30 janeiro 2013

A saga dos algarvios em Moçâmedes


 Os meus avós, Maria da Conceição Frota Martins e Thomás de Sousa (Guedelha de alcunha), com a minha mãe ainda bébé, Olga da Conceição nascida em 12 de Junho de 1912


 

Foto tirada precisamente pelo mesmo fotógrafo e no mesmo local, em Moçâmedes, em 27 de Outubro de 1912, no dia do baptizado das filhas de ambos os casais. Trata-se do casal Júlio Gonçalves Moura de Andrade e Isaura da Encarnação Almeida d'Andrade.   Isaura era filha de Maria de Jesus Frota e de António dos Santos Almeida.  Maria de Jesus, sua mãe, era a irmã bastante mais velha da minha avó materna, Maria da Conceição, ambas filhas de Ana da Piedade Frota e de José Martins (Gaivota).  António dos Santos Almeida era, por seu lado, irmão do meu  avô paterno, João Nunes de Almeida, e ambos filhos  Fernando dos Santos Almeida e Maria da Piedade.

 Era assim naquele tempo. Em meios pequenos como Olhão, tal como em Moçâmedes, praticava-se um tipo de homogamia, ou seja, por não haver mobilidade, os casamentos eram efectuados entre emigrados de idênticas origens e níveis culturais, e muitas vezes entre primos e primas,  até que a cidade cresceu, passou a ser habitada por  novas gentes de proveniências mais diversificadas,  com o aumento do fluxo de pessoas vindas de fora e idas para fora. 




 
Os meus avós e nas  fotos a seguir alguns do seus filhos e filhas
         
  Esta a minha avó Maria da Conceição. Eu herdei o alfinete que ela tem no peito.

 Esta é a minha mãe, Olga da Conceição de Sousa Almeida. Tinha 45 anos de idade
 Olga da Conceição de Sousa Almeida aos 50 anos de idade
 Esta é a tia Lidia Rosa de Sousa Alcario no ano em casou com o alentejano
 (Moura) Rodrigo Baião Alcario. O menino é o meu irmão Amilcar de Sousa Almeida. 1940


 

 Esta a minha avó Maria da Conceição já envelhecida, mas sempre simpática e bonita,e uma das suas filhas do 2º casamento com Manuel Paulo, a Maria do Carmo (Carminha)

O Eugénio Paulo (Lilica), a Maria do Carmo (Carminha) e a Hélia, meus tios, filhos da avõ Conceição e do 2º marido, Manuel Paulo.
Despedida  do meu irmão Amilcar, Que ia de viagem no paquete Império a caminho na Metrópole, onde ia prosseguir os estudos Na foto, Olga Sousa Almeida, minha mãe, a avó Maria da Conceição, eu e o meu pai Virgilio Almeida.







A ter em conta estórias que me contaram, foi num barco idêntico a este que os primeiros  elementos ligados à minha familia partiram para Angola, um caique, ou até mesmo num palhabote. A avó Conceição partiu para Angola em finais do século XIX, com destino a Moçâmedes, para a companhia da irmã Maria de Jesus Frota Martins Almeida, quando ficou orfã da mãe de ambas, Ana da Piedade Frota e de José Martins (Gaivota).Teria uns 10 anos de idade. Já foi de vapôr.

Os primeiros familiares a partirem de Olhão para Moçâmedes, foi por volta de 1892, um ano após o Ultimato Inglês, foram  a Maria de Jesus Frota Martins e António Santos Almeida.

A minha avó materna, Maria da Conceição viajou para Moçâmedes na companhia de um Sr. que tratavam por "ti Silva", e nos primeiros tempos após a sua chegada, em finais do século XIX, ficou a viver com esta sua irmã, mas por incompatibilidades tão cedo cansou-se e mudou-se para a Praia Amélia onde viviam seus primos Manuel e Carolina dos Santos Frota, que se  tinham transferido da Baía dos Tigres para ali.  

Segundo informação de um familiar, os primos Frota tinham viajado no palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, que em 1887 conduzira para Moçâmedes mais uma leva de algarvios, e com esta a primeira armação à valenciana que se montou naquelas paragens e de que foi primeiro mandador o olhanense Manuel Frota. Acredita-se que Maria de Jesus Frota Martins, seu marido António dos Santos Almeida e duas filhas, Leontina e Isaura tivessem viajado para Moçâmedes, na mesma altura, e no mesmo palhabote.

Nessa altura já eram bastantes os algarvios, (3) sobretudo olhanenses, fixados no distrito de Moçâmedes, e quem ali chegava encontrava muitas dessas famílias com as quais mais tarde iriam ficar ligados por laços de casamento.


