08 julho 2014

A Baía dos Tigres e o dia 14 de Março de 1962

 
 
 
 

 

 Estas fotos foram tiradas alguns anos após o abandono da Baía dos Tigres pelos portugueses





A Baía dos Tigres, a velha "Manga das Areias",  foi abandonada em 1975...



Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”,  logo se depara com um conjunto de edificações que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação, fazendo lembrar um fantasmagórico quadro surrealista...  No entanto, para além do seu valor arquitectónico, estas edificações são  símbolos do quanto pode a  abnegação e a resistência humanas.  De facto só gente disposta a muito sacrifício, muito trabalho e  a privações extremas, foi capaz de  atravessar o oceano, navegando por sua conta e risco em frágeis caiques, palhabotes e outros barcos à vela, reforçados a cobre, onde viajaram famílias inteiras, incluindo bebés e até mulheres grávidas, para se fixarem  na solidão de um areal desértico, onde apenas viam dunas e mais dunas, e mar, e onde nem um ponto verde se vislumbrava no horizonte. Na Baía dos Tigres tudo era isolamento e solidão. Faltava a água potável, faltava o pão fresco, faltava a lenha para o fogão e para o aquecimento nas noites gélidas de Inverno, faltava tudo. E como se não bastasse,  a violência das garrôas era tal, que abria frestas nas humildes habitações de madeira, por onde  as areias soltas das dunas entravam, depositando-se em todo o lado, e tornando a vida ainda mais difícil de suportar.

A chegada  à Baia dos Tigres dos primeiros olhanenses e dos que se lhes seguiram, constituiu uma verdadeira odisseia, digna de um romance. Primeiro, o portos de destino foi  Moçâmedes, depois Porto Alexandre (1861), e só mais tarde a Baía dos Tigres (1865).  Não consta tivesse a Metrópole contribuído com algo mais que umas centenas de anzóis enviados pela Rainha D. Maria II para Moçâmedes quando lhe constou que havia ali sido fundada, em 1843, numa fase anterior à chegada dos algarvios, uma feitoria pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães e  companheiros, que ficou  a marcar o início da pesca metropolitana na área.

Decerto que o desencanto daquele lugar, o clima agreste, a dificuldade em se obter o essencial para a subsistência,  o isolamento,  ter-lhes-ia provocado grandes desilusões e ansiedades.  Na Baia dos Tigres, na parte continental  encontraram duas cacimbas de água salôbra de péssima qualidade, intragável e devastadora para o estômago, fígado e rins. A água potável tinha que ser transportada por barco de pesca, em pipas, vinda do Curoca ou de Moçâmedes, ficando a água das cacimbas como último recurso. O pão fresco era também levado de Moçâmedes, bem como a mandioca, e outros géneros alimentares necessários à vida, como o leite,  as verduras.  Sequer existia lenha para cozinhar,  serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias rigorosos de inverno que lhes entorpediam as articulações.

A Baía dos Tigres  não era a "Terra Prometida" que os olhanenses julgavam encontrar.  Não era o lugar que sonharam para realizar o seu futuro! Mas mesmo desiludidos, a carência de meios era tal que os impossibilitava de voltar.  Sem ajudas de espécie alguma, os olhanenses tinham deixado para trás não apenas a sua terra, as suas casas, os seus familiares e amigos, o seu conforto, e até o apoio social de que beneficiavam, as regalias que o "Compromisso Marítimo" oferecia aos mareantes e pescadores das vilas algarvias nele inscritos:  médico,  botica e ajudas nas aflições... A sua partida para as lonjuras de uma Africa desconhecida e misteriosa, era uma despedida definitiva, um adeus para sempre à sua terra natal, à  família, aos amigos que ali ficavam. No desterro que era a Baía dos Tigres, ali se mantiveram, como que esquecidos do sistema,  pelo menos até às primeiras décadas do  século XX.

