08 janeiro 2012

Ensino e religião em Moçâmedes: a "Casa Santa Filomena", onde D. Aline ensinava o catecismo. 1949/1953.





Clicar sobre a foto que é enorme. Grupo de alunas, mães, senhoras da JIC e da Liga Católica Feminina,  catequistas, e irmãs do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da "Casa Santa Filomena" com D. Aline . Data: 1953. Cedida por Néné Trindade.  Mon. D. Daniel Gomes Junqueira tinha sido nomeado bispo da Diocese de Nova Lisboa, criada nos termos do Acordo Missionário de 1940, em simultâneo com a Arquidiocese de Luanda e a Diocese de Silva Porto, para as quais foram nomeados D. Moisés Alves de Pinho para Arcebispo de Luanda, e D. Ildefonso dos Santos, para Bispo de Silva Porto.




A caridosa professora D. Aline de Campos, e a "Casa Santa Filomena"

Era assim a "Casa Santa Filomena" na cidade de Moçâmedes, em Angola, por volta dos anos 1950. Uma grande casa em madeira, estilo colonial, com varanda a toda a volta, por onde pendiam trepadeiras que imprimiam um ar refrescante ao conjunto, situada por detrás do antigo campo de futebol, ao fundo da Avenida da República, de costas voltadas para  o edifício do Matadouro Municipal, construção pioneira da fundação (1). Segundo informações a "Casa Santa Filomena" teve como proprietários os ingleses do Cabo Submarino, e mais tarde, nos anos 40,  passou a ser a morada de D. Aline Marques de Campos, a veneranda professora primária da Escola Nr.55, de Fernando Leal ou "Escola Portugal" que alí passou a habitar, juntamente com a sua mãe e irmã, D. Olimpia e D. Amélia.
Profundamente religiosa, D. Aline dava aulas de manhã e da parte da tarde ministrava às crianças o catecismo. Era também ali  na "Casa Santa Filomena" que D. Aline, gratuitamente, dava aulas de todo o tipo, sobretudo aos alunos mais necessitados da terra que frequentavam o primário, formando-os para a vida, e chegando inclusive a alimentar alguns, tendo conseguido para o efeito um subsídio da Câmara Municipal, e a ajuda de muitos amigos, como testemunham os que viveram aquela época.  Também era comum aos domingos, na Casa de Santa Filomena servir-se um lanche à garotada, e de vez em quando organizar-se até passeios em camioneta de caixa aberta, mas em caso algum descurando o catecismo. A cidade como prova de gratidão deu o seu nome ao Parque Infantil, num gesto de reconhecimento pelos serviços prestados, e concedeu-lhe a medalha de honra da Cidade. 
A denominação "Santa Filomena" ficou a dever-se ao facto de ser D. Aline devota desta Santa, que, para grande desgosto seu seria desclassificada pelo Concílio do Vaticano. D. Aline era natural de Cabanas,Viseu, onde nasceu em 13 de Novembro de 1891, e foi em Coimbra que prosseguiu os estudos, tendo concluido o Curso do Magistério Primário na Escola Normal com a alta classificação final de dezassete valores. No ano de 1918, ainda na Metrópole, foi nomeada para o professorado do Ensino Primário em Moçâmedes, tendo começado a leccionar a 1 de Maio a 2 de Abril desse mesmo ano. D. Aline enviuvou enquanto esteve a exercer funções do magistério em Moçâmedes, e se já era católica ainda mais se agarrou à Igreja e à religião.