Maria de Jesus Frota Martins Almeida, irmã bastante mais velha da minha avó Maria Conceição, bem como o António dos Santos Almeida  seu marido, eram maturais de Olhão. Viajou grávida de quase sete meses, do 3º filho do casal. Contam familiares que até atingirem o Equador, a viagem foi serena, com ventos predominantes de sul a favorecerem a navegação à vela, com costa à vista. Na parte final do percurso a situação piorou consideravelmente, sendo forçados a fazer muitas paragens, tendo a viagem que normalmente seria feita em cerca de 30 dias, durado mais de dois meses. A partir do Cabo de Santa Maria foram surpreendidos por um temporal, frio intenso e nevoeiro cerrado, tendo os ventos predominantes de sudoeste soprado violentamente e destruído o velame, acabando por se perderem.  O recurso foi a constituição de um velame com lençóis e roupas das mulheres e, quando a tempestade amainou, dias depois, tinham passado pela baía de Moçâmedes, porto de destino, e estavam com terras de Porto Alexandre à vista.  


Foi então que Maria de Jesus não suportando mais as dores do parto, mesmo ali, ajudada pelas suas companheiras de aventura, encoberta por esfarrapadas velas que a resguardavam dos olhares masculinos, com a ajuda de Deus e das suas companheiras de aventura, deu à luz, no dia 06 de Janeiro de 1895, o seu filho José, de seu nome completo, José dos Reis Almeida, em memória ao "Dia dos Reis". A seguir a José, e já em Porto Alexandre, Maria de Jesus Frota e António dos Santos Almeida tiveram mais cinco filhos, todos varões, para além de Isaura e Leontina que os acompanharam na viagem para Africa. São deste ramo também os filhos de Leontina e de Manuel Viegas Seixal: Isolina, Umbelina, Odete, Cesaltina, Eugenio, Edmundo, Toneca,  Rosária. 


José dos Reis Almeida, aos 22 anos de idade no dia do casamento com Maria do Rosário Lopes


De acordo com o autor  do  caderno «O Lado Escuro da Lua»,  Mário Augusto da Silva Lopes



«...A chegada deste filho de olhanenses a Porto Alexandre, merece uma referência especial, pela coragem e estoicismo demonstrados por aquela brava gente algarvia. A viagem desta nova «leva» de olhanenses num caíque, que por sua vez integrava um comboio de alguns outros barcos com o mesmo destino, no final de 1894, surpreendeu Maria de Jesus Frota, grávida de quase sete meses. Até atingirem e ultrapassarem o Equador, foi uma viagem serena, com os ventos predominantes de sul a favorecerem a navegação à vela, com costa à vista. Na parte final do percurso a situação piorou consideravelmente, tendo sido forçados a fazerem muitas paragens, e a viagem que normalmente duraria pouco mais de trinta dias, durou mais de dois meses.  O final da viagem ainda foi mais acidentado.

 A partir do Cabo de Santa Maria, foram fustigados por temporal invulgar nesta época do ano, com frio intenso, nevoeiro cerrado e ventos predominantes de Sudoeste que, soprando violentamente, destruiram o velame e fizeram com que se perdessem. Tiveram que improvisar velas com pedaços de lonas e roupas de mulheres, e, quando a tempestade amainou, alguns dias depois, tinham passado pela baía de Mossãmedes, porto de destino, estando com terra de Porto Alexandre à vista. Então D. Maria de Jesus não suportou mais as as dores de parto que vinha contendo há algum tempo. Apartaram os homens das mulheres, porque nestas emergências aqueles «ajudam» muito a atrapalhar, improvisaram um separador com as lonas esfarrapadas das velas desfeitas, para recato da parturiente e, mulher valente, com a ajuda de Deus e de outras mulheres, deu ao mundo o seu primeiro filho varão, José (que viria a ser avô materno da minha mulher, Ildete), que nasceu a seguir à Leontina e Isaura, ambas crianças de tenra idade, naturais de Olhão e viajantes no mesmo barco.
Estava-se a 6 de Janeiro do ano da graça de 1895 e, em homenagem aos Reis Magos, foi dado à criança o nome de José dos Reis Almeida, filho de António dos Santos Almeida e de sua mulher, Maria de Jesus Frota, ambos nados e criados em Olhão, que tentaram, à semelhança de outros conterrâneos que os tinham precedido, a sua sorte naquelas inóspidas, deséricas e longínquas terras angolanas. A seguir ao José, e já em Mossâmedes, destino primeiro da viagem, e onde o casal se fixou, D. Maria de Jesus teve mais cinco filhos varões.»

FIM DE CITAÇÃO


Se de início foi Porto Alexandre o destino destes familiares,  mais tarde fixaram-se em Moçâmedes e passaram a morar numa casa do bairro da Torre do Tombo, onde se encontravam outros olhanenses aos quais mais tarde se iriam unir por laços de família.
 

