei em patins (sénior), tendo para tal recebido  o apoio do então presidente do  Atlético Clube de Moçâmedes, o despachante oficial Raúl Radich Jr, que desde logo se prontificou a oferecer  todo o equipamento. Porém, esta não passou de uma fugaz tentativa que logo se esboroou. Então, José Adriano voltou-se para um grupo de garotos habilidosos, com cerca de 12/13 anos de idade,  que andavam a patinar por tudo quanto eram passeios da baixa da cidade, e nos campos de jogos do Atlético e do Casino, com vulgares patins winchester (patins de rodas finas, sem botas, ajustados aos sapatos com engates e com uma correia sobre o peito do pé), e sticks feitos com galhos de madeira, paus, etc., e que  tinham por ídolos hoquistas metropolitanos, como os primos Jesus Correia e Correia dos Santos, da selecção nacional, à época vencedores de vários campeonatos do mundo seguidos, cujos relatos difundidos pela emissora nacional seguiam atentamente.  Um desses miúdos era Maló Abreu. Os outros eram Arménio Jardim, Rui Mangericão, Leston Martins, os irmãos Tolentino e Chiquinho Ganho, Rui Frota,  Artur Trindade, Pierino Nóbrega, e mais alguns cujos nomes foram esquecidos com a voragem do tempo.   Deste grupo nasceu aquela que, na verdade, foi a equipa pioneira de hóquei em patins da cidade e do distrito, a equipa  de juvenis do Atlético Clube de Moçâmedes,  que passou a usar os patins e o equipamento da  fugaz equipa sénior, oferecidos por Raúl Radich Jr.



E  foi a partir daí que novos valores começaram a emergir no hóquei em patins moçamedense, pois esta iniciativa foi de  imediato seguida pelo Independente Sport Clube de Porto Alexandre e pelo Sporting Clube de Moçâmedes, tendo a equipa do Sporting absorvido Maló,  Rui Mangericão e Artur Trindade, como podemos ver na foto acima.  Desta equipa faziam parte, em cima e da esq. para a dt: Nono Bauleth, Rui Figueiredo (Rabiga), Artur Trindade e Rui Mangericão. Embaixo, da esq. para a dt: Maló de Abreu, Quim Guedes, Carlitos Guedes e Zito Cavaleiro. Treinador:  José Pedro Bauleth (treinador). Por esta altura o  Sporting  não possuia um campo de jogos, e o recurso para os treinos era o campo de ténis  do Clube Nautico (Casino). Estava-se então em 1952.  

O primeiro jogo de hóquei em patins juvenis foi realizado em Porto Alexandre, entre o Independente e o Atlético de Moçâmedes, do qual não possuimos qualquer fotos, mas sabemos existirem. Para se ter uma ideia dos condicionalismos da época, em Porto Alexandre, por essa altura, os jogos decorriam num improvisado ringue de patinagem junto ao estaleiro e à praia, mais ou menos defronte da igreja onde pregava a missa o padre  Simões Serralheiro.   E porque aquela vila,  a cerca de 100 km de distância de Moçâmedes, ainda não possuia luz eléctrica,  os  jogos eram  efectuados antes do anoitecer.  Conta-se que quando ali se realizou este primeiro jogo,  os hoquistas do Atlético que tinham partido de Moçâmedes às 7 da manhã, com tempo de sobra  para o jogo marcado para as 4 hs da tarde, viajando numa carrinha de caixa aberta dos Bombeiros Voluntários, conduzida pelo comandante daquela corporação e director da Alfândega, José de Sacadura Bretes, chegada a hora, com o campo apinhado de gente, ainda não haviam chegado.  A carrinha que os transportava como sardinha em lata, por aquela estrada de terra solta,  levando-os a "comer" pó por todo o caminho,  tinha, a meio do percurso, partido o veio de transmissão, e os jogadores tiveram que passar para a carrinha de Arlindo Cunha, onde prosseguiram  viagem,  ainda mais comprimidos, tendo chegado ao destino 12 hs mais tarde, já noite cerrada. No campo, ninguém arredara pé, e o jogo acabou por decorrer à luz de candeeiros petromax, obrigando a que, de vez quando, tivesse que ser interrompido para que fosse dada à bomba aos referidos candeeiros. Era um tempo em que a prática desportiva, sem quaisquer subsídios estatais, dependia da "carolice" dos atletas,  dos dirigentes clubistas, e da população em geral, e, porque não havia ainda estradas asfaltadas, uma viagem de Moçâmedes a Porto Alexandre demorava cerca de 4 horas, e se fosse efectuada através da "carreira" (2) da empresa  Sousa e Irmão chegava a levar 6 a 7  horas. E, como tudo era improvisado, curioso era também o método como se efectuava em pleno deserto o contacto telefónico entre a "carreira"  e a respectiva oficina  em Moçâmedes; o motorista, a meio do percurso, por volta da passagem pelo  "Buraco" (local onde o terreno  apresenta uma depressão), saia do veículo com um telefone na mão, subia ao tejadilho  e ligava-o à linha telefónica que, através de postes paralelos à estrada, acompanhava o percurso . E assim ficava o assunto resolvido!