Na foto: D. Aline cumprimentando e D. Berta Craveiro Lopes em 24.06.1954, quando da visita do Presidente da República Portuguesa, Craveiro Lopes, a Moçâmedes. Cedida por um amigo

Ainda sobre D. Aline, conta-se que  a gentil e caridosa senhora não escapou à maldade e à intolerância de homens, que não raro existiam no nosso burgo, e abundavam por toda a parte, a par, felizmente, de muita gente boa. Aconteceu que por volta de 1922, lhe foi instaurado um processo disciplinar, com base em declarações suas publicadas num jornal de Moçâmedes. Mas em 23 de Janeiro de 1923, o chefe da Repartição Superior da Instrução, José Falcão Ribeiro informava que o processo tinha demonstrado da parte de quem o ordenou e elaborou, autoritarismo e defeitos de organização, que implicavam a sua nulidade. E, ao mesmo tempo afirmava que esta professora era cumpridora do seu dever e desamparada de todo o auxílio. Talvez essa circunstância explique que, pouco depois, em Dezembro de 1926, D. Alina pensasse seriamente na sua aposentação. (letras5ac).

D. Aline desligou-se do serviço em 23 de Fevereiro de 1957 e teria deixado Moçâmedes em 1958.  Acabou os seus dias em Luanda, em 5 de Julho de 1971, onde residia com o seu filho, o Engº Augusto Carlos Rodrigues dos Santos, então director da Junta Provincial de Electrificação de Angola. Tinha quase oitenta anos de idade, Moçâmedes deve ter sido o único local em que leccionou.

D. Aline no dia da inauguração do Parque Infantil  de Moçâmedes, 
entre os vereadores da CMM, Rodolfo Ascenso e Rui Torres. Cedida por um amigo.


A acção de D. Aline de Campos, formativa e caritativa, viria a merecer no inicio dos anos sessenta  honrosos elogios por parte da Edilidade, tendo-lhe sido oferecida uma medalha de honra da Cidade, e nessa celebração foi  baptizado o novel Parque Infantil com o seu nome: «PARQUE INFANTIL ALINE MARQUES DE CAMPOS R. SANTOS».



De baixo para cima: 1ª fila. ? M Pacheco I, Mª Inácio Tavares, Elga Weishmaster, Amélia Brás de Sousa, Manuela e Mimi Carvalho, M.PachecoII,  Mitsi Aboim e ?  2 ª fila. ?,?,?, Zézinha Grade, ?,?, Fernanda Braz de Sousa, Fernandina Peyroteu, ?, Antonieta Bagarrão (Dédé), ? e Zélia Calão. 3ª fila. Gabriela Figueira Fernandes, Calila, ?, Constantina, Carolina Mangericão, Maria Augusta Esteves, ?,?,?,?, e Susete Freitas. 4ª fila. ?;?;?; Lena Freitas, Fernanda Pólvora Dias,?, Fátima Cunha, Lizete Ferreira, Celeste Matos, ?,?,Gabriela Miranda,?, ?, Madalena Trindade; Melanie Sacramento, ?, e
 Odete Maló.  5ª fila. ????, Osvalda Sacramento, Júlia Jardim, ???? 
6 ªfila.?,?,Hélia Paulo, Lucia Gavino, ?, Lucia Reis,?,?,?. Data: 1949
 
Idêntico grupo de alunas e de catequistas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da "Casa Santa Filomena". 1949. Fotos de Antonieta Bagarrão

1ª fila: :Geninha Amado, Henriqueta Barbosa (Miqueta), Fátima Santos, Celeste Matos, Mimi Carvalho, Luisa Trigo,??,Maria Amália Duarte de Almeida, Mitsi Aboim, ??, Ribeiro (filha), irmã da caridade, Maria Inácio Tavares, ?, Dilia Martins Nunes, ???, Maximina e irmã , ?. 2ª fila: Lizete Ferreira, Lúcia Reis, irmã da caridade, Maria Idália Patrício, Noemia Van der Keller, Sra. Aboim, irmã da caridade, prof. D Aline, Felicidade Tendinha Trindade, Beatriz Caléres Radich, Alice Castro, Teresa Ressurreição, ?, Luzete Sousa, ???. 3ª fila: Bia Mangericão, Julia Jardim, ?, Fernanda Braz de Sousa, Carolina Mangericão, Raquel Martins Nunes, ??, Sra. Pires Correia Ribeiro, ???, prof. Lucilia Campos Rocha, Sra.Trindade, Ana Júlia Maló de Abreu, Cordália Gavino Dias, ?, Salomé Inácio, Suzete Freitas, Melanie Sacramento, ?. 4ª fila: ?, Aninhas Sousa (mãe), Berta prof?, Raquel Piedade, Beatriz Radich, ????, Julia Almeida, Odete Maló Almeida, Rita Seixal, Odete Sousa, ???. 5ª fila: ?????, Sra Erverdosa?, Sra. Nunes, ???, Sra.Duarte,??. 6ª fila: ?????? 

