01 outubro 2013

O Desporto em Moçâmedes: Futebol e outras modalidades tais como o ténis, desportos nauticos, ciclismo, ginástica, box, esgrima, bilhar, automobilismo...






Este era o primitivo "campo de futebol"  ou "estádio municipal", como queiramos chamar, em terra batida, sem relva (esta ainda não se usava), situado ao fundo da Avenida da Avenida da Republica, tendo por detrás a Casa Santa Filomena onde a reverenda senhora D. Alina ensinava às crianças e adolescentes da terra,  o catecismo. Próximo ficava tembém o Matadouro Municipal


O Desporto em Moçâmedes


UM POUCO DA HISTÓRIA DOS PRIMÓRDIOS DO FUTEBOL EM MOÇÂMEDES

 
O gosto pelo desporto no distrito de Moçâmedes começou a surgir no decurso de competições entre grupos de bairro que se rivalizavam entre si, na modalidade de futebol, sendo de salientar os renhidos confrontos entre os grupos do Bairro da Torre do Tombo e  os do centro da cidade, que ficaram a marcar esses primeiros tempos que antecederam os anos 1920 do século passado. 



O Ginásio Clube da Torre do Tombo 


Não foi pois, por acaso, que os primeiros clubes a avançar, com equipas de futebol no distrito de Moçâmedes, fossem o  Ginásio Clube da Torre do Tombo e o Independente Sport Clube de Porto Alexandre, ambos fortemente apoiados numa população que tinha nas lides do mar o seu sustento, e que fazia desta modalidade um escape nas horas de lazer.

O Ginásio foi fundado em 24 de Junho de 1919, por iniciativa de abnegados moçamedenses, como Óscar Duarte de Almeida, Maurício da Silva Brazão, João Duarte, Manuel Brazão, José de Sousa, Francisco Brito, Álvaro Ferreira, Rogério Viegas Ilha e Evaristo Fernandes. O Ginásio, à semelhança do Futebol Clube Belenenses, clube ao qual mais tarde  veio a filiar-se, dadas as suas afinidades com o mar, tinha como símbolo o dragão flamejante e as cores azul e branca .

O Ginásio Clube da Torre do Tombo foi também a primeira agremiação desportiva do distrito de Moçâmedes a adquirir sede própria, com actividades desportivas e recreativas que incluiam para além do futebol e do remo, bailes de Carnaval, Pinhata, Reveillons e outras festividades que se desenrolavam no seu amplo, na altura bem frequentado por gente de toda a cidade que ali procurava divertir-se nos fins de semana. 

  
Uma das primeiras equipas do Ginásio Clube da Torre do Tombo.
Em cima, da esq. para a dt.: Melquíades, Edmundo Seixal, Joaquim Monteiro, ?, Armando Guedes da Silva, Carlos Guedes da Silva e João Seixal. Embaixo: João Martins Pereira, João Estrela (Pombinha), Andrade, Aníbal Almeida e  

 

Veteranos do Ginásio da Torre do Tombo, nos finais de 1940?, grande parte dos quais haviam passado para o Sport Moçâmedes e Benfica quando  da fundação deste clube, em 10 de Setembro de 1936. Da esq. para a dt: Em cima: Edmundo Viegas Seixal, José Pereira, António Guedes da Silva, Arnaldo Martins Bagarrão, João Viegas Seixal e Henrique de Sousa. Embaixo: Aníbal Nunes de Almeida, Carlos Guedes da Silva, Armando Guedes da silva, João Martins Pereira Jr. e João da Silva Estrela (Pombinha)



Mas se o Ginásio Clube da Torre do Tombo nos seus primórdios conseguira reunir o dinamismo e a coerência necessários à sua projecção e evolução, na década de 30, com a evolução demográfica, viu-se perpassado por uma grande crise provocada pelo desentendimento entre dirigentes e os atletas, que redundou no abandono de grande número dos seus melhores jogadores que constituiu um verdadeiro «rombo» para o clube.


Tudo começou, quando Armando Guedes da Silva e Júlio de Andrade encabeçando um processo de desvinculações, não só abandonaram o Ginásio, como levaram atrás de si para o novo clube, o Sport Lisboa e Benfica, posteriormente denominado Sport Moçâmedes e Benfica, formado em 9 de Setembro de 1936, outros tantos jogadores, ou seja Edmundo Seixal, Aníbal Nunes de Almeida, Arnaldo Nunes de Almeida, João da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, Carlos Guedes da Silva, João Viegas Seixal e João Martins Pereira Jr., facto que representou uma verdadeira catástrofe para o velho clube pioneiro azul e branco. Após esta dissenção que se constituiu numa longa inactividade, para o Ginásio, este clube, inda assim, conseguiu recuperar e ganhar em 1946 o Campeonato Distrital de Futebol, sem uma derrota, caso unico futebol Moçâmedes. Foram Jogadores: João da Silva Estrela, João Viegas Seixal, Antonio Baraço, João Cachopa, Eugénio da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, Antonio Gonçalves de Matos (Sopapo), Abilio Lopes Braz, Eduardo Lopes Braz , Lumelino Trindade e Manuel dos Santos (Caboco). 

De entre as vitórias obtidas pelo Ginásio Clube da Torre do Tombo, no final da década de 1920, conta-se a obtida contra o fortíssimo time do Sporting de Luanda, por 2-1, tendo alinhado com os seguintes jogadores: João da Silva Estrela (o popular Pombinha), António Guedes da Silva, José dos Santos Frota, Júlio de Andrade, Aníbal Nunes de Almeida e outros... 

Entre os futebolistas do Ginásio no decurso das épocas, destacaram-se: Avelino Gonçalves (o mais destacado), Maurício Brazão (estrela),Aníbal Nunes de Almeida, Arnaldo Nunes de Almeida, Armando Guedes da Silva, Júlio de Andrade, António Calão,Mário dos Santos Frota, José dos Santos Frota, Antonio Guedes da Silva, Irmãos Peyroteu, Abílio Lisboa Lopes Braz (estrela), Eduardo Braz, João Viegas Seixal ,Cabral Vieira, António Gonçalves de Matos (Sopapo), João Viegas Ilha, Manuel dos Santos (Cabouco) Arnaldo Bagarrão, Mário Telmo Lisboa Frota (estrela), Rui Bauleth Almeida, Carlos Manuel Guedes Lisboa, Carlos Vieira Calão, Artur da Silva Estrela, Eugénio da Silva Estrela e João da Silva Estrela (Pombinha 1929-1950), este último um brilhante jogador.

Nos últimos anos da colonização portuguesa, o Ginásio que nos anos 50 havia recebido uma lufada de ar fresco com a formação da sua aguerrida e simpática equipe de basquetebol feminino, esmoreceu e praticamente apagou-se.





 O Independente Sport Clube de Porto Alexandre foi campeão por 
                                                          três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971)


 

O Independente Sport Clube de Porto Alexandre




O Independente Sport Clube de Porto Alexandre, o segundo mais antigo do Distrito, nascido imediatamente a seguir ao Ginásio, era o único clube desportivo representativo da cidade mais a sul de Angola, Porto Alexandre (actual Tombwa). Simbolizado pelas cores vermelho e negro, e mais tarde após a sua fundação filiado no Olhanense, foi não só o único Clube do distrito de Moçâmedes a ganhar o Campeonato de Futebol de Angola como a vencê-lo por três anos sucessivos :1969, 1970 e 1971, tendo ficado na posse da «monumental taça «Cuca»,  uma vitória estrondosa que ficou a dever-se ao esforço abnegado dos seus jogadores e do seu jogador-treinador, Manuel Gancho e de dirigentes tais como Rui Filipe Barreto de Lara e Manuel Trocado. Dessa equipa tri-campeão de Angola rfizeram parte: Gavino, Ganchi l (treinador e capitão), Gancho ll, Fernando, Cardeal, Quicas, Estrela ll, Estrela l, Osvaldo Bastos, Armandinho, Mário José, Castro, Agostinho e Neto.

Destacam-se ainda outros jogadores que no decurso dos anos deram o seu contributo ao Independente Clube de Porto-Alexandre, como Celestino Carvalho, Tica Peleira, Mário Peleira, Manuel Santos Viegas, Manuel Trocado, Ermelindo Pacheco, Rodrigues, Teofilo, Baraço I, Baraço II, Chiloango, Ernesto Ribeiro, Elisio Alves, Armindo Alves, Hipolito Freitas, Carlos Lopes Alves Oliveira, Evaristo, Agostinho, Viena, Rolando Cunha, Júlio Cruz, João Faustino, Amaral, Parente, José Armando, Carvalho, Eduardinho, Coimbra, Ambrósio (Cicorel), Segismundo de Sousa, Domingos, Armandinho, Mário José, Castro, Capala, Lino, ...

Apesar do Independente ter sido, juntamente com o Ginásio Clube da Torre do Tombo, um dos clubes pioneiros no desporto do Distrito, durante muito tempo viu bloqueadas as suas aspirações de ir mais além, na medida em que não possuia instalações, e o campo que passou a dispôr para os treinos de futebol, a partir de 1953, reduzia-se a um areal nas traseiras da antiga Delegação Marítima. E também, porque as deslocações semanais a Moçâmedes para participar nos campeonatos distritais exigiam um grande espírito de sacrificio aos seus jogadores, dado a morosidade e penosidade dos percursos até à década de 50, tendo que atravessar o deserto em incómodas camionetas que chegavam a demorar 4 ou mais horas para percorrer apenas 100 km. Seria caso de nos interrogarmos: o que seria então o Independente, se este clube pudesse disponibilizar aos seus desportistas as condições existentes hoje nos países avançados?