 

Aqui, podemos ver João Luís Maló de Abreu alinhando mais uma vez pelo Sporting Clube de Moçâmedes, antes do iníco de um jogo de hóquei em patins contra o Independente de Porto Alexandre.  As duas equipas encontravam-se assim constituidas (da esq. para a dt): Artur Trindade, Mário Lopes, Carlitos Guedes, Cartier Sacramento, Maló de Abreu e Venâncio Delgado. Embaixo: Humberto Sena Tendinha, Nono Bauleth, Zequinha Carvalho, Rui Figueiredo(Rabiga) , Parente, Quim Guedes, Abel Lopes e Rui Mangericão. Participou neste torneio, realizado no improvisado campo de jogos, no edifício do "Cabo Submarino", por ocasião das festas da cidade, em 04 de Agosto de 1953, para além destas duas equipas, também o Atlético Clube de Moçâmedes.

 
Aqui Maló de Abreu encontra-se atrás segurando uma das pontas da bandeira do Sporting,  por ocasião da "volta de honra" no referido campo de jogosdo "Cabo Submarino" .  Repare-se como os espectadores se encontravam sentados, sem qualquer rede de protecção, sobretudo por detrás das balizas...

 Maló tentando o golo...


 

Disputando a bola no meio campo...  Repare-se nos pavilhões que circundavam o campo de jogos do edifício do "Cabo Submarino", erguidos para as festividades do 04 de Agosto de 1953...
 Maló preparando-se para um penalti...




























Estava-se em 1954. De um ano para o outro os miudos ganharam centímetros em altura e, na ausência de regulamentação, passaram todos a fazer parte das equipas sénior. Esta foto mostra-nos as equipas sénior do Sporting Clube de Moçâmedes e do Clube Ferroviário de Luanda antes de um jogo realizado em Moçâmedes para comemorar o "28 de Maio".  Alinharam pelo Sporting, em cima e da esq. para a dt: Maló, Nono Bauleth, Quim Guedes, Rui Mangericão, e embaixo: Carlitos Guedes, Artur Trindade, Zeca Castro Alves e Geni Guerra. Pelo Clube Ferroviário de Luanda.: ?, Bogarin, Van Ronson, ?,  Zé Correia , ? , e Carlos Fontoura (Calota). Como treinador do Sporting, Camarinha. Como árbitro: Reinaldo Chibante. .

 
Na mesma altura, em 1954. Da esq. para a dt., em cima: Rui Mangericão, Eugénio Guerra (Geni). Joaquim Guedes da Silva (Quim) e Maló de Abreu.   Embaixo. Nono Bauleth, Artur Trindade, José (Zeca) Castro Alves e Carlos (Carlitos) Guedes da Silva. Ainda em cima, o treinador Camarinha, à dt, e o enfermeiro massagista,  Reinaldo Chibante, à esq.

 
Ainda como hóquista, Maló fez parte da Selecção de Moçâmedes, em 1955, como aqui podemos ver. Por Moçâmedes (camisola branca), neste jogo contra o Clube Ferroviário de Luanda, alinharam (em cima, da esq. para a dt):  Tolentino Ganho, Maló, Quim Guedes, Rui Mangericão, e Hernani Silva. Embaixo: Arménio Jardim,  Álvaro Jardim (Chamenga) e Nono Bauleth.  Pelo Clube Ferroviário de Luanda (camisola escura), em cima:  Bogarin, Van Ronson, ? , e Carlos Fontoura (Calota). Embaixo:  José Correia, ?, e ?.


A fase desportiva e académica em Sá da Bandeira (Lubango) : Os Maristas


A última fase do desportista Maló de Abreu, enquanto em Angola, foi a fase nos Maristas, desenrolada na cidade planáltica de Sá da Bandeira (Lubango). Maló,  para prosseguir os estudos e ingressar numa Faculdade de Medicina na Metróple, teve que se deslocar para aquela cidade vizinha, a fim de adquirir a habilitação liceal (7º ano),  no Liceu Diogo Cão, dado que em Moçâmedes havia apenas uma Escola Comercial e Industrial ao nível do Curso Geral (5º ano), que não dava  equivalência ao 5º ano liceal. Eram os condicionalismos que sofriam na época os estudantes de Moçâmedes e de outras cidades de Angola, em consequência da ideia enraizada de que a escola pública deveria estar em consonância com as actividades comerciais e industriais das cidades. Apenas em 1961 Moçâmedes passou a ter o seu Liceu. Mas estes condicionalismos iam muito mais longe, pois Angola não possuia também uma Universidade, o que obrigava os estudantes que quisessem enveredar para um curso superior a terem que partir para a  Metrópole, para a África do Sul, ou para um qualquer outro país estrangeiro, a expensas das familias. Por detrás destes condicionalismos encontrava-se toda uma política de restrições que a Metrópole impunha às colónias de África e  às suas populações, e que, por demasiado tempo,  as impediu de progredir.

