09 julho 2014

Guerra em Angola: a invasão de Moçâmedes pelos sul-africanos, em 28 de Outubro de 1975

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A invasão de Moçâmedes


28 de Outubro de 1975. Manhã cedo. Entraram em Moçâmedes pela estrada de Sá da Bandeira tropas do ELP/FNLA com o apoio de mercenários sul-africanos brancos, alguns portugueses de Angola e «mukankalas», comandados por um general australiano.  Quem assistiu, conta que a tomada de Moçâmedes foi algo de espectacular, com tanques, camions de apoio, infantaria, grande aparato bélico, progredindo pelas ruas, palmo a palmo. E que militantes e guerrilheiros do  MPLA que até então dominavam  Moçâmedes e a faixa costeira e do interior próximo, bateram em retirada, ficando apenas na cidade a resistir aos invasores, gente moça e elementos da etnia mucubal que haviam aderido ao movimento. Quem viveu esses momentos conta que houve muitas mortes, de entre as quais , por uma bala perdida, a de uma figura muito conhecida dos moçamendenses, o popular e inofensivo Mário «Chouriço». E que ao largo, na baía, submarinos estrategicamente estacionados, faziam regressar a Moçâmedes vários barcos que trasportavam familias e guerrilheiros do MPLA que se escapavam para Benguela... notícia que carece de confirmação.

A verdade é que partir de então Moçâmedes esvaziou-se praticamente da sua população branca, e não só, pois deixaram Moçâmedes, também, a maioria da população mestiça e alguns africanos em fuga.  O dia da independência de Angola aproximava-se e a insegurança exalava a morte! As poucas forças militares portuguesas que tinham por missão assegurar a paz até à independência, tinham praticamente abandonado o território, excepto algumas poucas concentradas nos quartéis em Luanda a aguardar o momento da partida. O conflito internacionalizara-se. A guerra-fria jogava-se em Angola, território riquíssimo onde até já se explorava o cobiçado petróleo. A República da África do Sul que nessa altura governava o Sudoeste Africano, temerosa do avanço do comunismo (soviético e cubano) em Angola, e na defesa da barragem de Ruacaná, havia começado no inicio de Outubro de 1975, muito em segredo, com a ajuda dos EUA, a acção militar de que resultara a "Operação Savana", que estava em marcha.  Nesta operação, além de mercenários participaram sul-africanos envergando farda portuguesa, alguns portugueses de Angola, FNLAS e UNITAS, bosquímanos e uma força zulu . Segundo este site http://petrinus.com.sapo.pt/savana.htm , “Sá da Bandeira caiu em 23-24 Outubro, outra vez muitas pilhagens foram feitas. A cidade seguinte a cair foi Moçâmedes em 27-28 Outubro. Avançaram, então para Quilengues, Chongoroi, Benguela, Novo Redondo em direcção ao cerco de Luanda a fim de impedir a 11 de Novembro a tomada do poder pel MPLA. O alvo seguinte seria também atingir Porto Amboim mas este ficou fora de alcance porque, entretanto, as pontes explodidas sobre o rio Queve o impediram."

A 11 de Novembro era o MPLA que controlava Luanda, e  em África, quem controla a capital detém o poder.  Os EUA hoje aceitam terem errado na escolha que haviam feito em Angola!

Ajuda a entender o que aconteceu...http://mnoticias.8m.com/folha.htm

 https://books.google.pt/books?id=xJZkoEf_gh4C&printsec=frontcover&dq=borderstrike+1975-1980&hl=pt-PT&sa=X&ei=AzobVZLkPMitU5mbhLgH&ved=0CCEQ6AEwAA#v=onepage&q=borderstrike%201975-1980&f=false

08 julho 2014

A Baía dos Tigres e o dia 14 de Março de 1962

 
 
 
 

 

 Estas fotos foram tiradas alguns anos após o abandono da Baía dos Tigres pelos portugueses...