 No início da década de 1950. Em cima e da esq. para a dt: Rui Torres (dirigente), Mário Leitão, Mário de Andrade Vieira, Mário Rocha, Norberto Gouveia(estrela), João Seixal e... Embaixo: ?? Roberto Martins (Latinhas)??: João Pinto


O Atlético Clube de Moçâmedes

O 3º Clube a surgir no distrito de Moçâmedes, foi o «Aristocrata Clube» em 14 de Junho de 1922, designação algo pomposa e logo em seguida substituida por «Royal Atlético Club», designação não menos pomposa, e esta, por sua vez, por impedimento legal, definitivamente substituida por «Atlético Clube de Moçâmedes», com estatuto aprovado em 14 de Julho de 1922, data oficial da fundação. Recorde-se que nesta altura vivia-se na vigência da 1ª República Portuguesa (1910.26), que em 1910 havia derrubado a monarquia...

A fundação do Atlético ficou a dever-se aos seguintes desportistas: Eduardo Brazão, Anastácio Gomes Coelho, António da Costa Carvalho Jr. Celestino de Freitas, Cristiano Reis, Domingos Parente da Silva,Fernando Quartim Assunçãoo, Gilberto Gato, João de Jesus Falcão, Manuel Honrado, Sérgio Reinaldo Melim e Segismundo Sampaio Nunes. Porém, segundo refere Mério António Gomes Guedes da Silva no seu livro Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola, pg. 2, último parágrafo, «...os auto-intitulados aristocratas foram impotentes para debelar as várias crises por que o Clube passou, devendo-se a sobrevivência do Atlético « prolongada dedicação de alguns dos seus sócios, entre os quais se evidenciam os nomes de Arlindo Cunha, António da Rocha Minas e Raúl Radich Junior.»

Para algum dos futebolistas referenciados acima, vestiram também a camisola do Atlético, Raul Radich Jr., Jorge Radich, Norberto dos Santos, Abel Vaz Pereira, Hugo Vaz Pereira, Sérgio Reinaldo Melim, Gilberto Gato, Domingos Parente da Silva, Cristino dos Santos Reis, Álvaro S Peyroteu, Mário S. Peyroteu, Carlos de Abreu , Fernando Seixas Peyroteu (estrela), Espinha, João de Sousa , Mário Rocha, Mário de Andrade (estrela), Mário Leitão (estrela) , Norberto Gouveia(estrela), João Martins (Latinhas), Roberto Martins (Latinhas) (estrela), José Serreeiro. China, Orlando Teixeira, João Pinto, José Dolbeth e Costa, Joaquim João da Silva (Mangueta) Rui Mendonça Torres, Mário Seixal Almeida, Leovegildo Varandas, Jaime Viana, Fernando Andrade Vieira, Francisco Melo etc. De os mais destacados, destaca-se Fernando S Peyroteo um dos mais brilhantes jogadores de Angola que marcou 700 golos ao longo carreira como avançado centro, tendo alinhado 20 vezes na seleccão. Falecido no ano de 1978, Peyroteo, que se iniciou no futebol na equipe do Atlético Clube de Moçâmedes, e com 15 anos de idade foi seleccionado ,continua a ser invocado como um dos «cinco violinos» do Sporting. e o seu nome invocado como um dos maiores do futebol português.   
 

Como ficou atras dito, o Atletico de Mocamedes foi o 3º Clube a surgir no distrito de Moçâmedes, em 1922, e quando mais tarde recebeu uma carta do Atletico de Luanda a convidar este clube a filiar.se a ele, Eduardo Brazao, o seu Presidente respondeu que a ter que filiar/se seria o Atletiso de Luanda ao de Mocamedes, pela maior longevidade.








O Sporting Clube de Moçâmedes

Nesse mesmo ano de 1822, a 1 de Julho surge um 4º Clube no distrito de Moçâmedes: o «Sporting Club Leitão» formado por um grupo de funcionários da casa Rogado Leitão, de cuja Direcçãoo constavam os seguintes nomes: Francisco Lopes Braz (Presidente), Arménio Rocha Mangericão (Secretário), José Carlos de Freitas Jr. (Tesoureiro), Pedro Parente da Silva, Henrique Sena Jr e Jossé Augusto Quadros (Vogais), sendo o Conselho fiscal preenchido por António Parente Albuquerque e António Leitão Oliveira. Este clube passou a denominar-se Sporting Clube de Portugal em 2 de Agosto de 1822, e no ano seguinte em Assembelia Geral de 22 de Maio de 1923, passou definitivamente a denominar-se Sporting Club de Moçâmedes, tendo como o Sporting Clube de Portugal, do qual se tornaria a 9ª filial, adoptado como símbolo a águia e as cores branco e verde às riscas. Seria injusto não deixar aqui expressos os nomes de tantos outros jogadores sportinguistas que ainda que não fazendo parte destas foto, ao longo de tantos anos deram o seu esforço em prol do Sporting, tais como: Júlio S, Peyroteo (estrela), Emelino Abano, Joaquim Guedes da Silva, Telmo Vaz Pereira (estrela), António Pedro Bauleth, Angelo Nunes de Almeida, Eduardo Sampaio, Pedro Paulo, Rogério Pompeu da Silva, Fernando Vilares, Mário Frota Tendinha, Carlos Maria Inácio (estrela), Alfredo Sales Esteves, Hugo Bento Maia, José Pedro Bauleth (estrela), Adriano Nascimento Jr. (estrela), Carlos Lopes Alves de Oliveira, (estrela), José Costa, Pedro Costa, Manuel Maria Inácio, Pinto, Renato de Sousa, Justo Monteiro, Honorato Monteiro, Francisco de Freitas, Eugénio Alípio, Manuel Veli de Sousa (estrela), José Esteves Isidoro (estrela) etc, etc.. O Sporting foi o único Clube que conquistou quatro campeonatos distritais consecutivos, sendo muitos dos seus atletas dessa época convidados para integrar a selecção. De entre os jogadores do Sporting que mais realce tiveram contam-se: Júlio Seixas Peyroteu, Telmo Vaz Pereira, Carlos Lopes Alves de Oliveira, Manuel Veli de Sousa. Entre os nomes que figuraram nas suas direcções, destacamos: José Carlos de Freitass, Comandante Fragoso de Matos, Arnaldo Sanches Osório e por último, João Thomaz Sena da Fonseca.



 

Foi esta equipa praticamente em peso que abandonando o Ginásio Clube da Torre do Tombo, fundou o Benfica de Moçâmedes. Em cima, da esq. para a dt.: Melquíades, Edmundo Seixal, Joaquim Monteiro, ?, Armando Guedes da Silva, Carlos Guedes da Silva e João Seixal. Embaixo: João Martins Pereira, João Estrela (Pombinha), Andrade, Aníbal Almeida e 


O Sport Moçâmedes e Benfica

Finalmente a 10 de Setembro de 1936, a partir do desentendimento acima referido entre alguns jogadores do Ginásio Clube da Torre do Tombo e a sua Direcção, surge o último clube a ser criado no distrito de Moçâmedes : o Sport Lisboa e Moçâmedes, nome em seguida alterado para Sport Moçâmedes e Benfica, tendo por sómbolo águia altaneira e as cores vermelho e branco. Da sua Comissão organizadora fizeram parte nomes como: Caetano José de Almeida, (popularmente conhecido como Cabo Almeida, pertencente ao então corpo da Guarda Fiscal), Júlio Andrade, Armando Guedes da Silva, João Guedes da Silva e João de Almeida. Da 1ªa Direcção do Sport Lisboa e Benfica (1937/1938) fizeram parte: Armando de Freitas Campos, Luciano da Cruz Coquenão, Francisco Antunes da Cunha, Manuel Ferreira Barbosa, António Guedes da Silva, Óscar Duarte de Almeida, Hemitério Alves de Oliveira e Alberto Ferreira da Silva.
Com a formação do Sport Moçâmedes e Benfica, outros tantos jogadores do Ginásio passaram-se para esta equipe deixando o Clube azul e branco completamente desfalcado, enquanto o Benfica ia alcançado retumbantes vitórias, tendo ganho inclusive a Taça Inauguração.

Resta salientar aqui nomes de outros tantos jogadores que nas diferentes épocas contribuiram para engrandecer o futebol do Sport Moçâmedes e Benfica: Vitor Fernandes, Mário França, João Rodrigues Trindade Jr., José Braga, Américo Viveiros, Joaquim dos Santos João de Almeida, Alcino Quintino, Adelino Correia, José Ferreira Rangel, Ernesto Ribeiro, Renato Silva, Manuel de Oliveira Leitão, Cachiço. João Teixeira da Silva , Manuel Sales Esteves, Digialme Bernardinelli, José Costa Santos, Camilo Costa, Jaime Ferreirim, Carlos Alberto Trindade Abreu (Nito), Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo), Vitorino Simão, David Proença, Clélio Cunha, João António Guedes da Silva, Mário António G. Guedes da Silva, Orlando Ferreira Gomes, Ernesto da Luz Gonçalves, Sérgio Nunes da Silva (estrela), João Teixeira da Silva (estrela), Luis Ferreira Rangel (estrela), Narciso Cruz (estrela), Carlos Robero Freitas de Sousa (Beto) (estrela), Jorge Madeira, José Andrade, José Paiva, Casimiro Figueiredo Jorge, Emilio Teixeira, Jorge da Silva Loures, etc

Nota: Texto elaborado a partir da leitura do livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola», de Mário António Gomes Guedes da Silva.