Quanto ao Internato dos Maristas, em Sá da Bandeira (Lubango), este servia de apoio ao Liceu Diogo Cão. Os estudantes iam para ali  provenientes de vários pontos de Angola, tais como do Lobito, Benguela, Moçâmedes, Quilengues, Caluquembe, Nova Lisboa, etc, enquanto os do norte do território iam para Luanda. Este Internato tinha solicitado ao governo de Salazar autorização no sentido de  integrar um Colégio onde os alunos pudessem adquirir a habilitação equivalente ao 7º ano liceal,  mas a autorização foi negada.  O Internato Maristas estava dividido, em relação aos alunos, em  agrupamentos de "menores, médios e maiores", sendo que os médios correspondiam à idade mais difícil (os ditos adolescentes puros e duros) que eram entregues à vigilância do Irmão Celso, um cultor da disciplina e amigo do desporto que se faz presente nas fotos  mais adiante, ao lado de Maló de Abreu.








Nesta foto, tirada em 1956, no decurso do 1º torneio quadrangular de hóquei em patins  do Sul de Angola, realizado no campo de jogos do Sporting Clube de Moçâmedes (mais uma vez organizado pela União Nacional e pela Câmara Municipal para comemorar o "28 de Maio",  dia histórico para o regime de Salazar), já Maló de Abreu (em cima, à esq.) se encontrava a estudar no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, e integrava  a equipa de hóquei em patins dos Maristas (Internato).  Da esq. para a dt., em cima: Maló, Hernâni Silva, Álvaro Ascenso, e Caria. Embaixo: Rodrigues?, Agostinho, José Castro Alves e Mário Lopes. Neste torneio quadrangular em que participaram o Atlético, o Sporting, os Maristas e a Casa de Pessoal do Porto do Lobito?, saiu vencedor o Atlético Clube de Moçâmedes que venceu os Maristas na fial, por 4 a 3. A equipa dos Maristas era quase integralmente constituida por estudantes de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre, que se encontravam a estudar em Sá da Bandeira, e que teve como consequência o desaparecimento da equipa de hóquei do Independente.
 
  
A equipa  dos Maristas, em Sá da Bandeira, com Maló de Abreu, em cima, à dt, entre o Padre Celso e a bandeira. Alinharam,  esq. para a dt, em cima: Maló de Abreu, Hernâni Silva e Victor. Embaixo: Caria, Agostinho, Castro Alves e Mário Lopes

 
 Maló, à dt., segurando uma das pontas da bandeira dos Maristas
Na mesma altura. Da esq. para a dt: Hernâni Silva, Álvaro Ascenso, Maló, Artur Trindade, Mário Lopes e Castro Alves. Ao fundo pode-se ver o morro do Lubango.

Voltando ao futebol. Maló, à dt., na equipa dos Maristas ao lado do irmão Celso.

Foi  precisamente aqui que, dado o relevo das suas potencialidades ao nível do futebol, ao terminar o curso liceal, Maló é convidado pelo Sport Lisboa e Benfica para a sua equipa de juniores, convite que aceita com o propósito de prosseguir na Metrópole a sua carreira académica. Nos juniores do Benfica Maló desenvolve e confirma todo o seu valor. No entanto,  ao atingir a idade para ingressar nos seniores, transfere-se para a Académica de Coimbra, onde viria a desenrolar-se toda a sua carreira futebolística.

***

A fase da Académica,  na Metrópole

( Seguem algumas fotos e descrições desta fase colhidas na internet)

 
Cartão da Académica de Coimbra

Alinhando pela Académica de Coimbra
A célebre defesa da Académica de Coimbra, na década de 60, constituida pelo guarda-redes Maló  (ao centro) e os defesas Celestino, Curado, Bernardo e Rui Rodrigues

"...Logo nessa primeira época a Académica de Coimbra realizou uma brilhante temporada que culmina com um 4º lugar na classificação final do Campeonato Nacional da 1ª Divisão de 1964/65.  A equipa apresenta um tipo futebol muito elogiado, espectacular e cativante para os espectadores, e os resultados desportivos vão aparecendo, passando a Académica de Coimbra a surgir, consecutivamente, nos lugares cimeiros da tabela classificativa do Campeonato Nacional da 1ª Divisão."


À esq. na  equipa da Academica de Coimbra na década de1960

"...Nos anais da história do clube dos estudantes realça-se, efusivamente, a época de 1966/67, quando a Académica de Coimbra se classificou no 2º lugar do Campeonato Nacional da 1ª divisão, lutando, verdadeiramente, com Sport Lisboa e Benfica, pelo titulo de campeão nacional."


AAC_1966_67 Foto Carlos Dias. 1966/7
"...Nessa mesma época regista-se também a presença meritória da equipa da Académica de Coimbra na final da Taça de Portugal. Todavia, também nesta prova, o troféu escapou à equipa conimbricense, pois o Vitoria de Setúbal, o adversário da final da Taça de Portugal de 1966/67, venceu por 3-2."
.


  

"... É pois neste momento dourado da história da Académica de Coimbra que  Maló de Abreu se revela como uma da maiores glórias do Desporto Nacional na qualidade de desportista-guarda redes da Associação Académica de Coimbra. Primeiro jogo pela AAC em 20/09/1959 com 19 anos
Último jogo em 30/11/1969 com 29 anos. Realizou 180 jogos durante os 11 anos de actividade."
 
Equipa da Associação Académica de Coimbra na temporada de 1967/68. Maló à esq.

"...Destaca-se neste período, a presença novamente numa final da Taça de Portugal em 1968/69, perdendo-a agora para o Sport Lisboa e Benfica, enquanto no Campeonato Nacional da 1ª Divisão, à excepção da temporada de 1969/70, a Académica de Coimbra realiza boas classificações que o levam, inclusive, as competições internacionais de clubes."