O que levou os olhanenses a fixarem-se na Baía dos Tigres foi a fauna piscícola daquele rico mar, e a crença de que estavam em terra portuguesa.  Os primeiros portugueses chegaram à Baía dos Tigres em 1861, e  mais persistentemente as viagens foram retomadas após a Conferência de Berlim (1884-85), e o Ultimato inglês (1891).(1)

Durante séculos o sudoeste de Angola foi completamente desconhecido, foi a partir de meados do século XIX que começou a surgir algum interesse pela fixação  de famílias portuguesas naquelas paragens. Sabe-se que o clima de Moçâmedes começou a ser reconhecido pela sua benignidade, em oposição à doentia e mortífera Benguela, onde campeavam doenças como a febre amarela , o paludismo, a doença do sono, e outros, em relação às quais os europeus não se encontravam imunizados e facilmente sucumbiam.  Aliás foi a amenidade do clima que atraira para Moçâmedes, a velha Angra do Negro, duas colónias de luso-brasileirosque ali se  testabeleceram dedicando-se à agricultura e ao comércio nos anos 1849 e 1850, e que em Pernambuco Brasil  estavam sofrendo perseguições e maus tratos de todo o tipo, por não aceitarem a perda da sua nacionalidade e a aquisição da nacionalidade brasileira (o Brasil tinha acedido à independência em 1822), 

Foi com a chegada dos pescadores algarvios a Moçâmedes, a partir de 1861, que se deu o grande arranque da actividade pesqueira no distrito, que entretanto já estava sendo  divulgada pela tripulação dos baleeiros americanos que pescavam entre a Ilha de Santa Helena e a costa angolana, e puderam se aperceber da riqueza piscícola daqueles mares, incluindo o mar da Baía dos Tigres.

Sabe-se que apesar de tantos constrangimentos, em 1896, quando Brito Capelo (Comissário Régio) e Roberto Ivens visitaram a Baía dos Tigres já ali havia  13 pescarias, 33 embarcações e 253 serviçais, achando-se alguns  proprietários a viver em Porto Alexandre. 

Conta-se que os olhanenses ao chegarem à Baía dos Tigres o que encontraram alí foram cães selvagens (feroses, mas  dóceis quando criados em cativeiro junto do homem e adaptados à circunstância de terem de sobreviver naquele deserto), cães de grande porte e com crista dorsal (rhodesian ridgeback Thay), que mantinham uma luta heróica pela sobrevivência.  Se a vida era dura para os humanos, não  era menos dura para os animais. Habiliosos, aprendiam a nadar e a pescar de cerco e em matilha, abocanhavam os peixes, de surpresa,  numa espera calculada, empurrando-os para terra, quando estes  se aproximavam da praia. Tinham membranas interdigitais, e bebiam água, passando de manhã cedo a língua suavemente por sobre a água salgada, retirando desse modo a fina camada de água doce que o cacimbo deixava. Cães da mesma raça que os da Baía dos Tigres também existiam na ilha de Phu Quoc (golfo do Sião, actual Vietname), no Cambodja, no sul da Tailândia, em Timor, etc. E  quanto à sua proveniência, alguns opinam terem sido levados Àfrica e Ásia por comerciantes árabes, outros, por holandeses que trabalhavam para a Companhia das Índias e viajavam em navios para o Cabo e Malaca, e ainda outros acreditam terem sido os portugueses, uma vez que as suas naus, antes partirem para o Índico, faziam a última aguada em Moçâmedes, terra dos Khois. Na realidade, muito antes dos holandeses já os portugueses demandavam o Golfo e Reino de Sião e Malaca. Outros estudos defendem serem originários da Terra Nova, Canadá. Como foram parar à Baía dos Tigres? Acredita-se  que fossem os sobreviventes de algum naufrágio, ou que fossem para alí levados por  holandeses quando conquistaram Angola, durante o domínio filipino em Portugal. Outros adiantam que esses cães existiam em Moçâmedes antes de 1865, data da chegada dos primeiros olhanenses à Baia dos Tigres, e que devido a um surto de raiva, o governador  decretara  o abatimento de todos os cães, e que algumas pessoas condoídas os fizeram desembarcar na Baia dos Tigres. Abandonados à sua sorte, os cães da Baia dos Tigres tiveram uma dura luta pela sobrevivência, reinando entre eles a lei da selva,  a lei do mais forte, dada a falta de alimentos. Entre os animais ali abandonados encontravam-se alguns cães Khois e outros com eles cruzados e que deram origem a matilhas selvagens de pelagem no dorso, raça aparentada do chamado "Leão da Rodésia".