OUTRAS MODALIDADES DESPORTIVAS EM MOÇÂMEDES

1. Ténis (Lown-Ténis):




Fotos:
1ª foto: Rogério Trindade, campeão de Angola em 1937

2ª foto: Torneio de ténis no complexo desportivo do Benfica integrado nas Festas do Mar e, Março de 1970. Rogério Ferreira Trindade, campeão o Torneio recebendo a respectiva taça das mãos do Encarregado do Governo do Distrito de Moçâmedes, acompanhado do Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes.

3ª foto: Jorge Ressurreição Rocha, ex-tenista moçamedense e ex-campeão de Angola, homenageado em Março de 1970, estando presentes o Encarregado do Governo do Distrito de Moçâmedes, acompanhado do Presidente da Câmara Municipal da cidade.


Levava-se a sério em Moçâmedes a prática desta modalidade, principalmente até à década de quarenta (século XX), pressupostamente por a cidade estar dotada de alguns «courts de ténis» apropriados, e , crê-se, por não existirem outras alternativas desportivas senão o futebol. Ali foram formados vários campeões, reconhecidos não só em Angola mas também internacionalmente, para gaudio dos seus apaixonados adeptos. A dedicação e a determinação dos respectivos atletas levava-os à concretização dos sonhos de uma jovem cidada com justificadas ambições em todos os campos.
Fascinados pela elegância deste desporto e pela inclusão da modalidade nos jogos olímpicos, desde 1896, com acompanhamento entusiástico, alguns jovens da geração de ouro (décadas de trinta e quarenta) preparavam-se intensamente, até ao desejável conquista do pódio. Por ser uma modalidade considerada selecta, o número de atletas praticantes foi sempre reduzido, comparado com os desportos colectivos. Eram frequentes os torneios de «singulares» e de «duplos», de ambos os sexos, e não eram poucos os torcedores que extravasavam as suas emoções.

 

 


Após a criação da Federação Internacional de Ténis - FIT, em 1928, e a consequente profissionalização, em Moçâmedes continuou existindo o amadorismo puro, não obstante o somatório de sucessos dos seus tenistas.

No ano de 1939 o campeonato de Angola integrou alguns tenistas procedentes de Portugal, Domingos D'Avillez, António Calém, Nicolau de Almeida e Eduardo Ricciardi, figuras de relevo no ténis português. Neste ano os representantes do Continente evidenciaram inegável superioridade, tendo sido finalistas Avillez e Ricciardi, que este ganhou com mérito.

Destacamos alguns destes mitos e pioneiros, todos naturais de Moçâmedes-Angola, de geração de ouro, imortalizados pelas suas retumbantes e memoráveis vitórias:



ARTUR TRINDADE venceu os dois primeiros campeonatos de Angola, nos anos de 1934 e 1935 em singulares. Também vitorioso noutros torneios importantes e lider desta modalidade em várias épocas. Na variante de «pares» ganhou algumas competições destacadas, fazendo parceria com o irmão Rogério Trindade.

MARY MOTA, igualmente a primeira campeã de Angola e vencedora de muitos torneios em algumas épocas.

JORGE RADICH, um dos principais valores de ténis angolano - 4 vezes campeão de Angola em pares mistos, 7 vezes vencedor da «Taça Bulock». Vencedor de 29 troféus e considerado o tenista angolano com o maior número de campeonatos ganhos.

ROGÉRIO FERREIRA TRINDADE, nasceu em Moçâmedes no ano 1919 e começou a praticar ténis com 15 anos de idade, tendo recebido ensinamentos básicos, de técnica e táctica, da parte do seu irmão Artur, então praticante de excelente nível. Campeão de Angola uma vez, em 1937, além de detentor de títulos em competições relevantes realizadas naquele território, inclusivé na variante de «pares», de parceria com o seu irmão Artur Ferreira Trindade.

JORGE DA RESSURREIÇÃO ROCHA, campeão de Angola no ano de 1946 e também de outros torneios importantes. Sobre este atleta, correcto e de enorme valia, o comentarista, Carlos da Cruz Almeida, ao serviço da Radio Difusora do Lobito - CR 6 AA-, disse em 1947: «Desportista-Tipo é o homem de porte correcto e hábil na prática desportiva, espécie rara em Angola». Aqueles que o conheceram como desportista polivalente, na prática de futebol (No Lobito Sport Clube e no Sport Lisboa e Luanda), ténis, atletismo, natação e outras, sabem bem o quanto é merecedor dos elogios patenteados, pois este desportista sempre conservou imaculado o ideal em prol do desporto do Desporto, na perfeita acepção da palavra.

Outros tenistas, como RAUL RADICH JÚNIOR, EDUARDO FERREIRA TRINDADE, MAURÍCIO DE ANDRADE, MÁRIO DA RESSURREIÇÃO ROCHA, entre outros, também honraram o ténis moçamedense, com a grandeza das suas brilhantes actuações e vitórias.

A homenagem a todos estes desportistas moçamedenses dedicados ao «ténis», não é um mero agradecimento pelos sucessos desportivos consagrados Terra onde nasceram, mas sim a perpetuação dos seus nomes como gloriosos filhos que a honraram,
é um dever fazê-la!

Esquecendo sério Renegá-los!


O TÉNIS DE MESA

O invento deve-se ao inglês James Gigg no ano de 1898. Foi no ano de 1900, entretanto, que em Inglaterra, com intuito comercial uma empresa implantou um «brinquedo» que proporcionou às crianças divertimento e encantamento, constituido por uma mesa, uma rede ao meio, uma pequena bola ôca de celuloide e duas raquetas. Este brinquedo, a que foi dado a designação de «ping-pong» pelo som repetido produzido pela bola ao bater sobre a mesa, caiu em graça junto dos respectivos utentes e daí a imediata proliferação deste desporto, que passou a denominar-se «ténis de mesa» pela semelhança com o «lown-ténnis».

Rapidamente começou a ser praticado dos Estados Unidos da América, já em 1901, tornando-se extensivo a outros países dos Continentes Europeu e Asiático.

A Federação Portuguesa de Ténis de Mesa, foi fundada há sessenta anos, em 1944, quando a Federação Internacional já existia em 1926.

Até meados do século XX foi a Hungria a maior potência internacional desta modalidade e a partir daí dominaram os países asiáticos, especialmente a China que conquistou treze das dezasseis medalhas de ouro disputadas. Foi em Seul (Coreia) que se realizou o primeiro certame olímpico, em 1988.

Em Moçâmedes (Angola),foram organizados torneios de tenis de mesa a partir da decada de quarenta, em consequência da influência de Abílio Gomes da Silva, filho da terra, que tinha no seu palmarés o título máximo português de campeão nacional. Era brilhante, esquerdino, invencrível! Conseguiu formar um elenco extraordinário, representando o Sporting Clube de Moçâmedes, constituido pelo próprio, por Carlos Lopes Alves de Oliveira e Renato de Sousa; Roberto Martins do Atlético; Sousa Marques e Humberto Pinho Gomes, do Benfica, todos praticantes de bom nível.

Sendo uma modalidade restrita, seduziu apenas uma dezena de seguidores em Moçâmedes e, portanto, como seria de esperar não arrebatou o público, este mais afecto ao desporto colectivo. É que o ténis de mesa sempre foi tido como parente distante do lawn-ténnis...

ABÍLIO GOMES DA SILVA foi o marco inesquecível do ténis de mesa no distrito de Moçâmedes, respeitado por antagonistas angolanos e nacionais.

OS DESPORTOS NÁUTICOS




A "Guiga" do Ginásio Clube da Torre do Tombo  a ser recolhida na Praia das Miragens pelos remadores: Edmundo Ramos de pé, com remo), Mário António Guedes da Silva, João Carlos Guedes Duarte, António Martins Nunes (Cowboy), e Eugénio da Silva Estrela.
A "Guiga" do Ginásio e seus remadores, na Praia das Miragens no início dos anos 1950,  rodeada de remadores  amantes desta modalidade e curiosos. Entre eles, da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Lopes Braz, José Ferreira, João Viegas Ilha, Velhinho, Mário Lisboa Frota (Mariuca), Virgilio Gonçalves de Matos e António Gonçalves de Matos (Sopapo). De pé, à esq. Olimpia Aquino, Marizete Veiga e em 1. plano, Raquel Martins Nunes. Junto da ponte, sobressai por detrás dos ocupantes da guiga e junto ao guindaste da ponte, a vela de um "sharpie".Ao fundo a Fortaleza de S. Fernando e a ponte de embarque e desembarque com seu guidaste

Um "sharpie" da Mocidade Portuguesa, na baía de Moçâmedes, em 1946. Velejadores: Mário António Guedes da Silva e Mário Telmo Lisboa Frota (Mariuca).



O REMO E  A VELA
 



Falando um pouco deste desporto, pela pena de Mário António Guedes da Silva:


A navegação, tanto da parte dos primeiros colonos que do Brasil atravessaram o Atlântico corajosamente, na barca "Tentativa Feliz" e no brigue "Douro", em meados do século XIX, em 1849, como dos emigrantes algarvios que em barcos frágeis percorreram o caminho marítimo para Angola, para se fixaram no Oásis de Moçâmedes e aí angariarem o sustento de suas famílias, na segunda metade do século, marcou profundamente todos os que fizeram desta terra o seu habitat.

A pesca foi desenvolvida incomensuravelmente e os barcos de pesca, com as suas velas desfraldadas ao vento na baía circular da Angra do Negro, transmitiram seguros ensinamentos a uma população crescente, na sua maioria dedicada às  lides piscatórias.