Esta é a memória de um tempo em que não eram ainda os valores económicos que falavam mais alto. Os clubes ainda permaneciam, em sua maioria, como entidades sem fins lucrativos, ligados ao culto do amadorismo e a certos princípios e valores como o espírito desportivo e o fair play.  A partir dos anos 90 a modalidade mercantilizou-se,  os clubes transformaram-se  em sociedades anónimas com fins lucrativos, e os jogadores em mercadoria.


Fica aqui a homenagem do blog "GENTE DO MEU TEMPO" a mais um dos "Meninos do Namibe", um "cabeça de pungo"  que abandonou muito jovem a sua terra natal, Moçâmedes, e que chegou aos píncaros  do sucesso e da fama, nesses tempos da "velha" Académica, anteriores ao divórcio do clube com a cidade e com a Academia João Luis Maló de Abreu, o  Nico para os amigos e conterrâneos, o grande Maló para os apaixonados da Académica, o Professor Doutor João Luis Maló de Abreu, catedrático da Universidade de Coimbra, para milhares de alunos, o Senhor Comendador  para quem esteve atento e soube que no último 10 de Junho, Dia de Portugal, recebeu do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, o título de Grande Oficial da Ordem de Instrução Pública.

MariaNJardim


(1) Casuarinas: árvores adaptáveis a zonas desérticas que, em Porto Alexandre, desde os primórdios da colonização, haviam sido plantadas para protegerem a vila das areias das dunas que, movidas pelos ventos, ameaçavam tudo cobrir à sua passagem.

(2) "Carreira": era uma camioneta com duas cabines e uma carroceria de caixa aberta, em que na primeira cabine seguia o chauffeur e dois passageiros, na segunda cabine, os passageiros, e na carroceria de caixa aberta, a carga, e sobre esta mais passageiros a trouxe-mouche...

Sites/links de referência:


 http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=269019
http://www.academica-oaf.pt/home/palmares/
GLORIAS DO PASSADO
BRIOSA 
ACADEMICASEMPRE
AcadémicaBlog
EncontrodeGerações
Ver também: Moçâmedes, Memórias Desportivas

21 abril 2012

O ‘INDÍGENA’ AFRICANO E O COLONO ‘EUROPEU’: A CONSTRUÇÃO DA DIFERENÇA POR PROCESSOS LEGAIS1





Muílas e sua cubata. Anos 60. 
 
Muilas assimiladas. Anos 60

UM BOM TEMA PARA DEBATE...


Frase:   

"...Libertar os indígenas da barbárie, transformá-los em seres mais evoluídos ao ensinar-lhes os tempos da modernidade, preenchendo-lhes o seu mundo ‘vazio’ com os saberes da civilização transformou-se no grande objectivo da missão colonial. A moderna colonização justificava-se, nas palavras dos teóricos da ideologia colonial, não apenas pela necessidade de exploração de novos territórios, mas, e principalmente, para que ocorresse “uma acção civilizadora sobre as pessoas”:

In O "indígena" africano e o colono europeu: a construção da diferença por processos legais. Maria Paula G. Meneses. Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra


 Visualização rápida

15 abril 2012

Julia de Brito Pestana, a moçamedense pioneira da aeronautica amadora em Angola. O Aero Clube de Moçâmedes.

 Julia de Brito Pestana preparando-se para levantar vôo, pilotando uma avioneta do Aero Club de Moçâmedes, nos princípios dos anos 50. Foto de Salvador


Foi de Moçâmedes a primeira mulher em toda a Angola a tirar o brevet: Júlia de de Brito Pestana,  a JULINHA, como era conhecida entre nós. Julia Pestana era  sem dúvida uma mulher à frente da sua época. Em 1938 quando recebeu o brevet, excepto uma ou outra enfermeira, parteira ou professora, a maioria das mulheres dedicava-se inteiramente ao lar e à família. Trata-se, portanto, de uma figura pioneira, que deu a sua contribuição para o alargar de espaços  à mulher na senda da emancipação. Nessa época, como se pode ver pela foto, Moçâmedes ainda se escrevia com dois "ss".
Julia de Brito Pestana seria talvez influenciada pelo seu irmão Eduardo de Brito Pestana, que veio a ser piloto da DTA (Divisão dos Transportes Aéreos de Angola),  e obteve a sua licença de piloto de aviões de turismo, tendo como instrutor Guilherme de Carvalho,  sogro de seu irmão Eduardo, piloto ao serviço da DTA que preparava cumulativamente os candidatos inscritos no Aéro Clube de Moçâmedes.  

Julinha era conhecida entre nós pelas suas exibições de fins de semana, num "CUB" minúsculo, com curvas apertadas, "picanços", vôos rasantes sobre o hangar,  e os aplausos de uma plateia delirante e tradicional, espalhando a boa disposição naquele pedaço de deserto árido e infindo.

Existia então uma pequena pista natural no plateau situado a cerca de 2 km da cidade, um pouco acima do local conhecido por «Furnas de Santo António», (o nosso campo de aviação), onde se acreditava poder-se aterrar e levantar vôo em segurança fosse Inverno ou Verão, dado a consistência do piso, por ser imune às lamas.  Mas era ainda considerada  uma aventura naquela colocar um piloto no «cockpit» de um pequeno aparelho, e quando  isso acontecia,  em viagens de pequeno curso, as pistas ficavam inundadas sim, mas de curiosos que os iam aplaudir.