[Escola+49.jpg]
                                                                               
 Aqui podemos ver  D. Aline, à dt. ( a mais baixa das três). Encontram-se também a professoras D. Berta (a mais alta) e D.?. Neste dia, o Bispo D. Daniel Gomes Junqueira (*) tinha visitado a  Escola Nr. 49.  À esq. de entre outros professores e padres,  reconheço o prof. Freire, e o prof. Canedo. Estava-se em 1945.  (Clicar sobre a foto para aumentar). De baixo para cima e da esq. para a dt.: 1º fila: Teixeira, Túlio Parreira, Monteiro, Jorge, Beto de Sousa, ?, Orlando Figueira, ?, Dominguinhos (mais tarde trabalhou na CMM).  2ª fila: Serafim, Renato Veli, ?, ?, Manuel Cruz, ?, Celestino,?,?,?. 3ª fila: Alexandrino (Dino), ?, Neco Mangericão, ?,?, Guilherme Jardim, Bispo D. Daniel, (*), José Manuel Frota ?, ??? e mais à dt. Sarmento 4ª fila: professor Canedo, Padre ?, professor Vieira, Padre?, Costa, Julia Jardim, ?.Esmeralda Freitas, ?, D. Alina (a 3ª das Sras de preto, a contar da dt.), as professoras Berta e ? 5ª fila: ????? Gomes. Data provável: 1941.
Passaram mais de 60 anos sobre estas fotos, e ainda hoje muitos daqueles e daquelas que foram alunos e alunas de D. Aline, falam com carinho e com admiração da velha professora, referindo-se tanto à sua competência como à sua bondade e à sua acção como formadora que fora de sucessivas gerações de moçamedenses a quem ensinou a lêr, escrever, contar, os sãos principios da moral cristã e, como não podia deixar de ser... a orar.


MariaNJardim


(*) D. Daniel tinha sido nomeado bispo da Diocese de Nova Lisboa, criada nos termos do Acordo Missionário de 1940, em simultâneo com a Arquidiocese de Luanda e a Diocese de Silva Porto, para as quais foram nomeados D. Moisés Alves de Pinho para Arcebispo de Luanda, e D. Ildefonso dos Santos, para Bispo de Silva Porto.



(1) Sobre o Matadouro Municipal importa referir que se trata do edifício mais antigo de Moçâmedes que tem resistido até aos nossos dias graças á robustez da sua constituição.  Com um desenho original, munido de uma  parte ao ar livre, onde se metiam os bois destinados ao abate, este Maradouro vem referido em livros bastante antigos, e existem  relatos de  um tempo em que iam ali hienas durante a noite em busca de vísceras de bois. Antes da sua construção as reses eram abatidas numa  casa da vila afastada do centro, o primitivo Matadouro, sem as minimas condições de higiene conforme é revelado no seu livro de Mendonça Torres, "O Distrito de Moçâmedes", de 1849-1860, pg 276. e num outro intitulado "45 Dias em Angola" publicado por autor anónimo em 1862. No relatório de 19 de Junho de 1877, Costa Cabral refere que nessa data já se achava em avançado estado de construção um novo Matadouro "começado a expensas do Municipio, tinha as paredes levantadas de excelente alvenaria, estava porém a obra parada por falta de meios. http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/11/o-parque-infantil-de-mocamedes-parque.html