Portanto, a prática do desporto, na vertente VELA foi de fácil assimilação , obviamente, trazendo para o Distrito alguns títulos, tanto da classe de "sharpie 9m." , numa primeira fase (década de quarenta), como da classe "Snipes", numa segunda fase (décadas de 50 e 60...).

Os respectivos velejadores desportivos pertenciam ao Centro Náutico da Mocidade Portuguesa, instituição nacional, patriótica, cujo regulamento foi aprovado em 4 de Novembro de 1936 por decreto N. 27301. Eram estudantes vinculados à  Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, estrelas de uma constelação imorredoura, tendo por instrutor, o líder dedicado, Emidio Cecílio Moreira.

As regatas eram normalmente realizadas na baía de Moçâmedes, com ventos moderados, nomeadamente aquando dos festejos tradicionais comemorativos da fundação da cidade, assistidas por numerosa população apaixonada, que se perfilava ao longo da Praia das Miragens.

Nas primeiras regatas, antes da utilização de sharpies e de snipes, defrontavam-se baleeiras de pesca não são de Moçâmedes como de Porto Alexandre. Alguns timoneiros destas evidenciaram saber e experiência, destacadamente Aníbal Nunes de Almeida, Virgilio Nunes de Almeida, João Lisboa, mas foi Virgilio o que mais títulos conquistou, na baleeira Laura.

No concernente ao sharpies, destacaram-se velejadores como Rogério Gomes Ilha, António Artur Ferreira (Penha), Mário José Sequeira de Melo, Cassiodoro Sequeira de Melo, Adélio, Mário António Gomes Guedes da Silva, Armando Guedes Duarte, Armando Ferreira Gomes e outros. São referidos, a seguir, os velejadores de snips primeiramente de madeira e depois de fibra,: Fausto Ferreira Gomes, Leonel Matos Mendes, Fernando Matias, Heider Guedes Duarte, Mário Alexandrino Guedes Duarte e outros.

Mas o título mais honroso para Moçâmedes foi o alcançado no ano de 1956, em Luanda, em snipes, por Fausto Ferreira Gomes, um assíduo vencedor, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos - Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes.

Na prática deste desporto foram sempre mantidas as vincadas dedadas do passado, apesar das mutações qualitativas dos equipamentos. impostas em nome do progresso. A virtude sempre imperou!

Relativamente à modalidade REMO, o entusiasmo decrescia, já que existia somente três barcos, um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, uma "guiga" do Ginásio Clube da Torre do Tombo e um "Yolle" do Centro Nautico da Mocidade Portuguesa.

Embora musculosos os respectivos remadores, a insuficiência de treinamentos adequado impediu o pleno sucesso das equipas respectivas, contudo, a rivalidade entre eles foi sempre notória, sob manifestações populares de simpatia.

Não havia condições, obviamente, de participar em grandes competições intra-muros, que eram então lideradas por tripulações do Lobito e de Luanda.






A NATAÇÃO

 
Na foto, tirada em 1946, alguns dos nadadores moçamedenses. Em cima e da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo: Mário António Guedes, António Artur Ferreira (Penha) e António da Silva Braga (Braguinha). Como treinador, Joaquim Pereira Bajouca.

Escreveu um dia, jornalista credível e isento, que Moçâmedes é senhora da melhor praia de Banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonda de Novembro a Abril temporada mais fértil em animadas diversões do que muitas praias de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm mar calmo e condições de tanta segurança que têm servido para amaragem de hidroavião. (...)

Assegurava, portanto, as condições ideias para aprendizagem de natação, na vasta extensão de praias de areia prateada (...) Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (...) e até da parte superior do guindaste existente no cais da alfândega usualmente utilizada do embarque e desembarque de cargas.

Ali se "fabricavam" promissores nadadores!


Mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, aliados à realidade de então, da inferior rentabilidade resultante da utilização de eventual piscina, custa construção implicaria um custo elevado, compatível portanto, não incentivaram nunca, a realização desse desiderato. Além disso, a "Praia das Miragens" pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria o público representado por milhares de espectadores, entusiásticos e emotivos. As prioridades recairam noutros investimentos, da parte da autarquia e das direcções dos Clubes...

E assim foi protelada, ano após ano, a construçãoo de uma piscina olímpica onde se pudesse praticar provas, visando melhorar os índices já conseguidos.

Independentemente disso, os Clubes locais não possuiam nas suas sessões de natação um técnico-preparador à altura, que pudesse ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito desta modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu belo prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupado em atingir os percursos no menor tempo possível.

Em casa de ferreiro, espeto de pau!
 

O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e apetência.
Isso bastaria, presumia. Todavia, eram atingidas boas marcas, considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.

A NATAÇÃO como desporto olímpico, está em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no número de modalidades e estilos. Até 1908, ano em que foram construidas as primeiras piscinas, as provas vinham sendo realizadas em mar aberto, ou mesmo em rios como aconteceu no "Sena", em 1900. Moçâmedes ainda enfermava desse mal, de não ter dado as mãos  à evolução desde 1908!

Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição, que a seguir são lembrados:

a) Classe feminina (100 metros livres)
Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outas.

b) Classe masculina:
- De fundo : Da praia do Cano à Praia das Miragens - 1000 metros-
António Braga, Manuel dos Santos (Cabouco), ambos do Ginásio Clube da Torre do Tombo
Renato Nunes da Silva e Sérgio Nunes da Silva, ambos do Sport Moçâmedes e Benfica
José Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético.
-De curtas distancias -100 metros-
António Martins Nunes (Cowboy), do Ginásio
Porfírio Ferreira, do Sporting
Rogério Gomes Ilha, do Sporting
Mário Andrade Vieira, do Atlético
Norberto do Vale Gouveia, do Atlético
Vicente Ferreira, do Benfica
Artur Paulo de Carvalho, do Sporting
Ermelindo da Costa Pacheco, do Independente
Angelino França, do Benfica
-Saltos acrobáticos:
Porfírio Parreira, do Sporting
Túlio Parreira, do Sporting
Romualdo Parreira, do Sporting

José Luis Pinto, do Sporting

 




1ª imagem: José Luís Ferreira Pinto, Albertino Marreiros e Gomes Luís, ciclistas do Sport Moçâmedes e Benfica, que se deslocaram a Portugal em representação da cidade de Moçâmedes, para participar em provas de ciclismo. (Foto: 2.10.1953). 2º foto: Corridas Em 14.09.1952. José Luís Pinto e Francisco do Carmo ainda lideravam a corrida nesta altura. 3ª foto: Corridas Em 14.09.1952. Emocionante chegada à meta, com o triunfo de Albertino Marreiros num sprint aplaudido pelos espectadores.


 
O CICLISMO :

No início da década de cinquenta, o Benfica de Moçâmedes foi o natural precursor na formação de uma equipa de ciclismo. para o que contou com a orientação assegurada por dois experientes algarvios de Tavira - José Diogo Cavaco e António Cavaco - além do entusiasmo, trepidante embora, de alguns adeptos da modalidade.
Após um periodo razoável de preparação, realizou-se o «Primeiro Circuito de Moçâmedes», que galvanizou a cidade, saindo vitorioso o ciclista Albertino Marreiros, seguindo-se-lhe o promissor e polivalente desportista José Luis Pinto e Francisco do Carmo, inscritos no Sport Moçâmedes e Benfica, clube organizador.

Deu-se continuidade das competições internas de ciclismo, o suficiente para o amadurecimento daqueles atletas e de outros, com vista a posteriores eventos de mais destacada craveira. A oportunidade chegou célere, com a realização de uma corrida inter-cidades com partida de Sá da Bandeira e meta final em plena cidade de Luanda, num percurso superior a mil quilómetros. A poucas etapas do termo da corrida, a equipa moçâmedense já conquistara a vantagem de duas horas sobre os seus mais directos adversários. quando surpreendentemente foi noticiado o abandono desses atletas, sob decepção geral.

Ardeu Tróia! Até então quase toda a população acompanhava a evolução dos ciclistas da Terra, aplaudindo-os, já que era impensável o malogro. Mas o ciclismo moçamedense não foi denegrido, não obstante o sucedido. Teve continuidade durante alguns anos mais, mas a cicatrização da ferida demorou até que supervisores e corredores se cansaram, em consequência da quebra de apoios. E faltou força motivadora, diga-se em abono da verdade. A marca do ciclismo de Moçamedes ficou personalizada naqueles dois primeiros excelentes atletas: MARREIROS E PINTO.





 

A GINÁSTICA

A Ginástica que advém da expressão grega «Gumnos» e significa «nu», é comprovadamente essencial para a obtenção progressiva de resistância à fadiga, para aperfeiçoamento dos movimentos naturais e para o fortalecimento da musculatura, tendo em vista o apoio à prática de qualquer modalidade desportiva, quer por atletas do sexo masculino quer do sexo feminino.

Moçâmedes beneficiou, quase sempre, de bons professores de cultura física, a que corresponderam os seus desportistas voluntariosos.


No campo da «Educação Física» há que enaltecer a grande figura do Professor ÂNGELO MENDONÇA, diplomado pelo Ginásio Clube Português, por ter contribuido, indelevelmente ,para a valorização desportiva moçamedense. Partiu deste Homem a criação da primeira Escola de Cultura Física na cidade, vinculada ao Atlético Clube de Moçâmedes, na década de trinta, ministrando ensinamentos de grande valia às classes sob a sua supervisão. Foi mentor, igualmente, de várias modalidades, a que se dedicou entusiásticamente no decurso de muitos anos. Com a sua partida de Moçâmedes, os desportistas do Atlético não o esqueceram.