O Aéro Clube de Moçâmedes


 Recorte de jornal sobre o Aero Clube



Quanto ao Aéro Clube de Moçâmedes, este surgiu  em Maio de 1936, como clube associativo sem fins lucrativos dedicado à divulgação da aviação, na sequência da criação do Aero Clube de Angola, e levava a efeito «escolas de pilotagem», sendo os seus cursos bastante frequentados, tendo formado dezenas de pilotos, alguns dos quais tornaram-se profissionais.

No âmbito desportivo muitos foram os rallies aéreos organizados pelo Aéro Clube de Moçâmedes nas décadas de 50 e 60 em que participaram os brevetados da sua Escola de Pilotagem, provas essas que se revestiam de especial importância na medida em que permitiam potenciar as qualidades dos respectivos pilotos. 

 
 A tradicional cerimónia do banho de iniciação. A receber o banho, Rui Duarte de Mendonça Torres, à esq. Santos César. Foto gentilmente cedida por Mélita Parreira da Cruz


Importa ainda referir que muitos foram os pilotos que colaboraram activamente na prestação de serviço social ao nível de socorros realizados em todo o distrito, da Lucira à Baía dos Tigres, tendo sido considerados de utilidade pública os serviços prestados por todas as Delegações, mormente a de Moçâmedes. 

Após 1920 (termo da 1ª Guerra Mundial) a aviação ligeira teve primordial importância no desenvolvimento dos territórios menos evoluídos, mormente em Angola, e consequentemente no Distrito de Moçâmedes, nos âmbitos quer humanitário, quer desportivo.  Foi em 14 de Março de 1923 que se deu a 1ª ligação aérea em monomotor entre as cidades de angolanas do Huambo, Benguela, Moçâmedes e Lubango , acontecimento em relação ao qual a imprensa na altura fez grande eco por ser considerado um feito arrojado e espectacular. A celeridade com que evoluiram os rumos da navegação aérea, levou à criação, em Luanda, do Aero Clube de Angola, em Maio de 1936, seguindo-se a criação de várias delegações na principais cidades da colónia, entre as quais a de Moçâmedes de que foi durante longos anos Presidente João Marques Pequito. Impunha-se a necessidade de formação de novos pilotos para reforço dos pequenos quadros já existentes, para cujo fim foi aprovada a 20 de Março de 1940 a promulgação de um «Regulamento das Escolas de Pilotagem do Aero-Clube de Angola» abrangendo as suas delegações. 

Antes porém, em 1938, foi JÚLIA DE BRITO PESTANA, uma mulher moçamedense a consegui-lo em Angola, tendo como seu seu instrutor o já referido piloto Guilherme de Carvalho, da DTA. 




 
Elementos da Escola de pilotagem de Moçâmedes. Entre outros reconheço:
Em cima e da esq. para a dt: Jaime Lúcio Ferreira dos Santos, ?, José Luís Pinto, Domingos Alves Figueiras, Ferreira da Silva (instrutor), ?, Guilherme de Almeida, ?, Tiago Costa e Bento Padrão Embaixo:
?,?, Armando Guedes Duarte (Mandinho), Alfredo Esteves, ?;?;?;?.Foto do livro de Mário António Guedes da Silva: «Memórias do Desporto de Moçâmedes/Angola».


Resta destacar alguns nomes dos pilotos lançados pela Escola de Pilotagem da Delegação de Moçâmedes do Aero Clube de Angola, bem como dos seus instrutores, muitos dos quais prestaram relevantes serviços à causa da aviação que evoluiu ao longo do século XX em várias vertentes, humanitária, desportiva, comercial, e até militar:
 
Pilotos pioneiros: Júlia de Brito Pestana, (1938-1945), António Augusto Martins Cristão (1939, brevetado em 1945), António de Almeida Varela (1939), Jorge Branquinho Arruda (1939), Waldemar Gama Lobo (1939), Manuel Reis Pires (1939), Mário Ribeiro (1939), Henrique Pessoa (1939), Manuel Carlos Pessoa (1939), José Gomes de Carvalho (1939).
3. Pilotos das décadas seguintes: João Nunes Cunha (John), Pedro Cabral, Eduardo de Brito Pestana, José de Mendonça Teles, João Carlos Guedes Duarte, Armando Guedes Duarte (Mandinho), José Luís Pinto, Jaime Lúcio Ferreira dos Santos, Orlando Teixeira da Silva, Guilherme de Almeida, António Arvela, António Parreira da Cruz, Domingos Alves Figueiras, Alfredo Sales Esteves, Bento Padrão, Tiago Costa. Instrutores: Guilherme de Carvalho, Rosa Maçarico, Ferreira da Silva, João Carlos Guedes Duarte, Armando Guedes Duarte
Assistentes de aeronave: Tito Gouveia, João Firmino Bonvalot. Acrescendo ainda outros nome que de momento me ocorrem: Jacob, Germano, Patrício, Isaías Graça, Manuel dos Santos, Fernando Rodrigues Ferreira, Galvão de Melo, André Correia, todos estes brevetados já após as década de 40 e 50.