Na Baía dos Tigres, a velha "Manga das Areias" descoberta por Diogo Cão em 1485, Tigres possuía tal vastidão que era considerada a maior do mundo, Dizia.se no tempo colonial que podiam ali permanecer fundeados 6627 navios de grande tonelagem, o que talvez não suceda em outra parte do mundo. Contudo algo de trágico e de espectacular aconteceu, quando no dia 14 de Março de 1962 uma forte calema atirada de SW, com ondas de mais de dez metros de altura, bateu furiosamente na parte de fora do saco da restinga, cortou a língua de areia que a unia o continente, e destruiu naquele ponto a conduta de fibrocimento que conduzia a água através do deserto, daí resultando o corte do fornecimento de água canalizada vinda do Cunene à população. A grande baía a partir de então tornou-se uma ilha. 

O abastecimento de água a partir da foz do Cunene tinha chegado às torneiras das casas das famílias tigrenses e às instalações das suas pescarias, e finalmente a população já podia beber uma água de superior qualidade, já podia lavar a sua roupa com outras condições, tomar o seu banho mais à vontade, e mais à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!  Tinha passado o período do  regime experimental  que durara até Março de 1961,  e a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola. A água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962. Quis o cruel destino, mais uma vez, castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes  da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida.

O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara ao aumento da população.  A água deixou de correr nas torneiras, mas continuava a chegar através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Após esta calamidade, a autoridade foi levada a agir de imediato, e viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes, e distribuída à população,  seguindo as normas habituais. Desde logo se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos, enquanto os técnicos procuravam resolver o problema.  No decurso 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

O 14 de Março de 1962, na Baia dos Tigres, foi encarado por alguns como uma espécie de vingança do mar. Contam os que assistiram impotentes e aterrorizados a esta calamidade, receavam que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico, mas tudo leva a crer tratar-se de um fenómeno periódico, já que o Mapa-mundi de 1623, de António Sanches, assinala a presença ali de uma restinga, a Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, assinala uma ilha, e Pedro Alexandrino na sua visita à Baía dos Tigres, em 1839, a bordo da corveta Isabel Maria, refere ter encontrado ali uma restinga, enquanto Lopes de Lima, em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos refere de novo uma ilha. Quando em 1861, os primeiros pescadores Algarvios chegaram à Baía dos Tigres encontram de facto uma restinga fechada, mas a verdade é que desde 1962 até hoje o que ali encontramos é uma ilha.

Quando em 1975 a população de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, em vésperas da independência, ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização do conflito, a situação não se tinha alterado muito no respeitante ao fornecimento de água desde 1962.

Nem a Baía dos Tigres nem as suas gentes durante quase um século, desde 1865, suscitaram o mínimo interesse à governação, apesar de alguma preocupação em termos logísticos dada  a proximidade com  a alemã do Sudoeste Africano, pelo menos na fase espinhosa das Campanhas Militares do Sul de Angola.da demarcação da fronteira sul. Sabe-se no entanto, que a ideia de levar a água à Baía dos Tigres foi levantada em 1884, no ano da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que veio definir a "partilha de África" pelas potências europeias, com o capitão de fragata António Joaquim de Matos  a propôr que fosse averiguada essa possibilidade. Também Artur de Paiva, um dos mais eminentes oficiais da ocupação do Sul de Angola, assim havia aconselhado, em 1892.

Em 1909 a Baía dos Tigres passou a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços exorbitantes, muito além das suas possibilidades.

No ano de 1912, já com a República instaurada, o interesse na região levou a que Governador de Moçâmedes, comandante Correia da Silva (Paço de Arcos), tivesse nomeado o coronel de engenharia Carlos Roma Machado,  para se deslocar à Baía dos Tigres, o que fez por três vezes, para proceder a um estudo sobre o abastecimento de água à povoação a partir da foz rio Cunene que ficava a uns 80 quilómetros a sul, atravessando o Deserto do Namibe (Boletim das colónias 134 e 135). Para o efeito chegou a ser elaborado um ante-projecto, mas concluiu-se que o preço para a execução da obra não era compatível com as possibilidades da altura. No mesmo boletim o coronel conta-nos a tentativa de suborno de que foi alvo por parte dos alemães para que o projecto lhe fosse vendido por vinte mil escudos, uma pequena fortuna naquele tempo. O mesmo coronel de engenharia chamava atenção do Governo para as ambições dos vizinhos da Damaralândia, que criticavam o abandono em que se encontravam os pescadores dos Tigres. Tornara-se nítido o interesse e as intenções da Alemanha em relação à Baía dos Tigres. Tentou-se também um aproveitamento da água do Tochiambala, rio por infiltração a norte da Baía dos Tigres, conduzindo-se a água até à cacimba do norte, no lado continental, ficando acessivel à população. Mas a água do Tochiambala era muito pouco superior à das duas cacimbas existentes do lado continental.