Durante algum tempo a lacuna deixada não foi preenchida, até que no ano de 1939, foi criada uma nova escola de «ginástica artistica», de excelente nóvel por AUGUSTO QUENTAL DE MENESES, também formado no Ginásio Clube Português, em Lisboa, e cuja fixação em Moçâamedes se deveu à influência de seu pai, que então exercia o cargo importante de Intendente do Distrito de Moçâmedes.

Este era o arauto do perfeccionismo, especialmente no exercício do trapézio, e, outrossim, noutras modalidades afins, como barra fixa, argolas, cavalo com alças, barras paralelas simétricas, assimétricas e trave de equilíbrio. A classe que orientava, cuadjuvado pelos irmãos Henrique, Rui e Armando, também experientes ginastas, abrangia homens e mulheres, em número elevado crescente, tendo atingido valor exponencial alto. Organizou saraus inesquecíveis, que mereceram rasgados elogios dos críticos e aplausos inesgotáveis da própria população, muito interessada no melhor desenvolvimento da sua prole. Este professor ,«gentleman» mas impecável, - Augusto Quental de Meneses de seu nome - chegou mesmo a formar uma equipa de basquetebol masculino para defrontar a do Sport Moçâmedes e Benfica, na altura treinada por Cecilio Moreira, de quem se desertar. a seguir.

Ainda Jovem, EMIDIO CECILIO MOREIRA, então vinculado à Marinha Portuguesa, com destino à Capitania do Porto de Moçâmedes, campeão nacional de box, de peso médio, «aportou» em Moçâmedes no limiar da década de quarenta, ainda com acentuadas rosetas na face, indício indesmentível da sua proveniência, a Metrópole, como se dizia.

Em obediencia às exigências do «Desporto» no seio da «Mocidade Portuguesa» foi indigitado para monitor da instituição local, mormente na orientação das das diversas classes de ginástica de apoio s escolas oficiais da ainda jovem e progressiva cidade.

O sucesso alcançado motivou a expansão da sua actividade, agora junto do Sport Moçâmedes e Benfica, como professor de ginástica das classes jovens - feminina e masculina- , por diligências do que foi Presidente consagrado do Clube, Luciano da Cruz Coquenão. Daí resultou a criação das equipas de basquetebol, inseridas nas classes já referidas, afectas à ginástica.

Dinâmico que era, Cecílio Moreira, conseguiu encetar novas secções dentro do clube, aproveitando a evolução do estado físico dos ginastas a seu cargo e adequando-os a cada modalidade. A imaginação daquele jovem instrutor foi persistentemente focalizada pela massa associativa do lube, que o respeitava pela sua personalidade, dedicação e proficiência, reflectidas nos resultados dos embates com equipas antagonistad de então.

No limiar da década de cinquenta, o Sport Moçâmedes e Benfica tomou a feliz iniciativa de implementar uma classe feminina de «ginástica no solo», com a proficiente direcção da professora «MADAME SIBLEYRAS», de origem francesa, com inscrição inicial de vinte atletas, mas com crescimento contínuo à medida em que os êxitos eram alcançados.

Madame Sibleyras chegou a acrir outra sala, de «ginástica ritmica», de sua própria iniciativa, em face das preferências de muitas jovens moçamedenses, tendo chegado a exibir-se, repetidamente, no palco do Cine Teatro de Moçâmedes. Este facto deu lugar a destacadas referências, numa conferência do médico, Dr. Rui Ferreira Coelho, e, 1955, na sede do Independente Sport Clube de Porto Alexandre, consagrada à «medicina desportiva». Insuperável dedicação desta competente professora, que a imortalizou!

Em Porto Alexandre, ento uma vila piscatoria, a preparação dos rapazes e raparigas intensificou-se a partir do ano de 1955, com aulas regulares de boa ginástica, aos olhos de Rui Ferreira Coelho, médico conceituado, ministradas pelo professor VIRIATO MARQUES. Foi notória a elevação da qualidade do desporto alexandrense, em consequência da seriedade com que se cumpria o programa de ginástica no solo, com obervação e apoio dos dirigentes daquela prestigiosa colectividade.

A pluralidade de opções da juventude do Distrito - ginástica no solo, ginástica artística e ginástica ritmica - muito favoreceu o desenvolvimento do desporto na região.

Afinal, a ginástica é indubitavelmente o artífice da graciosidade dos movimentos no concernente ao sexo feminino, como generoso gerador do desenvolvimento do corpo masculino.

Por último, após ter-se tratado o cenário que a Moçâmedes diz respeito, é oportuno dizer algo sobre a «GINÁSTICA» no âmbito dos jogos olímpicos, a título meramente informativo, para se aquilatar da sua real importância:

- A ginástica é o motor das cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos, sem carácter competitivo, reconhecida como fundamental pela criatividade, plasticidade e expressão corporal aliada à sincronização de extenso número de participantes, enfim, pelo virtuosismo que encena.

- A "ginástica artística" tornou-se desporto olímpico em 1896, há 108 anos, são para a classe homens, com a hegemonia das escolas alemães. porém, foi no ano de 1928 extensível às mulheres. Apenas a partir de 1952 é que as atletas do sexo feminino puderam exibir-se em todas as modalidades, já que anteriormente apenas tinham acesso aos exercícios combinados individuais, o salto sobre o cavalo, e exercícios no solo.

-Em 1952, a Russia evidenciou o seu poderio na modalidade, através do seu ginasta Viktor Chukarin, especielmente, que venceu quatro medalhas de ouro. No tocante à participação feminina, foi a russa Larissa Latynina, que obteve recorde absoluto de medalhas ( nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze).

-A "ginástica ritmica" desportiva, com bola, corda, arco e fitas, teve início em 1922, apenas para atletas do sexo feminino.

-Há dezasseis anos que Portugal não conseguia acesso aos jogos olímpicos, na "ginástica artística", regressando no ano 2004 através do ginasta Filipe Bezugo, nascido na Ilha da Madeira.

O somatório de êxitos de "DESPORTO" é devido à ginástica, sobretudo. Há que render-se homenagem a "GUMNOS"!




O BOX E  A ESGRIMA

Ao contrário do que sucedeu com a esgrima, a longevidade do box em Moçâmedes foi mais consistente.~~Nas décadas de vinte e trinta, já o box era praticado na bela cidade de Moçâmedes, ainda que empiricamente, pondo em pulvorosa os muitos adeptos fervorosos.

Esta modalidade esteve integrada nas sessões desportivas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Os boxeadores que mais entusiasmaram o público foram OCHOA e FAQUINHAS, na modalidade de pesos super pesados, correspondente a mais de 91 quilos. Era técnica com força...

As respectivas sessões eram realizadas no palco do vetusto mas lindo Teatro Garrett, que na altura já albergava mais de quinhentos espectadores, entre plateia, camarotes e frisas.

Ochoa, experiente lutador, e Faquinhas, homem corpulento e impetuoso, eram adversários temíveis. Este último demonstrava a sua brutalidade colocando um barril com vinho (100 litros) sobre o balcão da tasca que habitualmente frequentava. O primeiro prélio estava anunciado, e poucos eram os que acreditavam numa derrota de Faquinhas. Era visível o receio de Ochoa, mas confiante e concentrado entrou no ringue, sob as cordas. O gongo tocou! Punhos fechados, olhos nos olhos, os primeiros toques eram de ensaio. O truculento Faquinhas quase derrubara o adversário na primeira tentativa a sério. Ochoa protegeu-se, fitando-o. o que se repetiu nas seguintes investidas de Faquinhas. O público aplaudia freneticamente. a casa estava lotada. Terminara o primeiro assalto, o segundo, e no terceiro Faquinhas já evidenciava sinais de cansado. Foi quando Ochoa desferiu o golpe de misericórdia. Faquinhas tombou! KO impressionante. Foi um delírio!

A desforra foi aceite por Ochoa e no novo combate realizado algum tempo depois, antes que se repetisse a sua consideração de vítima. Faquinhas derrubou o antagonista de forma visivelmente irregular. Imperou a truculência! Terminou tacitamente a luta!

Entretanto, na década de quarenta, de novo pela iniciativa do Sport Moçâmedes e Benfica, foi criada uma sessão de box supervisionada por Emídio Cecílio Moreira, ex-campeão nacional de peso médio. Muitos Foram os que se apresentaram aos primeiros treinamentos, mas, apenas uma filtragem consciente foram seleccionados os que melhores considerações revelavam, técnicas e físicas. Dos que realizaram combates, são destacados os seguintes:

-Pesos leves (60 quilos)
Carlos Cachiço
Wilson Pessoa
-Pesos médios (75 quilos)
Ninica
Fernando Oliveira
Jaime Nunes de Carvalho
Tiago Costa

Foram levadas a efeito exibições memoráveis no recinto do clube, com razooável frequência, entre os executantes asima e outros eventuais desafiados, de outras procedências. Tiago Costa e Fernando Oliveira atingiram níveis técnicos relevantes, deslocando-se até, a outras regiões angolanas para disputa de títulos, também inesquecíveis.

Emidio Cecilio Moreira e José Pedro de Oliveira Júnior (Maboque) arbitraram alguns dos combates realizados.
 

Entretanto, com a ausência do treinador Emidio Cecilio Moreira verificou-se crescente desânimo, até que se deu a extinção total, já na década de cinquenta.