Uma vez que a matéria aqui abordada proporciona-se a aproveitamento importa deixar referido que na época colonial o Deserto do Namibe (que começa a sul da cidade de Benguela)
foi palco de uma tragédia que fez vibrar a população. Dois jovens, filhos de gente conhecida do Lobito foram passear de avião e acabaram por se despenhar no deserto. Sobreviveram durante mais de 30 dias à espera de socorros, escreveram um diário, onde relataram a sua experiência até ao dia final.  Se tivessem caminhado em direcção ao mar ter-se-iam porventura salvo. Mas preferiram ficar ao pé dos destroços do avião, na esperança de serem localizados, o que só aconteceria, apesar das buscas desesperadas e diárias. Isto aconteceu em 1963, e as vítimas foram Carlos da Costa  Fernandes, de 19 anos, e Acácio Lopes Costa de 32. Para mais pormenores consultar o 2º volume do livro "Recordar Angola" de Paulo Salvador.
 

Ficam mais estas Recordações proporcionadas pelo blog "Gente do Meu Tempo". 

MariaNJardim


Texto em parte elaborado a partir de consulta do livro de Mário António Guedes da Silva: «Memórias do Desporto de Moçâmedes/Angola»

Nota: Respeite e divulge o nosso trabalho. Se pretender retirar algo deste blog, não se esqueça dos respectivos créditos (direitos de autor).



Nota acrescentada em 16.10.2015, pela autora do blogue:
Na nossa abordagem  a este assunto não acrescentamos comentários pessoais sobre a realidade colonial da época, efectuada de fora para dentro, mas limitamo-nos apenas a descrever com a  realidade possível, factos que aconteceram e a expôr fotos que atestam esses factos. Outros se deram ao trabalho de o fazer. Legendando a foto de Julinha Pestana, juntamos um texto que recentemente encontrámos na tese de doutoramento de Diego Marques Ferreira, Univ de Campinas, Brasil, publicada em livro sob o título "O Carvalho e a Mulemba"





http://www.ifch.unicamp.br/dantropo/sites/www.ifch.unicamp.br.dantropo/files/Arquivos/marquesdiegoferreira_d.pdf

O 1º Centenário da Cidade de Moçâmedes, Namibe: 04 de Agosto de 1949




Pertinho do mar cresceu...





Eis uma foto da Avenida da República tal como se apresentava no dia 04 de Agosto de 1949, dia do Centenário da cidade de Moçâmedes, a assinalar a chegada da primeira colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para dar início ao povoamento branco do distrito.


Durante oito inesquecíveis dias Moçâmedes viveu a sua festa e na vasta Avenida da República, a sala de visita da cidade, podiam-se ver dezenas de postes embandeirados,  pavilhões representativos da cultura de vários povos, pavilhões de comes-e-bebes, e as mais variadas barracas, umas destinadas a actividades lúdicas (tiro ao alvo, argolas, cavalinhos, etc),  outras onde se sorteavam os mais diversos objectos (estatuetas, bibelots, brinquedos, garrafas de bebidas, caixas de bombons, bolos, etc. ) e ainda outras onde decorriam quermesses, vendiam-se rifas, café, chocolate quente, cigarros de várias marcas (francês-galo, francesinhos, caricôcos...), jornais,  revistas, etc. 


Observando mais atentamente a foto acima, dá para ver, nas laterais da Avenida, ainda que encobertos  pelas árvores e pelos caramanchões, algumas barracas e alguns pavilhões ali erguidos, bem como o movimento de gente de todas as idades encaminhando-se para o epicentro do jardim,  a zona então ocupada pelo velho e tradicional "Coreto" onde aos domingos e dias festivos bandas de música iam  tocar.
Na paralela à Avenida, a Rua da Praia do Bonfim, ficava o edifício de linhas classizantes do Banco de Angola, que nesses dias se apresentava engalanado, com colchas vermelhas às janelas, e na esquina para a Praça Leal,  ou Praça de táxis,  ficava a sede do Aero Clube de Moçâmedes onde diariamente, e no decurso da semana das comemorações, se realizaram bailes e matinées dançantes, que proporcionaram à população e aos visitantes  momentos de  muita diversão e alegria. Mais tarde as instalações do Aero Clube foram demolidas para dar lugar ao 1º edifício de grande porte da cidade, propriedade de José Alves.
Ainda na rua da Praia do Bonfim  ficava a loja de modas denominada "Armazéns do Minho", em cujas montras, decoradas a cetim verde e vermelho, as cores da bandeira portuguesa, se exibiam fotos dos  Presidentes da República e do Conselho, Óscar Fragoso Carmona  Carmona e António de Oliveira Salazar. Era a propaganda do regime, como sempre, a funcionar.


Esta foto mostra-nos um dos vários pavilhões representativos da cultura dos povos, o pavilhão chinês, junto do qual se encontram algumas colaboradoras trajadas de acordo, com coloridos quimonos em seda  importados do oriente, leques, flores e pauzinhos espetados no cabelo. Da esq. para a dt: Zuleica (cabeleireira), Julinha Pestana, Jovita Carvalho (Grade), Dina Ascenso e Maria Lizete Ferreira.