Até à década de vinte, a situação não se alterou na Grande Restinga. Mas importa ainda referir, que no decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias. Na década de 1920, com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início mandou instalar nos Tigre um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma ajuda para os pescadores, e sem os pesados encargos da água que vinha de Moçâmedes. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, podia ser bebida, o que não acontecia com a péssima água  das cacimbas do lado do continente, que os europeus bebiam em último recurso, e que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação.

Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês." 
 Em 1930, foi designada uma comissão para estudar os problemas desta área cujo relatório insistia de novo na necessidade de fazer chegar a Baía dos Tigres água canalizada a partir do Cunene como uma questão humanitária. Dizia-se então que canalizar a água do Cunene era, além de um "acto de humanidade para com aqueles que na Baía dos Tigres vêm gastando a sua vida, sofrendo estoicamente os horrores da sede, etc, etc, ", e que seria importante  a valorização  daquela baía espantosamente grande que abriga nas suas águas uma fauna abundantíssima e inesgotável

Já em 1940 um relatório do governo da província da Huíla mencionava que eram simples barris os únicos reservatórios de água, recolhida directamente, através de mangueiras, dos tanques do navio que a transportava, e que nesta operação, com os balanços permanentes do mar, perdia-se muita água.  Foi apenas em 1941 que teve inicio a construção de grandes tanques com capacidade para 280 t, para guardar água potável.  Em 1948, num seu trabalho J.N. Sales Grade, Capitão do Porto de Moçâmedes,  ainda escrevia que a água doce para abastecimento da população  era transportada por navios, armazenada em tanques de ferro e cimento, e  posteriormente distribuída regularmente por ração que não ia habitualmente além de 5 litros por pessoa e por dia, passando por vezes para 2 litros Apesar da divulgação junto do governo de Angola destas considerações que traduziam uma situação extremamente grave, poucos progressos se registaram.

Quase um século havia passado desde a data em que os primeiros olhanenses ali chegaram e ali se estabeleceram, em 1865. Foi apenas na década de 1950 que um novo olhar foi lançado na direcção daquelas gentes. Iniciaram-se finalmente as obras para abastecimento de água a partir do Cunene que ficaram concluídas em 1958. Além de resolverem um problema fundamental, ligado à própria subsistência da população, proporcionaram como atrás referido, um sensível desenvolvimento industrial.

Na realidade, a Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" para aquela gente que desde 1861, em "levas" sucessivas de algarvios, na maioria olhanenses começaram a chegar ao Distrito, primeiro a Moçâmedes (1861), depois a Porto Alexandre (1862), e só mais tarde à Baía dos Tigres (1865)

Os pescadores algarvios arrastavam-se por quase um século por aquelas terras e mares sem nunca terem recebido a mínima ajuda, apesar de lhes serem cobrados impostos pelos bens que arrancavam ao mar e comerciavam. Não consta tivesse a Metrópole contribuído nos primórdios da sua fixação com algo mais que umas centenas de anzóis enviados pela Rainha D. Maria II para Moçâmedes, quando lhe constou que havia ali sido fundada, em 1843,  na fase das feitorias, uma feitoria pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães e  companheiros, que ficou  a marcar o início da pesca metropolitana na área.

 O que os olhanenses a fixarem-se naquelas paragens desérticas foi a riqueza em pescado daquelas águas frias,  e a crença de que estavam em terra portuguesa e que podiam ter esperanças num futuro melhor. A fixação dos olhanenses na Baia dos Tigres constituiu uma verdadeira odisseia, digna de um romance. A partida para as lonjuras de uma África desconhecida e misteriosa, era um adeus para sempre. No desterro que era a Baía dos Tigres, ali se mantiveram, como que esquecidos do sistema, pelo menos até às primeiras décadas do século XX.

A Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975. Em vésperas da independência a população branca viu-se obrigada a fugir ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em disputa pelo poder, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização do conflito.

Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”  logo se depara com um conjunto de edificações, que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação, qual fantasmagórico quadro surrealista. É o que resta!   Mas elas apontam para muito mais além do seu valor arquitectónico, infelizmente em estado de avançada decadência. Estas edificações são  símbolos do quanto pode a  abnegação e a resistência humana, desses dois que ali se fixaram por mais de um século, portugueses e africanos que, com inúmeros sacrifícios, e sabe Deus com quanto sofrimento e privações ajudaram a erguer este espólio.  De uma coisa estamos certos. Uma fixação como a que foi  levada a cabo pelos algarvios naquelas terras inóspidas, sem água nem o mínimo de condições dignas de vida, onde o único incentivo é o pescado, é coisa do passado! (1)  Esta é uma parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.


Ficam mais estes registos.

MariaNidiaJardim

(1) Pedras de filtro de Moçâmedes, feitas de um arenito existente na região. O conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava, tinha o nome de "sanga". (2) B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.

Texto elaborado com base em informações colhidas em:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres" Moreira, Cecilio.  
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969
- Felner. Alfredo de Albuquerque, Angola, Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral Sul de Angola, vol 1 Lx, 1940



 Para saber mais: O Drama da Água
 http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2014/08/baia-dos-tigres-entre-o-inicio-da.html



https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls

.(1)  A Baía dos Tigres foi colonizada por algarvios a partir de Porto Alexandre, quando  por volta de 1864 alguns algarvios que ali se haviam fixado tiveram conhecimento da abundância de pescado naquela zona pelos baleeiros norte-americanos  que operavam entre a Ilha de Santa Helena  e os  Tigres, e ao Curoca iam abastecer-se de água e víveres.  

Na Baía dos Tigres não havia água potável,  não havia sequer um ponto verde no horizonte, faltava o pão fresco, faltava lenha para cozinhar, só mar, areia, dunas, solidão. O  pão fresco era levado de barco a partir de Moçâmedes, bem como o leite, as verduras, e outros géneros alimentares,  necessários à vida, bem como lenha, medicamentos, agasalhos, etc etc. Serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias gélidas de inverno que entorpedia  as articulações.  Apenas existiam  no lado continental  duas cacimbas, mas a água era salobra e de péssima qualidade para a saúde humana.  De início a água potável tinha que ser transportada em barris, por barco de pesca de navegação à vela, que a iam buscar a Porto Alexandre (Curoca),  ou a Moçâmedes (Bero), e muita água se perdia durante o trajecto, quando os ventos se intensificavam e navegar se tornava impossível, situação que se revestia de um certo dramatismo quando a água e os alimentos escasseavam por completo. Restava então aos residentes em pânico entreter a fome com pedaços de peixe, e  enganar a sede chupando chumbo, ou recorrer à água das cacimbas, como último recurso. A população  era obrigada a poupar religiosamente a água que ia conseguindo, água era sinónimo de vida! E se a água que  ficava de reserva nos barris ou em outro recipiente se deteriorava, o que acontecia com frequência, era posta a "arejar" isto é, na gíria dos habitantes era posta ao ar durante umas horas, e em seguida fervida e filtrada através de uma "sanga"(2) para poder ser consumida, ou durar como reserva por mais uns tempos. Era esta a vida destes pioneiros. Partiam com o fito único a riqueza da fauna  piscicola, deixando para trás a sua terra, as suas casas, a família os amigos, o conforto, e até o apoio social de que beneficiavam, as regalias  do "Compromisso Marítimo" que na sua terra natal oferecia aos mareantes e pescadores nele inscritos, médico, botica e ajudas nas aflições. E ali chegados, ainda que  desiludidos ou arrependidos acabavam por ficar, uma vez que não podiam contar com ajudas de espécie alguma da parte do Estado para o seu regresso.