Moçâmedes tinha vocação para o desporto, mas o Box, tal como a Esgrima não sairam vitoriosos quando foi necessário esgrimir com outras modalidades desportivas colectivas. Foi irresistível!

O box foi introduzido nas Olimpíadas no ano de 1904. Em 1912, quando a Suécia foi anfitreão dos Jogos Olímpicos, proibiu a integração da modalidade, além de ter tentado essa restrição, em vão, realativamente aos futuros eventos.

O BILHAR


Os clubes desportivos proporcionaram aos seus sócios e atletas a prática de jogos de bilhar, mas sem o carácter de competição inter-clubes.

No entanto, muitos foram os bilharistas que revelaram condições excepcionais ao "bilhar russo", entre os quais se destacavam; José de Mendonça Teles, Humberto Teles, Carlos Roberto Freitas de Sousa, Abílio Lisboa Lopes Braz, António Patrício Correia e outros.

Aos efeitos de suas tacadas, as bolas obedeciam como por magia!

Apenas por mera curiosidade, acrescenta-se qie em meados do século XIX já se praticava este desporto. Originalmente as bolas eram de marfim, muito caro, considerava-se na época. Por isso, em 1869 o norte-americano Junh Wesley Hiatt, de Nova Iork, substituiu-as por outras de material económico, de sua produção, a celuloide. Contudo tal plástico possuia nitrocelulose (algodão, pólvora explosiva), que originava explosão quando batidas entre si com violência. Voltou-se ao uso do mármore, finalmente substituido por plástico do tipo não explosivo


 Rali do Caraculo


Rui Duarte de Mendonça Torres

  O AUTOMOBILISMO


As décadas de 40 e 50 d0 século XX foram férteis no âmbito desportivo moçâamedense, em função do progresso económico do Distrito. A criação de um "sector desportivo" no âmago do Rádio Clube de Moçâmedes, especialmente dedicado ao desenvolvimento ao "automobilismo" e aproveitando-se das qualidades da Terra, trouxe muitos momentos de júbilo, independentemente dos reais benefícios para o turismo do Sul de Angola.

O primeiro campeonato de automóvel de Moçâmedes realizou-se em 1955, com inexcedível entusisamo, atribuindo-se tres classes -A,B,C-, de acordo com a cilindragem dos automóveis concorrentes, em número de dezasseis.

A classificação final ficou assim ordenada, exclusivo duas desistências dos concorrentes, Artur Ferreira Trindade e Eng. Ventim Neves:
Classe A:
1. Fernando Veloso de Oliveira
2. Mário Baptista de Sousa
3. Rui Duarte de Mendonça Torres
4. Rogério Baptista de Sousa
5  José Martins Cristão Junior

Classe B:
1º Gaspar Gonçalo Madeira
2º Fernando Pereira Cabeça
3º Mário António Trabulo

Classe C:
1º Artur Homem da Trindade
2º Dr. Mãrio Moreira de Almeida
3º Dr. Garcez Palha
4º Alberto Ferreira da Silva
5º Engº Romero Monteiro
6º Firmino José Parrança

Classificação final global (por índice de aproveitamento):
1º Artur Homem da Trindade
2º Engº Romero Monteiro
3º Gaspar Gonçalo Madeira
4º Artur Ferreira da Silva
5º Fernando Veloso de Oliveira
6º Fernando Pereira Cabeça
7º Dr. Garcez Palha
8º Mário Baptista de Sousa
9º Firmino José Parrança
10º Rui Duarte de Mendonça Torres
11º José Martins Cristão Júnior
12º Dr. Mário Moreira de Almeida
13º Mário António Trabulo
14º Rogério Baptista de Sousa

Foi o primeiro passo da modalidade, nomeadamente «puzle», «rallys», em especial integradas nas Festas do Mar, cada vez mais equilibradas e com melhor qualidade dos respectivos carros.

O perfil do centro da cidade de Moçâmedes prestava-se a estas provas, mas anualmente os circuitos beneficiavam de justificadas e oportunas correcções.


                            Henrique Ahrens de Novais, entre Dina Chalupa e Jaime Lúcio dos Santos

O circuito das «Festas do Mar», em Moçâmedes, em 30 de Março de 1969, em que participaram os melhores «volantes» angolanos, foi ganho pelo moçamedense Henrique Aharens de Novaes, em 2º o corredor Corte Real e em 3º Silveira Machado.

O primeiro «Rallye» foi concretizado no ano de 1958, a que se deu o nome de «Rallie do Caraculo», com organização impecável, tendo sido a directório da prova confiada a José Martins Cristão.

A representaçãoo de Moçâmedes em provas de velocidade realizadas noutras localidades de Angola, passou a estar nas mãos do corredor Henrique Ahrens de Novais, especialmente, e de António Costa e Silva (Moinhos), eventualmente, que somaram alguns alguns êxitos.

Fica aqui o registo do panorama e dos que deram impulso a este desporto de elite, cativante de uma populaçãoo animada e alegre, atenção ao derradeiro momento da presençaa portuguesa em Angola.

Exultamos todos aqueles, também anónimos, que muito trabalharam durante alguns anos, voluntariamente, na organizaçãoo e realização deste inesquecível evento, que celebrizou as «Festas do Mar».


Retirado do livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes- Angola Autor: Mário António Gomes Guedes da Silva



 Para ver outras modalidades desportivas:

Basquetebol feminino  AQUI 
AQUI 
Basquetebol feminino e hóquei em patins  AQUI 

26 agosto 2013

Caranguejos de Moçâmedes







O mar de Moçâmedes era riquíssimo em caranguejos de tamanho acima do normal, que viviam a grandes profundidades (a partir dos 400mts de profundidade, como diziam os entendidos), porém estes caranguejos mantiveram-se completamente desconhecidos da população em geral e dos pescadores em particular até à década de 60 e foram descobertos por acaso, no decurso dos trabalhos de investigação ao longo da costa de Moçâmedes do navio de estudo do Instituto de Indústria de Pesca de Angola. A partir daí, alguns pescadores de Moçâmedes passaram a dedicar-se à apanha destes caranguejos através de enormes gaiolas (com cerca de 1m 2), com isco dentro, deixadas no fundo do mar, fazendo dessa actividade o seu modo de vida. Ainda recordo os caranguejos vendidos já cozidos e congelados em grandes arcas por António Camarinha, numa casa alí perto da sede do Ginásio Clube da Torre do Tombo.

Mas havia outro tipo de caranguejos que atraiam os apanhadores da espécie. Eram  exemplares da bem mais pequenos,  não do mar mas das Hortas.  A respeito desta espécie de caranguejos, e não só, transcrevo um texto de Arménio Jardim:



 CARANGUEJOS DE MOÇÂMEDES



No tempo do antigamente, as praias de Moçâmedes, desde a Praia do Mexilhão, junto à Ponta do Pau do Sul, até à foz do rio Bero, fervilhavam de vida. Tartarugas minúsculas e grandes cadelinhas eram apanhadas junto à rebentação, umas para brincar, outras para comer. Garajaus e gaivinas também por lá andavam à caça dos pequenos peixes que de quando em quando davam à costa, perseguidos pelo peixe graúdo.

E havia também caranguejos de várias espécies. Desde logo, aqueles caranguejos de cor de areia, que íam e vinham com a rebentação na baixa mar e andavam, coitados, em constante luta contra os garajaus, que o bicho homem não os comia. Havia também os caranguejos avermelhados, que habitavam nas zonas rochosas da Praia do Mexilhão e também ali mesmo à mão de semear, na curva da Fortaleza de S. Fernando. Estas rochas à beira mar plantadas eram um autêntico viveiro de frutos do mar: mexilhões, burriés, búzios, lapas… e também aqueles saborosos caranguejos vermelhos, que miúdos e adultos davam caça na baixa mar. 

Mas o processo histórico tem destas coisas; e certo dia, o presidente da Câmara acordou com uma ideia luminosa que girava à volta de preocupações ambientais, coisa que naquela época ninguém sabia ao certo o que era. E de pronto resolveu aproveitar o primitivo quiosque do Faustino, obra prima feita de ferro forjado, transformando-o num estiloso "cagatório público". E foi colocá-lo mesmo na curva da Fortaleza de S. Fernando, sobre as ditas rochas e com a porta sem porta virada para o azul do mar. Era assim criada, dizia o clarividente presidente, uma ambiência propícia à meditação profunda para todos aqueles moçamedenses com veia poética, que naquele tempo eram muitos e talentosos.

O resultado final foi, contudo, um autêntico desastre ecológico, pois a partir daí os mexilhões cavaram todos para a Praia do Mexilhão, as lapas e os búzios começaram a mudar de cor, e os caranguejos encarnados engordaram de tal modo que até os garajaus, desconfiados, nunca mais lhes deram caça.

Os cabeças de pungo, como já eram conhecidos os moçamedenses, voltaram-se, então, para os caranguejos da lagoa do rio Bero. Nas épocas das enxurradas, estes caranguejos migravam para as bananeiras e plantações de cará das hortas do Saiago, do Surdo e do Vaz Pereira, que existiam nesse tempo na margem direita. 

E era à noite que iam apanhar esses caranguejos, conhecidos por caranguejos das hortas e mais tarde crismados de caranguejos do Mamedes.

Munidos de sacos de serapilheira, lanternas, mais as tenazes da bigorna do ferreiro Joaquim Fechaduras, lá iam todos dar caça aos desgraçados dos caranguejos. Depois, era só pedir emprestados os panelões à D. Teresa, da Pensão do Leão, que ficava antigamente no gaveto mesmo defronte da casa do lendário caçador Teodósio Cabral; e com eles cozinhar no quintal os saborosos caranguejos, ao natural e com meia dúzia de gindungos.