 

Esta foto, tirada junto do pavilhão-bar, representa um grupo de colaboradoras de vários pavilhões. Foram elas, da esq. para a dt:  Julinha Pestana (China), Alice Castro (fantasia/fada), Orbela Guedes (Holanda), Manuela Bajouca (fantasia/fada), Fátima Cunha (Holanda), ?, Zuleika (China), Celeste/Carracinha (fantasia/aero-moça), Lizete Ferreira (China), Néné Oliveira (fantasia/aero-moça), Etelvina Ferreira (Holanda),  Rute Gomes (fantasia/aero-moça), Maria Helena Ramos (Holanda), Teresa Ressurreição (fantasia/fada), Maria Parreira (fantasia/aero-moça), ?.


Entre os vários pavilhões destacava-se o representativo da Holanda pela graciosidade dos trajes que as jovens senhoras envergavam, com cingidos corpetes vermelhos sobre blusas brancas, saias rodada com riscas coloridas e barra escura, aventais bordados, coifas, socas de bico revirado, etc.  A vontade de colaborar  era tal,  que elas, para além de oferecerem graciosamente os seus serviços ao nível da organização, confeccionaram flores, decoraram e pintaram pavilhões e barracas, estiveram por detrás dos balcões a atender o público ou a  acudir a outras solicitações, e até fizeram bolos em suas casas para alí serem vendidos, prepararam cacau a expensas suas,  ajudando desse modo a organização a fazer face a eventuais prejuízos que este género de festas geralmente envolvia.  Sabia-se de antemão que dificilmente se conseguiria algum lucro, e que, se  houvesse alguns sectores em que houvesse algum, não daria para contrabalançar as muitas despesas no conjunto efectuadas.


No pavilhão do ar, da esq. para a dt: ?,  Ludovina Leitão, Maria Eugénia Alves de Oliveira, Celeste Gouveia (Carracinha), Ruth Gomes e Maria Parreira



O Coreto situado no epicentro da Avenida foi, no decurso das comemorações do Centenário, um dos locais de animação onde se realizaram concursos  infantis, exposições, palestras e animados concertos efectuados pelas bandas de música dos navios de guerra portugueses e ingleses que durante uma semana estiveram fundeados na baía, em visita de cortesia.


Diariamente, no decurso das comemorações, por toda a cidade se ouvia através dos altifalantes de uma carrinha do Rádio Clube Moçâmedes que a percorria de ponta a ponta, esta bonita canção da autoria de Maria Teresa Ressurreição, que durante anos andou de boca em boca: 


Marcha do Centenário

I
Assim toda engalanada
Digo orgulhosa ao mar
Olha para mim
Como vou bela ao passar
II
Quero viver minha festa
Quero rir, quero folgar
O Mar imponente
Grita a toda a gente
Vai Moçâmedes a passar
III
Sou há um século nascida
Velhice inda não senti
Tive horas de glória
Enchi minha história
De rosas que então teci
IV
As minhas lindas Miragens
Todos vão admirar
Sorrindo ao céu
Sinto o mundo meu
Quando ouço assim cantar

REFRÃO
Num areal doirado
Pelo sol beijado
Há já cem anos nasceu
Moçâmedes gentil
Bela e juvenil
Pertinho do mar cresceu 
Hoje, embandeirada
Princesa encantada
Do Namibe o seu senhor
Sente mar confiante
Dizer radiante
Ai que linda vais amor.


Do vasto programa fizeram parte um festival aéreo, regatas de baleeiras à vela, provas de natação, provas de remo, torneios de futebol inter-selecções, encontros de basquetebol feminino (entre as duas únicas equipas à época pioneiras na modalidade, em representação do Sport Moçâmedes e Benfica, uma envergando camisola e shorts brancos, outra camisola branca e shorts vermelhos), e ainda encontros de voleibol, ténis de salão e de mesa,  corridas de bicicleta, e um festival realizado no velho campo de futebol de terra batida, ao fundo da Avenida, o qual resultou numa grande concentração em que participaram desportistas de todas as modalidades e de todo o Distrito, para além de alunos de todas as escolas e do Colégio das Doroteias, filiados da Mocidade Portuguesas, etc. E o festival prosseguiu com a participação da juventude em provas de gincanas, puzzles, exibições de ginástica e,  para os mais novos, concursos vários,  que envolviam provas de habilidade com joeiras, papagaios, corridas do saco, corridas do ovo e da colher, etc. etc.








Cinco fotos do festival/concentração realizado no campo velho de futebol de Moçâmedes, ao fundo da Avenida da República



Ainda no campo das modalidades desportivas, o futebol (inter-selecções) esteve presente nas comemorações do Centenário de Moçâmedes num torneio em que participou, como não poderia faltar, a vizinha Sá da Bandeira (Lubango). Eram disputas renhidas em que a cidade do Namibe no 04 de Agosto saía sempre ganhadora. 

Dizia-se então que se tratava da alma de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que pairava sobre o campo incentivando os jogadores para a vitória. De facto, das bancadas, sempre que a selecção de Moçâmedes alinhava ouviam-se gritos clamando por Bernardino... Bernardino...