No mesmo caderno de Mário da Silva Lopes, intitulado "O outro lado da Lua", vem a seguinte descrição:

...No livro de registos de correspondência recebida, 1892-1896, da Alfândega de Moçâmedes, vem citado o nome de Domingos da Costa Russo, mestre o caíque Santa Rita que despachara em 05 de Fevereiro de 1892 para Lândana, uma carregação de 805 amarrados de peixe. Dedicava-se pois ao transporte de cabotagem para os portos do norte de Angola, Congo e Gabão. O mesmo livro faz referência à familia de Tomás Caetano Lopes Russo, nascido em 1830, filho de João Lopes Guedelha e de Ana Russo, já com 64 anos de idade, mestre do caíque Restaurador, que viria a falecer aos 78 anos de idade, em 1908 quando já era viúvo de Maria do Carmo Gonçalves Lopes. Deixou dois filhos, Tomás Caetano Lopes e Maria do Carmo que acabou celibatária. Tomás, nascido em Olhão em 1861, era mestre de costa, e teria ido para Moçâmedes para fugir ao serviço militar. Ao que consta chegou a ser dono e comandante de um palhote que cabotava entre os portos de Angola e do Congo, e acabou enfeitiçado por uma negra de nome Raquel, filha de um soba do interior de Benguela, que passou a acompanhá-lo nas suas viagens como se de esposa se tratasse.  Maria do Carmo teve pior sorte e acabou celibatária por opção e voto.  Seu noivo, um amigo de infância do irmão, que o acompanhava nas referidas viagens, perdera-se também ele de amores por outra beldade da mesma tribo já prometida  a um indígena que acabou por o matar. Da ligação entre Tomás Caetano Lopes e Raquel nasceram Maria do Rosário Lopes, Tomáz Lopes,  Maria do Carmo Lopes e Maria Eugénia Lopes, ao todo quatro filhos que, conforme iam nascendo, eram deixados com a celibatária Maria do Carmo para serem por esta educados. Viviam em casa dos compadres Manuel Viegas Seixal e Leontina,  na casa da Torre do Tombo.

Este registo é metido aqui porque Maria do Rosário Lopes, nascida em 1899, acabaria por casar, em 1917, com José Caetano de Almeida, o filho de Maria de Jesus e  de António dos Santos Almeida, nascido no palhabote, à entrada de Porto Alexandre.

Tomás Caetano Lopes, o pai de Maria do Rosário, como homem dedicado à navegação de cabotagem quando se demorava em Moçâmedes acolhia-se no bairro da Torre do Tombo, em casa dos compadres Manuel Viegas Seixal e Leontina, onde vivia sua irmã e os seus quatro filhos. Tomás seria um homem com algum dinheiro que se exibia aperaltado, janota, vestido com roupas caras, pulseiras, correntes e anéis em ouro, relogios de pulso, etc., quando desembarcava do seu palhabote em Moçâmedes, o que naturalmente fazia a inveja de muitos.

No mesmo caderno pode-se ler também que Tomás Caetano Lopes depois de dar dinheiro ao chefe da casa, o compadre Seixal, para sustento dos seus que em sua casa viviam, desapercebidamente levava o cofre para o fundo do quintal, cofre que os íntimos julgavam conter joias, dinheiro, e outros objectos valiosos conseguidos na sua longa vida de trabalho de marinhagem que lhe possibilitou pagar um educação esmerada para a época num colégio de freiras às três filhas, verdadeiro luxo naquele tempo. E a tal ponto que a mãe, Raquel, quando as  visitava, tratava-as por "meninas".  Uma noite, por volta dos anos 1920, Tomás foi atacado por uma perniciosa, e após ter chegado Moçâmedes febril arrastou-se até ao fundo do quintal da casa do compadre carregando o cofre, voltado de mãos vazias. O mal que o atacara deixou-o entrevado e sem fala, até que a morte o levou. Ainda tentou balbuciar algumas palavras sem o conseguir, para desespero seu e da familia que lhe assistia ao último alento. Escavações foram feitas em busca do "tesouro" que nunca foi encontrado, tendo a partir de então nascido o mito de maldição lançada sobre o Tomás da Russa, ao ponto de D. Leontina ter acabado por abandonar aquela casa onde antes e depois morreram tuberculosos dois dos seus filhos homens.   Esta é mais uma história de vida a acrescentar a tantas outras que se desenrolaram entre portugueses e seus descendentes que um dia resolveram procurar uma vida diferente em terras de África. Deixo aqui para que não se perca este precioso relato, que poderá eventualmente interessar aos seus descendentes.

MariaNJardim
 


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