Com o rolar do tempo, o bar do Mamedes, com os seus já famosos caranguejos das hortas, viria mesmo a tornar-se num ícone de Moçâmedes até aos idos de Abril. Mas, depois, com a tragédia da guerra, foi uma debandada geral e até os caranguejos desapareceram para parte incerta sem darem cavaco a ninguém.

Restaram, por fim, apenas aqueles que ficaram conhecidos a nível mundial como os “caranguejos de Moçâmedes”, descobertos tardiamente e por acaso, pelo navio de estudos biológicos marítimos do Instituto das Pesca de Angola, caranguejos que, pescados a grande profundidade através de gaiolas, passaram a ser nova fonte de rendimento para os pequenos pescadores. Que o diga a D. Rosa, da Torre do Tombo, que os vendia já cozidos a preço da uva mijona.

No entanto, o bicho homem continua a ser um predador implacável, para o qual não há padre Galhano que o valha. E mais tarde ou mais cedo também os caranguejos de Moçâmedes passarão à história, tal como o primitivo quiosque do Faustino foi transformado em cagatório público e desaparecido na voragem da construção da marginal, que tudo levou a eito sem dó nem piedade: rochas, inscrições, furnas, estaleiros, pontes, pescarias e História…

Pois, ao fim e ao cabo, o homem é a própria guerra, que “quanto mais come e consome tanto menos se farta” - padre António Vieira dixit. 



27 fevereiro 2013

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes, Namibe, Angola



Foto: Reprodução de uma fotografia oferecida pelo fotografado a Acácio de Oliveira. Lêem-se, registadas, no reverso, as notas bibliográficas que se seguem: «Meu muito amigo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da colónia que primeiro veio para Mossãmedes, de cuja povoação foi o núcleo em 1849. Homem, para todos os que conheciam as suas qualidades, muito estimado, - pugnador incansável dos benefícios dos pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a sí próprio». (a) Acácio de Oliveira. 

Para ficarmos com uma ideia do perfil do fundador de Moçâmedes, actual Namibe irei colocar aqui vários textos a seu respeito, escritos por vários autores:




                            BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO
Seguem vários textos evocativos da sua memória:


****

 EVOCANDO A MEMÓRIA DE BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO

                                                      O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES

Apesar de figura pouco referida e até já esquecida nos nossos agitados dias,  BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO, considerado o fundador de Moçâmedes (Namibe, Angola), foi uma figura por demasiado importante, que não pode nem deve ficar sepultado nas brumas da História.

Assim resolvemos seleccionar alguns textos, que no seu todo poderão transmitir-nos uma imagem o mais possível real daquele que foi o grande timoneiro do início da colonização do Distrito de Moçâmedes:


"...Recordai, hoje e sempre, com admiração, o homem, o herói e o mártir que fundou Moçâmedes

Terá Moçâmedes esquecido o seu fundador?
Responde-se: de todo, não!
Mas talvez não lhe tenha dado ainda o preito de justiça, de amor, de gratidão à altura dos seus méritos.

Em 1960, o Sr Dr. António Abrantes Tavares visitou a cidade de Moçâmedes. Regressando à Metrópole escreveu uma carta ao Sr. Dr. Vasco de Campos relatando o que nessa cidade lhe fora dado observar. Transcrevemos a carta:


"Moçâmedes é uma cidadezinha fresca, limpa e agradável, com um hotel muito bom e bem arejado. A baía não é grande, mas é bonita. Tem uma bela avenida, quase marginal, e bons prédios. Estive na Câmara, um belo edifíc antigo, onde os bárbaros já se meteram a fazer asneiras. Cavaquei longo tempo com o Secretário, homem já cheio de anos, e lhe disse que iria à Fazenda dos Cavaleitros.  Soube por ele que vivia na cidade um parente do Patriarca de Moçâmedes e, portanto, seu parente também, e foi comigo procurá-lo para mo apresentar. É um senhor já de setenta e muitos anos, bem conservado e dono de uma cerâmica. Suponho que tem meios de fortuna. Chama-se José de Pina Martins Abreu e Castro, e disse ter nascido na Quinta da Pelada, e ser sobrinho do Dr. João Martins. Conhece ai os nossos sítios e lá esteve a recordá-los comigo. Dei-lhe conta da parentela que por ai tinha, e despedimo-nos depois de bem cavaquear.

O secretário da Câmara mostrou-me um mapa em tela, mandado elaborar pelo velho governador local, onde estão assinaladas as terras das margens do rio Bero distribuidas aos colonos. Lá está marcada a grande Fazenda dos Cavaleiros. Prometeu-me uma cópia daquele documento, indispensável para a história da colonização de Moçâmedes. Se o receber farei o possivel para lhe mandar também uma cópia. Finalmente meti-me num táxi, e lá fui para a Fazenda. Atravessei as chamadas "Hortas de Moçâmedes", onde vi belos olivais, vinha, batatais, feijoais, tomatais e demais primores, conjuntamente com bananeiras e citrinos em bordadura. A Fazenda do seu tio-avô fica a mais de três quilómetros de distância, e por caminho em parte bastante mau. Levava a ideia de fotografar a velha amoreira, se existisse, e bem contente fiquei quando apareceram uma vultuosas figueiras indígenas que de longe me pareceram amoreiras. Cheguei bem carregado de pó, pois a parte da Fazenda que vi é agora um areal estéril.






Num alto dominando toda a extensão do dominio rural, erguem-se as ruinas de uma velha casa, que supunha ter sido a casa do fundador. Perto do local há umas cubatas de pretos, e um velho deu-me uma correcta informação dos donos da Fazenda. Foi de um branco - disse. Depois foi da Companhia - a Companhia do Sul de Angola - e depois do Venância - Venâncio Guimarães, e agora é de um fulano de quem disse o nome, mas eu não o retive. Segundo o preto, as ruinas eram da casa do branco. Da amoreira, o preto não soube dar fé.

No salão nobre da Câmara, no lugar de honra, lá está o retrato a óleo do velho Bernardino, rodeado de outros notáveis, Gostei de ver, e ergui uma breve prece por aquele que foi, sem dúvida, um corajoso pioneiro e homem de acção.

Aqui tem uma breve reportagem, e lamento não ter tido tempo para cavaquear com os velhos, para ver o que haveria ainda na tradição oral. Digo-lhe porém que a lembrança do velho Bernardino vive, como um protector da cidade, na lembrança de toda a gente, incluindo a rapaziada desportiva. Quando disputam futebol com Sá da Bandeira, invocam Bernardino, e quando começam a falar nele, nada lhes resiste. Ainha há pouco tempo estavam a perder um jogo e começavam da assistência a animar os jogadores: "Ber-nar-dino! Ber-nar-dino!" Pois acabaram ganhando, e atribuiram ao incitamento e apoio espiritual de Bernardino!

Veja pois, como está viva a memória do grande pioneiro!".
                                                                                   
Tudo isto é muito, mas não basta. É preciso erguer no coração de Moçâmedes um grande monumento ao fundador! É preciso erguer no coração de Nogueira do Cravo, um grande monumento ao maior filho daquela ridente povoação!

Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969.






Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, português, é considerado pelos historiadores portugueses como o fundador da cidade do Namibe, no sul da República de Angola, a antiga cidade de Moçâmedes da época colonial portuguesa, fundada em meados do sec. XIX por colonos portugueses, quando o areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía do soba Mossungo.

Exilado em Pernambuco, do então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da 1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles, radicados em Pernambuco, de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166, entre homens, mulheres e crianças) com rota ao novo porto de Moçâmedes e com chegada àquele porto no dia 4 de Agosto desse ano.

As políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da costa fora mandada pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da "Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do sec XVIII.

A chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe, revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão, fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da Huíla, com a introdução de novos colonos.

Uma biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política, à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas lutas.

AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA

Nasceu em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Esteve matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829, e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família a se alistar no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fez a guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) foi dura e sangrenta e originou muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de 1834 -tinha 25 anos de idade- assinava-se a convenção de Évora Monte, de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos são dissolvidos e partiu para o exílio no dia 1 de Junho desse ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade. Em Lisboa faz-se jornalista e colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo ainda os princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve, chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.

Mas, o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada por ele em Pernambuco não teria existido. A fundação de Moçâmedes não seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO... BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias se terem oposto à sua demolição.

Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil. Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife. As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."

Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais e nas casas, a ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.

Bernardino decide embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África. Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto. Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pede auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

Era funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do Negro". A seu ver, era o local mais indicado para fixação europeia. O relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em Pernambuco, no Brasil.

É dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres) para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos. Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno para construção de uma habitação e formar maior ou menor estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses, farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..


                                                     O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES


A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.

Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de o Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas, em tranquilidade, em paz, e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.

Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.

No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas. Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros. No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam, em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim". O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.

Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província. Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes,  de Luz Soriano , e de Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura. Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa foi uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.

Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: somente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, implantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória.

A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.

Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.   Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
Texto publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com




Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação  efectiva” de António Augusto Martins Cristão:



«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:

«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.


Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».
In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.



 POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE

".....Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada verdadeiramente a justiça que lhe é devida.

Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma pneumonia dupla.

Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros. Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.

Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.

Sabe-se que Bernardino distribuia generosamente os seus bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuia-os com a mão esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.

A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto ou mais do que quando possuia o Brasil, se soubesse aproveitar-se da utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."

Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em 1891, exactamente a 2 de  Junho de 1891, era concedida à cidade de Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açucar, postos em aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;  sobre o escudo a corôa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.