Bernardino fora o chefe da 1ª colónia vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, para dar início  ao arranque da povoação.  Bernardino era então um símbolo de fé, de persistência e vontade de vencer, pois fora ele que acalmara os seus companheiros de viagem quando ali chegados se viram confrontados com múltiplas contrariedades (uma estiagem de 3 anos que secara as terras, e levara à perda  das primeiras sementeiras), para além da falta de tudo, desde alimentos a vestuário.

Outro evento ligado ao Centenário, foi o "corso automóvel" que se realizou após o termo do festival desportivo, ao longo da Avenida da República ou Avenida da Praia do Bonfim, tendo desfilado vários veículos automóveis (incluindo camionetas de caixa aberta, carrinhas, carripanas, jeeps, etc) enfeitados com o material que havia à mão, sobressaindo entre eles o carro representativo da "Tentativa Feliz", a barca brasileira que transportou para Moçâmedes os colonos ali chegados no dia 04 de Agosto de 1849.

 
O carro alegórico representativo da «Tentativa Feliz», numa evocação da barca brasileira  transportando um grupo de senhoras que colaboraram nas festividades do Centenário. Da esq. para a dt.: ?, Ludovina Leitão, ?, Salomé Inácio, ?, Noelma, Cilinha, Lúcia Gavino e Arminda Alves de Oliveira.


 

Outro carro alegórico, este alusivo à caça no Deserto do Namibe, tendo ao volante, Mário Bagarrão A ladeá-lo,  dois cavaleiros, um deles, à dt, vestido a rigôr, como que preparado para uma corrida de touros, trata-se de José Sacadura Bretes, o comandante à época do Corpo de Bombeiros Voluntários de Moçâmedes. O outro cavaleiro, trata-se do  moçamedense, Quito Costa Santos.   
 

Enviaram-me esta foto com  arefrerência de que que este carro alegórico fizera parte do corso, ainda que me pareça mais ter feito parte do cortejo realizado por altura da chegada a Moçâmedes da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em 1948, portanto, um ano antes do Centenário, dada carga religiosa que transmite, De pé, na carroceria,  alguns «anjinhos» de carne e osso, a imagem de Santo Adrião que nos habituámos a ver junto à pia de água benta à entrada da Igreja Paroquial, e entre outras, a figura do moçamedense Carlos Cristão.

Sem dúvida um corso sem o brilho dos corsos modernos que anos mais tarde passámos a ver desfilar pelas ruas das cidades de Angola. Mas era com estes meios que à época se podia contar. Portugal não era um país industrializado, e Angola, por esta altura, muito menos. Não havia autonomia administrativa nem financeira para tal, submetidos que nos encontrávamos aos interesses e às ordens  que emanavam do Terreiro do Paço. Também  a II Grande Guerra Mundial (1939-1945) não havia terminado há muito tempo, e Portugal viu limitadas as suas importações  para além de que as fábricas europeias se  encontravam ao serviço do armamento, pelo que até as obras  do prolongamento dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes acabaram paralisadas, E quando a guerra acabou e as fábricas retomaram a sua actividade, a obsessão pelo déficit foi tal que não permitiu  contrair dívida externa, nem avançar desde logo para a industrialização, apesar de alguns esforços efectuados nesse sentido. Daí a dificuldade de nós em Angola conseguirmos aceder a determinados bens. Daí não se ter conseguido trazer à luz do dia um corso com a dignidade de que a população de Moçâmedes era merecedora.   Só a partir da década de 1950 a situação começou a mudar  ao nível das infra-estruturas, ganhando grande vigor após 1961.

 

Capa de Revista dedicada ao Centenário

 


 
 
 

Recortes do Semanário moçamedense «O Sul de Angola» alusivos ao 04 de Agosto de 1945, e selos alusivos ao Centenário

Não poderei deixar de fazer uma referência à Câmara Municipal de Moçâmedes, a patrocinadora e organizadora das festividades do 1º Centenário, que, com os meio ao seu alcance e com a ajuda de comerciantes e de pequenos industriais de pesca se esmerou a tal ponto que não só as ruas e os edifícios públicos receberam durante estes dias uma iluminação especial,   como junto a Fortaleza de S. Fernando e na Ponta do Pau do Sul, ou Ponta do Noronha, a falésia se encheu de luzes, através de uma imensidão de pequenos recipientes ali colocados, alimentados a sebo e pavio, que no seu conjunto emprestavam um aspecto feérico à cidade.

Uma referência especial vai também para os habitantes da terra que se mobilizaram em grande número e concorreram voluntariamente para o abrilhantamento  da festa. Gente de todas as idades e de ambos os sexos, e principalmente a juventude da época que andava pelos 18/25 anos  de idade, e que como já atrás foi referido, confeccionaram flores de papel, engalanaram ruas, ajudaram a erguer pavilhões e barracas na Avenida, e incluso a servir  voluntariamente o atendimento aos balcões dos pavilhões, bares, barracas, etc, etc.

                                                 
                                                                         
Ficam mais estas recordações ! 

(ass) MariaNJardim


Moçâmedes, eu te vi nascer....

 AQUI poderá ver um conjunto de postais editados por ocasião do Centenário da cidade de Moçâmedes em 04 de Agosto de 1949 
                                                                
Ver Boletim Geral das Colónias . XXV - 290 e 291
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias.
Nº 290-291 - Vol. XXV, 1949