Quanto ao toponímio "Baía dos Tigres", acredita-se ter origem na forma "tigrada" como as dunas se apresentam quando vistas do mar, devido a efeitos de luz e sombra, e não porque houvesse por lá tigres.


A religião, o lenitivo que ajudava a resistir à rudeza da vida...



Desde o dia 14 de Março de 1962, a Baia dos Tigres, a velha “Manga das Areias , a grande enseada descoberta e assim baptizada por Diogo Cão na sua terceira viagem, em 1485, deixou de ser uma restinga para se tornar numa ilha! Tudo aconteceu após uma forte calema, que, atirada de SW, bateu furiosamente a parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura e cortou a língua de areia que unia o continente à Baía dos Tigres, rompendo com as condutas.  

Algum tempo antes tinha-se construído ali um sistema de captação de águas a partir da Foz do Cunene. Na praia do lado da baía ficava o depósito de água que era reabastecido pelos  Save ou pelo 28 de Maio, a partir do Curoca ou de Moçâmedes. A água tinha que ser fervida e filtrada em sangas como prevenção.  Este acontecimento foi encarado  por alguns como uma espécie de vingança do mar. Contam os que assistiram impotentes e aterrorizados a este fenómeno  que receavam que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico, mas tudo leva a crer tratar-se de um fenómeno  periódico, já que o Mapa-mundi de 1623, de António Sanches, assinala a presença ali de uma restinga, a Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, assinala uma ilha,  e Pedro Alexandrino na sua visita à Baía dos Tigres, em 1839, a bordo da corveta Isabel Maria, refere ter encontrado alí uma restinga, enquanto Lopes de Lima, em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos refere de novo uma ilha.  Quando em 1861, os primeiros pescadores Algarvios chegaram à Baía dos Tigres encontram  de facto uma restinga fechada, mas a verdade é que desde 1962 até hoje o que ali encontramos é uma ilha.

A Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975, em vésperas da independência a população branca viu-se obrigada a fugir ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em disputa pelo poder, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização do conflito.

Termino como comecei. Hoje, quem visita este local, um dos mais desoladores da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações históricas abandonadas, alí erguidas na época colonial, autênticos monumentos históricos, alguns dos quais em forma de palafita, assentes em pilares para que as fustigantes areias das dunas movidas  pelos ventos fortes não cobrissem tudo à sua passagem.

O governo português de início renitente na ajuda aos arrojados tigrenses, acabou por se render à audácia daquela gente e por mandar erguer os tais edifícios públicos, que ajudaram a tornar a  fixação humana possível.  Eram o posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima , e ainda uma imponente e bela Capela  de S. Martinho. que mais parecia uma catedral, alinhando-se de um lado e do outro da única rua cimentada que servia também de pista de aviação.

Ficam mais estas recordações. 


MariaNJardim

(1) Segundo determinações saídas desta Conferência, Portugal tinha que proceder à ocupação efectiva dos territórios africanos que ocupava há vários séculos, e que por direito histórico entendia de sua pertença.  Na década de 1870  tinham-se estabelecido colónias boer, com seu gado e suas caravalas puxadas por manadas de bois nas terras Altas de Moçâmedes ( Humpata e Huila). Mais tarde foi a vez dos madeirenses, em 1884 e 1885, precisamente nos 2 anos em que decorreram a célebre Conferência de Berlim, que levou à "partilha de África" pelas potências europeias industrializadas. Os madeirenses que deram lugar à fundação da cidade do Lubango (Sá da Bandeira), iam contrabalançar o número de emigrantes boers de origem holandesa, que, vindos do Sudoeste Africano.

 Para saber mais: O Drama da Água
 http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2014/08/baia-dos-tigres-entre-o-inicio-da.html

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