O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açucar e no arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.

Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sécimo aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl, três, no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três;  no Carunjamba, uma; no Curoca, três; na Huila, sete; e, ainda a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Molondo, persorrenso o Sul de Angola em todas as direcções, com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além Cunene, aonde iam buscar o marfim.

Pela Alfândega de moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte  e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."

E termina o articulista:

"Que queriam que fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus." 

Obra sem par, a obra de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola -- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o único triunfo sério e respeitável em tal matéria". 

Com razão nos orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos oa tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a morte".

 

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In: Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 = Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné

   

 PERNAMBUCO E ANGOLA


...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.

A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferirpara a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e ummensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849.

Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização.
 


Origem:  MELLO, José Antonio Gonçalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956




                                           AINDA DA COLECÇÃO  ALBERTO LAMEGO
                                                                               
(excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colônia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »
                                                                                                          
                                 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

 
«Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.

O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levandoem sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro 1809 - 1871



Nasceu em Nogueira do Cravo, pensa-se que na Rua do Saco, filho de Alexandre Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento. Manteve sempre o seu estado civil de Solteiro nunca tendo casado. Estivera matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fizera a guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) fora dura e sangrenta e originara muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de 1834-tinha 25 anos de idade assinava-se a convenção de Évora Monte, de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiria para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os princípios do absolutismo. Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil. Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife.

As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."
Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África. Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto. Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultaneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos iam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES. Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.

No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros. No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura. Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado.

Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino. Uma vida de luta, sacrifício e dor na procura dos ideais que tanto ansiava, onde certamente nem sempre foi valorizado devidamente nem na vida nem na morte. Passados quase duzentos anos do seu nascimento, são muitos os que na sua terra natal desconhecem a história de tão nobre homem, no entanto já anteriormente muita gente quis honrar seu nome. Exemplo disso mesmo, é o “Jornal O Catre”, um jornal da década de 80, que era dirigido pelo Grupo de Jovens Unidos a Cristo, que já em Novembro de 1985 publicava a história de Bernardino pedindo que se fizesse justiça ao nome de tão grande figura. Em Fevereiro de 1987, o mesmo Jornal pedia que se atribuísse a uma Rua Nogueirense, o nome deste, e em Maio de 1988, lembrou a Autarquia que o seu pedido ainda não tinha merecido a melhor atenção, tendo vindo mesmo a ser feita a vontade dos Jovens e a devida homenagem a este grande homem.

Está também planeado, para a data em que se assinalam os 200 anos do nascimento de Bernardino, o erguer de um busto do mesmo na terra que o viu nascer. Iniciativa louvavél em que certamente será necessária a colaboração de todos para que se consiga alcançar esse objectivo. Que esta pequena e abreviada biografia sirva, para além de dar a conhecer a história de vida de tão grandiosa figura, para mover a população Nogueirense e não só, a colaborar e a divulgar tão nobre e justa causa.

RF/CM
Origemhttp://olharnogueiradocravo.blogspot.com/2007_10_01_archive.html 
                                   
                                                            

       
 O Chefe da Primeira Colonia
           ( «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres)
                                                  


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro foi o ilustre chefe dessa plêiade ousada de portugueses, que, vinda há um século do Brasil, iniciou, no sul de Angola, a obra de civilização que admiramos.
Temos sobre a nossa mesa de trabalho um dos seus melhores repretos. Observando-o atentamente, recordamo-nos do que ouvimos a alguns dos seus contemporâneos, e, sobretudo, apreciando os seus escritos, e estudando os livros e documentos que se lhe referem, vamos diligenciar representá-lo em breves linhas.
Tinha o rosto oval, de tez acentuadamente morena. Iluminavam-no olhos pequenos, mas vivos com expressões de mansidão, reflectindo a um tempo, sentimentos de energia e de bondade. O cabelo era fino, corredio, azevichado. A fronte, espaçosa. O nariz, grosso. Trazia rapado o bigode , e usava barba de colar, que a fotografia nos apresenta branca, correndo, muito curta, em estreita faixa, de orelha a orelha, sob o mento. A fisionomia, simpática; as maneiras, insinuantes. A sua presença agradava.
No prestigioso chefe da primeira colónia foram surpreendentes a tenacidade com que organizou o grupo de colonos de 49 e a presteza que desenvolveu, junto do Governo Central e do seu alto representante da Colónia, para o bom êxito do empreendimento. Obstáculos, contratempos, oposições, que grandemente lhe dificultaram a acção, tudo venceram a sua infatigável obstinação e a dua férrea vontade.
Bernardino de Figueiredo nasceu em Nogueira do Cravo, povoação do concelho e comarda de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, província da Beira Alta.
Em face da cópia paleográfica que consultámos, do seu assento de baptismo, extraído do Livro de baptizados da freguesia de Nogueira do Cravo de 1806 a 1830, tivemos conhecimento de que fora baptizado «em os quatorze dias do mês de Dezembro de mil houto centos e nove». (sic)
Nãi se encontra neste assento, lavrado, a fls. 18, daquele livro, existente no Arquivo e Museu de Arte da Universiadde de Coimbra, a data do seu nascimento. Mas podemos conjecturar, com grandes visos de exactidão, ter nascido no ano em que foi baptizado. . Não é costume ser a data dos baptizados muito distanciada da dos nascimentos. Assim , tendo sido baptizado em 14 de Dezembro de 1809, último mês do ano, deveria ter nascido nesse mês, ou em qualquer dos outros desse ano. Parece-nos, pois, que, se não acertámos, não estaremos muito longe da verdade, declarando haver nascido em 1809.
Guidos por este documento e pela árvore genealógica da família Abranches, cujo exame nos foi obsequisosamente facultado, em dua casa, de Galizes, povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, pelo Sr. Dr. Vaz Pato, inteiramo-nos de que foram seus pais Alexandre Campos de Abreu Vasconcelos e D. Rita de Figueiredo; seus avós paternos, Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos, e seus avós maternos, Francisco Abranches Freire de Figueiredo e D. Josefa Maria de Abreu e Castro, da Casa da Torre, hoje pertencente ao nosso amável informador.
Lemos no dicionário histórico Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues (Lisboa, 1906), «que era estudante de Coimbra, quando, levado pelos princípios e sentimentos de sua familia, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província». Da árvore acima citada, consta também que fora tenente de caçadores do exército de D. Miguel.
Após a Convenção de Évora Minte, que, em 1834, pôs termo à guerra civil, e extintos todos os bandos de partidários, despersos pelo País, veio para Lisboa, onde se conservou, durante três anos, desde 1837 até 1839, colaborando na redacção do Portugal Velho, órgão do absolutismo.
Em 1839, partiu para Pernambuco: alí se dedicou ao exercício do magistério. E, ao mesmo tempo que desempenhava funções professorais, escrevia livros. São dele algumas obras didacticas e um romance.
Fez parte do corpo docente do Colégio Pernambucano, onde leccionou latim, história e geografia.
Manuseámos um primeiro volume dum compêndio seu, intitulado História Geral, dividido em seis volumes, que se denominam: o primeiro, História Sagrada do Antigo Testamento; o segundo, História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias; o terceiro, História Antiga e Grega; o quarto, Hostória Romana e da Idade Média; o quinto, História Moderna; o sexto, História de Portugal e do Brasil.
O primeiro volume que tivemos entre mãos, História Sagrada do Antigo Testamento, é dedicado ao director do Colégio Pernambucano, José Soares de Azevedo. Escreveu-o sob o seguinte tema, consignado na obra: A verdade da Religião, sua antiguidade e santidade, até se demonstram de alguma sorte por sua própria grandeza (P. de Pascal). Nele se declara a empresa e o ano em que foi impresso: Tipografia de Santos & Companhia, Pernambuco, 1841. E nele ainda se lê o anúncio que se segue: «está a entrar no prelo: Resumida notídia da História da Língua e Literatura Portuguesa, do mesmo autor.
Também nos foi dado compulsar uma outra obra de Bernardino de Figueiredo, Nossa Senhora de Guararapes, romance histórico, descritivo, moral e crítico, epígrafe a que estão sobpostos os seguintes dizeres: «Não vos conto alheias cousas».
Guararapes é a denominação dos montes que se erguem nas imediações de Pernambuco, onde os portugueses, sob o comando de Francisco Barreto de Meneses, alcançaram, em 1648 e 1649, duas memoráveis batalhas contra os Holandeses, a última das quais foi extraordinariamente sangrenta, mas gloriosa e decisiva.
Como as forças portuguesas eram muito reduzidas em confronto com as numerosas tropas holandesas, foi a vitória atribuida convictamente a milagre.
O romance de Bernardino de Figueiredo faz alusão ao facto.
Sobre o acontecimento, é interessante recordar, a propósito, a existência do quadro a óleo «A batalha de Guararapes» do distinto pintor brasileiro Vitor Meireles de Lima, falecido em 1902, autor de inúmeros trabalhos pictóricos, como «Descobrimento e Primeira Missa do Brasil», «Combate de Riachelo», «Panorama da Baía e cidade do Rio de Janeiro», «Flagelação de Cristo» etc. ..
O romance de Bernardino de Figueiredo foi impresso em Pernambuco, na Tipografia de M.F. de Faria, em 1847.

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 Instruções do Visconde de Castro ao recentemente nomeado 1º Governador de Moçâmedes, António Sérgio de Sousa, sobre os preparativos a realizar para o a recepção dos 1ºs colonos idos de Pernambuco. 20 de Abril de 1849.